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Liminar obriga a fiscalização de estrangeirismos em anúncios por Emanuel Souza de Quadros

Foi divulgada hoje, no site da Justiça Federal, a determinação do juiz federal substituto da 1ª Vara de Guarulhos, Antônio André Muniz Mascarenhas de Souza, de que o governo federal passe a fiscalizar o emprego da língua portuguesa na oferta e apresentação de produtos e serviços em todo o país. A ação foi proposta pelo Ministério Público Federal.

A liminar determina que expressões como "sale", "off", "summer", etc., devem ser acompanhadas de tradução, com o mesmo destaque. Apenas publicidade que não contenha nenhum tipo de oferta tem liberdade para utilizar qualquer símbolo, palavra ou gesto, "desde que sujeitando-se às regras dos artigos 36 a 38 do CDC [Código de Defesa do Consumidor], que proíbem a mensagem enganosa ou abusiva".

O governo federal deverá, de acordo com a determinação, aplicar as penalidades previstas no artigo 56 do CDC (multa, apreensão do produto, cassação do registro, etc.), além de repassar a decisão aos orgãos de proteção e defesa do consumidor, a fim de divulgar a medida aos consumidores e fornecedores em todo o território nacional. A multa diária estipulada, em caso de descumprimento da decisão, é de $5 mil à União.

Não é o fim do mundo para os fornecedores que usam línguas estrangeiras na oferta de seus produtos; passar a usar a língua portuguesa não dói nada. De qualquer forma, isso me faz pensar que o Judiciário não tem mais nada para fazer - o que não é verdade.

A preocupação da ação judicial não é com o "imperialismo lingüístico", com a invasão dos estrangeirismos, que vai corromper nossa língua e fazer com que nossas crianças passem a falar inglês (?!). A questão é bem mais séria e a preocupação mais nobre: garantir que os consumidores tenham acesso a informações importantes sobre o produto, evitando mensagens enganosas ou abusivas.

Supus que o Judiciário tivesse começado 2007 sem nada para fazer, pois embora a preocupação seja nobre, o risco não parece corresponder a ela. É o tipo de situação que se resolve sem uma determinação judicial, seguindo a própria dinâmica do mercado. Expressões inglesas são utilizadas no comércio, porque se julga que elas vendem! No momento em que se notar que os consumidores evitam comprar em lugares que anunciam seus produtos com expressões estrangeiras (se é que evitam), ninguém vai querer usá-las.

Se as pessoas não se importam com anúncios do tipo "Duetto Motel – 20% off + Refeição grátis" (primeiro exemplo que encontrei no Google), se conseguem transitar por essas expressões que, mais que estrangeiras, passam a fazer parte do léxico da publicidade, não há grande problema nesse uso dos estrangeirismos. Se as pessoas se incomodam ou se sentem ludibriadas, é papel delas, como consumidores conscientes, não comprar no lugar em questão - ou, ao menos, buscar melhores informações dentro da loja (um passo que já é necessário, mesmo quando os anúncios vêm em português); eventualmente, se for o caso, o comerciante entenderá que usar a língua portuguesa é a melhor estratégia para aquele público-alvo.

Incomoda pensar que dependemos de determinações judiciais para nos proteger de coisas das quais deveríamos nos defender sozinhos, como gente grande, não fossem elas inofensivas.


O Romanche por Tiago Martins

A Suiça, creio eu, é o país modelo do mundo. Em qualquer comparativo político-econômico a Suiça sempre é apontada como exemplo em economia, educação e saúde. Para mim, ela é um modelo porque sua política não é ideológica: é mais polarizada entre esquerda e direita, segundo dizem. E ideologia só serve para gastar o nosso tempo e nos tirar da visão de que os problemas político-econômicos são de ordem prática e que assim devem ser resolvidos. Precisamos de ações e não de discursos ideológicos. Discutindo justamente isso com dois colegas, fui questionado se sabia "que língua falam na Suiça?". A resposta básica, que é de conhecimento geral, foi: Alemão e Françês. Foi o que respondi, mas pesquisando mais a fundo, descobri que a resposta é um pouco mais interessante.

As línguas oficiais da Suiça são: Alemão, Françês, Italiano e Romanche. Sendo que  60% ou um pouco mais da população fala o Suíço-Alemão e uma parcela pequena fala essa pouco conhecida Romanche

A língua Romanche ou Retoromanche  é também falada na Aústria e na Itália. É uma língua neolatina e a hipótese mais forte sobre sua origem, pelo que li, é de que essa língua provém do latim falado pelos romanos que ocupavam estas áreas na antigüidade. As estatísticas são de que o Romanche possui 35 mil pessoas que têm esta como sua língua materna. Outras 40 mil pessoas a falariam como segunda língua. Isso, no entanto, não parece ser muito, já que a língua é considerada sob risco de extinção. Na Suíça, a língua não mais é ensinada nas escolas e nos meios de comunicação oficiais a língua predominante é o Alemão oficial. Menos de 1% dos habitantes da Suíça ainda falam o Romanche

Outra informação que achei foi de que o Romanche, por si só, não constituíria uma lingua única, mas sim um conjunto de dialetos pertencentes ao ramo reto-românico das línguas consideradas românicas, mas isso parece que gera controvérsias e nada irei comentar sobre elas.

Foi apenas em 1938 que o Romanche, cujo primeiro registro de aparecimento foi no século XVI, passou a ser considerado como língua oficial na Suíça. É em um lugar deste país, chamado de Cantão dos Grisões que a língua é (mais) falada.

Foi um lingüísta chamado Heirich Schmid quem unificou a ortografia da língua, isso nos anos 80 do século XX. No entanto, parece que isso não deu muito certo devido as "várias variações" dialetais.

Para se ter uma certa idéia de como é a língua, a frase: "A Raposa teve mais uma vez fome" em Romanche oficial fica assim: "La vulp era puspè ina giada fomentada".

Quanto a detalhes mais descritivos do Romanche, achei o que segue na Wikipédia:

As palavras masculinas são geralmente terminadas em consoante e as femininas em -a. Os artigos definidos são como se segue:

il turist - o turista
la turista - a turista

Antes de vogal, os artigos tanto masculino como feminino sofrem elisão e tornam-se l’:

l’ami - o amigo
l’amia - a amiga

Os artigos plurais são ils para o masculino e las para o feminino.

ils amis
las amias

Os artigos indefinidos são in para o masculino e ina para o feminino.

in curs - um curso
ina scola - uma escola

Não há artigos indefinidos plurais

Quanto aos pronomes, são eles:

jau - eu
ti - tu (você)
el/ella - ele/ela
nus - nós
vus - vós (vocês)
els/ellas - eles/elas

Caso o leitor do post queira impressionar alguém ou ajudar o Romanche a não desaparecer, coloco aqui algumas frases de ordem comum desta língua que deve ser pouquíssimo conhecida; ao menos o era para mim, até que me perguntassem sobre a língua falada na Suiça;

Allegra - Olá

Co vai? - Como vai?

Fa plaschair - Prazer em conhecê-lo(a)

Bun di - Bom dia

A pli tard - Até mais

I ma displascha - Desculpe-me

Perdunai - Dá licença

Per plaschair - Por favor

Grazia fitg - Muito obrigado


O caso das vogais estrangeiras por César Gonzalez

Para uma avaliação em uma das disciplinas da faculdade tive de ler um texto do sociólogo francês François Dubet. O interessante não foi o texto, mas sim o modo como um colega se referiu ao autor: D[o]bet.

Isso não é o que se esperaria de um falante de português brasileiro. Como já foi discutido aqui, o som dessa vogal (a menos que o nome do sociólogo seja idiosincrático) deveria ser pronunciado com uma vogal alta anterior arredondada. Com isso não estou dizendo que meu colega deveria utilizar-se de [y], mas que as vogais esperadas seriam [u] ou [i]. Esperaríamos D[u]bet ou D[i]bet.

Como bem sabemos, não possuímos [y] no inventário de fonemas do português, portanto um falante nativo de português encontra dificuldade com tal vogal. Entretanto, reconhecemos nessa vogal parte de suas propriedades fonéticas articulatórias e, ao compararmos com o inventário de fonemas vocálicos do português, encontramos as vogais alta anterior não-arredondada, [i] e a alta posterior arredondada, [u] como vogais mais próximas do ponto de vista articulatório a [y]. Assim, temos uma tendência a escolher uma das duas para substítuir a vogal estrangeira na fala corrente em português.

Tanto é assim que encontrei uma loja de móveis usados que vendia móveis para "birô"* (do fr. bureau, [by’Ro], escritório). Os "móveis para birô" podem ser utilizados como argumento para nossa discussão uma vez que eles mostram que o falante de português, ao se deparar com a necessidade de escrever essa palavra, escolheu a contraparte não-arredondada de [y], o que pode nos permitir pensar que essa seja a forma como o falante fala a palavra.

Outro argumento é tirado de um livro que estou lendo - "A course in phonology" de Iggy Rocca e Wyn Johnson. Ao explicar a vogal [y], dão o exemplo de falantes de inglês que ao tentar pronunciar essa vogal em palavras do francês ou alemão fazem um ditongo [ju], típico de palavras do inglês como cue ([kju], taco de sinuca). Esse falantes percebem que [y] se trata de uma vogal alta anterior e arredondada, só que têm dificuldades em pronunciar vogais anteriores e arredondadas, pois o inventário fonológico da sua língua não conhece tais vogais.

Voltemos ao caso de D[o]bet. Se olharmos para como a palavra foi pronunciada, [do’be], veremos que ela possui duas vogais médias altas, típicas do português. Já argumentamos que o esperado na primeira sílaba era uma vogal alta, podendo ela ser tanto posterior quanto anterior. O fato de termos uma vogal médial alta posterior, [o], no lugar de [y] nos diz que a vogal é posterior para o falante. Assim, poderíamos pensar que a vogal na subjacência é /u/ e que alguma força faz ela se tornar [o].

Já apontamos que ambas as vogais são médias altas. Analisemos isso. Em termos de traços, as vogais são ambas [-alta; -baixa]. A vogal /u/, por sua vez, é caracterizada por [+alta; -baixa]. Isso pode nos fazer pensar que a vogal /e/ espraiou seu traço [-alto] para a vogal /u/ e essa se tornou um [o]. Estamos, assim, imaginando que esse é um caso de harmonia vocálica.

Infelizmente, nossa análise tem um problema: não consigo pensar em outros exemplos para esse fenômeno em português. Consigo dizer que um fenômeno parecido ocorre com palavras como menino, que é pronunciado por alguns falantes com todas as vogais altas, por exemplo [mininu].

* Pesquisei em dois dicionários e não encontrei essa palavra, o que não impede ela de ser dicionarizada por um dicionário maior ou mais completo que os meus. Se procurarmos por "birô" no Google, vamos encontrar em torno de 104 000 resultados. Não é muito, mas já é expressivo na minha opinião.


III Seminário Internacional de Fonologia por César Gonzalez

É isso aí! Finalmente abriram as inscrições para o III Seminário Internacional de Fonologia, que ocorrerá de 9 a 13 de abril de 2007 na PUCRS. O seminário trará nomes importantes da fonologia. Dentre eles John McCarthy, que abre o seminário com uma coferência sobre os desenvolvimentos recentes da Teoria da Otimidade. Nos dois últimos dias do seminário, ele dará um mini-curso sobre os fundamentos da TO.

Outra grande figura da fonologia convidada é Marina Nespor, cuja conferência será sobre Ritmo e Aquisição da Linguagem. Ela tambem dará um curso nos dois últimos dias, sobre Fonologia Prosódica e Aquisição. Leo Wetzels fará sua conferência sobre a Silabificação das Vogais Altas do Português e terá uma sessão sobre Tópicos da Fonologia do Português. Ben Hermans ficará com a Sessão II - Endogenous Factors of Linguistic Change.

Teremos ainda mesas-redondas coordenadas por Yonne Leite, Seung Hwa Lee, Maria Bernadete Abaurre, Leda BisolCláudia Regina Brescancini.

Apesar do preço ser um pouco salgado (R$ 190,00 para assistir a todos os seminários, comunicações, mesas-redondas e cursos) esse é um investimento que vale a pena. Assim, inscreva-se o mais rápido possível, até porque depois de 01/11 deste ano os preços aumentam. Para maiores informações sobre o evento, vejam o site.


ConCat por César Gonzalez

Anunciado recentemente no Phonoloblog, o ConCat (Constraint Catalogue) é uma enciclopédia versão Wiki que pretende reunir todas as restições da literatura em TO. A idéia é muito boa e está crescendo com qualidade. Cada uma das restrições vêm com várias versões encontradas na literatura e com links para as restrições relacionadas. A dica é boa, portanto visitem o site e, se possível, ajudem a construí-lo.


Elefantes falam coreano por Emanuel Souza de Quadros

Deu no Seoul Times! Mr. Nose, um elefante de um zoológico da Coréia do Sul, pode pronunciar, "quase do mesmo jeito que uma pessoa coreana", 8 palavras(!), equivalentes a "muito bem", "deita", "não", "ainda não" e "vira", que curiosamente são palavras que se espera que um treinador repita à exaustão para um elefante. Nada como a linguagem humana, mas, ainda assim, eu gostaria de tê-lo no meu circo.

O circo só estaria completo com os sujeitos da última frase da notícia: "Especialistas afirmam que Mr. Nose é o primeiro elefante do mundo a falar uma língua humana."


Good or Evil? por Emanuel Souza de Quadros

Tem circulado por alguns grupos de discussão, uma correspondência do Dr. Hein van der Voort, enviada ao boletim eletrônico da SSILA (The Society for the Study of the Indigenous Languages of the Americas), número 242, que, suponho, deve estar disponível on-line em breve.

Dr. Voort é um pesquisador holandês que tem se dedicado ao estudo de línguas isoladas de Rondônia. Dentre as quais, Kwaza, uma língua em risco de extinção que à época da publicação de sua gramática, escrita por Voort, contava com apenas 25 falantes.

Na correspondência, Voort critica a decisão tomada no ano passado pela International Standardization Organization (sim, a organização que define os padrões ISO 9000 de que tanto se ouve falar), de adotar os códigos do Ethnologue como o padrão de referência para as línguas do mundo, chamado ISO 639-3. De acordo com o SSILA Bulletin #227, a responsabilidade de administrar o padrão de referência foi conferida ao SIL International (Summer Institute of Linguistics), que, a partir de então, tem autonomia para “supervisionar a adição de novos códigos de línguas, combinar ou remover códigos existentes, etc.”

A questão central colocada pelo pesquisador é: “por que o controle do padrão universal de referência lingüística deveria ser dado a uma organização missionária como o SIL?”

Uma razão óbvia, que o próprio Voort menciona, é que essa organização, que vem, desde 1934, treinando missionários com o objetivo de aprender línguas pouco conhecidas e convertê-las a um código escrito para a tradução da Bíblia, realizou também o mais completo levantamento das línguas do mundo de que se tem conhecimento: o Ethnologue.

Uma das alternativas propostas é o Red Book of Endangered Languages, mantido pela UNESCO, uma organização “ideologicamente neutra” segundo Dr. Voort. Reconhecidamente, esta alternativa ainda está longe de ser tão completa como o Ethnologue: basta notar que as seções referentes ao Brasil e à América do Norte ainda não estão disponíveis.

A correspondência termina enfatizando o problema central, de ordem ética: “deveríamos nós, como cientistas, colaborar tão diretamente com uma organização proselitista, conferindo-lhe legitimidade e contribuindo potencialmente para seu objetivo maior: o de substituir as culturas indígenas por uma cultura ocidental específica?”

What do you think?


Em clima de eleição: uma abordagem sem sacanagem por Paulo H

Um post rápido para falar de um dado, uma formação lexical interessante, bem interessante. Muitos outros dados colhidos por aí, informalmente, talvez merecessem posts, mas este de que vou falar tem uma relevância particular porque foi usado por um candidato a governador do Rio Grande do Sul, o Roberto Robaina, do PSoL. 
Houve um debate na TV Cachorro (ou, de maneira mais culta, TV Com) numa noite dessas, com alguns candidatos a governador do estado do RS. Não assisti a todo o debate, sou um cara muito preconceituoso quanto a programas coordenados por pessoas como Lasier Martins, o cara do L velarizado (é o L mais dark do jornalismo mundial). Mas enfim, só vi alguns trechos do debate. Num instante desses, vi que, enquanto o Robaina discutia com outro(a) candidato(a), que não lembro e não interessa quem era, surgiu uma nova palavrinha (ou palavrinha nova). Um substantivo deverbal: viragem. Bom, pode até ser que alguém a tenha em seu léxico mental, mas deve ser uma minoria. De qualquer modo, me chamou a atenção. Vejam o contexto em que a palavra apareceu:

A Heloísa Helena é a única candidata capaz de promover uma viragem no Brasil.

Em primeiro lugar, não me interessa se a moça que fala alto é a única capaz de fazer qualquer coisa, o foco está na palavrinha em itálico. Me parece claro que o sentido aqui de viragem está relacionado a esse negócio de que os políticos falam muito: mudança, transformação, etc. É assim que entendo a frase de Robaina. Ou seja, compreendo a formação do cara, embora ache que ele, no fundo, quis dizer outra coisa.

Em segundo lugar, fico pensando: ele estava nervoso, como talvez todos os demais. Isso explica um engano (podemos imaginar que o cara tenha quisto dizer virada, no sentido de mudança). Não importa. Ele disse viragem, substantivo formado de virar + agem, assim como sacanagem é formado de sacanear + agem e lavagem é formado de lavar + agem. Não é isso?

Assim, podemos nos divertir:

a) Heloísa Helena é a única capaz de promover uma propagação de vírus(es), no Brasil (promover uma virose).

b Heloísa Helena é a única capaz de promover uma mudança no tempo, no Brasil (uma viração, geralmente propulsora das viroses).

c) Heloísa Helena é a única capaz de promover uma mudança na política, no Brasil (nesse caso, viragem é uma palavra nova, e, ao fim e ao cabo, um substantivo tão abstrato quanto felicidade, perfeição, humanidade. Abstrato demais para meros mortais).   


O Modelo Causal Integrado e o Modelo Clássico das Ciências Sociais por Tiago Martins

Quando se começa a ler sobre o gerativismo, uma das primeiras coisas que se descobre é que este modelo encontra forte oposição no Modelo Clássico das Ciências Sociais (MCCS). No livro Diálogos, Chomsky lembra quando começou a dar aulas no MIT em fins da década de 50. Recorda que era visto como um absurdo tratar a linguagem do modo como ele tratava, pois todo o ensino da época estava comprometido com o relativismo. O relativismo não acredita que haja uma estrutura fixa na natureza humana, não acredita em universais, acredita nas diferenças e cada sociedade no mundo seria diferente por existirem fatores sociais influenciando. Isso é discútivel e será abordado em outro texto.

Depois de ter ouvido muito falar sobre essa oposição (Gerativismo X MCCS), pouco li sobre o assunto. No entanto, achei há pouco tempo, uma ótima discussão sobre o tema no já mencionado O Instinto da Linguagem, de Steven Pinker. E neste livro, ele cita alguns dos fundamentos que caracterizam o MCCS:

"Se por um lado os animais são rigidamente controlados por sua biologia, o comportamento humano, por outro é determinado pela cultura (…) Livre de coerções biológicas as culturas podem variar entre si arbitrariamente".

Esse modelo, que tem como fundadores John Watson e Margaret Mead, acredita que existem dois grandes influenciadores no comportamento humano: a hereditariedade e o ambiente. Sobre isso, Pinker diz: "Eu ficaria deprimido se o que sabemos sobre o instinto da linguagem ficasse restrito às tolas dicotomias hereditariedade-ambiente". Deixo claro, que Pinker não despreza esses fatores, afinal, como exemplifica ele, se uma criança cresce junto de seu hamster, a criança passa a falar uma língua, o hamster não. O que Pinker defende é: há muito mais do que essa dicotomia

É indiscutível que a cultura e o ambiente influenciam, afinal uma criança nascida em Porto Alegre vai falar português, e os modelos formais que estudam a linguagem não são cegos para isso. Tudo se trata de uma questão de "recorte teórico". O modelo que se opõe ao MCCS, conhecido como Modelo Causal Integrado, do qual faz parte a Lingüística Gerativa, está preocupado com outras questões, que não são sociais. O que houve, e que é natural que gerasse uma oposição com o Modelo Clássico, é que nem a lingüística, nem outros modelos de ciência a partir dos anos 50 puderam ignorar o que as novas tecnologias podiam oferecer: estudos mais avançados sobre a complexidade do cérebro humano. Sem um mecanismo inato para o aprendizado que, segundo os racionalistas, vêm do ambiente, não há aprendizado. A maneira como o conhecimento é organizado no cérebro, a maneira como percebemos as coisas e a maneira como adquirimos a língua, está pré-determinada no cérebro de cada um, portanto é bastante compreensível que isso seja estudado em separado, pois isso vem antes dos elementos ambiente-cultura-sociedade.

Ao contrário do que é "pregado" pelo relativismo, existem sim universais. Toda a lingüística gerativa mostrou isso, as línguas não variam de modo arbitrário e sem limites, como vimos na afirmação acima sobre o MCCS. O Modelo Causal Integrado, portanto, vem em oposição a esse relativismo. Tem fundamentos em Darwin, Willian James, Chomky e em psicológos, neurocientistas e todo um time de profissionais que estuda o design da mente e como as informações que vem de fora são "acopladas" na mente/cérebro. Segundo Pinker, o MCI "procura explicar como a evolução causou a emergência de um cérebro, que causa processos psicológicos como conhecer e aprender, que causam a aquisição de valores e de conhecimentos que conformam a cultura de uma pessoa". Este modelo percorreu os estudos de lingüística formal durante toda a segunda metade do século XX e ainda é condenado por quem acredita na predominânicia de fatores sociais.   

Quanto às diferenças arbitrárias e sem limites que as culturas podem sofrer, bem, isso também parece ser bastante discutível no MCCS. Quanto ao caráter universal das línguas, sabemos que isso é verdadeiro, as línguas têm universais, têm princípios e isso já foi discutido em outros textos aqui no blog. O interessante é que as culturas também possuem universais e não variam tão arbitráriamente quanto queriam os antropólogos do século XX, para provar que o meio influencia radicalmente. Isso é discutido no último capítulo do livro de Steven Pinker e o tema do meu próximo texto.    


Sobre o texto de Sá (2006) por Paulo H

Gostaria de fazer algumas observações a respeito do texto de Edmilson José de Sá, publicado recentemente na ReVEL. De certa forma, sinto-me na obrigação de fazê-lo, uma vez que estou envolvido em uma pesquisa relacionada com o tema do artigo dele: a realização variável da lateral pós-vocálica.

Serei conciso. Assim, sugiro que leiam o artigo antes da crítica.

Em primeiro lugar, há problemas com a escrita. Vírgulas mal colocadas dificultam a leitura. Depois, há frases confusas, como o parágrafo abaixo: 

Em relação ao Português, as pesquisas mostram que a forma vocalizada [w] parece constituir a tendência geral no dialeto brasileiro. Assim, tal predominância evidencia o caminho da evolução do /l/ apontado como resultado mais inovador (p. 7). Fiquei confuso; talvez faltem informações aí, especialmente na última frase.

Bem, também há pelo menos um engano com a data do trabalho de Quednau (nas Referências Bibliográficas há apenas Quednau 1993, mas no texto aparece um Quednau 1999, o que pode gerar confusão, posto que poderia existir de fato tal referência). Mas o que há de mais grave é a citação de Hernandorena (2002), como se o texto da autora (Introdução à teoria fonológica) fizesse parte do livro organizado pela Leda Bisol e pela Cláudia Brescancini, Fonologia e Variação: recortes do português brasileiro. A verdade é que esse texto da professora Carmen Matzenauer, que já foi Hernandorena, está no livro Introdução a estudos de fonologia do protuguês brasileiro, organizado pela Leda Bisol.

Até aí tudo bem. Mas tem outras coisas. Como o parágrafo abaixo:

Em busca de caracterizar o segmento lateral, Bisol (1999) afirma que este se articula neste ponto quando for produzido através do contato da língua com os dentes ou palato. Em conseqüência disso, como a oclusão proveniente desse contato alveolar é parcial, o ar pode sair pelos dois lados da zona de articulação (p. 2). Há dois problemas aí. Primeiro: quem afirma não é Bisol, mas sim Quednau, Monaretto e Hora, que escreveram o texto de onde foi extraída a informação utilizada por Sá (mais precisamente, à página 227 do livro organizado por Bisol, que tem uma edição de 1999). Segundo: faltou dizer que os autores do texto citado se baseiam na definição de Malmberg (1954) com respeito à lateral. 

Um pouco mais abaixo no artigo de Sá, lemos que Quednau (1993) detectou as variantes velarizada e vocalizada, pesquisando diatopicamente as comunidades de Porto Alegre, Monte Bérico, Taquara e Santana do Livramento, tendo as três últimas contato entre o PB com o espanhol (p. 2). Bueno, aqui o engano é de geografia: apenas Livramento tem contato com o espanhol, por ser uma cidade da fronteira (veja o mapa).

Para finalizar, observemos este parágrafo:

Não foi nossa pretensão dar conta de todos os aspectos envolvidos na variação do segmento em Português e Espanhol para não tornar o estudo exaustivo, porém esperamos, com este trabalho, ter dado uma contribuição particular, a se somar a pesquisas de outros estudiosos para a compreensão dos contrastes por que perpassam essas línguas aparentadas em relação à lateral posvocálica (p. 7). Daqui quero extrair apenas uma afirmação: não foi nossa pretensão dar conta de todos os fenômenos, o que é bacana, pois realmente não é fácil fazê-lo, para não tornar nosso estudo exaustivo. Da minha humilde condição, pergunto: qual é o problema de procurar tornar um estudo exaustivo? Lembram do Hjelmslev? Essa exaustividade é a mesma que a dele?

São essas algumas observações que achei interessante fazer sobre o texto de Edmilson José de Sá, que, acima de tudo, deve ser cumprimentado pela pesquisa e pelo trabalho. Enviei um e-mail a ele com o link do blog, espero que possamos discutir sobre isso. Se alguém tiver outra contribuição (mesmo que for com relação a outro artigo), por favor, sinta-se à vontade para nos comunicar; postaremos sem problemas.


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