Language Bar

22/02/2007

Assinando o Language Bar por Emanuel Souza de Quadros

Nada sobre Lingüística, mas algo importante de lembrar.

Como a maioria dos blogs, o Language Bar utiliza um sistema de RSS (Really Simple Syndication). Não é algo suficientemente popular na Internet ainda; muitos sites disponibilizam esse serviço, mas a maior parte dos usuários ainda não sabe utilizá-lo. Essa é a motivação deste post.

RSS é uma ferramenta que te permite "assinar" (de graça, é claro!) um site, de modo que não seja necessário visitá-lo periodicamente, à espera de atualizações. O computador faz isso por você, checando e baixando conteúdo, no momento em que ele se torna disponível. Ou seja, assinar o feed RSS de um blog significa não perder nenhuma de suas atualizações, sem que seja necessário visitá-lo todos os dias. As vantagens práticas são enormes. Um exemplo: eu recebo atualizações de mais de 150 sites - uma grande quantidade de conteúdo. O legal da história é que eu não preciso visitar esses 150 sites todos os dias para garantir que eu não perca nenhuma atualização. Eu as recebo automaticamente, num lugar só; meu único trabalho é filtrar o que há de relevante para eu ler. E o melhor de tudo é que, ao contrário de assinaturas de revista ou de jornal, eu não pago nada por isso.

Para assinar, basta utilizar algum agregador de conteúdo, como o Google ReaderGreatnews ou Bloglines e adicionar o endereço do nosso feed: http://feeds.feedburner.com/languagebar; se quiser, também dá para receber os comentários que são postados, adicionando o endereço: http://languagebar.blogsome.com/comments/feed/.

14/02/2007

2007 - 1957 = 50 anos de Syntactic Structures! por Emanuel Souza de Quadros

Este ano marca o qüinquagenário de um evento importante na história da lingüística: a publicação de Syntactic Structures. Embora não se trate da primeira obra de lingüística gerativa, trata-se da primeira exposição da concepção chomskiana de gramática como uma teoria da linguagem que recebeu, de fato, a atenção da comunidade lingüística. Nessa obra, Chomsky demonstrou a possibilidade de se propor uma teoria formal da linguagem humana, não-empirista, sujeita às mesmas restrições válidas na construção e avaliação de teorias das ciências naturais. Além de estabelecer essa concepção como o ponto de partida para as discussões subseqüentes em teoria lingüística, a obra chamou a atenção dos psicólogos e filósofos da época, ao ressaltar um aspecto tido como crucial à linguagem humana: a criatividade ilimitada, ainda que governada por regras.

Saber o ano de publicação é fácil, mas alguém que se interesse pela história da lingüística, como eu, deve se perguntar quando, exatamente, o livro foi publicado… Kai von Fintel, do Semantics etc., tem um post dedicado a essa questão. O que ele encontrou é um artigo do Professor Jan Noordegraaf da Vrije Universiteit Amsterdam, intitulado "On the Publication Date of Syntactic Structures: A Footnote to Murray (1999)", disponível para download.

O texto aponta fevereiro de 1957 como o mês de publicação do livro, em resposta a um artigo publicado em 1999, por Stephen O. Murray, que colocava "novembro ou dezembro" como provável período de publicação. As duas evidências cruciais são:

  • No número 7 do volume 124, datado de 14 de fevereiro de 1957, da Nieuwsblad voor de boekhandel, um jornal semanal dos livreiros holandeses, Syntactic Structures é anunciado na página 129 como um livro recém-publicado. Na falta de um registro oficial de livros lançados, esse semanário é considerado como a fonte mais confiável de datas de publicação na Holanda.
  • Numa carta endereçada a Bernard Bloch (1907-1965), editor da Language na época, Robert B. Lees escreveu, no dia 22 de fevereiro de 1957, sexta-feira, que Syntactic Structures havia sido "publicado […] na semana passada".

Less foi um dos primeiros lingüistas a terem acesso à obra e a lhe darem a atenção merecida. Nas palavras do próprio Chomsky (1977:122), "[a]s questões de gramática gerativa chamaram a atenção dos lingüistas graças à publicação, em 1957, da resenha minuciosa que Lees fez de Syntactic Structures, em Language. Suponho que, sem esse artigo, a monografia não teria sido conhecida."

Dadas as evidências, então, sigo a sugestão de Kai von Fintel de declarar o dia 14 de fevereiro de 1957 como a data oficial de publicação de Syntactic Structures. É por isso que este post foi aparecer logo hoje, no qüinquagenário da obra!

Para terminar, também via Semantics etc., uma carta de Noam Chomsky a Cornelis van Schooneveld, editor da série Janua Linguarum, da Mouton:

Carta de Noam Chomsky a Cornelis van Schooneveld

A carta acima faz parte de uma exposição da biblioteca da Universidade de Leiden, que traz, além dessa carta e de outros documentos e fotos interessantes da coleção de van Schooneveld, uma foto do editor com Roman Jakobson (de costas).

 

Chomsky, N. (1957) Syntactic Structures, Janua Linguarum Series Minor, 4, The Hague: Mouton.

Chomsky, N. (1977) Dialogues avec Mitsou Ronat trad. em português: Diálogos com Mitsou Ronat S. Paulo, Cultrix, 1980.

31/01/2007

Discussões sobre Lingüística por Paulo H

Vou escrever sobre algo que me incomoda de fato e tem me incomodado mais nesses últimos tempos. É sobre o que acontece quando pessoas estão discutindo Lingüística. O que sempre acontece. Acaba-se caindo num papo sobre Educação - devemos ou não ensinar norma culta? - e na velha "disputa" entre Lingüística e Gramática Tradicional (ou Normativa, pros mais nervosinhos).

Sinceramente, pessoas e pessoos, nós não temos mais o que fazer ou esse é o grande problema a ser discutido. Concordo que pra quem não tem a mínima noção de Lingüística esse assunto é o mais atraente, talvez seja essa a melhor forma de apresentar aquilo que fazemos ou queremos fazer, mas que é um saco quando algum colega teu puxa esse assunto, ah isso é. ("Mas e aí, meu velho", diz Fulano, "devo ou não devo levar o Celso Cunha pra sala de aula?"). Olha aqui, tchê, faz o que te der na telha, mas não me pergunta mais sobre isso.

Me abstenho em 99% das discussões do Orkut por esse motivo. Todas as comunidades sobre Lingüística poderiam muito bem se reduzir a uma com talvez apenas um tópico: O mesmo velho papo. Isso me faz perguntar, em conclusão: Esse é de fato o grande problema e por isso sempre caímos nele, como uma paixão mal resolvida?

30/01/2007

A menina selvagem do Camboja por Emanuel Souza de Quadros

A notícia é velha, já tem mais de uma semana, mas ainda não foi comentada por aqui. É o caso de mais uma "criança selvagem", que foi encontrada no nordeste do Camboja. A moça foi encontrada após ter, aparentemente, vivido por 19 anos na selva.

Aparentemente, porque ainda não se sabe bem qual sua identidade. A versão corrente é de que se trata de Rochom P’ngieng, uma menina que se perdeu aos oito anos, com sua irmã de seis, que não foi encontrada. É a história aceita, porque o policial Ksor Lu Long a reconheceu como sua filha. Mas ainda há um certo mistério quanto a origem da moça, já que os supostos pais, o policial e sua mulher, recentemente se recusaram a participar de um teste de DNA, que pudesse confirmar a paternidade. Mais suspeitas surgiram após relatos de que um homem nu, portando um facão, fora avistado junto à mulher, na selva. Ela possui marcas no braço, sugerindo ter sido mantida presa.

A solução do mistério acerca de sua verdadeira história fica mais distante, porque, como comumente acontece nesses casos, a mulher encontrada não fala nenhuma língua, não podendo, portanto, relatar o que lhe aconteceu. Esses fatos são geralmente explicados pela falta de contato com adultos falantes de alguma língua durante o período normal de aquisição, devido ao isolamento dessas crianças. São, também, usados como evidência para a hipótese do período crítico na aquisição da linguagem, pois não há aquisição normal de nenhuma língua, após esses indivíduos terem sido reintegrados à sociedade, na idade adulta.

Se fosse confirmada a história contada pelo policial que alegou ser pai da menina, o caso dela passaria a ser diferente do que é comum às crianças selvagens, porque, segundo essa versão, a menina teria se perdido na selva apenas aos 8 anos. Teria, então, tempo suficiente de exposição à língua de seus pais para tê-la adquirido em um estágio bastante avançado. Sendo assim, eu esperaria que, convivendo com sua família original, exposta à língua que ouvira quando criança, a mulher volte a utilizá-la. Veremos…

18/01/2007

Qual é mesmo o nome daquilo… hat… Hut… sombrero, sabe? por Emanuel Souza de Quadros

Um grupo de psicólogos do Memory Control Lab da Universidade de Oregon vêm estudando os mecanismos que levam ao esquecimento há um bom tempo. Saiu agora, na revista Psychological Science desse mês, um estudo do grupo sobre um fenômeno bastante conhecido de quem já tentou aprender uma língua estrangeira: o esquecimento temporário de palavras da língua materna que se referem a conceitos que o falante consegue nomear, sem muita dificuldade, na segunda língua.

O estudo sugere que isso não ocorre simplesmente porque as palavras esquecidas são pouco usadas. Na verdade, o esquecimento refletiria uma inibição das formas fonológicas das palavras da língua materna, que, de outra forma, poderiam funcionar como distração ou interferência enquanto falamos a nova língua. Seria então uma estratégia de aprendizagem, em que o esquecimento age como uma resposta adaptativa à necessidade de eliminar interferências.

Na pesquisa realizada, quanto maior era o grau de fluência dos estudantes na língua estrangeira, menos suscetíveis eles estavam a esses efeitos de inibição da língua materna. Isso sugere que em estágios avançados do aprendizado de uma segunda língua, essa estratégia de esquecimento torna-se menos necessária. Aprendizes pouco fluentes apresentaram maiores graus de inibição de palavras da língua materna, refletindo uma necessidade de se ignorarem palavras desta, na medida em que o falante se esforça para expressar os mesmos conceitos usando palavras da língua estrangeira.

O artigo, assim como outros trabalhos do grupo, está disponível no site do Memory Control Lab.

16/01/2007

A simpleza da língua inglesa por Emanuel Souza de Quadros

Mais uma na Zero Hora. O colunista da vez é o nosso escritor Liberato Vieira da Cunha. Segue um parágrafo de seu texto "A palavra simpleza", publicado no Segundo Caderno da ZH de hoje.

Um inglês, ou, pior, um americano repete dez vezes, numa única frase, um vocábulo já antes citado e reprisado. Nós, não. Somos ricos. Posso dizer que uma mulher é bela, é formosa, é linda, é bonita, é atraente, é vistosa - e mais meio quilômetro de adjetivos, como gentil, primorosa, encantadora, sensual, deleitosa. Mas o mais surpreendente é que fazemos isso com extrema naturalidade e simplicidade. 

Um inglês ou americano qualquer: we are rich too. I could call a woman pretty, charming, gorgeous, handsomegood-lookingsightly - and a whole lot of other adjectives, such as kind, exquisite, beguiling, foxy, delightful. You’d better find another reason to boast.

Moral da história: é muito fácil pensar que tua língua materna tem mais recursos expressivos que qualquer língua do mundo; afinal, tu a conheces melhor que qualquer outra.

14/01/2007

Chomsky, Ziraldo e a aquisição da linguagem por Emanuel Souza de Quadros

Fiquei surpreso em ver Chomsky sendo mencionado no Segundo Caderno da Zero Hora desse sábado; sobretudo por não ser nada sobre a escalada militar norte-americana na Colômbia, terrorismo de estado, estratégias imperialistas de controle global ou afins.

O bom velhinho surgiu na coluna do poeta Ricardo Silvestrin, que faz uma aproximação do que pensa Ziraldo sobre a educação com o que defende Chomsky em relação à linguagem humana. A idéia de Ziraldo, expressa em sua frase: "é mais importante ler do que estudar", é de que o ensino de língua portuguesa deveria centrar-se na leitura, ao invés de se preocupar com o ensino explícito de gramática. A leitura de bons textos traria consigo "o domínio de linguagem, de padrão de escrita".

O contato com a lingüística gerativa estaria na observação de que as crianças já entram na escola conhecendo sua língua materna, com total competência sobre as regras gramaticais subjacentes a seu funcionamento. Essa noção é básica para a teoria chomskiana e leva o colunista a concluir que "desse modo, a escola não precisa ficar nos ensinando o que já sabemos [- regras gramaticais]. E o pior: de um jeito que parece que não sabemos. O que precisa é nos ensinar a passar do falado para o escrito. E para isso, precisa nos fazer ler e escrever".

A boa lição que se deve tirar da coluna para o ensino de português é o respeito ao conhecimento que os alunos já trazem sobre a língua materna. A que não me parece ser muito boa é a idéia de que o ensino gramatical explícito é desnecessário. Ao menos porque, ao contrário do que o colunista parece sugerir, a língua a ser aprendida na escola não é exatamente a mesma que os alunos trazem de casa. Um dos objetivos do ensino de língua portuguesa é possibilitar aos estudantes o domínio da variedade padrão do idioma, de um padrão formal escrito, que não é o utilizado pelos alunos em sua comunicação diária. Se essa norma é mesmo importante para a sociedade é uma outra discussão.

O destaque do texto é o parágrafo, transcrito abaixo, em que o colunista passa a falar sobre o desenvolvimento de nossa competência sobre a língua materna.

É o seguinte: segundo o lingüísta [sic], a gente nasce com as condições para aprender línguas. É a nossa competência que vai se desenvolvendo com o nosso desempenho. Assim, nascemos num ambiente que fala uma língua, que para nós é "estrangeira", e vamos interagindo com ela. O processo que se dá na nossa cabeça nesse aprendizado não é meramente de ouvir e repetir. O que acontece é que vamos entendendo a estrutura da língua. É um aprendizado inteligente. Por exemplo, quando uma criança fala "fazi", ninguém disse isso. Mas por que ela falou? Porque entendeu que a estrutura de construção do pretérito perfeito do indicativo dos verbos de segunda conjugação se faz com raiz + i. Vender - vendi, comer - comi, perder - perdi, fazer - fazi. Mas alguém dirá à criança "não é fazi; é fiz!" [grifo meu]. Ela então incorporará uma nova informação ao que havia concluído: "Existem uns verbos meio malucos que são diferentes". São os verbos irregulares.

É bom porque apresenta de maneira simples e compreensível alguns insights importantes dos estudos sobre aquisição da linguagem que se deram na segunda metade do século XX: as observações de que nascemos com as condições necessárias para adquirir uma língua e de que a aquisição de uma língua não é uma questão de mera repetição do que se ouve no ambiente - a criatividade é inerente ao processo, como mostram formas como "fazi", presentes na fala infantil. A parte sublinhada no parágrafo acima é o ponto em que o colunista chega ao equívoco bastante comum de imaginar que há um papel fundamental para algum tipo de instrução explícita na aquisição da primeira língua pela criança.

Traz o item 2 do meu velho post sobre pobreza de estímulo:

O ambiente lingüístico no qual a criança cresce fornece apenas evidências positivas. As crianças só ouvem sentenças válidas da língua e não se deparam com nada que as mostre explicitamente que tipos de generalizações não podem ser feitas com base nos dados oferecidos.

Isso quer dizer que não há, dentro do conjunto de dados lingüísticos ao qual a criança tem acesso durante o processo de aquisição de sua língua materna, evidências negativas que mostrem explicitamente que determinada sentença não pertence à língua em questão. Mesmo quando se tenta corrigir uma generalização como a de "fazi", a criança simplesmente ignora a intervenção do adulto e persiste usando a flexão regular que acabou de descobrir. A correção virá, naturalmente, na medida em que a criança aproximar-se da gramática do adulto, com todas as suas formas irregulares. O papel dos papais e mamães na aquisição da primeira língua é menor do que se imaginava.

12/01/2007

Liminar obriga a fiscalização de estrangeirismos em anúncios por Emanuel Souza de Quadros

Foi divulgada hoje, no site da Justiça Federal, a determinação do juiz federal substituto da 1ª Vara de Guarulhos, Antônio André Muniz Mascarenhas de Souza, de que o governo federal passe a fiscalizar o emprego da língua portuguesa na oferta e apresentação de produtos e serviços em todo o país. A ação foi proposta pelo Ministério Público Federal.

A liminar determina que expressões como "sale", "off", "summer", etc., devem ser acompanhadas de tradução, com o mesmo destaque. Apenas publicidade que não contenha nenhum tipo de oferta tem liberdade para utilizar qualquer símbolo, palavra ou gesto, "desde que sujeitando-se às regras dos artigos 36 a 38 do CDC [Código de Defesa do Consumidor], que proíbem a mensagem enganosa ou abusiva".

O governo federal deverá, de acordo com a determinação, aplicar as penalidades previstas no artigo 56 do CDC (multa, apreensão do produto, cassação do registro, etc.), além de repassar a decisão aos orgãos de proteção e defesa do consumidor, a fim de divulgar a medida aos consumidores e fornecedores em todo o território nacional. A multa diária estipulada, em caso de descumprimento da decisão, é de $5 mil à União.

Não é o fim do mundo para os fornecedores que usam línguas estrangeiras na oferta de seus produtos; passar a usar a língua portuguesa não dói nada. De qualquer forma, isso me faz pensar que o Judiciário não tem mais nada para fazer - o que não é verdade.

A preocupação da ação judicial não é com o "imperialismo lingüístico", com a invasão dos estrangeirismos, que vai corromper nossa língua e fazer com que nossas crianças passem a falar inglês (?!). A questão é bem mais séria e a preocupação mais nobre: garantir que os consumidores tenham acesso a informações importantes sobre o produto, evitando mensagens enganosas ou abusivas.

Supus que o Judiciário tivesse começado 2007 sem nada para fazer, pois embora a preocupação seja nobre, o risco não parece corresponder a ela. É o tipo de situação que se resolve sem uma determinação judicial, seguindo a própria dinâmica do mercado. Expressões inglesas são utilizadas no comércio, porque se julga que elas vendem! No momento em que se notar que os consumidores evitam comprar em lugares que anunciam seus produtos com expressões estrangeiras (se é que evitam), ninguém vai querer usá-las.

Se as pessoas não se importam com anúncios do tipo "Duetto Motel – 20% off + Refeição grátis" (primeiro exemplo que encontrei no Google), se conseguem transitar por essas expressões que, mais que estrangeiras, passam a fazer parte do léxico da publicidade, não há grande problema nesse uso dos estrangeirismos. Se as pessoas se incomodam ou se sentem ludibriadas, é papel delas, como consumidores conscientes, não comprar no lugar em questão - ou, ao menos, buscar melhores informações dentro da loja (um passo que já é necessário, mesmo quando os anúncios vêm em português); eventualmente, se for o caso, o comerciante entenderá que usar a língua portuguesa é a melhor estratégia para aquele público-alvo.

Incomoda pensar que dependemos de determinações judiciais para nos proteger de coisas das quais deveríamos nos defender sozinhos, como gente grande, não fossem elas inofensivas.

14/10/2006

O Romanche por Tiago Martins

A Suiça, creio eu, é o país modelo do mundo. Em qualquer comparativo político-econômico a Suiça sempre é apontada como exemplo em economia, educação e saúde. Para mim, ela é um modelo porque sua política não é ideológica: é mais polarizada entre esquerda e direita, segundo dizem. E ideologia só serve para gastar o nosso tempo e nos tirar da visão de que os problemas político-econômicos são de ordem prática e que assim devem ser resolvidos. Precisamos de ações e não de discursos ideológicos. Discutindo justamente isso com dois colegas, fui questionado se sabia "que língua falam na Suiça?". A resposta básica, que é de conhecimento geral, foi: Alemão e Françês. Foi o que respondi, mas pesquisando mais a fundo, descobri que a resposta é um pouco mais interessante.

As línguas oficiais da Suiça são: Alemão, Françês, Italiano e Romanche. Sendo que  60% ou um pouco mais da população fala o Suíço-Alemão e uma parcela pequena fala essa pouco conhecida Romanche

A língua Romanche ou Retoromanche  é também falada na Aústria e na Itália. É uma língua neolatina e a hipótese mais forte sobre sua origem, pelo que li, é de que essa língua provém do latim falado pelos romanos que ocupavam estas áreas na antigüidade. As estatísticas são de que o Romanche possui 35 mil pessoas que têm esta como sua língua materna. Outras 40 mil pessoas a falariam como segunda língua. Isso, no entanto, não parece ser muito, já que a língua é considerada sob risco de extinção. Na Suíça, a língua não mais é ensinada nas escolas e nos meios de comunicação oficiais a língua predominante é o Alemão oficial. Menos de 1% dos habitantes da Suíça ainda falam o Romanche

Outra informação que achei foi de que o Romanche, por si só, não constituíria uma lingua única, mas sim um conjunto de dialetos pertencentes ao ramo reto-românico das línguas consideradas românicas, mas isso parece que gera controvérsias e nada irei comentar sobre elas.

Foi apenas em 1938 que o Romanche, cujo primeiro registro de aparecimento foi no século XVI, passou a ser considerado como língua oficial na Suíça. É em um lugar deste país, chamado de Cantão dos Grisões que a língua é (mais) falada.

Foi um lingüísta chamado Heirich Schmid quem unificou a ortografia da língua, isso nos anos 80 do século XX. No entanto, parece que isso não deu muito certo devido as "várias variações" dialetais.

Para se ter uma certa idéia de como é a língua, a frase: "A Raposa teve mais uma vez fome" em Romanche oficial fica assim: "La vulp era puspè ina giada fomentada".

Quanto a detalhes mais descritivos do Romanche, achei o que segue na Wikipédia:

As palavras masculinas são geralmente terminadas em consoante e as femininas em -a. Os artigos definidos são como se segue:

il turist - o turista
la turista - a turista

Antes de vogal, os artigos tanto masculino como feminino sofrem elisão e tornam-se l’:

l’ami - o amigo
l’amia - a amiga

Os artigos plurais são ils para o masculino e las para o feminino.

ils amis
las amias

Os artigos indefinidos são in para o masculino e ina para o feminino.

in curs - um curso
ina scola - uma escola

Não há artigos indefinidos plurais

Quanto aos pronomes, são eles:

jau - eu
ti - tu (você)
el/ella - ele/ela
nus - nós
vus - vós (vocês)
els/ellas - eles/elas

Caso o leitor do post queira impressionar alguém ou ajudar o Romanche a não desaparecer, coloco aqui algumas frases de ordem comum desta língua que deve ser pouquíssimo conhecida; ao menos o era para mim, até que me perguntassem sobre a língua falada na Suiça;

Allegra - Olá

Co vai? - Como vai?

Fa plaschair - Prazer em conhecê-lo(a)

Bun di - Bom dia

A pli tard - Até mais

I ma displascha - Desculpe-me

Perdunai - Dá licença

Per plaschair - Por favor

Grazia fitg - Muito obrigado

23/09/2006

O caso das vogais estrangeiras por César Gonzalez

Para uma avaliação em uma das disciplinas da faculdade tive de ler um texto do sociólogo francês François Dubet. O interessante não foi o texto, mas sim o modo como um colega se referiu ao autor: D[o]bet.

Isso não é o que se esperaria de um falante de português brasileiro. Como já foi discutido aqui, o som dessa vogal (a menos que o nome do sociólogo seja idiosincrático) deveria ser pronunciado com uma vogal alta anterior arredondada. Com isso não estou dizendo que meu colega deveria utilizar-se de [y], mas que as vogais esperadas seriam [u] ou [i]. Esperaríamos D[u]bet ou D[i]bet.

Como bem sabemos, não possuímos [y] no inventário de fonemas do português, portanto um falante nativo de português encontra dificuldade com tal vogal. Entretanto, reconhecemos nessa vogal parte de suas propriedades fonéticas articulatórias e, ao compararmos com o inventário de fonemas vocálicos do português, encontramos as vogais alta anterior não-arredondada, [i] e a alta posterior arredondada, [u] como vogais mais próximas do ponto de vista articulatório a [y]. Assim, temos uma tendência a escolher uma das duas para substítuir a vogal estrangeira na fala corrente em português.

Tanto é assim que encontrei uma loja de móveis usados que vendia móveis para "birô"* (do fr. bureau, [by’Ro], escritório). Os "móveis para birô" podem ser utilizados como argumento para nossa discussão uma vez que eles mostram que o falante de português, ao se deparar com a necessidade de escrever essa palavra, escolheu a contraparte não-arredondada de [y], o que pode nos permitir pensar que essa seja a forma como o falante fala a palavra.

Outro argumento é tirado de um livro que estou lendo - "A course in phonology" de Iggy Rocca e Wyn Johnson. Ao explicar a vogal [y], dão o exemplo de falantes de inglês que ao tentar pronunciar essa vogal em palavras do francês ou alemão fazem um ditongo [ju], típico de palavras do inglês como cue ([kju], taco de sinuca). Esse falantes percebem que [y] se trata de uma vogal alta anterior e arredondada, só que têm dificuldades em pronunciar vogais anteriores e arredondadas, pois o inventário fonológico da sua língua não conhece tais vogais.

Voltemos ao caso de D[o]bet. Se olharmos para como a palavra foi pronunciada, [do’be], veremos que ela possui duas vogais médias altas, típicas do português. Já argumentamos que o esperado na primeira sílaba era uma vogal alta, podendo ela ser tanto posterior quanto anterior. O fato de termos uma vogal médial alta posterior, [o], no lugar de [y] nos diz que a vogal é posterior para o falante. Assim, poderíamos pensar que a vogal na subjacência é /u/ e que alguma força faz ela se tornar [o].

Já apontamos que ambas as vogais são médias altas. Analisemos isso. Em termos de traços, as vogais são ambas [-alta; -baixa]. A vogal /u/, por sua vez, é caracterizada por [+alta; -baixa]. Isso pode nos fazer pensar que a vogal /e/ espraiou seu traço [-alto] para a vogal /u/ e essa se tornou um [o]. Estamos, assim, imaginando que esse é um caso de harmonia vocálica.

Infelizmente, nossa análise tem um problema: não consigo pensar em outros exemplos para esse fenômeno em português. Consigo dizer que um fenômeno parecido ocorre com palavras como menino, que é pronunciado por alguns falantes com todas as vogais altas, por exemplo [mininu].

* Pesquisei em dois dicionários e não encontrei essa palavra, o que não impede ela de ser dicionarizada por um dicionário maior ou mais completo que os meus. Se procurarmos por "birô" no Google, vamos encontrar em torno de 104 000 resultados. Não é muito, mas já é expressivo na minha opinião.

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