Language Bar

June 8, 2007

Morphology Online por Emanuel Souza de Quadros

Dando uma olhada nas notícias velhas da LINGUIST List, cruzei com a chamada de uma revista, MorphOn, que pode ser interessante. Trata-se de uma revista eletrônica, como a nossa conhecida ReVEL, só que dedicada apenas à Morfologia! Embora exista desde 2005 (e eu não sabia…), ela ainda conta com poucas publicações. Espero que isso mude. A iniciativa de proporcionar um espaço para que morfólogos publiquem seus artigos online e de oferecer livre-acesso a esses textos é ótima; vê-la sendo desperdiçada seria lamentável.

A chamada que consta no site:

Publish your Paper with MorphOn
If you’d like to publish your paper on Morphology (phenomena, grammar, practical/ theoretical issues; or morphology in a wider setting, i.e. morphophonology, morphosyntax, morphosemantics, morphopragmatics, language acquisition, word recognition, psycholinguistics, clinical linguistics, diachronic problems or morphological sketches of individual languages), please email it to us at : MorphOn@MorphologyOnline.com. Please submit it (with an abstract) as WORD and PDF file attachments (one of them being anonymous). It will be reviewed by our advisory panel of renowned linguists and if accepted, it will appear online straight off (without any charge). The moral copyright on the article(s) you submit is, of course, totally yours as it/they will bear your name as the author, affiliation, email address and a date.

June 7, 2007

Carta a Chomsky e Lasnik por Emanuel Souza de Quadros

Mais um capítulo da história da Sintaxe vem a público. A famosa carta de Jean-Roger Vergnaud a Chomsky/Lasnik, de 1977, indisponível por um longo tempo, ainda que famosa dentro da área, tornou-se disponível recentemente no LingBuzz. O texto influenciou grande parte da teoria de Princípios e Parâmetros, trazendo as primeiras idéias sobre a noção de Caso estrutural em sintaxe gerativa.

May 3, 2007

A Polêmica do Pirahã - Resposta de Chomsky por Tiago Martins

Na semana passada, devido a polêmica que a língua Pirahã tem causado, como comenta Emanuel em seu último texto, Chomsky deu uma entrevista na Folha de São Paulo. Para quem não teve a oportunidade de ler e para que este atual evento da ciência da linguagem tenha seu lugar aqui no Blog, reproduzo abaixo a entrevista. Nela, Chomsky critica a publicidade exagerada em torno da língua Pirahã e fala dos resultados dos estudos de Andrew Nevins, David Pesetsky e Cilene Rodrigues, já mencionados no texto do Emanuel.

Eis a entrevista, obviamente com um recorte, pois seus comentários sobre política e liberdade não constam na reprodução abaixo:

FOLHA - O sr. acredita que a recente pesquisa sobre os pirahãs, feita por Daniel Everett, desautoriza sua teoria de uma linguagem universal? Por quê?

NOAM CHOMSKY - Evidentemente, existem muitas confusões sobre a gramática universal. Em seu sentido moderno, o termo se refere à teoria correta da faculdade humana da linguagem, o que quer que isso venha a ser.

A gramática universal tem tanto status quanto a teoria correta do sistema visual humano, o que quer que isso venha a ser.

Não é ‘minha teoria’. Nem se pode chamar de uma teoria. É um tópico, e há muitas propostas sobre qual deveria ser a teoria correta, constantemente se desenvolvendo, como no estudo do sistema visual ou de qualquer outra parte da ciência.

Não há uma controvérsia sensível sobre a existência da gramática universal, assim como não há sobre a teoria correta do sistema visual. Nos dois casos, como em toda a ciência, existem muitas questões sobre quais são as teorias corretas. Não há nada para ser ‘desautorizado’.

Nós todos reconhecemos que existe uma faculdade humana para a linguagem -que existe alguma diferença biológica com relação à linguagem entre uma criança e um gato e um chimpanzé ou um pássaro canoro, por exemplo. Everett naturalmente concorda com isso.

Mas ele também afirma ter refutado a gramática universal. Isso significaria que ele refutou a crença de que existe uma teoria correta sobre as capacidades humanas, que ele concorda existirem. É difícil extrair algum sentido a partir dessa posição.

Tão logo essas confusões sejam esclarecidas, a única questão que restará é se as recentes afirmações de Everett sobre a língua pirahã estão corretas -a mesma questão que vem à tona em relação a qualquer outro trabalho em linguagem e cultura.

Há, de fato, um estudo cuidadoso feito por Andrew Nevins, David Pesetsky e Cilene Rodrigues argumentando detalhadamente que a língua pirahã, embora seja interessante (como são todas as línguas), não é menos incomum do que outras línguas conhecidas.

Se a língua pirahã acabou revelando características incomuns (assim como as de muitas línguas, como o inglês, por exemplo), então a gramática universal teria que ser modificada para acomodá-las, da mesma forma como ela está sendo constantemente modificada para dar conta de novas descobertas sobre outras línguas, inclusive outras que são estudadas de modo mais amplo.

A situação, novamente, é bem parecida com a que acontece no estudo do sistema visual ou outros sistemas orgânicos.

O que é incomum sobre a língua pirahã é a campanha de relações públicas que tem sido promovida em relação a ela, e a confusão que tem gerado.

FOLHA - Para chegar a sua teoria da gramática universal, o sr. fez pesquisa de campo, como Everett? Como o sr. chegou a suas conclusões sobre a existência de uma linguagem universal?

CHOMSKY - Como todo mundo que se preocupa com a gramática universal, usei evidências de uma ampla variedade de línguas. Que outra alternativa poderia haver?

De fato, meu próprio departamento no MIT tem sido um dos grandes centros internacionais de pesquisa, inclusive em pesquisa de campo substancial, sobre uma ampla variedade de línguas do mundo -fatos esses bem conhecidos entre lingüistas profissionais.

Muitas pesquisas de campo têm sido feitas por excelentes lingüistas no Brasil e em muitas outras partes do mundo. Repito, parece haver uma confusão sobre esse assunto. Minhas conclusões sobre a existência de uma gramática universal -quer dizer, a existência de uma teoria correta da faculdade lingüística humana- são meros truísmos.

Se essa faculdade não existe, então a aquisição lingüística é um milagre. Se ela existe, então não há razão para duvidar de que exista uma teoria correta sobre sua natureza.

FOLHA - Em entrevistas, raramente o sr. fala de literatura. Uma das poucas observações é a de que ‘não é improvável que a literatura sempre vá render insights mais profundos para aquilo que é chamado de ‘a pessoa humana plena’ do que qualquer método de investigação pode esperar conseguir’. Poderia comentar isso?

CHOMSKY - De um lado, esse comentário é sobre quão pouco se sabe sobre o ser humano, sob qualquer ponto de vista, como o científico. Os assuntos humanos são complexos demais para que a ciência seja capaz de dizer muito sobre eles. As ciências sociais são úteis, mas não podem penetrar muito fundo.

O outro lado da questão é que a literatura e as artes freqüentemente oferecem insights penetrantes sobre como é o ser humano, como ele se comporta, como são suas inter-relações, que tipo de problemas ele enfrenta e assim por diante.

Mas esses insights não provam nada, só nos revelam coisas que podemos entender intuitivamente tão logo as percebamos. É por isso que eles são freqüentemente tão pungentes e têm tanto efeito sobre nós.

FOLHA - O sr. é autor de uma frase famosa e que já rendeu muita discussão: ‘Idéias verdes incolores dormem furiosamente’. Qual é sua opinião sobre poesia, enquanto lingüista?

CHOMSKY - É claro que a poesia tem uma enorme importância, e é por isso que encontramos alguma forma de poesia em toda cultura e tradição que se conhecem: de tradições orais, que datam de milhares de anos, até a poesia moderna e experimental, a poesia se encontra em toda parte.

Ela pode ser feita de modo brilhante e efetivo. Esse verso, em particular, foi mal entendido, e foi só um dos muitos exemplos que dei: era um exemplo porque, simultaneamente, refutava algumas teorias dominantes sobre o que torna as frases gramaticais.

Uma teoria é a de W.V. Quine [1908-2000], talvez o filósofo anglo-americano mais influente da era moderna. Para ele uma frase seria gramatical se tivesse sentido.

Mas, veja, você tem que ter cuidado ao afirmar isso. Outros, como o novelista e filósofo Michael Frayn, interpretaram isso erroneamente.

Ele apontou de modo bastante correto que você não pode dar sentido para isso, mas para tudo pode se dar um sentido. Para qualquer série de palavras pode se atribuir um sentido.

Se você inverter a ordem da frase, ‘Furiosamente dormem verdes incolores idéias’, você pode atribuir um sentido para ela também. Por esse critério, tudo seria gramatical.

Mas Quine está falando de sentido literal, e neste caso nenhuma das duas frases tem sentido literal, mas uma é gramatical, e a outra não.

De fato, a poesia joga com isso: um de seus principais procedimentos, discutido há 50 anos por William Empson [1906-84], em seu livro ‘Seven Types of Ambiguity’ [Sete Tipos de Ambigüidade], é justamente tentar lutar contra as leis gramaticais, criar uma tal concisão de expressão que force o leitor a completar o sentido.

April 17, 2007

Pirahã e a Gramática Universal por Emanuel Souza de Quadros

Há uma recente comoção na lingüística provocada pelos estudos de Daniel Everett sobre o Pirahã, uma língua falada às margens do rio Maici, que fica no município de Humaitá, no estado do Amazonas. Para o lingüista, essa língua representa um grande desafio à lingüística gerativa. No artigo "Cultural Constraints on Grammar and Cognition in Pirahã: Another Look at the Design Features of Human Language", publicado em outubro de 2005, no periódico Current Anthropology, Everett arrola algumas lacunas e fatos gramaticais que seriam característicos da língua; entre eles estão: a ausência de números ou qualquer termo quantificador, de palavras para designar cores, e, de forma central, a ausência de recursividade, uma propriedade central da linguagem humana, de acordo com Hauser, Chomsky e Fitch (2002). Além disso, o autor cita algumas características excepcionais da cultura Pirahã, como a ausência de ficção, mitos de criação e de arte.

Everett vai além da descrição dessas peculiaridades dos Pirahã, argumentando que todas elas derivam de uma única restrição cultural, o Princípio da Experiência Imediata (PIE): "a comunicação é restrita à experiência imediata dos interlocutores", na formulação do artigo da Current Anthropology. Dessa forma, teríamos um princípio cultural determinando, além de outros fatos culturais, aspectos gramaticais da língua. Para o lingüista, a observação de que aspectos centrais da gramática são diretamente afetados pela cultura que a cerca representa um grande desafio à noção de um módulo de linguagem autônomo e biologicamente determinado.

Uma grande cobertura da imprensa seguiu-se à publicação. Nada de inesperado: uma cultura exótica, uma língua com propriedades tidas como estranhas às de qualquer outra conhecida até então… notícia! Outra conseqüência das afirmações de Everett foi o crescimento do interesse da comunidade científica pelo Pirahã, incluindo algumas reações simpáticas e outras adversas ao trabalho do lingüista. Entre as críticas, encontra-se um artigo recente, "Pirahã Exceptionality: a Reassessment", publicado no Lingbuzz por Andrew Nevins, da Universidade de Harvard, David Pesetsky, do MIT, e Cilene Rodrigues, da Unicamp. Nesse artigo, os autores questionam a descrição de Everett dos fatos do Pirahã, mostrando evidências convincentes da existência de quantificadores, de palavras para designar cores, de recursividade, etc., avaliando sistematicamente as lacunas gramaticais propostas no artigo da Current Anthropology. A descrição de Everett da cultura Pirahã também é questionada, com base em outros trabalhos antropológicos que atestam a existência de ficção, mitos de criação e de arte. A análise lingüística dos autores desexoticiza a gramática da língua, mostrando que ela não representa para a hipótese da Gramática Universal nenhum desafio maior que o representado por qualquer das línguas já bastante conhecidas do mundo.

É claro que Everett não ficaria silencioso diante dessa réplica. A resposta, "Cultural Constraints on Grammar in Pirahã: A Reply to Nevins, Pesetsky e Rodrigues", que saiu há poucas semanas, reafirma sua posição quanto à excepcionalidade de algumas características da língua em questão, supostamente derivados de uma restrição cultural, questionando a interpretação dos fatos dada pelos três autores.

Quanto a mim, independente de qual se mostrar a descrição correta dos dados do Pirahã, as conclusões teóricas de Everett parecem infundadas sob um ponto de vista lógico. Em nenhum momento, o autor deixa clara qual é a conexão entre a suposta restrição cultural e as construções gramaticais que ele diz serem bloqueadas por ela. O status dessa "predição" não é precisado. Nos dois trabalhos referidos, o lingüista cita, por exemplo, a falta de recursividade como decorrente do PIE. Não há, no entanto, nenhuma razão para esperar que uma restrição cultural como "a comunicação é restrita à experiência imediata dos interlocutores" bloqueie construções recursivas como a subordinação. Imaginemos uma língua que estivesse mesmo sujeita a tal princípio. Por que haveria bloqueio de uma frase como "A menina que está sentada na cadeira que eu adoro está me olhando fixamente"? A língua poderia muito bem permitir frases como essa, contendo estruturas recursivas, que retratam experiências imediatas.

Outras supostas consequências do PIE parecem ser ainda menos relacionadas a esse princípio, e não há uma boa explicação do autor sobre como essa restrição funcionaria nesses casos. A suposta ausência de palavras para designar cores, também questionada por Nevins, Pesetsky e Rodrigues, com base na lista em (1), abaixo, não parece poder ser explicada por um princípio que exige referência à experiência imediata dos interlocutores - afinal, é justamente aí que as cores se manifestam!

(1) Cores em Pirahã

biísi ‘amarelo’, ‘laranja’, ‘vermelho’

xahoasai ‘azul’, ‘verde’

kobiaí ‘branco’

kopaíai ‘preto’

tixohói ‘roxo’

tioái ‘escuro’

Ademais, acreditar na hipótese de uma Gramática Universal, não implica, de modo algum, acreditar que o produto final, a língua, não é influenciado pela cultura circundante. Everett está correto quando diz que essa hipótese não prediz a influência da cultura sobre a língua, mas está errado ao insinuar que, por isso, ela é inadequada. Isso porque ela também não prediz o contrário - e não há razões para esperar que ela o fizesse. Trata-se de uma hipótese sobre uma faculdade da linguagem, geneticamente determinada, que os indivíduos da espécie humana trazem consigo em seu estado inicial. A interação dessa faculdade com outros sistemas cognitivos, que medeiam, por sua vez, a relação do indivíduo com a cultura é um outro problema. Se essa interação produz um estado final que, além de possuir propriedades determinadas pela Gramática Universal, apresenta características bastante ligadas ao meio sócio-cultural, não se pode concluir, daí, que a teoria que especifica o estado inicial está errada por não levar em conta a existência desses outros fatores que interagiram com o estado inicial na geração do produto final. Seria como dizer que uma especificação do estado inicial, geneticamente determinado, do corpo de um ser humano, é inadequada por não levar em conta o número e o formato das tatuagens que o indivíduo fará ao longo de sua vida. É mais ou menos o que diz Tecumseh Fitch, numa passagem trazida por um artigo da Folha Online:

…é um truísmo que a cultura molda a linguagem. É por isso que o brasileiro tem a palavra samba e o escocês tem a palavra haggis. E daí? As implicações disso para a Gramática Universal são nulas.

Conceitos Básicos - Morfologia por Tiago Martins

Com saudades de ler os primeiros textos sobre Morfologia e seguindo a idéia do Emanuel de fazer um post com "conceitos básicos", escrevo aqui algo para  responder a pergunta de um possível internauta  que digite no Google: O que é Morfologia?

            E ela é - segundo qualquer texto introdutório sobre o assunto - o estudo da estrutura, formação e categorização dos vocábulos. Se o caso for dar uma resposta  menos ligada à lingüística e mais relacionada com a gramática normativa, a morfologia então é definida como o componente gramatical que trata da estrutura interna das palavras.
            Mas o que é a palavra? E isso é outro ponto que irá estar presente em qualquer livro introdutório sobre o assunto. Não há como falar sobre Morfologia sem termos bem claramente o conceito de palavra.  
            Da perspectiva fonológica, a palavra é uma unidade acentual, um conjunto marcado por um só acento tônico. Sintaticamente, temos que uma seqüência de sons só pode ser definida como palavra se puder ser usada como resposta mínima a uma pergunta ou se puder ser usada em várias posições sintáticas (cf. Maria Filomena Spatti Sandalo, em Introdução à Lingüística). Essa definição de palavra através da Sintaxe é bastante discutível, mas é um meio fácil de explicar - por essa ótica - o conceito.  
            A definição morfológica de palavra é que palavra pode ser definida pela quantidade de raízes que possui. Ainda temos a definição semântica que nos diz que palavra é aquilo que possui apenas um significado. Mas é uma definição frágil, pois podemos contrapor dizendo que em fabricante e aquele que fabrica temos apenas um significado e sabemos intuitivamente que apenas o primeiro exemplo é uma palavra.
            É um pouco complexo de se definir “palavra”, mas parece que um conceito para tal não se pode dar isoladamente, tem de se ter uma concepção de palavra em níveis morfológicos, sintáticos, semânticos e fonológicos.
            Definindo palavra então, temos a unidade máxima da Morfologia.
Qual é sua unidade mínima?
 
            As unidades mínimas da morfologia são os elementos que compõe uma palavra. O conhecimento desses elementos é o que nos permite entender uma palavra que nunca ouvimos antes. Se nunca ouvimos Nacionalização, podemos descobrir o que significa se soubermos o significado de nação e o significado dos elementos que derivam novas palavras no português, como -al, -izar e -ção.    
 

            A unidade mínima e o objeto de análise da Morfologia é o Morfema, definido como a menor unidade dentro de uma palavra que carrega um significado. Em (Kehdi, 1989) há uma comparação com a fonologia: Morfemas são significativos, enquanto os fonemas são distintivos.

Estudo do Componente Morfológico:

Os estudos morfológicos podem ser divididos em quatro correntes: A corrente PALAVRA e PARADIGMA, puramente descritivista; A corrente ligada ao historicismo, sem grandes evoluções; A corrente estruturalista de ITEM e ARRANJO e a corrente gerativista, chamada de ITEM e PROCESSO. O foco deste post está ligado a estas duas últimas correntes.  
 
Estruturalismo (Escola de Item e Arranjo)

            A partir do estruturalismo europeu com Saussure, passa-se a estudar a língua de uma perspectiva sincrônica. Paralelo à vertente européia surge o estruturalismo norte-americano com Edward Sapir e Leonard Bloomfield. Os lingüistas dessa época passaram a descrever línguas indígenas e assim chegaram ao conceito de MORFEMA.
            A escola é assim chamada, pois se baseava no elemento (ITEM) e na sua distribuição na língua (ARRANJO).

            Segundo (Rocha 1998), a visão estruturalista desenvolveu com bastante rigor as técnicas de depreensão dos morfemas. Em síntese, diz ele, o estruturalismo se preocupou basicamente com duas coisas:

a) fazer a segmentação dos morfemas;

b) proceder à classificação dos morfemas;

            A morfologia estruturalista se aproxima bastante da morfologia da Gramática normativa. Como já foi citado, é uma parte da gramática que trata da estrutura interna das palavras, que – complementado – descreve sua formação e estrutura.  
            Nessa morfologia, diferente da morfologia gerativa, a preocupação era em separar e classificar os morfemas de uma língua, como veremos agora.
 
Unidades Mínimas Significativas:
 
            A palavra é um elemento de constituição complexa cuja análise poderá conduzir a uma base mais rigorosa (cf. Kehdi).
            Para chegarmos a essa base estabeleceremos que:

  1. As comparações devem ser feitas por pares.
  2. Cada par deve apresentar UMA SÓ relação de semelhança e UMA SÓ relação de diferença.
  3. Os elementos destacados devem ter um valor significativo.

Falávamos

Falava

SEMELHANÇA: Falava.
DIFERENÇA: -mos.
 
-mos, é um elemento significativo, pois indica que a ação é expressa por um grupo de pessoas, incluindo o falante.
 
Falava

Fala
 
SEMELHANÇA: Fala.
DIFERENÇA: -va.
 
-va, indica pretérito imperfeito do indicativo.
 

A comparação com as outras formas do mesmo verbo nos conduz a interpretações corretas sobre a divisão dessa palavra em unidades mínimas significativas. Falava, falaremos, falariam, falasse, falaste e.t.c Isso nos indica que muito provavelmente a seja a vogal temática desta palavra. E que Fal-, seja o radical. 

Como se depreende um morfema?
É através da COMUTAÇÃO (ou substituição, segundo os lingüistas norte-americanos). Quando na comparação de pares mínimos a substituição de um traço por outro acarreta uma mudança de significado, realizamos uma COMUTAÇÂO.
 
Em AMAMOS substituindo por AMAIS obtém-se uma mudança de significado.
No primeiro caso temos 1a. pessoa do plural e no segundo caso temos 2a. pessoa do plural. Foi feita uma COMUTAÇÃO desse par mínimo e como obtivemos diferença de significado temos dois morfemas /mos/ e /is/.                 

A Dupla Articulação da Linguagem:
           Martinet estabeleceu a Teoria da Dupla Articulação da Linguagem em que a PRIMEIRA ARTICULAÇÃO corresponde aos Monemas e a SEGUNDA ARTICULAÇÃO corresponde aos Fonemas. 
Segundo esta teoria, as unidades mínimas significativas são os MONEMAS.
 
            Os Morfemas de valor lexical (adjetivos, substantivos) e que pertencem a um inventário aberto são os LEXEMAS ou SEMANTEMAS, porque encerram em cada vocábulo o elemento semântico básico.
            Os Morfemas de valor gramatical (afixos, preposições) e que pertencem a um inventário fechado são os MORFEMAS.

Alomorfia: 
            Assim como os fonemas, na morfologia também temos casos de DISTRIBUIÇÃO COMPLEMENTAR: onde utilizamos uma variante, não podemos utilizar outra.
            Em INFELIZ, por exemplo, a comparação com FELIZ nos faz depreender o morfema –in. Esse mesmo morfema realiza-se como i - antes de radicais iniciados por L-, M- e R-> Ilegal, Imoral, Irreal. Essas diferentes realizações são designadas como ALOMORFES.
            Exemplo: MIM realiza-se como /mim/ após qualquer preposição diferente de /com/, seguindo de COM temos a variante /migo/.
 
            No adjetivo AMÁVEL, depreendemos o MORFEMA –vel. Esse morfema se realiza como –bil quando antecede morfemas iniciados por vogal:
AMA –BIL –IDADE. O significado é o mesmo, ou seja, -bil é alomorfe de -vel.  
 
            A existência de diferentes alomorfes para um mesmo morfema remete-nos ao problema da escolha de um deles para representar o conjunto. O alomorfe selecionado recebe o nome de FORMA BÁSICA.  

Critérios para se Estabelecer a Forma Básica: 
 
a) CRITÉRIO DISTRIBUCIONAL:
Dentre as variantes existentes é escolhida como forma básica a mais freqüente. No caso de MIM/MIGO, mim ocorre em um maior número de casos na língua, logo é selecionado como a forma mais básica.
              
b) CRITÉRIO DA REGULARIDADE DE FORMAÇÃO:
Usa-se este critério quando os alomorfes apresentam a mesma freqüência. Por exemplo, o futuro do presente do indicativo é expresso por –rá- e –re- que ocorrem três vezes cada um. (Amarás, amará, amarão) e (Amarei, Amaremos, Amareis). De acordo com o critério estatístico os morfemas indicativos de tempo e modo apresentam todos formas básicas em –a e possuem variantes em –e. Logo, -rá é considerado como FORMA BÁSICA.  
 
c)CRITÉRIO DE ISOLAMENTO:
Nos casos em que uma das variantes ocorre isoladamente, enquanto outra só aparece atrelada a um novo morfema, é a primeira que deve ser forma básica.
CHAPÉU possui a variante CHAPEL-, mas esta variante só é utilizada quando seguida de um morfema iniciado por vogal: Chapelaria. Então a forma básica deve ser a primeira. 
 
Tipos de Morfemas:
 
RADICAL: É o elemento irredutível e comum às palavras de uma mesma família.  Ex: Ferro/Ferradura/Ferramenta. 
 
AFIXOS: São os morfemas que se anexam ao radical para mudar-lhe o sentido (fazer/desfazer) ou para acrescentar uma idéia secundária. (livro/livreco).
 
            As principais propriedades dos prefixos e sufixos é se anexarem ao radical para mudar seu sentido ou acrescentar uma idéia secundária, também modificam a classe de um vocábulo. A presença de um prefixo no radical não modifica sua classe, mas a presença de um sufixo modifica a classe gramatical de uma palavra.
 
DESINÊNCIAS: São os morfemas terminais de palavras variáveis. Servem para indicar as flexões de gênero e número (Desinências Nominais), e de Modo e Tempo, Número e Pessoa (Desinências Verbais). As desinências colocam a palavra na frase; são morfemas que não se pode dispensar, pois toda a forma verbal portuguesa está associada ás noções de tempo e modo e número e pessoa.  
 
DESINÊNCIAS DE GÊNERO: Exprime-se através de FLEXÃO (garoto/garota), de DERIVAÇÃO (conde/condessa) ou de HETERONÍMIA (bode/cabra).
>> Mattoso propõe que a flexão de masculino se opõe em 0 ao feminino em –a, ao contrário do que prevê a Gramática Normativa. O argumento é que não podemos considerar –o como marca de masculino simplesmente por se opor à –a, porquê esse mesmo raciocínio nos obrigaria a considerar como masculino –e (Mestre/mestra). E não podemos considerar –e como masculino, pois temos exemplos como (a ponte). A solução é considerar o masculino como forma desprovida de flexão específica. Exemplo:
                  RADICAL       VT          DG      DN   
                   Menin    +    o   +       0  +   0
DESINÊNCIAS DE NÚMERO: A ausência de desinência para o singular permite-nos dizer que no referente ao número o singular é caracterizado pelo morfema zero. O plural é geralmente caracterizado por –s. Temos casos, palavras terminadas por consoantes em –r e –z, que a formação do plural em nomes como Mar e Cruz é em –es. Como: Mares e Cruzes. Pode-se explicar sincronicamente dizendo que nestas duas palavras foi acrescentado um alomorfe –es da desinência –s. De acordo com isso pessoas com menos escolarização diriam: dois pires e 1 pir. Ou podemos explicar que a desinência do plural é sempre –s, sem variantes, e em uma análise diacrônica dizer que o –e vem das formas *mare e *cruze. 
 
DESINÊNCIAS VERBAIS: Há dois tipos de desinências verbais; as que exprimem modo e tempo (DMT) e as que exprimem número e pessoa (DNP). As desinências modo temporais vêm antes das desinências número-pessoais, isso ocorre em português e em outros idiomas.
Exemplo: Desinência MT do presente do Indicativo.
Canto – CANT (Radical) + o (Vogal Temática) + 0 (DMT)
 
VOGAIS TEMÁTICAS NOMINAIS: As vogais temáticas nominais, em português, são –a, -e, -o. Assim, poderia haver confusão entre VT e DG, mas não há. Enquanto –o e –a desinenciais comutam com –a e –o para exprimir mudança de gênero (menino/menina), isso não ocorre com as vogais temáticas (livro e *livra), -o e –a temáticos não se associam às noções de masculino e feminino.
A vogal temática –o apresenta em alguns lugares a variação com –u. Por exemplo: Conceito/conceitual/conceituoso. 
Mar e Lar e Cruz, por ex, seriam atemáticos, já que –es é alomorfe.
 
VOGAIS TEMÁTICAS VERBAIS: São três, no português: -a (primeira conjugação) –e (segunda conjugação) –i (terceira conjugação). Pode-se identifica-las pelo infinitivo, são as vogais que antecedem o –r desinencial:
am-a-r,vender,partir. 
 
Gerativismo:
 
            O gerativismo de Noam Chomsky introduziu uma nova concepção nos estudos da linguagem. Dentro da abordagem gerativa, palavras são formadas por regras e/ou analisadas por regras de modo que o estabelecimento de unidades como morfemas e afixos é desnecessário.
            A idéia da teoria gerativa é que em vez de um léxico de afixos, a morfologia de uma língua deveria consistir em um conjunto de regras que descreveriam as modificações das formas existentes que estariam relacionadas com outras formas.
            A teoria gerativa responde perguntas que o estruturalismo não pode responder, como:
1)       Por que formamos novas palavras?
2)       Quando formamos novas palavras?
3)       Quando variamos uma mesma palavra e quando criamos uma nova?
4)       Existem palavras impossíveis?
                            
O objetivo de uma teoria morfológica, segundo SCALISE (1984:41) é o de definir as ‘novas palavras’ que os falantes podem formar, ou mais especificamente, as regras através das quais as palavras são formadas. 
 
Todas essas informações foram baseadas nos livros "Morfemas do Português" de Valter Kehdi e "Estruturas Morfológicas do Português" de Luis Carlos de Assis Rocha. Tais informações bem diretas e precisas, como costumam ser os textos bastante introdutórios. Kehdi, por exemplo, não problematiza várias questões que seriam dignas de uma maior discussão. Mas isso, acredito, basta para responder O que é Morfologia? E já fica a sugestão para que os outros autores do blog continuem com a série "Conceitos Básicos".   

March 18, 2007

ReVEL - Ano 5 - Número 8 por Emanuel Souza de Quadros

Já está online o novo número da Revista Virtual de Estudos da Linguagem (ReVEL). Os temas deste semestre são Semântica, Pragmática e Filosofia da Linguagem. Além de artigos e resenhas, a edição traz, como de costume, entrevistas com gente de peso: Jerry Fodor, falando sobre Semântica; Heronides Moura, Pragmática; e John Searle sobre Filosofia da Linguagem.

A próxima edição terá como temas Sociolingüística e Variação Lingüística.

February 27, 2007

Loucos mentais por Emanuel Souza de Quadros

Mais uma das perguntas que alguém fez ao Google, sem saber que cairia no Language Bar. A pergunta é ótima. O melhor é que o Google nos traz como o primeiro resultado da pesquisa. Aparentemente, então, somos especialistas no assunto e não há ninguém melhor para responder à pergunta: onde vivem as pessoas que ficaram loucas mentalmente?

Resposta: na França, é claro.

Parece que alguns franceses estão querendo tornar o francês a língua oficial da União Européia para questões legais, com a justificativa de que esta é a mais precisa, rigorosa e confiável das línguas européias. De acordo com Nicole Fontaine, ex-presidente do Parlamento Europeu, uma das cabeças da história:

Essa língua[, o francês,] é reconhecida por ser analítica, precisa e clara, com uma sintaxe que pode se adaptar a todas as intenções de pensamento e é particularmente apta às definições e expressões da Lei.

Uma outra citação beirando o ridículo, de Maurice Druon, poderia até ser engraçada, se não estivéssemos falando de um autor e membro da Academia Françesa, instituição na qual (tremam…) nossa Academia Brasileira de Letras buscou inspiração.

O italiano é a língua da canção, o alemão é bom para a Filosofia, e o inglês para a poesia. O francês é melhor quanto à precisão, por seu rigor. É a língua mais segura para questões legais.

Não consigo pensar em outra definição para "ficar louco mentalmente", que não seja algo relacionado a essa tentativa patética de afirmação lingüística. Era de se esperar que Monsieur Druon soubesse que é possível fazer belas canções, Filosofia de peso e boa poesia em qualquer língua do mundo, assim como é possível falar besteiras - ao menos nisso, já vimos que francês e português se igualam.

 


 

Pensei no rigor e na precisão da língua francesa quando me deparei com a seguinte passagem na biografia de Maurice Druon, que está na Wikipédia:

(…) foi Secretário Perpétuo desta Instituição, a partir de 1985, mas escolheu em 1999 renunciar a esta última função, cedendo o lugar a Hélène Carrère de Encausse.

Imaginei que isso só poderia acontecer na versão portuguesa da Wikipédia, porque, claro, na versão francesa, um secretário perpétuo jamais deixaria de ser secretário. Parecia um claro erro de editores brasileiros. Mas na Wikipédia francesa, a decepção:

(…) dont il en sera secrétaire perpétuel à partir de 1985. Mais il choisit en 1999 de renoncer à cette dernière fonction, cédant la place à Hélène Carrère d’Encausse.

Péssima piada, mas ao menos a pergunta inicial foi satisfatoriamente respondida.

February 24, 2007

Conceitos Básicos - Fonologia por Emanuel Souza de Quadros

Estava dando uma olhada nas estatísticas de visitação do blog, vendo as palavras-chaves que trazem as pessoas até aqui pelo Google. Entre coisas como "sacanagem", "modelo grátis de monografia de língua portuguesa" e "linguagem hamster"(!), lá estava: "O que é fonologia?"

Não vou deixar a pergunta sem resposta. Sempre há a possibilidade de que a pessoa em questão tenha se interessado por outros textos daqui e resolva voltar. Se não por isso, ao menos pelos visitantes potenciais que, porventura, tiverem a mesma pergunta a fazer. Além disso, o post inaugura uma possível série "Conceitos Básicos" e uma respondendo a algumas das perguntas que, por vezes, trazem pessoas para o Language Bar. O que segue é uma exposição simples de alguns fenômenos relevantes e das questões que se colocam no estudo dessa disciplina.

Afinal, o que é Fonologia?

Um bom ponto de partida é dizer que a Fonologia é a parte do nosso conhecimento lingüístico que diz respeito à realização física da linguagem. É esse conhecimento que está por trás de nossa capacidade de transmitir as palavras e sentenças de um língua através de sinais sonoros e de realizar o caminho inverso, ou seja, identificar palavras e sentenças em determinados sinais acústicos recebidos. A Fonologia, contudo, não é a própria realização sonora, em seu estado bruto. Tentando tornar isso mais claro, podemos olhar para um exemplo do lingüista Edward Sapir (1884-1939), de seu celebrado artigo de 1933, "The Psychological Reality of Phonemes" (A realidade psicológica dos fonemas).

Conta o lingüista que em Sarcee, uma língua atapascana do Canadá, há duas palavras, ambas pronunciadas dìní (o acento grave(`) marca um tom baixo, e o acento agudo(´) marca tom alto). Ainda que idênticas, elas têm significados distintos: ‘este’ e ‘isto faz um som’. Seu informante, John Whitney, insistia na existência de uma diferença sonora entre as duas palavras; no entanto, nem ele, nem os ouvidos treinados de Sapir conseguiam precisar a suposta distinção fonética. Após algumas repetições, o lingüista identificava, por vezes, algumas diferenças de acento, tom e aspiração, que não eram muito consistentes. O informante sugeriu uma distinção bem diferente e inesperada: a de que dìní, no sentido de ‘isto faz um som’, terminava com um "t". No entanto, nenhum [t] era realmente audível. Após novos testes e repetições, e apesar de ter sentido a presença de um "t", John teve de admitir não poder ouvi-lo e nem sentir sua língua articular um [t]. A pergunta que imediatamente surge é: qual é a causa dessa ilusão fonética (termo de Sapir)?

À medida que aumentou seu conhecimento da estrutura do Sarcee, o lingüista pôde obter uma resposta sobre a fonte desse "t". A pista crucial é o fato de que quando determinados sufixos são adicionados, dìní ‘este’ e dìní ‘isto faz um som’ comportam-se de maneiras diferentes. Diante do sufixo relativo -i, por exemplo, um [t] emerge em ‘isto faz um som’, mas não em ‘este’, caso em que i + i contraem-se em um a longo, simbolizado por [a:].

    -i
dìní ‘isto faz um som’     dìnít’i
dìní ‘este’     dìná:

A observação relevante é de que a consoante intuída por John Whitney em dìní ‘isto faz um som’ não era fictícia. Ela faz parte da palavra, mas só é pronunciada em situações específicas, como diante do sufixo -i. Ilusões fonéticas como essa mostram que a percepção de uma palavra não depende apenas da informação acústica que recebemos. Como vimos, o informante sentia a presença da consoante latente em dìní, embora ela não fosse pronunciada, e essa presença garantia o contraste entre as duas palavras. O conhecimento necessário para perceber o "t", que Sapir não possuía, era de um caráter muito específico: ser falante de Sarcee e, portanto, saber que, nessa língua, algumas consoantes não são pronunciadas no final de uma palavra, se não forem seguidas por uma vogal, como a do sufixo -i. Sapir, então, postula uma representação fonológica, num nível mais abstrato que a representação física da palavra, em que a consoante "t" está presente.

Comentando esse exemplo de Sapir, Kenstowicz (1994) coloca algumas questões a serem explicadas por uma teoria fonológica:

  • Por que falantes de Sarcee, quando treinados para representar sua língua ortograficamente, são levados por sua intuição a representar dìní ‘isto faz um som’ como dìnít?
  • Como uma criança que cresce numa comunidade lingüística Sarcee descobre essa "consoante latente", embora ela esteja sempre ausente na pronúncia dessa palavra?

Kenstowicz coloca como uma primeira aproximação à segunda pergunta o fato de que a consoante aparece, de fato, em palavras relacionadas, como dinit’-i. Mas isso ainda o leva a outras questões, que devem ser respondidas:

  • O que, precisamente, queremos dizer quando falamos em "palavra relacionada"?
  • Como é possível que a pronúncia de uma palavra influencie o modo como outra é pronunciada?
  • Por que a influência não acontece na direção oposta; isto é, por que não é a ausência de consoante final na forma isolada da palavra que influencia apagamento do t na forma sufixada?

"Dar respostas científicas sérias a esse tipo de questão é uma parte essencial do programa de pesquisa da fonologia gerativa" (p. 5)

Note-se que o autor se refere, especificamente, à fonologia gerativa. No entanto, qualquer teoria fonológica que se proponha dar conta do conhecimento que os falantes têm da fonologia de sua língua deve oferecer respostas a essas questões.

Não são apenas casos de "segmentos fantasmas" que revelam disparidades entre o que há no sinal sonoro e o que percebemos através de nosso conhecimento fonológico. O português oferece um exemplo interessante de como sons podem se comportar de maneiras diferentes, de acordo com o ambiente estrutural em que ocorrem. Se contrastarmos duas palavras como casa e caça, ignorando suas formas ortográficas, vemos que o que as distingue é a segunda consoante, pronunciada como [z] em casa e como [s] em caça. Dizemos, então, que há um contraste entre esses dois sons no português. Entretanto, contrastes nem sempre têm a mesma força em todos os ambientes possíveis: ao passo que essas duas consoantes são potencialmente contrastivas no meio e no início de palavras (e.g. [z] em zinco contrasta com [s] em cinco), no fim de vocábulos isolados, essa distinção não ocorre em português. Nesse ambiente, só ocorre a pronúncia de [s], como podemos observar mesmo em palavras que são grafadas com z, e.g. paz, rapaz, faz, todas pronunciadas com [s].

A falta de contraste nesse ambiente fica ainda mais evidente, quando vemos que essas palavras são pronunciadas com [z], sob certas condições, como diante de uma vogal, e.g rapa[z]es, fa[z]em, rapa[z] armado. Ou seja, em ca[z]a e ca[s]a, vimos que uma consoante não poderia ser trocada pela outra, na pronúncia, sem que houvesse distinção de significado; em exemplos como rapa[s] e rapa[z] armado, vimos que os mesmo sons que distinguiam significados no exemplo anterior, agora não o fazem: eles aparecem em contextos diferentes, sem que deixemos de falar da mesma palavra. Por que, exatamente, isso ocorre? Cabe a uma teoria fonológica oferecer explicações. Entre outras questões, algumas que se colocam são:

  • Por que alguns segmentos são contrastivos e outros não?
  • Por que certos contrastes deixam de ocorrer em determinados ambientes?
  • Qual a melhor maneira de se caracterizar um ambiente fonológico?
  • Como uma criança que cresce numa comunidade de falantes de português consegue aprender essas generalizações, sem instrução explícita?

Além disso, uma teoria fonológica também deve dar conta da observação de que, em qualquer língua do mundo, certas combinações de sons são possíves, enquanto outras não o são. Isso me lembra de uma de minhas primeiras aulas de Fonologia na faculdade, em que o professor propôs uma brincadeira, justamente para falar sobre essa observação - só que nós, alunos, ainda não sabíamos dessa intenção. Ele pediu que escrevêssemos uma palavra fictícia em um papel, inventando-a na hora. O professor escreveu algumas das invenções no quadro, classificando-as entre as que seriam possíveis e as que eram impossíveis no português. O objetivo era explicar o fato de que algumas delas não poderiam existir, porque continham seqüências de segmentos que não eram permitidas, enquanto outras, apesar de inexistentes (ao menos até aquele momento), eram palavras possíveis, porque respeitavam as restrições sobre combinações de sons, que são naturalmente impostas à linguagem humana e, mais especificamente, nesse caso, à língua portuguesa.

Não lembro o que meus colegas inventaram na brincadeira, mas imagine, à guisa de exemplo, que uma das criações tenha sido rtapmo - já que estávamos apenas escrevendo, a criatura hipótetica que inventou essa palavra não precisou se preocupar em pronunciá-la. Evidentemente, a invenção seria classificada como uma das que, além de inexistentes, são impossíveis. Acontece que a combinação de consoantes r + t não é permitida em início de palavras, apesar de poder ocorrer internamente, em vocábulos como parto e certo. Outra combinação proibida, existente nessa pseudo-palavra, é p + m, que também não seria permitida em posíção inicial - e em nenhuma outra. Note que a questão não é apenas "que som pode se unir a que som". Há, ao menos, dois tipos de assimetria a serem explicados aí. Primeiramente, há uma diferença entre as posições que as combinações de consoantes podem ocupar na palavra: como vimos, enquanto rt não é possível em posição inicial (nem em posição final), a mesma seqüência é permitida no meio de uma palavra (e.g. carta). Em segundo lugar, a relação de precedência entre os segmentos não é simétrica: se alterarmos essa relação entre r e t, obtendo tr, o resultado é uma combinação permitida no início de palavras, e.g. trabalho, trator, e em posição interna, e.g. catraca, patrão. Invertendo p + m, obtemos a seqüência mp, que, ao contrário de seu inverso, pode figurar no meio de uma palavra, como acontece em campo.

A palavra que eu "inventei" na brincadeira foi classificada como uma das que eram possíveis, pois ela respeita as condições impostas pelo português à combinação de segmentos. Era esquisunfo! De certa forma, a previsão do professor de que se tratava de uma palavra possível foi corroborada, porque o Esquisunfo já existia. Era o nome que alguns amigos e eu, quando crianças, dávamos a um monstro imaginário que habitava nosso condomínio. É que um de nosso vizinhos era um saxofonista. Pelo jeito, ele não era muito bom, porque os menores do grupo, dentre os quais eu me incluía, tinham medo do bicho que anunciava sua chegada com aquele barulho. Aliás, se algum leitor estiver pensando num nome para dar a uma criança, fica aí a sugestão!

Qual a natureza das restrições sobre que segmentos podem se combinar em uma determinada língua e de que maneira? O que define uma palavra como possível ou impossível em uma língua, do ponto de vista fonológico? Como uma criança toma conhecimento dessas restrições? Essas questões, ao lado das outras que foram apontadas ao longo do texto, são algumas das perguntas que se colocam diante de um fonólogo.


Referências e recomendações de leitura:

Bisol, Leda (2005). Introdução a estudos de fonologia do português brasileiro. 4ª edição. Porto Alegre: EDIPUCRS.
Kenstowicz, Michael (1994). Phonology in Generative Grammar. Oxford: Blackwell.
Odden, David (2005). Introducing Phonology. Cambridge: Cambridge University Press.
Sapir, Edward (1981). A realidade psicológica dos fonemas. In DASCAL, M. (org). Fundamentos Metodológicos da Lingüística - Vol. II - Fonologia e Sintaxe. Campinas: IEL- Unicamp, p. 37-55.

February 22, 2007

Assinando o Language Bar por Emanuel Souza de Quadros

Nada sobre Lingüística, mas algo importante de lembrar.

Como a maioria dos blogs, o Language Bar utiliza um sistema de RSS (Really Simple Syndication). Não é algo suficientemente popular na Internet ainda; muitos sites disponibilizam esse serviço, mas a maior parte dos usuários ainda não sabe utilizá-lo. Essa é a motivação deste post.

RSS é uma ferramenta que te permite "assinar" (de graça, é claro!) um site, de modo que não seja necessário visitá-lo periodicamente, à espera de atualizações. O computador faz isso por você, checando e baixando conteúdo, no momento em que ele se torna disponível. Ou seja, assinar o feed RSS de um blog significa não perder nenhuma de suas atualizações, sem que seja necessário visitá-lo todos os dias. As vantagens práticas são enormes. Um exemplo: eu recebo atualizações de mais de 150 sites - uma grande quantidade de conteúdo. O legal da história é que eu não preciso visitar esses 150 sites todos os dias para garantir que eu não perca nenhuma atualização. Eu as recebo automaticamente, num lugar só; meu único trabalho é filtrar o que há de relevante para eu ler. E o melhor de tudo é que, ao contrário de assinaturas de revista ou de jornal, eu não pago nada por isso.

Para assinar, basta utilizar algum agregador de conteúdo, como o Google ReaderGreatnews ou Bloglines e adicionar o endereço do nosso feed: http://feeds.feedburner.com/languagebar; se quiser, também dá para receber os comentários que são postados, adicionando o endereço: http://languagebar.blogsome.com/comments/feed/.

February 14, 2007

2007 - 1957 = 50 anos de Syntactic Structures! por Emanuel Souza de Quadros

Este ano marca o qüinquagenário de um evento importante na história da lingüística: a publicação de Syntactic Structures. Embora não se trate da primeira obra de lingüística gerativa, trata-se da primeira exposição da concepção chomskiana de gramática como uma teoria da linguagem que recebeu, de fato, a atenção da comunidade lingüística. Nessa obra, Chomsky demonstrou a possibilidade de se propor uma teoria formal da linguagem humana, não-empirista, sujeita às mesmas restrições válidas na construção e avaliação de teorias das ciências naturais. Além de estabelecer essa concepção como o ponto de partida para as discussões subseqüentes em teoria lingüística, a obra chamou a atenção dos psicólogos e filósofos da época, ao ressaltar um aspecto tido como crucial à linguagem humana: a criatividade ilimitada, ainda que governada por regras.

Saber o ano de publicação é fácil, mas alguém que se interesse pela história da lingüística, como eu, deve se perguntar quando, exatamente, o livro foi publicado… Kai von Fintel, do Semantics etc., tem um post dedicado a essa questão. O que ele encontrou é um artigo do Professor Jan Noordegraaf da Vrije Universiteit Amsterdam, intitulado "On the Publication Date of Syntactic Structures: A Footnote to Murray (1999)", disponível para download.

O texto aponta fevereiro de 1957 como o mês de publicação do livro, em resposta a um artigo publicado em 1999, por Stephen O. Murray, que colocava "novembro ou dezembro" como provável período de publicação. As duas evidências cruciais são:

  • No número 7 do volume 124, datado de 14 de fevereiro de 1957, da Nieuwsblad voor de boekhandel, um jornal semanal dos livreiros holandeses, Syntactic Structures é anunciado na página 129 como um livro recém-publicado. Na falta de um registro oficial de livros lançados, esse semanário é considerado como a fonte mais confiável de datas de publicação na Holanda.
  • Numa carta endereçada a Bernard Bloch (1907-1965), editor da Language na época, Robert B. Lees escreveu, no dia 22 de fevereiro de 1957, sexta-feira, que Syntactic Structures havia sido "publicado […] na semana passada".

Less foi um dos primeiros lingüistas a terem acesso à obra e a lhe darem a atenção merecida. Nas palavras do próprio Chomsky (1977:122), "[a]s questões de gramática gerativa chamaram a atenção dos lingüistas graças à publicação, em 1957, da resenha minuciosa que Lees fez de Syntactic Structures, em Language. Suponho que, sem esse artigo, a monografia não teria sido conhecida."

Dadas as evidências, então, sigo a sugestão de Kai von Fintel de declarar o dia 14 de fevereiro de 1957 como a data oficial de publicação de Syntactic Structures. É por isso que este post foi aparecer logo hoje, no qüinquagenário da obra!

Para terminar, também via Semantics etc., uma carta de Noam Chomsky a Cornelis van Schooneveld, editor da série Janua Linguarum, da Mouton:

Carta de Noam Chomsky a Cornelis van Schooneveld

A carta acima faz parte de uma exposição da biblioteca da Universidade de Leiden, que traz, além dessa carta e de outros documentos e fotos interessantes da coleção de van Schooneveld, uma foto do editor com Roman Jakobson (de costas).

 

Chomsky, N. (1957) Syntactic Structures, Janua Linguarum Series Minor, 4, The Hague: Mouton.

Chomsky, N. (1977) Dialogues avec Mitsou Ronat trad. em português: Diálogos com Mitsou Ronat S. Paulo, Cultrix, 1980.

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