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Learning Brazilian Portuguese por César Gonzalez

E ainda dizem que o Português não é ensinado como língua estrangeira.

Navegando pela internet em busca de epenthetic vowels no Google acabei num blog que faz parte de um projeto de uma Universidade Americana. O blog falava da Lição 22: Epenthetic Vowels (wow, fancy word!). Associado ao blog, encontrei o site do projeto Tá Falado.

Ouvi uma das lições (Grammar Lesson 12:  Personalized Infinitive, Paying for Your Education) e ela me surpreendeu. É bem interessante, quase que um diálogo entre três pessoas discutindo o infinitivo flexionado. Eles fazem comparações constantes com o inglês e o espanhol (o curso se destina especialmente aos falantes de espanhol). Eles se valem de um diálogo em português, que é destrinchado aos ouvidos do estudante.

Fica aqui a sugestão: visite o site. Sugira ele ao seu amigo estrangeiro querendo aprender o português. Se trabalhas com português para estrangeiros, entre em contato com os organizadores do site. Se não se encaixa em nenhuma das possibilidades anteriores, tente entender sua língua materna como um estrangeiro a vê… pode ser uma experiência interessante.


Aprendendo Italiano com os Simpsons por César Gonzalez

Buscando language acquisition no Google Video podemos encontrar coisas muito interessantes. Inclusive, decobrir como o Milhouse aprendeu italiano. Parece que no caso dele foi o input da avó que garantiu uma segunda língua.

 


Glottopedia por Emanuel Souza de Quadros

Vale a pena dar uma olhada na Glottopedia - um novo wiki sobre Lingüística, criado por Martin Haspelmath e Sven Naumann.


C#NS##NT#S por César Gonzalez

Acabo de receber um e-mail com uma interessante mensagem:

3M D14 D3 V3R40, 3574V4 N4 PR414, 0853RV4ND0 DU45 CR14NC45 8R1NC4ND0 N4
 
4R314. 3L45 7R484LH4V4M MU170 C0N57RU1ND0 UM C4573L0 D3 4R314, C0M 70RR35,
P4554R3L45 3 P4554G3NS 1N73RN45. QU4ND0 3575V4M QU453 4C484ND0, V310 UM4
0ND4 3 D357RU1U 7UD0, R3DU21ND0 0 C4573L0 4 UM M0N73 D3 4R314 3 35PUM4.

 

Está certo que não é difícil para um falante de português acostumado à leitura entender o que está escrito aí.  Exitem algumas pequenas regras que mudam as letras das palavras por números de formas semelhantes. Algo como E » 3; A » 4 e T » 7 (dentre outras). O e-mail não traz nada muito especial, nada muito novo. E alguém poderia argumentar que letras e números são muito parecidos para criar um real obstáculo.

Entretanto, o e-mail me lembrou de um argumento Marina Nespor em um mini-curso oferecido por ela durante o Seminário Internacional de Fonologia desse ano. A fonóloga italiana, preocupada com a aquisição de línguas, trouxe a hipótese de que as consoantes de uma língua, de um lado, seriam as responsáveis pela compreensão semântica. As vogais, por outro lado, seriam as responsáveis por indicações gramáticais. Se assim fosse, crianças em fase de aquisição da linguagem teriam mais uma dica nos dados do input para ajudar na segmentação da cadeia da fala em frases fonológicas, palavras, pés, sílabas e outras categorias prosódicas, que parecem ser importantes para a aquisição.

Um dos argumentos a favor dessa hipótese está nesta sentença:

#A#IA #OI# #A##O##O# #A#UE#A #A#A.

Nela todas as consoantes das palavras foram substituídas por símbolos e nenhuma leitura pode ser feita, nenhum significado pode ser atribuído. Entretanto, consideremos a sentença que segue:

H#V## D##S C#CH#RR#S N#Q##L# C#S#.

A sentença é simples: Havia dois cachorros naquela casa. E parece que conseguimos ler sem muitos problemas. Parece que o significado da sentença é desvelado com uma substancial ajuda das consoantes dela. Claro, alguém poderia objetar, dizendo que sabemos quais são as vogais pois elas aparecem no meu primeiro exemplo. Por isso, aqui está outra sentença para apreciarmos:

M#RC#S V#V# C#M S##S #V#S.

Não estou dizendo que consoantes são tudo o que se precisa para compreencer um palavra. Certamente, as vogais são tão importantes quanto. Além do mais, não está claro para mim a relação de vogais e gramática. Apesar disso, a hipótese é interessante e merece ser discutida. Por isso trouxe ela para o Language Bar.

P.S.: Se alguém possuir o artigo de Nespor discutindo essa questão, por favor, entre em contato.


Mais um argumento a favor do Inatismo por César Gonzalez

Um estudo recente mostra que a bebês podem diferenciar línguas através de estímulos visuais como os movimentos faciais envolvidos na fala. O estudo foi feito com bebês monolíngües e bilíngües Inglês-Francês canadenses. A NewScientist pergunta se nós adultos conseguimos fazer o mesmo: tentem os vídeos alfa e beta

Os pesquisadores testaram os bebês através de vídeos mudos de adultos falando em Inglês e Francês. Os bebês assistiam ao vídeo em apenas uma das línguas - por exemplo,  Inglês - até o momento em que se desinteressassem. Quando isso acontecesse, o falante adulto que estava sendo filmado substituía a língua que estava utilizando - no nosso exemplo, para o Francês. Esperava-se que, se os bebês notassem a diferença, eles voltassem a prestar atenção no vídeo.

Os resultados mostraram que os bebês percebiam a mudança de código lingüístico. Bebês de 4 e 6 meses monolíngües percebiam a diferença, tanto quanto seus pares bilíngües. Entretanto, aos 8 meses, apenas os bebês bilíngües conseguiam diferenciar as línguas. Vejamos os gráficos abaixo:

 

Visual Language Discrimination Graphics 

O gráfico A mostra bebês monolíngües frente à mudança no código lingüístico. Linha pontilhadas representam o grupo de controle - para o qual não foi apresentado mudança Inglês-Francês. O grupo de controle mostra uma gradativa queda na atenção ao vídeo. Já o grupo de teste mostra aumento no tempo de atenção ao vídeo.

O gráfico B mostra o mesmo em relação aos bebês de 8 meses, com uma comparação entre os bilíngües (pontilhados) e monolíngües (linhas não pontilhadas).

Um dos pontos interessantes desse estudo é o fato de trazer mais um argumento a favor de uma linguagem inata. Os bebês chegam ao mundo preparados para fazer uso de diferentes técnicas para adquirir uma língua. Por que não aceitar que a informação facial pode ser mais uma dessas?

Resposta da pergunta da NewScientist: vídeo alfa: Francês; vídeo beta: Inglês. 


A genética e a distribuição das línguas tonais - Dediu & Ladd (2007) por Emanuel Souza de Quadros

Dado que, de acordo com o que acreditamos, qualquer ser humano, em idade adequada, é capaz de adquirir qualquer língua do mundo, não esperamos encontrar qualquer dependência entre uma determinada característica gramatical e a ocorrência de um ou mais genes que não estejam presentes em todos os seres humanos. Acontece que, ultimamente, revistas internacionais, como a Scientific American, têm dado destaque para uma suposta relação deste tipo, descoberta por dois lingüistas da Universidade de Edimburgo, Dan Dediu e Robert Ladd.

Na verdade, apesar do exagero da imprensa, o que os lingüistas encontraram em seu estudo não é uma dependência, no sentido de que a aparição de uma característica gramatical seja determinada por uma certa configuração genética. O que encontraram é uma forte correlação entre a freqüência populacional das variantes de dois genes ligados ao tamanho do cérebro, ASPM e Microcephalin, e a distribuição das línguas tonais. Estas se encontram em menor número nas regiões em que as variantes recentes dos genes, com idades estimadas de 6 mil e 37 mil anos, respectivamente, são mais freqüentes. Onde essa freqüência é baixa, predominando as variantes mais antigas desses genes, é alto o número de línguas tonais. É o que mostra o gráfico abaixo, adaptado de Dediu & Ladd (2007):


Gráfico 1 - As freqüências populacionais das variantes novas dos genes ASPM e Microcephalin são indicadas nos eixos horizontal e vertical, respectivamente.Quadrados preenchidos representam línguas não-tonais; quadrados não-preenchidos representam línguas tonais.

Na área inferior esquerda do gráfico, observamos apenas línguas tonais, agrupadas em áreas em que há baixa freqüência de ocorrência das novas variantes de ambos os genes. Em contraste, na área superior direita, temos línguas não-tonais, em áreas em que a freqüência das novas variantes na população é alta. Qualquer conclusão tirada dessas correlações deve soar precipitada, dado o pouco que se sabe sobre a natureza dos genes em questão. Os autores sugerem a possibilidade de que haja uma influência genética na distribuição das línguas tonais e não-tonais e de que isto se dê em três etapas: (1) no nível do indivíduo, as novas variantes dos genes em questão teriam trazido pequenas mudanças nas estruturas e funções cerebrais; (2) essas alterações influenciariam sutilmente a aquisição da linguagem e/ou a maneira como processamos os tons; e (3) a transmissão cultural das línguas através das gerações se encarregaria de amplificar as tendências resultantes do item anterior, gerando as diferenças tipológicas entre as línguas.

O caminho proposto, apesar de propor uma ligação indireta entre a freqüência das variantes dos dois genes e a de uma característica gramatical, é conciliável com a idéia de que todos os seres humanos são capazes de aprender qualquer língua do mundo. Sabemos que há tanto pessoas com as variantes antigas dos dois genes em regiões dominadas por línguas não-tonais como pessoas com as variantes novas em regiões dominadas por línguas tonais; em ambos os casos, os indivíduos são capazes de adquirir sua língua materna sem dificuldades, apesar de não se enquadrarem na correlação proposta. Podemos pensar, no entanto, em alguma interferência sutil desses genes no modo como se dá a aquisição e/ou o processamento dos tons, que, claro, não é perceptível no nível do indivíduo ou da língua sincrônica. As tendências de mudança decorrentes dessas pequenas interferências só se tornariam perceptíveis após serem amplificadas por várias gerações de transmissão lingüística, a ponto de gerarem as diferenças tipológicas que encontramos no uso dos tons pelas línguas do mundo.

As indicações do estudo podem se mostrar bastante interessantes, mas, como sabemos, correlação não é causalidade. Digo isso porque a imprensa costuma exagerar quando divulga um estudo como esse, dando a entender que as línguas não-tonais estão diretamente ligadas à aparição das novas variantes desses genes. É o caso da Scientific American, revista por que tomei conhecimento do trabalho. Devo ter ficado mais empolgado com os resultados do estudo que os editores da revista, mas é preciso cautela. O padrão observado no gráfico pode muito bem ser fruto do acaso, de coincidências históricas entre as mudanças lingüísticas e a deriva genética. Pode mesmo ser coincidência que a distribuição das línguas não-tonais correlacione-se com a distribuição das novas variantes dos dois genes, assim como pode não ser. O estudo apenas levanta essa questão e sugere uma possível relação causal, ainda que indireta, entre as duas distribuições. Falta entender mais claramente a natureza e as funções desses dois genes e de suas novas variantes. Minha esperança é de que, com uma compreensão maior de como a constituição genética influencia nosso comportamento e nosso desenvolvimento cognitivo, ligações como essa possam ser mais seguramente estabelecidas em pesquisas futuras.


Morphology Online por Emanuel Souza de Quadros

Dando uma olhada nas notícias velhas da LINGUIST List, cruzei com a chamada de uma revista, MorphOn, que pode ser interessante. Trata-se de uma revista eletrônica, como a nossa conhecida ReVEL, só que dedicada apenas à Morfologia! Embora exista desde 2005 (e eu não sabia…), ela ainda conta com poucas publicações. Espero que isso mude. A iniciativa de proporcionar um espaço para que morfólogos publiquem seus artigos online e de oferecer livre-acesso a esses textos é ótima; vê-la sendo desperdiçada seria lamentável.

A chamada que consta no site:

Publish your Paper with MorphOn
If you’d like to publish your paper on Morphology (phenomena, grammar, practical/ theoretical issues; or morphology in a wider setting, i.e. morphophonology, morphosyntax, morphosemantics, morphopragmatics, language acquisition, word recognition, psycholinguistics, clinical linguistics, diachronic problems or morphological sketches of individual languages), please email it to us at : MorphOn@MorphologyOnline.com. Please submit it (with an abstract) as WORD and PDF file attachments (one of them being anonymous). It will be reviewed by our advisory panel of renowned linguists and if accepted, it will appear online straight off (without any charge). The moral copyright on the article(s) you submit is, of course, totally yours as it/they will bear your name as the author, affiliation, email address and a date.

Carta a Chomsky e Lasnik por Emanuel Souza de Quadros

Mais um capítulo da história da Sintaxe vem a público. A famosa carta de Jean-Roger Vergnaud a Chomsky/Lasnik, de 1977, indisponível por um longo tempo, ainda que famosa dentro da área, tornou-se disponível recentemente no LingBuzz. O texto influenciou grande parte da teoria de Princípios e Parâmetros, trazendo as primeiras idéias sobre a noção de Caso estrutural em sintaxe gerativa.


A Polêmica do Pirahã - Resposta de Chomsky por Tiago Martins

Na semana passada, devido a polêmica que a língua Pirahã tem causado, como comenta Emanuel em seu último texto, Chomsky deu uma entrevista na Folha de São Paulo. Para quem não teve a oportunidade de ler e para que este atual evento da ciência da linguagem tenha seu lugar aqui no Blog, reproduzo abaixo a entrevista. Nela, Chomsky critica a publicidade exagerada em torno da língua Pirahã e fala dos resultados dos estudos de Andrew Nevins, David Pesetsky e Cilene Rodrigues, já mencionados no texto do Emanuel.

Eis a entrevista, obviamente com um recorte, pois seus comentários sobre política e liberdade não constam na reprodução abaixo:

FOLHA - O sr. acredita que a recente pesquisa sobre os pirahãs, feita por Daniel Everett, desautoriza sua teoria de uma linguagem universal? Por quê?

NOAM CHOMSKY - Evidentemente, existem muitas confusões sobre a gramática universal. Em seu sentido moderno, o termo se refere à teoria correta da faculdade humana da linguagem, o que quer que isso venha a ser.

A gramática universal tem tanto status quanto a teoria correta do sistema visual humano, o que quer que isso venha a ser.

Não é ‘minha teoria’. Nem se pode chamar de uma teoria. É um tópico, e há muitas propostas sobre qual deveria ser a teoria correta, constantemente se desenvolvendo, como no estudo do sistema visual ou de qualquer outra parte da ciência.

Não há uma controvérsia sensível sobre a existência da gramática universal, assim como não há sobre a teoria correta do sistema visual. Nos dois casos, como em toda a ciência, existem muitas questões sobre quais são as teorias corretas. Não há nada para ser ‘desautorizado’.

Nós todos reconhecemos que existe uma faculdade humana para a linguagem -que existe alguma diferença biológica com relação à linguagem entre uma criança e um gato e um chimpanzé ou um pássaro canoro, por exemplo. Everett naturalmente concorda com isso.

Mas ele também afirma ter refutado a gramática universal. Isso significaria que ele refutou a crença de que existe uma teoria correta sobre as capacidades humanas, que ele concorda existirem. É difícil extrair algum sentido a partir dessa posição.

Tão logo essas confusões sejam esclarecidas, a única questão que restará é se as recentes afirmações de Everett sobre a língua pirahã estão corretas -a mesma questão que vem à tona em relação a qualquer outro trabalho em linguagem e cultura.

Há, de fato, um estudo cuidadoso feito por Andrew Nevins, David Pesetsky e Cilene Rodrigues argumentando detalhadamente que a língua pirahã, embora seja interessante (como são todas as línguas), não é menos incomum do que outras línguas conhecidas.

Se a língua pirahã acabou revelando características incomuns (assim como as de muitas línguas, como o inglês, por exemplo), então a gramática universal teria que ser modificada para acomodá-las, da mesma forma como ela está sendo constantemente modificada para dar conta de novas descobertas sobre outras línguas, inclusive outras que são estudadas de modo mais amplo.

A situação, novamente, é bem parecida com a que acontece no estudo do sistema visual ou outros sistemas orgânicos.

O que é incomum sobre a língua pirahã é a campanha de relações públicas que tem sido promovida em relação a ela, e a confusão que tem gerado.

FOLHA - Para chegar a sua teoria da gramática universal, o sr. fez pesquisa de campo, como Everett? Como o sr. chegou a suas conclusões sobre a existência de uma linguagem universal?

CHOMSKY - Como todo mundo que se preocupa com a gramática universal, usei evidências de uma ampla variedade de línguas. Que outra alternativa poderia haver?

De fato, meu próprio departamento no MIT tem sido um dos grandes centros internacionais de pesquisa, inclusive em pesquisa de campo substancial, sobre uma ampla variedade de línguas do mundo -fatos esses bem conhecidos entre lingüistas profissionais.

Muitas pesquisas de campo têm sido feitas por excelentes lingüistas no Brasil e em muitas outras partes do mundo. Repito, parece haver uma confusão sobre esse assunto. Minhas conclusões sobre a existência de uma gramática universal -quer dizer, a existência de uma teoria correta da faculdade lingüística humana- são meros truísmos.

Se essa faculdade não existe, então a aquisição lingüística é um milagre. Se ela existe, então não há razão para duvidar de que exista uma teoria correta sobre sua natureza.

FOLHA - Em entrevistas, raramente o sr. fala de literatura. Uma das poucas observações é a de que ‘não é improvável que a literatura sempre vá render insights mais profundos para aquilo que é chamado de ‘a pessoa humana plena’ do que qualquer método de investigação pode esperar conseguir’. Poderia comentar isso?

CHOMSKY - De um lado, esse comentário é sobre quão pouco se sabe sobre o ser humano, sob qualquer ponto de vista, como o científico. Os assuntos humanos são complexos demais para que a ciência seja capaz de dizer muito sobre eles. As ciências sociais são úteis, mas não podem penetrar muito fundo.

O outro lado da questão é que a literatura e as artes freqüentemente oferecem insights penetrantes sobre como é o ser humano, como ele se comporta, como são suas inter-relações, que tipo de problemas ele enfrenta e assim por diante.

Mas esses insights não provam nada, só nos revelam coisas que podemos entender intuitivamente tão logo as percebamos. É por isso que eles são freqüentemente tão pungentes e têm tanto efeito sobre nós.

FOLHA - O sr. é autor de uma frase famosa e que já rendeu muita discussão: ‘Idéias verdes incolores dormem furiosamente’. Qual é sua opinião sobre poesia, enquanto lingüista?

CHOMSKY - É claro que a poesia tem uma enorme importância, e é por isso que encontramos alguma forma de poesia em toda cultura e tradição que se conhecem: de tradições orais, que datam de milhares de anos, até a poesia moderna e experimental, a poesia se encontra em toda parte.

Ela pode ser feita de modo brilhante e efetivo. Esse verso, em particular, foi mal entendido, e foi só um dos muitos exemplos que dei: era um exemplo porque, simultaneamente, refutava algumas teorias dominantes sobre o que torna as frases gramaticais.

Uma teoria é a de W.V. Quine [1908-2000], talvez o filósofo anglo-americano mais influente da era moderna. Para ele uma frase seria gramatical se tivesse sentido.

Mas, veja, você tem que ter cuidado ao afirmar isso. Outros, como o novelista e filósofo Michael Frayn, interpretaram isso erroneamente.

Ele apontou de modo bastante correto que você não pode dar sentido para isso, mas para tudo pode se dar um sentido. Para qualquer série de palavras pode se atribuir um sentido.

Se você inverter a ordem da frase, ‘Furiosamente dormem verdes incolores idéias’, você pode atribuir um sentido para ela também. Por esse critério, tudo seria gramatical.

Mas Quine está falando de sentido literal, e neste caso nenhuma das duas frases tem sentido literal, mas uma é gramatical, e a outra não.

De fato, a poesia joga com isso: um de seus principais procedimentos, discutido há 50 anos por William Empson [1906-84], em seu livro ‘Seven Types of Ambiguity’ [Sete Tipos de Ambigüidade], é justamente tentar lutar contra as leis gramaticais, criar uma tal concisão de expressão que force o leitor a completar o sentido.


Pirahã e a Gramática Universal por Emanuel Souza de Quadros

Há uma recente comoção na lingüística provocada pelos estudos de Daniel Everett sobre o Pirahã, uma língua falada às margens do rio Maici, que fica no município de Humaitá, no estado do Amazonas. Para o lingüista, essa língua representa um grande desafio à lingüística gerativa. No artigo "Cultural Constraints on Grammar and Cognition in Pirahã: Another Look at the Design Features of Human Language", publicado em outubro de 2005, no periódico Current Anthropology, Everett arrola algumas lacunas e fatos gramaticais que seriam característicos da língua; entre eles estão: a ausência de números ou qualquer termo quantificador, de palavras para designar cores, e, de forma central, a ausência de recursividade, uma propriedade central da linguagem humana, de acordo com Hauser, Chomsky e Fitch (2002). Além disso, o autor cita algumas características excepcionais da cultura Pirahã, como a ausência de ficção, mitos de criação e de arte.

Everett vai além da descrição dessas peculiaridades dos Pirahã, argumentando que todas elas derivam de uma única restrição cultural, o Princípio da Experiência Imediata (PIE): "a comunicação é restrita à experiência imediata dos interlocutores", na formulação do artigo da Current Anthropology. Dessa forma, teríamos um princípio cultural determinando, além de outros fatos culturais, aspectos gramaticais da língua. Para o lingüista, a observação de que aspectos centrais da gramática são diretamente afetados pela cultura que a cerca representa um grande desafio à noção de um módulo de linguagem autônomo e biologicamente determinado.

Uma grande cobertura da imprensa seguiu-se à publicação. Nada de inesperado: uma cultura exótica, uma língua com propriedades tidas como estranhas às de qualquer outra conhecida até então… notícia! Outra conseqüência das afirmações de Everett foi o crescimento do interesse da comunidade científica pelo Pirahã, incluindo algumas reações simpáticas e outras adversas ao trabalho do lingüista. Entre as críticas, encontra-se um artigo recente, "Pirahã Exceptionality: a Reassessment", publicado no Lingbuzz por Andrew Nevins, da Universidade de Harvard, David Pesetsky, do MIT, e Cilene Rodrigues, da Unicamp. Nesse artigo, os autores questionam a descrição de Everett dos fatos do Pirahã, mostrando evidências convincentes da existência de quantificadores, de palavras para designar cores, de recursividade, etc., avaliando sistematicamente as lacunas gramaticais propostas no artigo da Current Anthropology. A descrição de Everett da cultura Pirahã também é questionada, com base em outros trabalhos antropológicos que atestam a existência de ficção, mitos de criação e de arte. A análise lingüística dos autores desexoticiza a gramática da língua, mostrando que ela não representa para a hipótese da Gramática Universal nenhum desafio maior que o representado por qualquer das línguas já bastante conhecidas do mundo.

É claro que Everett não ficaria silencioso diante dessa réplica. A resposta, "Cultural Constraints on Grammar in Pirahã: A Reply to Nevins, Pesetsky e Rodrigues", que saiu há poucas semanas, reafirma sua posição quanto à excepcionalidade de algumas características da língua em questão, supostamente derivados de uma restrição cultural, questionando a interpretação dos fatos dada pelos três autores.

Quanto a mim, independente de qual se mostrar a descrição correta dos dados do Pirahã, as conclusões teóricas de Everett parecem infundadas sob um ponto de vista lógico. Em nenhum momento, o autor deixa clara qual é a conexão entre a suposta restrição cultural e as construções gramaticais que ele diz serem bloqueadas por ela. O status dessa "predição" não é precisado. Nos dois trabalhos referidos, o lingüista cita, por exemplo, a falta de recursividade como decorrente do PIE. Não há, no entanto, nenhuma razão para esperar que uma restrição cultural como "a comunicação é restrita à experiência imediata dos interlocutores" bloqueie construções recursivas como a subordinação. Imaginemos uma língua que estivesse mesmo sujeita a tal princípio. Por que haveria bloqueio de uma frase como "A menina que está sentada na cadeira que eu adoro está me olhando fixamente"? A língua poderia muito bem permitir frases como essa, contendo estruturas recursivas, que retratam experiências imediatas.

Outras supostas consequências do PIE parecem ser ainda menos relacionadas a esse princípio, e não há uma boa explicação do autor sobre como essa restrição funcionaria nesses casos. A suposta ausência de palavras para designar cores, também questionada por Nevins, Pesetsky e Rodrigues, com base na lista em (1), abaixo, não parece poder ser explicada por um princípio que exige referência à experiência imediata dos interlocutores - afinal, é justamente aí que as cores se manifestam!

(1) Cores em Pirahã
biísi ‘amarelo’, ‘laranja’, ‘vermelho’
xahoasai ‘azul’, ‘verde’
kobiaí ‘branco’
kopaíai ‘preto’
tixohói ‘roxo’
tioái ‘escuro’

Ademais, acreditar na hipótese de uma Gramática Universal, não implica, de modo algum, acreditar que o produto final, a língua, não é influenciado pela cultura circundante. Everett está correto quando diz que essa hipótese não prediz a influência da cultura sobre a língua, mas está errado ao insinuar que, por isso, ela é inadequada. Isso porque ela também não prediz o contrário - e não há razões para esperar que ela o fizesse. Trata-se de uma hipótese sobre uma faculdade da linguagem, geneticamente determinada, que os indivíduos da espécie humana trazem consigo em seu estado inicial. A interação dessa faculdade com outros sistemas cognitivos, que medeiam, por sua vez, a relação do indivíduo com a cultura é um outro problema. Se essa interação produz um estado final que, além de possuir propriedades determinadas pela Gramática Universal, apresenta características bastante ligadas ao meio sócio-cultural, não se pode concluir, daí, que a teoria que especifica o estado inicial está errada por não levar em conta a existência desses outros fatores que interagiram com o estado inicial na geração do produto final. Seria como dizer que uma especificação do estado inicial, geneticamente determinado, do corpo de um ser humano, é inadequada por não levar em conta o número e o formato das tatuagens que o indivíduo fará ao longo de sua vida. É mais ou menos o que diz Tecumseh Fitch, numa passagem trazida por um artigo da Folha Online:

…é um truísmo que a cultura molda a linguagem. É por isso que o brasileiro tem a palavra samba e o escocês tem a palavra haggis. E daí? As implicações disso para a Gramática Universal são nulas.


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