Estava dando uma olhada nas estatísticas de visitação do blog, vendo as palavras-chaves que trazem as pessoas até aqui pelo Google. Entre coisas como "sacanagem", "modelo grátis de monografia de língua portuguesa" e "linguagem hamster"(!), lá estava: "O que é fonologia?"
Não vou deixar a pergunta sem resposta. Sempre há a possibilidade de que a pessoa em questão tenha se interessado por outros textos daqui e resolva voltar. Se não por isso, ao menos pelos visitantes potenciais que, porventura, tiverem a mesma pergunta a fazer. Além disso, o post inaugura uma possível série "Conceitos Básicos" e uma respondendo a algumas das perguntas que, por vezes, trazem pessoas para o Language Bar. O que segue é uma exposição simples de alguns fenômenos relevantes e das questões que se colocam no estudo dessa disciplina.
Afinal, o que é Fonologia?
Um bom ponto de partida é dizer que a Fonologia é a parte do nosso conhecimento lingüístico que diz respeito à realização física da linguagem. É esse conhecimento que está por trás de nossa capacidade de transmitir as palavras e sentenças de um língua através de sinais sonoros e de realizar o caminho inverso, ou seja, identificar palavras e sentenças em determinados sinais acústicos recebidos. A Fonologia, contudo, não é a própria realização sonora, em seu estado bruto. Tentando tornar isso mais claro, podemos olhar para um exemplo do lingüista Edward Sapir (1884-1939), de seu celebrado artigo de 1933, "The Psychological Reality of Phonemes" (A realidade psicológica dos fonemas).
Conta o lingüista que em Sarcee, uma língua atapascana do Canadá, há duas palavras, ambas pronunciadas dìní (o acento grave(`) marca um tom baixo, e o acento agudo(´) marca tom alto). Ainda que idênticas, elas têm significados distintos: ‘este’ e ‘isto faz um som’. Seu informante, John Whitney, insistia na existência de uma diferença sonora entre as duas palavras; no entanto, nem ele, nem os ouvidos treinados de Sapir conseguiam precisar a suposta distinção fonética. Após algumas repetições, o lingüista identificava, por vezes, algumas diferenças de acento, tom e aspiração, que não eram muito consistentes. O informante sugeriu uma distinção bem diferente e inesperada: a de que dìní, no sentido de ‘isto faz um som’, terminava com um "t". No entanto, nenhum [t] era realmente audível. Após novos testes e repetições, e apesar de ter sentido a presença de um "t", John teve de admitir não poder ouvi-lo e nem sentir sua língua articular um [t]. A pergunta que imediatamente surge é: qual é a causa dessa ilusão fonética (termo de Sapir)?
À medida que aumentou seu conhecimento da estrutura do Sarcee, o lingüista pôde obter uma resposta sobre a fonte desse "t". A pista crucial é o fato de que quando determinados sufixos são adicionados, dìní ‘este’ e dìní ‘isto faz um som’ comportam-se de maneiras diferentes. Diante do sufixo relativo -i, por exemplo, um [t] emerge em ‘isto faz um som’, mas não em ‘este’, caso em que i + i contraem-se em um a longo, simbolizado por [a:].
| | -i |
| dìní ‘isto faz um som’ | dìnít’i |
| dìní ‘este’ | dìná: |
A observação relevante é de que a consoante intuída por John Whitney em dìní ‘isto faz um som’ não era fictícia. Ela faz parte da palavra, mas só é pronunciada em situações específicas, como diante do sufixo -i. Ilusões fonéticas como essa mostram que a percepção de uma palavra não depende apenas da informação acústica que recebemos. Como vimos, o informante sentia a presença da consoante latente em dìní, embora ela não fosse pronunciada, e essa presença garantia o contraste entre as duas palavras. O conhecimento necessário para perceber o "t", que Sapir não possuía, era de um caráter muito específico: ser falante de Sarcee e, portanto, saber que, nessa língua, algumas consoantes não são pronunciadas no final de uma palavra, se não forem seguidas por uma vogal, como a do sufixo -i. Sapir, então, postula uma representação fonológica, num nível mais abstrato que a representação física da palavra, em que a consoante "t" está presente.
Comentando esse exemplo de Sapir, Kenstowicz (1994) coloca algumas questões a serem explicadas por uma teoria fonológica:
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Por que falantes de Sarcee, quando treinados para representar sua língua ortograficamente, são levados por sua intuição a representar dìní ‘isto faz um som’ como dìnít?
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Como uma criança que cresce numa comunidade lingüística Sarcee descobre essa "consoante latente", embora ela esteja sempre ausente na pronúncia dessa palavra?
Kenstowicz coloca como uma primeira aproximação à segunda pergunta o fato de que a consoante aparece, de fato, em palavras relacionadas, como dinit’-i. Mas isso ainda o leva a outras questões, que devem ser respondidas:
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O que, precisamente, queremos dizer quando falamos em "palavra relacionada"?
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Como é possível que a pronúncia de uma palavra influencie o modo como outra é pronunciada?
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Por que a influência não acontece na direção oposta; isto é, por que não é a ausência de consoante final na forma isolada da palavra que influencia apagamento do t na forma sufixada?
"Dar respostas científicas sérias a esse tipo de questão é uma parte essencial do programa de pesquisa da fonologia gerativa" (p. 5)
Note-se que o autor se refere, especificamente, à fonologia gerativa. No entanto, qualquer teoria fonológica que se proponha dar conta do conhecimento que os falantes têm da fonologia de sua língua deve oferecer respostas a essas questões.
Não são apenas casos de "segmentos fantasmas" que revelam disparidades entre o que há no sinal sonoro e o que percebemos através de nosso conhecimento fonológico. O português oferece um exemplo interessante de como sons podem se comportar de maneiras diferentes, de acordo com o ambiente estrutural em que ocorrem. Se contrastarmos duas palavras como casa e caça, ignorando suas formas ortográficas, vemos que o que as distingue é a segunda consoante, pronunciada como [z] em casa e como [s] em caça. Dizemos, então, que há um contraste entre esses dois sons no português. Entretanto, contrastes nem sempre têm a mesma força em todos os ambientes possíveis: ao passo que essas duas consoantes são potencialmente contrastivas no meio e no início de palavras (e.g. [z] em zinco contrasta com [s] em cinco), no fim de vocábulos isolados, essa distinção não ocorre em português. Nesse ambiente, só ocorre a pronúncia de [s], como podemos observar mesmo em palavras que são grafadas com z, e.g. paz, rapaz, faz, todas pronunciadas com [s].
A falta de contraste nesse ambiente fica ainda mais evidente, quando vemos que essas palavras são pronunciadas com [z], sob certas condições, como diante de uma vogal, e.g rapa[z]es, fa[z]em, rapa[z] armado. Ou seja, em ca[z]a e ca[s]a, vimos que uma consoante não poderia ser trocada pela outra, na pronúncia, sem que houvesse distinção de significado; em exemplos como rapa[s] e rapa[z] armado, vimos que os mesmo sons que distinguiam significados no exemplo anterior, agora não o fazem: eles aparecem em contextos diferentes, sem que deixemos de falar da mesma palavra. Por que, exatamente, isso ocorre? Cabe a uma teoria fonológica oferecer explicações. Entre outras questões, algumas que se colocam são:
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Por que alguns segmentos são contrastivos e outros não?
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Por que certos contrastes deixam de ocorrer em determinados ambientes?
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Qual a melhor maneira de se caracterizar um ambiente fonológico?
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Como uma criança que cresce numa comunidade de falantes de português consegue aprender essas generalizações, sem instrução explícita?
Além disso, uma teoria fonológica também deve dar conta da observação de que, em qualquer língua do mundo, certas combinações de sons são possíves, enquanto outras não o são. Isso me lembra de uma de minhas primeiras aulas de Fonologia na faculdade, em que o professor propôs uma brincadeira, justamente para falar sobre essa observação - só que nós, alunos, ainda não sabíamos dessa intenção. Ele pediu que escrevêssemos uma palavra fictícia em um papel, inventando-a na hora. O professor escreveu algumas das invenções no quadro, classificando-as entre as que seriam possíveis e as que eram impossíveis no português. O objetivo era explicar o fato de que algumas delas não poderiam existir, porque continham seqüências de segmentos que não eram permitidas, enquanto outras, apesar de inexistentes (ao menos até aquele momento), eram palavras possíveis, porque respeitavam as restrições sobre combinações de sons, que são naturalmente impostas à linguagem humana e, mais especificamente, nesse caso, à língua portuguesa.
Não lembro o que meus colegas inventaram na brincadeira, mas imagine, à guisa de exemplo, que uma das criações tenha sido rtapmo - já que estávamos apenas escrevendo, a criatura hipótetica que inventou essa palavra não precisou se preocupar em pronunciá-la. Evidentemente, a invenção seria classificada como uma das que, além de inexistentes, são impossíveis. Acontece que a combinação de consoantes r + t não é permitida em início de palavras, apesar de poder ocorrer internamente, em vocábulos como parto e certo. Outra combinação proibida, existente nessa pseudo-palavra, é p + m, que também não seria permitida em posíção inicial - e em nenhuma outra. Note que a questão não é apenas "que som pode se unir a que som". Há, ao menos, dois tipos de assimetria a serem explicados aí. Primeiramente, há uma diferença entre as posições que as combinações de consoantes podem ocupar na palavra: como vimos, enquanto rt não é possível em posição inicial (nem em posição final), a mesma seqüência é permitida no meio de uma palavra (e.g. carta). Em segundo lugar, a relação de precedência entre os segmentos não é simétrica: se alterarmos essa relação entre r e t, obtendo tr, o resultado é uma combinação permitida no início de palavras, e.g. trabalho, trator, e em posição interna, e.g. catraca, patrão. Invertendo p + m, obtemos a seqüência mp, que, ao contrário de seu inverso, pode figurar no meio de uma palavra, como acontece em campo.
A palavra que eu "inventei" na brincadeira foi classificada como uma das que eram possíveis, pois ela respeita as condições impostas pelo português à combinação de segmentos. Era esquisunfo! De certa forma, a previsão do professor de que se tratava de uma palavra possível foi corroborada, porque o Esquisunfo já existia. Era o nome que alguns amigos e eu, quando crianças, dávamos a um monstro imaginário que habitava nosso condomínio. É que um de nosso vizinhos era um saxofonista. Pelo jeito, ele não era muito bom, porque os menores do grupo, dentre os quais eu me incluía, tinham medo do bicho que anunciava sua chegada com aquele barulho. Aliás, se algum leitor estiver pensando num nome para dar a uma criança, fica aí a sugestão!
Qual a natureza das restrições sobre que segmentos podem se combinar em uma determinada língua e de que maneira? O que define uma palavra como possível ou impossível em uma língua, do ponto de vista fonológico? Como uma criança toma conhecimento dessas restrições? Essas questões, ao lado das outras que foram apontadas ao longo do texto, são algumas das perguntas que se colocam diante de um fonólogo.
Referências e recomendações de leitura:
Bisol, Leda (2005). Introdução a estudos de fonologia do português brasileiro. 4ª edição. Porto Alegre: EDIPUCRS.
Kenstowicz, Michael (1994). Phonology in Generative Grammar. Oxford: Blackwell.
Odden, David (2005). Introducing Phonology. Cambridge: Cambridge University Press.
Sapir, Edward (1981). A realidade psicológica dos fonemas. In DASCAL, M. (org). Fundamentos Metodológicos da Lingüística - Vol. II - Fonologia e Sintaxe. Campinas: IEL- Unicamp, p. 37-55.