Language Bar

May 4, 2008

A Mais Bela Descrição da Linguagem por César Gonzalez

 
Estou lançando aqui no Language Bar o concurso A Mais Bela Descrição da Linguagem. E o meu candidato favorito até o momento é o estruturalista dinamarquês Louis Hjelmslev. O primeiro parágrafo de Prolegômenos a uma Teoria da Linguagem é a mais bela descrição da linguagem que eu já li. Um pouco longo, mas peço que o leitor tenha paciência, pois vale a pena: 
A linguagem - a fala humana - é uma inesgotável riqueza de múltiplos valores. A linguagem é inseparável do homem e segue-o em todos os seus atos. A linguagem é o instrumento graças ao qual o homem modela seu pensamento, seus sentimentos, suas emoções, seus esforços, sua vontade e seus atos, o instrumento graças ao qual ele influencia e é influenciado, a base última e mais profunda da sociedade humana. Mas é também o recurso último e indispensável do homem, seu refúgio nas horas solitárias em que o espírito luta com a existência, e quando o conflito se resolve no monólogo do poeta e na meditação do pensador. Antes mesmo do primeiro despertar de nossa consciência, as palavras já ressoavem à nossa volta, prontas para envolver os primeiros germes frágeis de nosso pensamento e a nos acompanhar inseparavelmente através da vida, desde as mais humildes ocupações da vida quotidiana aos momentos mais sublimes e mais íntimos dos quais a vida de todos os dia retira, graças às lembranças encarnadas pela linguagem, força e calor. A linguagem não é um simples acompanhante, mas sim um fio profundamente tecido na trama do pensamento; para o indivíduo, ela é o tesouro da memória e a consciência vigilante transmitida de pai para filho. Para o bem e para o mal, a fala é a marca da pesonalidade, da terra natal e da nação, o título de nobreza da humanidade. O desenvolvimento da linguagem está tão inextrincavelmente ligado ao da personalidade de cada indivíduo, da terra natal, da nação, da humanidade, da própria vida, que é possível indagar-se se ela não passa de um simples reflexo ou se ela não é tudo isso: a própria fonte do desenvolvimento dessas coisas (p. 1-2).
Estou lançando o desafio: se conheces uma descrição tão bonita quanto essa (ou ainda mais bonita que essa), por favor, entre em contato!

May 2, 2008

Descartes e a Linguagem por César Gonzalez

Leitura interessante é a do Discurso Sobre o Método de Descartes. Além de toda uma teorização preocupada com a busca da verdade, e que lança as bases de uma filosofia da ciência, o pensador francês também discute linguagem.

Para ele, a linguagem é uma das características da alma humana que não pode ser reconhecida na natureza. Ela é um dos traços que diferenciam humanos e animais. Animais, por mais que possam imitar palavras, não podem colocá-las em ordem como que representando por palavras aquilo que pensam:

as pêgas e os papagaios podem proferir palavras como nós, mas não podem falar como nós, isto é, demonstrando que pensam o que dizem (p. 71). 

Descartes ainda afirma que, se houvessem máquinas semelhantes a humanos, elas ainda assim não seriam capazes de nos enganar e haveriam, pelo menos, dois meios de as identificar como máquinas, um deles a linguagem:

O primeiro meio [de se diferenciar uma máquina de um humano] reside no fato de que jamais poderiam empregar palavras ou outros sinais, compondo-os como nós o fazemos, para transmitir aos outros os nossos pensamentos (p. 69).

A diferença reside no fato de humanos possuírem uma alma racional - penso, logo existo - cuja existencia é fruto de desígnio divino. Deus, em sua magnânima perfeição, concedeu ao homem a razão, o meio pelo qual atingir a verdade. E graças à razão possuímos a linguagem, que o filósofo reconhece, também, nos surdos-mudos, algo que se soma às diferenças entre homens e animais:

homens que, tendo nascido surdos-mudos, são providos dos órgãos de que os outros se servem para falar, tanto ou mais do que os animais, costumam inventar por si mesmos alguns sinais pelos quais se fazem entender pelos que, estando habitualmente em sua companhia, têm a oportunidade de lhes aprender a língua (p. 71). 

Por fim, já na penúltima página de seu Discurso, Descartes comenta o fato de escrever em francês (e não em latim, como era usual na época, séc. XVII [1637]). Diz ele, alfinetando os "bastiões do bem falar e bem escrever" da início da idade moderna:

Escrevo em francês, que é a língua do meu país, de preferência ao latim, que é a dos meus preceptores. Espero que os que se servem exclusivamente de sua razão natural poderão assim julgar melhor as minhas opiniões do que os que só acreditam nos livros antigos. Quanto aos que unem o bom senso ao estudo, os únicos que desejo ter como juízes, estou certo de que não serão tão apaixonados pelo latim que recusem ouvir minhas razões só porque as explico em língua vulgar (p. 93). 

 

DESCARTES, Réné (1637). Discurso sobre o método. São Paulo: Atena, 1960.

May 1, 2008

C#NS##NT#S²: # R#T#RN# por César Gonzalez

 
Pouco depois da publicação de C#NS##NT#S, abri, para meu prazer, Language do Bloomfield, e lá, no capítulo um, encontrei um outro argumento para imaginar que consoantes estão realmente mais ligadas ao significado de uma palavra do que a sua ordem gramatical. Ao explicar Etimologia e os estudos do Indo-Europeu, Bloomfield lista a palavra mãe em várias línguas, desde o inglês (mother) até o eslávico (mati) (passando pelo antigo armênio, mair, latim, mater etc.). Ora, há em todas essas palavras pelo menos uma consoante idêntica {m}, e todas essas linguas são relacionadas, todas parentes, algumas mais distantes, outras mais próximas, todas do ramo Indo-Europeu. Podemos pensar que, talvez, essas consoantes tenham algo a dizer a respeito do significado e parentesco dessas palavras.
 
Discutindo com nosso colega de Language Bar, Emanuel, a relação das vogais com a gramática ficou mais clara. Para entender basta pesar o sistema verbal irregular do inglês: to meet - met - met, ou to read - read - read, por exemplo. A grande diferença entre o infinitivo e as formas do passado e particípio dos verbos está na qualidade da vogal dessas palavras. É esse o tipo de informação gramátical que está contida nas vogais. Talvez tenhamos várias consoantes por causa de um amplo léxico, e menos vogais por causa do menor número de regras gramaticais - não é mesmo, Manu?
 
Continuo pensando consoantes, e convidando pessoas a me desafiar com perguntas e dados! 

April 29, 2008

Sobre Blogs, Linguagem e Futebol por César Gonzalez

Por que as pessoas mantêm blogs? Ainda mais intrigante, por que um blog sobre linguagem e lingüística e assuntos afins? Por que não discutir futebol, já que estamos no país do futebol…

Acho que as respostas que podemos obter, o diálogo que queremos criar, pode ser umas das razões. Ciência não deveria ser uma coisa obscura, circusncrita aos círculos acadêmicos, onde poucos iniciados ganham acesso ao conhecimento. Pessoas deveriam poder entender que coisas que se pesquisam em universidades têm também valor no "mundo real", e acho que nosso blog, de quase dois anos, faz parte disso. Faz parte do mostrar ao mundo uma das faces da discussão a respeito da linguagem.

Acho que Pinker concorda comigo, se não fosse assim, ele talvez nunca tivesse escrito um livro como O Instinto da Linguagem, em que coloca ao alcance de qualquer leitor várias teorias para a linguagem.

Outras razões já são bem mais egocêntricas, mas igualmente válidas. Mark Perry pergunta: Can Blogging Make You Smarter, Happier, and More Productive? (agradeço muito ao Mr. Baldusco pela referência) E eu concordo com ele, Blogging pode, sim, provocar mais debate e, como conseqüência, mais conhecimento, e alegria, e produção…

Por que linguagem e não futebol? Bom… futebol que me perdoe, mas eu prefiro a linguagem (e o que seria do futebol sem ela, sem podermos xingar a mãe do juiz, reclamar do presidente do clube, chamar o técnico de burro etc.).

April 22, 2008

The World Atlas of Language Structures por Emanuel Souza de Quadros

Ontem foi o lançamento oficial da versão online do WALS (The World Atlas of Language Structures). Estão disponíveis no site todos os dados e textos analíticos do atlas publicado pela Oxford University Press, que custa míseros 1.433 reais e 70 centavos na Livraria Cultura (quer comprar?). Pois é, disponíveis online, de graça!

De acordo com o site, o atlas possui dados de mais de 2500 línguas. As pesquisas podem ser feitas por característica estrutural, por língua, por referência ou por autor. Como exemplo, podemos ver o mapa da distribuição de línguas que possuem contraste entre vogais nasais, em oposição às que não possuem. Para ver o nome da língua e as fontes de onde as informações foram retiradas, basta clicar no símbolo relevante no mapa. Cada característica estrutural é também acompanhada por um texto que traz as definições e distinções necessárias.

Fun!

March 5, 2008

ReVEL, Vol. 6 - Número 10 por Emanuel Souza de Quadros

Saiu ontem a nova edição da Revista Virtual de Estudos da Linguagem - ReVEL. Esse número tem como tema Sintaxe Formal e traz, além de artigos e resenhas, três entrevistas bastante interessantes: Jairo Nunes falando sobre o Programa Minimalista, Jane Grimshaw falando sobre a Sintaxe na Teoria da Otimidade e Carlos Prolo falando sobre Tree-Adjoining Grammars.

O tema da próxima edição será Psicolingüística. O período de submissão de trabalhos vai até dia 5 de junho de 2008.

February 12, 2008

Tapiocagate por Emanuel Souza de Quadros

É essa a sugestão de Marcos Rocha para nomear o escândalo dos cartões de crédito corporativos, seguindo o padrão de formação X-gate. A única outra ocorrência de tapiocagate que encontrei foi esta, em um post datado de 12/02/08 no Blog do Harry.

Se me perguntarem como é o gosto da tal tapioca, digo que não sei. Acho que nunca comi uma, embora aquela aparência seja muito bonita. Se o recheio for bom, porque devem ter os bons e os ruins, com certeza pagaria os R$8,30 que o Ministro do Esporte, Orlando Silva, desembolsou naquele que logo mais ganhará a alcunha de "Tapiocagate"
Não sei se Harry Thomas Jr. andou lendo o blog do Marcos Rocha, cuja sugestão de tapiocagate foi publicada no dia 11/02. Eu apostaria em cunhagens paralelas do termo; vai saber.

Sobre a origem do sugerido nome do escândalo, segue abaixo apenas uma parte dos gastos do atual ministro do esporte, Orlando Silva, com seu cartão corporativo, de acordo com o Portal da Transparência. Em destaque, o registro de um pagamento de R$ 8,30 à tapiocaria Maria Bonita.

 

February 6, 2008

Como ser um cientista maduro por Emanuel Souza de Quadros

Vale a pena dar uma olhada nesse post do blog de Janet D. Stemwedel. Trata-se do primeiro de uma série de textos sobre "o projeto de ser um cientista maduro"; um tema delicado que, em geral, não é abordado na universidade, embora seja de grande importância para qualquer estudante, inclusive os de Lingüística, é claro.

January 31, 2008

*Quake your body por Emanuel Souza de Quadros

Geoffrey K. Pullum tem um post interessante no Language Log sobre a idéia que muitos não-lingüistas fazem da relação entre sintaxe e semântica; ou melhor, de como aquela seria completamente derivável desta. De acordo com essa visão, o modo como se dispõe uma palavra qualquer em uma sentença segue-se diretamente do significado dessa palavra. Isso implicaria não haver nada de não-trivial para ser dito sobre fatos sintáticos: eles seriam, pura e simplesmente, reflexo da organização semântica da sentença.

Um exame de qualquer língua natural revela muitos contra-exemplos a essa idéia. Um dos que Pullum aponta é a diferença de transitividade entre to quake e to shake, do inglês. Ambas as palavras têm basicamente o mesmo significado e podem ser traduzidas para o português como tremer. No entanto, to shake é transitivo, mas to quake
não. Por exemplo, se traduzíssemos a frase o temporal tremeu o mar para o inglês, poderíamos dizer the storm shook the sea, mas nunca *the storm quaked the sea, embora não seja evidente por que o significado de quake impediria tal uso.

Exemplos desse tipo são bons para que alguém se convença de que Sintaxe e Semântica constituem duas subdisciplinas distintas e relativamente independentes dentro da Lingüística. É evidente que isso não quer dizer que não haja intersecções entre elas, quer dizer apenas que há fatos puramente sintáticos e fatos puramente semânticos. Na prática, qualquer estudo aprofundado da sintaxe de uma língua deve fazer referência a fatos de natureza semântica, assim como um estudo aprofundado da semântica de uma língua deve fazer referência a fatos de natureza sintática.

Deixando de lado a divisão de tarefas entre as áreas da Lingüística, podemos ver uma implicação dessa discussão para a aquisição da linguagem: um aprendiz deve saber que certos tipos de evidências não são determinantes das propriedades sintáticas de um item lexical. Imaginemos, por exemplo, uma criança na tarefa de aprender os verbos shake e quake com suas respectivas valências. Se ela pensasse como um adulto não-lingüista, nada a impediria de considerar quake como um verbo transitivo, afinal isso é semanticamente possível: ela pode fazer seus brinquedos tremerem e pode usar shake, de mesmo significado, para descrever a situação, transitivamente. O fato de os adultos a sua volta não utilizarem quake como transitivo pouco importa - eles também não dizem que não se pode fazer isso.

Já uma criança com uma teoria mais restritiva da relação entre sintaxe e semântica, não se deixaria levar pela semelhança de significado entre os dois verbos. Ela saberia que a diferença de transitividade entre eles deve ser resolvida por meio de uma simples evidência distribucional: na fala do adulto, shake coocorre com um objeto direto, e quake não, embora ambos tenham significados muito semelhantes. As crianças reais parecem ser mais próximas desta última.

January 18, 2008

Arbitrariedades and all that por Emanuel Souza de Quadros

Do baú de notícias velhas, um texto publicado na Slate sobre o best-seller do jornalista Harry Mount sobre a língua latina. No texto, Emily Wilson chama atenção para o título da edição norte-americana da obra: Carpe Diem: Put a little Latin in your life. No original britânico, o título é Amos, Amas, Amat … and All That. De acordo com ela, a mudança reflete algo sobre a posição do latim nas culturas norte-americana e britânica. Nesta, esperar-se-ia que pessoas razoavelmente educadas reconhecessem o paradigma latino, ao passo que, naquela, não se esperaria que muitos o fizessem.

Aqui a mudança teria que ser mais drástica. Numa eventual tradução do livro para o mercado brasileiro, a expressão Carpe Diem seria barrada pelo censor oficial da Língua Portuguesa. Tudo para nos defender da invasão imperialista da cultura romana. Também para lembrar seus eleitores de que eles não têm a menor competência para entender alguma dessas expressões estrangeiras que tanto "dificultam a comunicação do povo brasileiro" (Gazetaweb.com - Gazeta de Alagoas, 23/12/2007).



Compare preços de Carpe Diem: Put a little Latin in your life.

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