Language Bar

22/04/2008

The World Atlas of Language Structures por Emanuel Souza de Quadros

Ontem foi o lançamento oficial da versão online do WALS (The World Atlas of Language Structures). Estão disponíveis no site todos os dados e textos analíticos do atlas publicado pela Oxford University Press, que custa míseros 1.433 reais e 70 centavos na Livraria Cultura (quer comprar?). Pois é, disponíveis online, de graça!

De acordo com o site, o atlas possui dados de mais de 2500 línguas. As pesquisas podem ser feitas por característica estrutural, por língua, por referência ou por autor. Como exemplo, podemos ver o mapa da distribuição de línguas que possuem contraste entre vogais nasais, em oposição às que não possuem. Para ver o nome da língua e as fontes de onde as informações foram retiradas, basta clicar no símbolo relevante no mapa. Cada característica estrutural é também acompanhada por um texto que traz as definições e distinções necessárias.

Fun!

05/03/2008

ReVEL, Vol. 6 - Número 10 por Emanuel Souza de Quadros

Saiu ontem a nova edição da Revista Virtual de Estudos da Linguagem - ReVEL. Esse número tem como tema Sintaxe Formal e traz, além de artigos e resenhas, três entrevistas bastante interessantes: Jairo Nunes falando sobre o Programa Minimalista, Jane Grimshaw falando sobre a Sintaxe na Teoria da Otimidade e Carlos Prolo falando sobre Tree-Adjoining Grammars.

O tema da próxima edição será Psicolingüística. O período de submissão de trabalhos vai até dia 5 de junho de 2008.

31/01/2008

*Quake your body por Emanuel Souza de Quadros

Geoffrey K. Pullum tem um post interessante no Language Log sobre a idéia que muitos não-lingüistas fazem da relação entre sintaxe e semântica; ou melhor, de como aquela seria completamente derivável desta. De acordo com essa visão, o modo como se dispõe uma palavra qualquer em uma sentença segue-se diretamente do significado dessa palavra. Isso implicaria não haver nada de não-trivial para ser dito sobre fatos sintáticos: eles seriam, pura e simplesmente, reflexo da organização semântica da sentença.

Um exame de qualquer língua natural revela muitos contra-exemplos a essa idéia. Um dos que Pullum aponta é a diferença de transitividade entre to quake e to shake, do inglês. Ambas as palavras têm basicamente o mesmo significado e podem ser traduzidas para o português como tremer. No entanto, to shake é transitivo, mas to quake
não. Por exemplo, se traduzíssemos a frase o temporal tremeu o mar para o inglês, poderíamos dizer the storm shook the sea, mas nunca *the storm quaked the sea, embora não seja evidente por que o significado de quake impediria tal uso.

Exemplos desse tipo são bons para que alguém se convença de que Sintaxe e Semântica constituem duas subdisciplinas distintas e relativamente independentes dentro da Lingüística. É evidente que isso não quer dizer que não haja intersecções entre elas, quer dizer apenas que há fatos puramente sintáticos e fatos puramente semânticos. Na prática, qualquer estudo aprofundado da sintaxe de uma língua deve fazer referência a fatos de natureza semântica, assim como um estudo aprofundado da semântica de uma língua deve fazer referência a fatos de natureza sintática.

Deixando de lado a divisão de tarefas entre as áreas da Lingüística, podemos ver uma implicação dessa discussão para a aquisição da linguagem: um aprendiz deve saber que certos tipos de evidências não são determinantes das propriedades sintáticas de um item lexical. Imaginemos, por exemplo, uma criança na tarefa de aprender os verbos shake e quake com suas respectivas valências. Se ela pensasse como um adulto não-lingüista, nada a impediria de considerar quake como um verbo transitivo, afinal isso é semanticamente possível: ela pode fazer seus brinquedos tremerem e pode usar shake, de mesmo significado, para descrever a situação, transitivamente. O fato de os adultos a sua volta não utilizarem quake como transitivo pouco importa - eles também não dizem que não se pode fazer isso.

Já uma criança com uma teoria mais restritiva da relação entre sintaxe e semântica, não se deixaria levar pela semelhança de significado entre os dois verbos. Ela saberia que a diferença de transitividade entre eles deve ser resolvida por meio de uma simples evidência distribucional: na fala do adulto, shake coocorre com um objeto direto, e quake não, embora ambos tenham significados muito semelhantes. As crianças reais parecem ser mais próximas desta última.

13/12/2007

Biolinguistics Vol. 1 por Emanuel Souza de Quadros

Saiu o primeiríssimo volume da nova revista eletrônica Biolinguistics. A publicação é dedicada "aos estudos teóricos que encaram seriamente as fundações biológicas da linguagem humana". Apenas uma edição da revista foi lançada nesse ano, mas a idéia é publicar quatro edições anuais a partir de 2008. Todo o conteúdo é de acesso livre, como a ciência deve ser. A única exigência é que seja feito um registro (gratuito…) no site.

Entre várias outras coisas,  o volume de 2007 traz os seguintes artigos.

Of Minds and Language Abstract PDF
Noam Chomsky 009-027
Computing Long-Distance Dependencies in Vowel Harmony Abstract PDF
Frédéric Mailhot, Charles Reiss 028-048
Categorical Acquisition: Parameter-Setting in Universal Grammar Abstract PDF
Rosalind Thornton, Graciela Tesan 049-098
Clarifying the Notion “Parameter” Abstract PDF
Juan Uriagereka

16/09/2007

Antes tarde do que mais tarde por Emanuel Souza de Quadros

Para quem ainda não viu, saiu em agosto o número 9 da Revista Virtual de Estudos da Linguagem - ReVEL, sobre Sociolingüística. Essa edição inclui, entre outras coisas, uma entrevista com William Labov e um artigo de minha co-autoria sobre a influência do domínio da escrita na realização de fenômenos fonológicos variáveis. A proxima edição terá como tema Sintaxe Formal (GB, P&P, Minimalismo, HPSG, TAGs, LFG, OT…). A data limite para submissão de trabalhos é 5 de dezembro de 2007.

07/06/2007

Carta a Chomsky e Lasnik por Emanuel Souza de Quadros

Mais um capítulo da história da Sintaxe vem a público. A famosa carta de Jean-Roger Vergnaud a Chomsky/Lasnik, de 1977, indisponível por um longo tempo, ainda que famosa dentro da área, tornou-se disponível recentemente no LingBuzz. O texto influenciou grande parte da teoria de Princípios e Parâmetros, trazendo as primeiras idéias sobre a noção de Caso estrutural em sintaxe gerativa.

03/05/2007

A Polêmica do Pirahã - Resposta de Chomsky por Tiago Martins

Na semana passada, devido a polêmica que a língua Pirahã tem causado, como comenta Emanuel em seu último texto, Chomsky deu uma entrevista na Folha de São Paulo. Para quem não teve a oportunidade de ler e para que este atual evento da ciência da linguagem tenha seu lugar aqui no Blog, reproduzo abaixo a entrevista. Nela, Chomsky critica a publicidade exagerada em torno da língua Pirahã e fala dos resultados dos estudos de Andrew Nevins, David Pesetsky e Cilene Rodrigues, já mencionados no texto do Emanuel.

Eis a entrevista, obviamente com um recorte, pois seus comentários sobre política e liberdade não constam na reprodução abaixo:

FOLHA - O sr. acredita que a recente pesquisa sobre os pirahãs, feita por Daniel Everett, desautoriza sua teoria de uma linguagem universal? Por quê?

NOAM CHOMSKY - Evidentemente, existem muitas confusões sobre a gramática universal. Em seu sentido moderno, o termo se refere à teoria correta da faculdade humana da linguagem, o que quer que isso venha a ser.

A gramática universal tem tanto status quanto a teoria correta do sistema visual humano, o que quer que isso venha a ser.

Não é ‘minha teoria’. Nem se pode chamar de uma teoria. É um tópico, e há muitas propostas sobre qual deveria ser a teoria correta, constantemente se desenvolvendo, como no estudo do sistema visual ou de qualquer outra parte da ciência.

Não há uma controvérsia sensível sobre a existência da gramática universal, assim como não há sobre a teoria correta do sistema visual. Nos dois casos, como em toda a ciência, existem muitas questões sobre quais são as teorias corretas. Não há nada para ser ‘desautorizado’.

Nós todos reconhecemos que existe uma faculdade humana para a linguagem -que existe alguma diferença biológica com relação à linguagem entre uma criança e um gato e um chimpanzé ou um pássaro canoro, por exemplo. Everett naturalmente concorda com isso.

Mas ele também afirma ter refutado a gramática universal. Isso significaria que ele refutou a crença de que existe uma teoria correta sobre as capacidades humanas, que ele concorda existirem. É difícil extrair algum sentido a partir dessa posição.

Tão logo essas confusões sejam esclarecidas, a única questão que restará é se as recentes afirmações de Everett sobre a língua pirahã estão corretas -a mesma questão que vem à tona em relação a qualquer outro trabalho em linguagem e cultura.

Há, de fato, um estudo cuidadoso feito por Andrew Nevins, David Pesetsky e Cilene Rodrigues argumentando detalhadamente que a língua pirahã, embora seja interessante (como são todas as línguas), não é menos incomum do que outras línguas conhecidas.

Se a língua pirahã acabou revelando características incomuns (assim como as de muitas línguas, como o inglês, por exemplo), então a gramática universal teria que ser modificada para acomodá-las, da mesma forma como ela está sendo constantemente modificada para dar conta de novas descobertas sobre outras línguas, inclusive outras que são estudadas de modo mais amplo.

A situação, novamente, é bem parecida com a que acontece no estudo do sistema visual ou outros sistemas orgânicos.

O que é incomum sobre a língua pirahã é a campanha de relações públicas que tem sido promovida em relação a ela, e a confusão que tem gerado.

FOLHA - Para chegar a sua teoria da gramática universal, o sr. fez pesquisa de campo, como Everett? Como o sr. chegou a suas conclusões sobre a existência de uma linguagem universal?

CHOMSKY - Como todo mundo que se preocupa com a gramática universal, usei evidências de uma ampla variedade de línguas. Que outra alternativa poderia haver?

De fato, meu próprio departamento no MIT tem sido um dos grandes centros internacionais de pesquisa, inclusive em pesquisa de campo substancial, sobre uma ampla variedade de línguas do mundo -fatos esses bem conhecidos entre lingüistas profissionais.

Muitas pesquisas de campo têm sido feitas por excelentes lingüistas no Brasil e em muitas outras partes do mundo. Repito, parece haver uma confusão sobre esse assunto. Minhas conclusões sobre a existência de uma gramática universal -quer dizer, a existência de uma teoria correta da faculdade lingüística humana- são meros truísmos.

Se essa faculdade não existe, então a aquisição lingüística é um milagre. Se ela existe, então não há razão para duvidar de que exista uma teoria correta sobre sua natureza.

FOLHA - Em entrevistas, raramente o sr. fala de literatura. Uma das poucas observações é a de que ‘não é improvável que a literatura sempre vá render insights mais profundos para aquilo que é chamado de ‘a pessoa humana plena’ do que qualquer método de investigação pode esperar conseguir’. Poderia comentar isso?

CHOMSKY - De um lado, esse comentário é sobre quão pouco se sabe sobre o ser humano, sob qualquer ponto de vista, como o científico. Os assuntos humanos são complexos demais para que a ciência seja capaz de dizer muito sobre eles. As ciências sociais são úteis, mas não podem penetrar muito fundo.

O outro lado da questão é que a literatura e as artes freqüentemente oferecem insights penetrantes sobre como é o ser humano, como ele se comporta, como são suas inter-relações, que tipo de problemas ele enfrenta e assim por diante.

Mas esses insights não provam nada, só nos revelam coisas que podemos entender intuitivamente tão logo as percebamos. É por isso que eles são freqüentemente tão pungentes e têm tanto efeito sobre nós.

FOLHA - O sr. é autor de uma frase famosa e que já rendeu muita discussão: ‘Idéias verdes incolores dormem furiosamente’. Qual é sua opinião sobre poesia, enquanto lingüista?

CHOMSKY - É claro que a poesia tem uma enorme importância, e é por isso que encontramos alguma forma de poesia em toda cultura e tradição que se conhecem: de tradições orais, que datam de milhares de anos, até a poesia moderna e experimental, a poesia se encontra em toda parte.

Ela pode ser feita de modo brilhante e efetivo. Esse verso, em particular, foi mal entendido, e foi só um dos muitos exemplos que dei: era um exemplo porque, simultaneamente, refutava algumas teorias dominantes sobre o que torna as frases gramaticais.

Uma teoria é a de W.V. Quine [1908-2000], talvez o filósofo anglo-americano mais influente da era moderna. Para ele uma frase seria gramatical se tivesse sentido.

Mas, veja, você tem que ter cuidado ao afirmar isso. Outros, como o novelista e filósofo Michael Frayn, interpretaram isso erroneamente.

Ele apontou de modo bastante correto que você não pode dar sentido para isso, mas para tudo pode se dar um sentido. Para qualquer série de palavras pode se atribuir um sentido.

Se você inverter a ordem da frase, ‘Furiosamente dormem verdes incolores idéias’, você pode atribuir um sentido para ela também. Por esse critério, tudo seria gramatical.

Mas Quine está falando de sentido literal, e neste caso nenhuma das duas frases tem sentido literal, mas uma é gramatical, e a outra não.

De fato, a poesia joga com isso: um de seus principais procedimentos, discutido há 50 anos por William Empson [1906-84], em seu livro ‘Seven Types of Ambiguity’ [Sete Tipos de Ambigüidade], é justamente tentar lutar contra as leis gramaticais, criar uma tal concisão de expressão que force o leitor a completar o sentido.

17/04/2007

Pirahã e a Gramática Universal por Emanuel Souza de Quadros

Há uma recente comoção na lingüística provocada pelos estudos de Daniel Everett sobre o Pirahã, uma língua falada às margens do rio Maici, que fica no município de Humaitá, no estado do Amazonas. Para o lingüista, essa língua representa um grande desafio à lingüística gerativa. No artigo "Cultural Constraints on Grammar and Cognition in Pirahã: Another Look at the Design Features of Human Language", publicado em outubro de 2005, no periódico Current Anthropology, Everett arrola algumas lacunas e fatos gramaticais que seriam característicos da língua; entre eles estão: a ausência de números ou qualquer termo quantificador, de palavras para designar cores, e, de forma central, a ausência de recursividade, uma propriedade central da linguagem humana, de acordo com Hauser, Chomsky e Fitch (2002). Além disso, o autor cita algumas características excepcionais da cultura Pirahã, como a ausência de ficção, mitos de criação e de arte.

Everett vai além da descrição dessas peculiaridades dos Pirahã, argumentando que todas elas derivam de uma única restrição cultural, o Princípio da Experiência Imediata (PIE): "a comunicação é restrita à experiência imediata dos interlocutores", na formulação do artigo da Current Anthropology. Dessa forma, teríamos um princípio cultural determinando, além de outros fatos culturais, aspectos gramaticais da língua. Para o lingüista, a observação de que aspectos centrais da gramática são diretamente afetados pela cultura que a cerca representa um grande desafio à noção de um módulo de linguagem autônomo e biologicamente determinado.

Uma grande cobertura da imprensa seguiu-se à publicação. Nada de inesperado: uma cultura exótica, uma língua com propriedades tidas como estranhas às de qualquer outra conhecida até então… notícia! Outra conseqüência das afirmações de Everett foi o crescimento do interesse da comunidade científica pelo Pirahã, incluindo algumas reações simpáticas e outras adversas ao trabalho do lingüista. Entre as críticas, encontra-se um artigo recente, "Pirahã Exceptionality: a Reassessment", publicado no Lingbuzz por Andrew Nevins, da Universidade de Harvard, David Pesetsky, do MIT, e Cilene Rodrigues, da Unicamp. Nesse artigo, os autores questionam a descrição de Everett dos fatos do Pirahã, mostrando evidências convincentes da existência de quantificadores, de palavras para designar cores, de recursividade, etc., avaliando sistematicamente as lacunas gramaticais propostas no artigo da Current Anthropology. A descrição de Everett da cultura Pirahã também é questionada, com base em outros trabalhos antropológicos que atestam a existência de ficção, mitos de criação e de arte. A análise lingüística dos autores desexoticiza a gramática da língua, mostrando que ela não representa para a hipótese da Gramática Universal nenhum desafio maior que o representado por qualquer das línguas já bastante conhecidas do mundo.

É claro que Everett não ficaria silencioso diante dessa réplica. A resposta, "Cultural Constraints on Grammar in Pirahã: A Reply to Nevins, Pesetsky e Rodrigues", que saiu há poucas semanas, reafirma sua posição quanto à excepcionalidade de algumas características da língua em questão, supostamente derivados de uma restrição cultural, questionando a interpretação dos fatos dada pelos três autores.

Quanto a mim, independente de qual se mostrar a descrição correta dos dados do Pirahã, as conclusões teóricas de Everett parecem infundadas sob um ponto de vista lógico. Em nenhum momento, o autor deixa clara qual é a conexão entre a suposta restrição cultural e as construções gramaticais que ele diz serem bloqueadas por ela. O status dessa "predição" não é precisado. Nos dois trabalhos referidos, o lingüista cita, por exemplo, a falta de recursividade como decorrente do PIE. Não há, no entanto, nenhuma razão para esperar que uma restrição cultural como "a comunicação é restrita à experiência imediata dos interlocutores" bloqueie construções recursivas como a subordinação. Imaginemos uma língua que estivesse mesmo sujeita a tal princípio. Por que haveria bloqueio de uma frase como "A menina que está sentada na cadeira que eu adoro está me olhando fixamente"? A língua poderia muito bem permitir frases como essa, contendo estruturas recursivas, que retratam experiências imediatas.

Outras supostas consequências do PIE parecem ser ainda menos relacionadas a esse princípio, e não há uma boa explicação do autor sobre como essa restrição funcionaria nesses casos. A suposta ausência de palavras para designar cores, também questionada por Nevins, Pesetsky e Rodrigues, com base na lista em (1), abaixo, não parece poder ser explicada por um princípio que exige referência à experiência imediata dos interlocutores - afinal, é justamente aí que as cores se manifestam!

(1) Cores em Pirahã

biísi ‘amarelo’, ‘laranja’, ‘vermelho’

xahoasai ‘azul’, ‘verde’

kobiaí ‘branco’

kopaíai ‘preto’

tixohói ‘roxo’

tioái ‘escuro’

Ademais, acreditar na hipótese de uma Gramática Universal, não implica, de modo algum, acreditar que o produto final, a língua, não é influenciado pela cultura circundante. Everett está correto quando diz que essa hipótese não prediz a influência da cultura sobre a língua, mas está errado ao insinuar que, por isso, ela é inadequada. Isso porque ela também não prediz o contrário - e não há razões para esperar que ela o fizesse. Trata-se de uma hipótese sobre uma faculdade da linguagem, geneticamente determinada, que os indivíduos da espécie humana trazem consigo em seu estado inicial. A interação dessa faculdade com outros sistemas cognitivos, que medeiam, por sua vez, a relação do indivíduo com a cultura é um outro problema. Se essa interação produz um estado final que, além de possuir propriedades determinadas pela Gramática Universal, apresenta características bastante ligadas ao meio sócio-cultural, não se pode concluir, daí, que a teoria que especifica o estado inicial está errada por não levar em conta a existência desses outros fatores que interagiram com o estado inicial na geração do produto final. Seria como dizer que uma especificação do estado inicial, geneticamente determinado, do corpo de um ser humano, é inadequada por não levar em conta o número e o formato das tatuagens que o indivíduo fará ao longo de sua vida. É mais ou menos o que diz Tecumseh Fitch, numa passagem trazida por um artigo da Folha Online:

…é um truísmo que a cultura molda a linguagem. É por isso que o brasileiro tem a palavra samba e o escocês tem a palavra haggis. E daí? As implicações disso para a Gramática Universal são nulas.

06/08/2006

Catalãezinhos sem estímulo por Emanuel Souza de Quadros

Ainda com as questões de Aquisição da Linguagem do meu post anterior e do post do Paulo Henrique, sugiro, para quem se interessa pelo debate em torno do Argumento da Pobreza de Estímulo, um artigo de Susagna Tubau que traz uma evidência empírica interessante em favor do argumento. O artigo vem em resposta à afirmação de Pullum and Scholz (2002) de que faltam evidências desse tipo na literatura em lingüística gerativa.

A autora explora a observação de que seqüências Objeto - Verbo (OV) com verbos télicos1 são produzidas sistematicamente por crianças catalãs em torno dos dois anos de idade, enquanto, na fala adulta, essa ordem é quase inexistente, sendo VO a predominante em Catalão. Nas poucas ocorrências encontradas na fala adulta, a inversão ocorreu tanto com verbos télicos como com atélicos.

O que o estudo demonstra, é a existência na gramática da criança de um padrão que viola a gramática do adulto, mas que respeita os princípios atribuídos à Gramática Universal. É um tipo de evidência diferente do que foi demonstrado no meu post anterior. Não se trata, agora, de uma parte da gramática do adulto que não pode ser adquirida pela criança com base apenas em evidências positivas; trata-se de uma parte da gramática da criança que não encontra correspondência na gramática do adulto, mas que precisa ter saído de algum lugar.



1. Telicidade é uma noção aspectual. Um verbo é considerado como télico quando tem, em seu significado, a idéia da completude do processo. Ele está construindo uma cadeira, por exemplo, dá a idéia de que, em algum momento, a cadeira estará pronta e o processo referido estará completo. Já em Ele tem uma cadeira, esta noção não existe.

02/08/2006

Pobreza de Estímulo por Emanuel Souza de Quadros

O Argumento da Pobreza de Estímulo1 é geralmente utilizado como suporte para a idéia do inatismo na linguagem. Os últimos comentários no post do Paulo Henrique me levaram a falar um pouco sobre isso, tentando deixar clara a estrutura básica do argumento, com alguns comentários sobre ele. Que sirva de convite para a discussão sobre a pertinência do mesmo, já iniciada no outro post. O argumento pode ser resumido como segue:

  1. Há certas características das línguas naturais que não podem ser apreendidas pela criança com base apenas em evidências positivas2.
  2. O ambiente lingüístico no qual a criança cresce fornece apenas evidências positivas. As crianças só ouvem sentenças válidas da língua e não se deparam com nada que as mostre explicitamente que tipos de generalizações não podem ser feitas com base nos dados oferecidos.
  3. Crianças aprendem, de fato, a gramática das línguas a que são expostas.
  • Logo, deve existir algum conhecimento inato que supra as deficiências do input e garanta que a criança adquira uma gramática adequada.

Alguns críticos do argumento questionam a segunda premissa, que afirma não haver evidências negativas no input. É este questionamento que um dos comentários ao post anterior levanta, com referência ao Seu Lev Vygotsky. Também não conheço a obra dele, por isso espero que os comentários a esse post deixem mais clara sua posição no que concerne a este tópico. Até onde sei, para esse psicólogo russo, a linguagem é uma ferramente simbólica completamente provida ao indivíduo pela sociedade na qual ele está inserido.

Um caso muito discutido na literatura é o da inversão entre sujeito e verbo auxiliar na formação de frases interrogativas do Inglês (She can lick her elbowsCan she lick her elbows?). Esse padrão têm sido considerado, há algum tempo, como impossível de ser aprendido com base apenas em evidências positivas. Isso porque, com base no exemplo acima, a criança poderia adquirir regras diferentes, como (i) o primeiro verbo auxiliar da sentença é movido para o início dela, (ii) qualquer auxiliar é movido para o início da sentença, ou, ainda, (iii) o verbo auxiliar da oração principal é movido para o início da sentença; se todos os casos fossem simples como esse, qualquer das regras seria suficiente e a criança não saberia qual delas escolher.

A diferença aparece em sentenças mais complexas como:

  • The girl who is coming can lick her elbows "A guria que está vindo consegue lamber seus cotovelos"
    1. Can the girl who is coming ___ lick her elbows?
    2. *Is the girl who ___ coming can lick her elbows?

Dentre as três regras propostas acima, apenas a (iii) daria conta do fato de que a sentença (2) é agramatical. Isso mostra que as outras duas regras não servem como generalizações adequadas. No entanto, segundo Chomsky e outros autores que adotam sua perspectiva, crianças não são expostas a frases tão complexas como (1), para que possam decidir entre as regras alternativas. No entanto, sabe-se que é algo próximo à regra (iii) que as crianças de fato adquirem, já que podem produzir sentenças complexas como estas, antes mesmo de entrarem em contato com exemplos desse tipo. Supõe-se então que essa escolha é guiada por alguma restrição imposta a priori, que determina que operações sintáticas são dependentes da estrutura dos constituintes, de modo que a regra correta deve fazer referência a essa estrutura (é o que a regra (iii) faz, ao se referir à oração principal) e não à ordem ou seqüência dos elementos.

Uma crítica a essa proposta, que foi bastante discutida, é a de Pullum (1996). O autor levanta a possibilidade de que crianças tenham, sim, acesso a estruturas complexas como (1). Um dos problemas dessa proposta é que o corpus de língua adulta utilizado para determinar a freqüência dessa estrutura foi constituído por dados de língua escrita, extraídos de artigos do Wall Street Journal. O problema com isso é que, como o próprio autor aponta, nem mesmo banqueiros fazem seus filhos dormir, contando "historinhas" desse jornal. O mérito dessa crítica foi chamar atenção para a necessidade de uma avaliação empírica da afirmação, antes tomada sem discussão, de que crianças não ouvem construções como (1), que não me parecem ser tão incomuns assim.

Entre a série de críticas que se seguiram ao artigo de Pullum, ressalto um artigo de Lasnik & Uriagereka (2002). Concedendo a possibilidade de que sentenças do tipo de (1) estejam, de fato, disponíveis para a criança na fase da aquisição, os autores demonstram que, assim mesmo, o Argumento da Pobreza de Estímulo se sustenta. Isso porque o número de descrições possíveis para um determinado conjunto de dados é indeterminado - um problema enfrentado por qualquer teoria que proponha uma aprendizagem baseada na experiência, através de inferências indutivas. Desse modo, mesmo que a criança ouvisse sentenças complexas como Can the girl who is coming lick her elbows?, nada nos dados a impediria de formular outras regras absurdas que dariam conta desse e dos casos mais simples. Também nada garantiria que, dentre essas regras, não fosse escolhida alguma que, embora consistente com os dados encontrados até o momento, não daria conta de outras estruturas com as quais não houve contato durante a aquisição. Uma solução plausível, é propor um mecanismo inato que guia a aquisição, determinando a forma que as generalizações sobre a língua podem tomar.

As abordagens empiristas falham, então, no ponto crucial, que é demonstrar como a criança consegue depreender a generalização adequada somente com base nos dados que o ambiente lingüístico dispõe. Como Lasnik & Uriagereka (2002) apontam, já no início do artigo, "uma alternativa empirista séria à perspectiva racionalista de que a estrutura lingüística é parcialmente inata teria que demonstrar como uma hipótese correta é induzida a partir de meras extensões das evidências positivas."

1. O nome do argumento apareceu pela primeira vez num trabalho de Chomsky, Rules and Representations (1980)
2. As sentenças que a criança ouve formam o conjunto de evidências positivas a sua disposição. São os dados que o ambiente lingüístico fornece sobre o que é permitido na língua. Contariam como evidência negativa, informações que mostrassem explicitamente que certas sentenças são agramaticais, como correções dos pais que dissessem que certas coisas que a criança ouve não fazem parte da língua em questão.

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