Geoffrey K. Pullum tem um post interessante no Language Log sobre a idéia que muitos não-lingüistas fazem da relação entre sintaxe e semântica; ou melhor, de como aquela seria completamente derivável desta. De acordo com essa visão, o modo como se dispõe uma palavra qualquer em uma sentença segue-se diretamente do significado dessa palavra. Isso implicaria não haver nada de não-trivial para ser dito sobre fatos sintáticos: eles seriam, pura e simplesmente, reflexo da organização semântica da sentença.
Um exame de qualquer língua natural revela muitos contra-exemplos a essa idéia. Um dos que Pullum aponta é a diferença de transitividade entre to quake e to shake, do inglês. Ambas as palavras têm basicamente o mesmo significado e podem ser traduzidas para o português como tremer. No entanto, to shake é transitivo, mas to quake não. Por exemplo, se traduzíssemos a frase o temporal tremeu o mar para o inglês, poderíamos dizer the storm shook the sea, mas nunca *the storm quaked the sea, embora não seja evidente por que o significado de quake impediria tal uso.
Exemplos desse tipo são bons para que alguém se convença de que Sintaxe e Semântica constituem duas subdisciplinas distintas e relativamente independentes dentro da Lingüística. É evidente que isso não quer dizer que não haja intersecções entre elas, quer dizer apenas que há fatos puramente sintáticos e fatos puramente semânticos. Na prática, qualquer estudo aprofundado da sintaxe de uma língua deve fazer referência a fatos de natureza semântica, assim como um estudo aprofundado da semântica de uma língua deve fazer referência a fatos de natureza sintática.
Deixando de lado a divisão de tarefas entre as áreas da Lingüística, podemos ver uma implicação dessa discussão para a aquisição da linguagem: um aprendiz deve saber que certos tipos de evidências não são determinantes das propriedades sintáticas de um item lexical. Imaginemos, por exemplo, uma criança na tarefa de aprender os verbos shake e quake com suas respectivas valências. Se ela pensasse como um adulto não-lingüista, nada a impediria de considerar quake como um verbo transitivo, afinal isso é semanticamente possível: ela pode fazer seus brinquedos tremerem e pode usar shake, de mesmo significado, para descrever a situação, transitivamente. O fato de os adultos a sua volta não utilizarem quake como transitivo pouco importa - eles também não dizem que não se pode fazer isso.
Já uma criança com uma teoria mais restritiva da relação entre sintaxe e semântica, não se deixaria levar pela semelhança de significado entre os dois verbos. Ela saberia que a diferença de transitividade entre eles deve ser resolvida por meio de uma simples evidência distribucional: na fala do adulto, shake coocorre com um objeto direto, e quake não, embora ambos tenham significados muito semelhantes. As crianças reais parecem ser mais próximas desta última.