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A vaca foi literalmente pro brejo por Emanuel Souza de Quadros

Mirella, do blog Cafeína, está irritada com um uso que eu ainda não havia notado. Trata-se do emprego de literalmente para indicar eventos nada "literais", como na frase abaixo, coletada por ela mesma.

(1) Naquele dia, depois daquela derrota, meu mundo literalmente acabou.

O que causa estranhamento nessa construção é que literalmente não está contrastando o sentido pretendido com um sentido figurado da expressão. Seria esse o caso se, por exemplo, o falante dessa frase fosse um extraterrestre que acabou de ver seu planeta literalmente ir para o espaço, após uma batalha com Galactus! Ele estaria usando esse advérbio para negar o sentido figurado e dizer "é exatamente isso que eu quero dizer: meu mundo acabou mesmo!". Ao invés disso, o advérbio em (1) está apenas enfatizando o sentido da expressão, que, por sinal, é figurado.

Acontece que quando se usa literalmente em seu sentido mais "canônico", em uma frase como "Agora, a vaca foi literalmente pro brejo", descrevendo um evento em que uma vaca entrou em um brejo, de verdade, também há aí um efeito de ênfase. Uma opção seria dizer "Agora, a vaca foi mesmo pro brejo", descrevendo o mesmo evento. Neste último caso, a frase fica mais claramente ambígüa: mesmo pode tanto enfatizar um sentido figurado (deu tudo errado mesmo), como intensificar o sentido literal, constrastando-o com o figurado (não, nada deu errado, a vaca foi pro brejo mesmo, de verdade!). No caso de literalmente, todo o povo da comunidade do Orkut citada no post do Cafeína só aceita este último uso, de intensificação do sentido literal; no entanto, o fato de haver tantos membros nela mostra que há um número muito maior de pessoas aí afora que aceitam, e usam, esse advérbio para enfatizar um sentido figurado.

Parece-me um desenvolvimento natural do uso dessa expressão, que ele consagre a parte intensificadora de seu sentido, generalizando-a a um número maior de contextos. E essa generalização deixa de parecer sem lógica se pensarmos que, ao dizer a frase em (1), o falante expressou em literalmente que "é isso mesmo que quero dizer, com todas as letras, e com todo o sentido figurado a que tenho direito". Cabe dizer que o sentido figurado também passa a ser parte do significado da expressão - com a possibilidade até de que a história um dia o reconheça como "sentido literal".

É importante notar também que a estrutura morfológica de uma palavra, isto é, o fato de que ela é uma combinação de literal + mente, não determina completamente o seu sentido. Mesmo que o faça inicialmente, isto é, no primeiro momento em que o vocábulo foi formado, vem sempre o uso da língua, que acaba levando a expressão a outras direções.

Mais ilógico do que esse uso de literalmente, parece ser execrá-lo sem também abominar uma frase como "Naquele dia, meu mundo realmente acabou", afinal, o que está sendo enfatizado por realmente não é um evento que aconteceu na realidade - a não ser no caso do tal extraterrestre. Ou, então, será que deveríamos também banir o uso de literalmente na língua falada? Afinal, não saem letras de nossa boca quando falamos (Nota: isso acontece com crianças comendo sopa de letrinhas).

Aliás, na língua inglesa, puristas reclamam desse uso de literally há um bom tempo. Abaixo, um item da "lista negra de falhas literárias" de "Write it Right" (1909), por Ambrose Bierce, que traz exemplos desse uso "não-literal" de literally, já no início do século passado.

Literally for Figuratively. "The stream was literally alive with fish." "His eloquence literally swept the audience from its feet." It is bad enough to exaggerate, but to affirm the truth of the exaggeration is intolerable.

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Atualização: Ver o post do Filisteu e as atualizações do post do Cafeína para uma boa continuação desse assunto.


The World Atlas of Language Structures por Emanuel Souza de Quadros

Ontem foi o lançamento oficial da versão online do WALS (The World Atlas of Language Structures). Estão disponíveis no site todos os dados e textos analíticos do atlas publicado pela Oxford University Press, que custa míseros 1.433 reais e 70 centavos na Livraria Cultura (quer comprar?). Pois é, disponíveis online, de graça!

De acordo com o site, o atlas possui dados de mais de 2500 línguas. As pesquisas podem ser feitas por característica estrutural, por língua, por referência ou por autor. Como exemplo, podemos ver o mapa da distribuição de línguas que possuem contraste entre vogais nasais, em oposição às que não possuem. Para ver o nome da língua e as fontes de onde as informações foram retiradas, basta clicar no símbolo relevante no mapa. Cada característica estrutural é também acompanhada por um texto que traz as definições e distinções necessárias.

Fun!


*Quake your body por Emanuel Souza de Quadros

Geoffrey K. Pullum tem um post interessante no Language Log sobre a idéia que muitos não-lingüistas fazem da relação entre sintaxe e semântica; ou melhor, de como aquela seria completamente derivável desta. De acordo com essa visão, o modo como se dispõe uma palavra qualquer em uma sentença segue-se diretamente do significado dessa palavra. Isso implicaria não haver nada de não-trivial para ser dito sobre fatos sintáticos: eles seriam, pura e simplesmente, reflexo da organização semântica da sentença.

Um exame de qualquer língua natural revela muitos contra-exemplos a essa idéia. Um dos que Pullum aponta é a diferença de transitividade entre to quake e to shake, do inglês. Ambas as palavras têm basicamente o mesmo significado e podem ser traduzidas para o português como tremer. No entanto, to shake é transitivo, mas to quake
não. Por exemplo, se traduzíssemos a frase o temporal tremeu o mar para o inglês, poderíamos dizer the storm shook the sea, mas nunca *the storm quaked the sea, embora não seja evidente por que o significado de quake impediria tal uso.

Exemplos desse tipo são bons para que alguém se convença de que Sintaxe e Semântica constituem duas subdisciplinas distintas e relativamente independentes dentro da Lingüística. É evidente que isso não quer dizer que não haja intersecções entre elas, quer dizer apenas que há fatos puramente sintáticos e fatos puramente semânticos. Na prática, qualquer estudo aprofundado da sintaxe de uma língua deve fazer referência a fatos de natureza semântica, assim como um estudo aprofundado da semântica de uma língua deve fazer referência a fatos de natureza sintática.

Deixando de lado a divisão de tarefas entre as áreas da Lingüística, podemos ver uma implicação dessa discussão para a aquisição da linguagem: um aprendiz deve saber que certos tipos de evidências não são determinantes das propriedades sintáticas de um item lexical. Imaginemos, por exemplo, uma criança na tarefa de aprender os verbos shake e quake com suas respectivas valências. Se ela pensasse como um adulto não-lingüista, nada a impediria de considerar quake como um verbo transitivo, afinal isso é semanticamente possível: ela pode fazer seus brinquedos tremerem e pode usar shake, de mesmo significado, para descrever a situação, transitivamente. O fato de os adultos a sua volta não utilizarem quake como transitivo pouco importa - eles também não dizem que não se pode fazer isso.

Já uma criança com uma teoria mais restritiva da relação entre sintaxe e semântica, não se deixaria levar pela semelhança de significado entre os dois verbos. Ela saberia que a diferença de transitividade entre eles deve ser resolvida por meio de uma simples evidência distribucional: na fala do adulto, shake coocorre com um objeto direto, e quake não, embora ambos tenham significados muito semelhantes. As crianças reais parecem ser mais próximas desta última.


ReVEL - Fonética e Fonologia! por Emanuel Souza de Quadros

Para quem ainda não conhece, a Revista Virtual de Estudos da Linguagem (ReVEL) é uma publicação eletrônica, semestral. Desde 2003, a revista vem, a cada edição, divulgando trabalhos em temas específicos dos estudos lingüísticos, como Aquisição da Linguagem, Lingüística Computacional, Estudos do Texto e do Discurso, entre outros. A edição deste semestre, que acabou de ser lançada, é sobre Fonética e Fonologia e traz, além de 22 artigos e 3 resenhas de livros da área, entrevistas com a prof. Dra. Leda Bisol e com o prof. Dr. Luiz Carlos Cagliari. Vale a pena dar uma olhada - até porque é de graça (não dói nada!)

Ah, e quem quiser ter seu artigo publicado na próxima edição, que terá como temas Semântica, Pragmática e Filosofia da Linguagem, tem até o dia 5 de dezembro deste ano para enviá-lo.


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