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ReVEL, Vol. 6 - Número 10 por Emanuel Souza de Quadros

Saiu ontem a nova edição da Revista Virtual de Estudos da Linguagem - ReVEL. Esse número tem como tema Sintaxe Formal e traz, além de artigos e resenhas, três entrevistas bastante interessantes: Jairo Nunes falando sobre o Programa Minimalista, Jane Grimshaw falando sobre a Sintaxe na Teoria da Otimidade e Carlos Prolo falando sobre Tree-Adjoining Grammars.

O tema da próxima edição será Psicolingüística. O período de submissão de trabalhos vai até dia 5 de junho de 2008.


C#NS##NT#S por César Gonzalez

Acabo de receber um e-mail com uma interessante mensagem:

3M D14 D3 V3R40, 3574V4 N4 PR414, 0853RV4ND0 DU45 CR14NC45 8R1NC4ND0 N4
 
4R314. 3L45 7R484LH4V4M MU170 C0N57RU1ND0 UM C4573L0 D3 4R314, C0M 70RR35,
P4554R3L45 3 P4554G3NS 1N73RN45. QU4ND0 3575V4M QU453 4C484ND0, V310 UM4
0ND4 3 D357RU1U 7UD0, R3DU21ND0 0 C4573L0 4 UM M0N73 D3 4R314 3 35PUM4.

 

Está certo que não é difícil para um falante de português acostumado à leitura entender o que está escrito aí.  Exitem algumas pequenas regras que mudam as letras das palavras por números de formas semelhantes. Algo como E » 3; A » 4 e T » 7 (dentre outras). O e-mail não traz nada muito especial, nada muito novo. E alguém poderia argumentar que letras e números são muito parecidos para criar um real obstáculo.

Entretanto, o e-mail me lembrou de um argumento Marina Nespor em um mini-curso oferecido por ela durante o Seminário Internacional de Fonologia desse ano. A fonóloga italiana, preocupada com a aquisição de línguas, trouxe a hipótese de que as consoantes de uma língua, de um lado, seriam as responsáveis pela compreensão semântica. As vogais, por outro lado, seriam as responsáveis por indicações gramáticais. Se assim fosse, crianças em fase de aquisição da linguagem teriam mais uma dica nos dados do input para ajudar na segmentação da cadeia da fala em frases fonológicas, palavras, pés, sílabas e outras categorias prosódicas, que parecem ser importantes para a aquisição.

Um dos argumentos a favor dessa hipótese está nesta sentença:

#A#IA #OI# #A##O##O# #A#UE#A #A#A.

Nela todas as consoantes das palavras foram substituídas por símbolos e nenhuma leitura pode ser feita, nenhum significado pode ser atribuído. Entretanto, consideremos a sentença que segue:

H#V## D##S C#CH#RR#S N#Q##L# C#S#.

A sentença é simples: Havia dois cachorros naquela casa. E parece que conseguimos ler sem muitos problemas. Parece que o significado da sentença é desvelado com uma substancial ajuda das consoantes dela. Claro, alguém poderia objetar, dizendo que sabemos quais são as vogais pois elas aparecem no meu primeiro exemplo. Por isso, aqui está outra sentença para apreciarmos:

M#RC#S V#V# C#M S##S #V#S.

Não estou dizendo que consoantes são tudo o que se precisa para compreencer um palavra. Certamente, as vogais são tão importantes quanto. Além do mais, não está claro para mim a relação de vogais e gramática. Apesar disso, a hipótese é interessante e merece ser discutida. Por isso trouxe ela para o Language Bar.

P.S.: Se alguém possuir o artigo de Nespor discutindo essa questão, por favor, entre em contato.


Mais um argumento a favor do Inatismo por César Gonzalez

Um estudo recente mostra que a bebês podem diferenciar línguas através de estímulos visuais como os movimentos faciais envolvidos na fala. O estudo foi feito com bebês monolíngües e bilíngües Inglês-Francês canadenses. A NewScientist pergunta se nós adultos conseguimos fazer o mesmo: tentem os vídeos alfa e beta

Os pesquisadores testaram os bebês através de vídeos mudos de adultos falando em Inglês e Francês. Os bebês assistiam ao vídeo em apenas uma das línguas - por exemplo,  Inglês - até o momento em que se desinteressassem. Quando isso acontecesse, o falante adulto que estava sendo filmado substituía a língua que estava utilizando - no nosso exemplo, para o Francês. Esperava-se que, se os bebês notassem a diferença, eles voltassem a prestar atenção no vídeo.

Os resultados mostraram que os bebês percebiam a mudança de código lingüístico. Bebês de 4 e 6 meses monolíngües percebiam a diferença, tanto quanto seus pares bilíngües. Entretanto, aos 8 meses, apenas os bebês bilíngües conseguiam diferenciar as línguas. Vejamos os gráficos abaixo:

 

Visual Language Discrimination Graphics 

O gráfico A mostra bebês monolíngües frente à mudança no código lingüístico. Linha pontilhadas representam o grupo de controle - para o qual não foi apresentado mudança Inglês-Francês. O grupo de controle mostra uma gradativa queda na atenção ao vídeo. Já o grupo de teste mostra aumento no tempo de atenção ao vídeo.

O gráfico B mostra o mesmo em relação aos bebês de 8 meses, com uma comparação entre os bilíngües (pontilhados) e monolíngües (linhas não pontilhadas).

Um dos pontos interessantes desse estudo é o fato de trazer mais um argumento a favor de uma linguagem inata. Os bebês chegam ao mundo preparados para fazer uso de diferentes técnicas para adquirir uma língua. Por que não aceitar que a informação facial pode ser mais uma dessas?

Resposta da pergunta da NewScientist: vídeo alfa: Francês; vídeo beta: Inglês. 


Qual é mesmo o nome daquilo… hat… Hut… sombrero, sabe? por Emanuel Souza de Quadros

Um grupo de psicólogos do Memory Control Lab da Universidade de Oregon vêm estudando os mecanismos que levam ao esquecimento há um bom tempo. Saiu agora, na revista Psychological Science desse mês, um estudo do grupo sobre um fenômeno bastante conhecido de quem já tentou aprender uma língua estrangeira: o esquecimento temporário de palavras da língua materna que se referem a conceitos que o falante consegue nomear, sem muita dificuldade, na segunda língua.

O estudo sugere que isso não ocorre simplesmente porque as palavras esquecidas são pouco usadas. Na verdade, o esquecimento refletiria uma inibição das formas fonológicas das palavras da língua materna, que, de outra forma, poderiam funcionar como distração ou interferência enquanto falamos a nova língua. Seria então uma estratégia de aprendizagem, em que o esquecimento age como uma resposta adaptativa à necessidade de eliminar interferências.

Na pesquisa realizada, quanto maior era o grau de fluência dos estudantes na língua estrangeira, menos suscetíveis eles estavam a esses efeitos de inibição da língua materna. Isso sugere que em estágios avançados do aprendizado de uma segunda língua, essa estratégia de esquecimento torna-se menos necessária. Aprendizes pouco fluentes apresentaram maiores graus de inibição de palavras da língua materna, refletindo uma necessidade de se ignorarem palavras desta, na medida em que o falante se esforça para expressar os mesmos conceitos usando palavras da língua estrangeira.

O artigo, assim como outros trabalhos do grupo, está disponível no site do Memory Control Lab.


The Language “Switch” por César Gonzalez

Pesquisadores da Universidade de Kyoto encontraram a região no cérebro que é responsável por mudar a língua que o poliglota está utilizando. Isso é no mínimo interessante, é como se tivéssemos uma chave em nossa mente que desliga uma gramática e liga outra. Parece, entretanto, que nosso sistema de mudança lingüística não é lá muito eficiente, pois, de acordo com um dos participantes da pesquisa, foram documentados casos em que os falantes de diversas línguas acabavam por misturá-las, assim a pesquisa pode agora ajudar a explicar o porquê. Mas, enfim, é o cérebro humano. Qualquer descoberta é importante, afinal, sabemos muito pouco sobre ele.

Interessante lembrar do fenômeno de Code-switch, no qual o falante de determinada língua muda a língua em que está falando no meio de seu discurso, ou insere palavras de outra língua no seu discurso. Comum em países em que se tem muitos imigrantes, como a França, em que boa parte dos imigrantes do norte da África "faz code-switch" entre o francês e suas línguas maternas. Em algumas culturas esse fenômeno é sinal de status social, em outras é mau sinal falar com code-switch.

Felizmente, isso pode nos levar a descobertas maiores. Robert Kluender (da Universidade da Califórnia em San Diego) já se manifestou dizendo que ainda não se pode afirmar nada, pois "este é um aspecto muito limitado do processamento da linguagem" e deve-se pesquisar mais. A pergunta de Robert Kluender é válida, uma vez que o experimento foi feito com palavras ele se pergunta: será que a descoberta vale para o nível da sentença? Se não vale, onde é processada a informação das sentenças? Espero que essa pesquisa dê bons frutos e que eu possa escrever sobre eles.


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