Language Bar

04/06/2008

Inventário das línguas do Brasil por Emanuel Souza de Quadros

De acordo com uma matéria publicada hoje no Estado de São Paulo, o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) aprovou a realização de um levantamento das línguas que são faladas no Brasil.

Não conheço o histórico de realização desse tipo de pesquisa por aqui, mas lembro da conferência de abertura do III Seminário Internacional de Fonologia, no ano passado. Nela, a professora Yonne Leite (UFRJ) citou algumas tentativas anteriores de mapear as línguas indígenas brasileiras, que obtiveram resultados conflitantes. Não é difícil imaginar razões para estudos desse porte divergirem, começando pela questão básica de sabermos identificar quando estamos diante de uma variedade de uma língua que já conhecemos ou diante de uma nova língua.

Ainda assim, o novo mapeamento, promovido pelo Iphan, parece ter pretensões maiores. A idéia é contemplar, além das indígenas, línguas afro-brasileiras e de imigrantes, e também as variedades do próprio português (o que contradiz o início da matéria, que diz "à exceção do português").

A notícia me lembrou da primeira conversa que tive com meus alunos do estágio de língua inglesa (8ª série), quando eles se surpreenderam ao saber que há, atualmente, mais de cem línguas espalhadas pelo Brasil, além do português. O levantamento do Iphan vem com um objetivo de promover esse reconhecimento em uma escala maior.

18/01/2008

Arbitrariedades and all that por Emanuel Souza de Quadros

Do baú de notícias velhas, um texto publicado na Slate sobre o best-seller do jornalista Harry Mount sobre a língua latina. No texto, Emily Wilson chama atenção para o título da edição norte-americana da obra: Carpe Diem: Put a little Latin in your life. No original britânico, o título é Amos, Amas, Amat … and All That. De acordo com ela, a mudança reflete algo sobre a posição do latim nas culturas norte-americana e britânica. Nesta, esperar-se-ia que pessoas razoavelmente educadas reconhecessem o paradigma latino, ao passo que, naquela, não se esperaria que muitos o fizessem.

Aqui a mudança teria que ser mais drástica. Numa eventual tradução do livro para o mercado brasileiro, a expressão Carpe Diem seria barrada pelo censor oficial da Língua Portuguesa. Tudo para nos defender da invasão imperialista da cultura romana. Também para lembrar seus eleitores de que eles não têm a menor competência para entender alguma dessas expressões estrangeiras que tanto "dificultam a comunicação do povo brasileiro" (Gazetaweb.com - Gazeta de Alagoas, 23/12/2007).



Compare preços de Carpe Diem: Put a little Latin in your life.

22/12/2007

Não é para qualquer um… por Emanuel Souza de Quadros

Folha Online - Cotidiano - CCJ da Câmara aprova projeto que veta estrangeirismos - 13/12/2007

Vai dizer. O deputado Aldo Rebelo deve ter muito tempo sobrando e um profundo descrédito na inteligência do povo que o elegeu.

Millôr Fernandes já disse tudo:

"Pera aí: estava em sua proposta de governo que ele tinha autoridade para interferir no que eu falo, escrevo ou pinto em minha tabuleta? Ele sabe, literalmente, do que está falando? Quanta idioletice!" (no caderno Mais! da Folha de S. Paulo, de 27 de agosto de 2000).

27/02/2007

Loucos mentais por Emanuel Souza de Quadros

Mais uma das perguntas que alguém fez ao Google, sem saber que cairia no Language Bar. A pergunta é ótima. O melhor é que o Google nos traz como o primeiro resultado da pesquisa. Aparentemente, então, somos especialistas no assunto e não há ninguém melhor para responder à pergunta: onde vivem as pessoas que ficaram loucas mentalmente?

Resposta: na França, é claro.

Parece que alguns franceses estão querendo tornar o francês a língua oficial da União Européia para questões legais, com a justificativa de que esta é a mais precisa, rigorosa e confiável das línguas européias. De acordo com Nicole Fontaine, ex-presidente do Parlamento Europeu, uma das cabeças da história:

Essa língua[, o francês,] é reconhecida por ser analítica, precisa e clara, com uma sintaxe que pode se adaptar a todas as intenções de pensamento e é particularmente apta às definições e expressões da Lei.

Uma outra citação beirando o ridículo, de Maurice Druon, poderia até ser engraçada, se não estivéssemos falando de um autor e membro da Academia Françesa, instituição na qual (tremam…) nossa Academia Brasileira de Letras buscou inspiração.

O italiano é a língua da canção, o alemão é bom para a Filosofia, e o inglês para a poesia. O francês é melhor quanto à precisão, por seu rigor. É a língua mais segura para questões legais.

Não consigo pensar em outra definição para "ficar louco mentalmente", que não seja algo relacionado a essa tentativa patética de afirmação lingüística. Era de se esperar que Monsieur Druon soubesse que é possível fazer belas canções, Filosofia de peso e boa poesia em qualquer língua do mundo, assim como é possível falar besteiras - ao menos nisso, já vimos que francês e português se igualam.

 


 

Pensei no rigor e na precisão da língua francesa quando me deparei com a seguinte passagem na biografia de Maurice Druon, que está na Wikipédia:

(…) foi Secretário Perpétuo desta Instituição, a partir de 1985, mas escolheu em 1999 renunciar a esta última função, cedendo o lugar a Hélène Carrère de Encausse.

Imaginei que isso só poderia acontecer na versão portuguesa da Wikipédia, porque, claro, na versão francesa, um secretário perpétuo jamais deixaria de ser secretário. Parecia um claro erro de editores brasileiros. Mas na Wikipédia francesa, a decepção:

(…) dont il en sera secrétaire perpétuel à partir de 1985. Mais il choisit en 1999 de renoncer à cette dernière fonction, cédant la place à Hélène Carrère d’Encausse.

Péssima piada, mas ao menos a pergunta inicial foi satisfatoriamente respondida.

31/01/2007

Discussões sobre Lingüística por Paulo H

Vou escrever sobre algo que me incomoda de fato e tem me incomodado mais nesses últimos tempos. É sobre o que acontece quando pessoas estão discutindo Lingüística. O que sempre acontece. Acaba-se caindo num papo sobre Educação - devemos ou não ensinar norma culta? - e na velha "disputa" entre Lingüística e Gramática Tradicional (ou Normativa, pros mais nervosinhos).

Sinceramente, pessoas e pessoos, nós não temos mais o que fazer ou esse é o grande problema a ser discutido. Concordo que pra quem não tem a mínima noção de Lingüística esse assunto é o mais atraente, talvez seja essa a melhor forma de apresentar aquilo que fazemos ou queremos fazer, mas que é um saco quando algum colega teu puxa esse assunto, ah isso é. ("Mas e aí, meu velho", diz Fulano, "devo ou não devo levar o Celso Cunha pra sala de aula?"). Olha aqui, tchê, faz o que te der na telha, mas não me pergunta mais sobre isso.

Me abstenho em 99% das discussões do Orkut por esse motivo. Todas as comunidades sobre Lingüística poderiam muito bem se reduzir a uma com talvez apenas um tópico: O mesmo velho papo. Isso me faz perguntar, em conclusão: Esse é de fato o grande problema e por isso sempre caímos nele, como uma paixão mal resolvida?

12/01/2007

Liminar obriga a fiscalização de estrangeirismos em anúncios por Emanuel Souza de Quadros

Foi divulgada hoje, no site da Justiça Federal, a determinação do juiz federal substituto da 1ª Vara de Guarulhos, Antônio André Muniz Mascarenhas de Souza, de que o governo federal passe a fiscalizar o emprego da língua portuguesa na oferta e apresentação de produtos e serviços em todo o país. A ação foi proposta pelo Ministério Público Federal.

A liminar determina que expressões como "sale", "off", "summer", etc., devem ser acompanhadas de tradução, com o mesmo destaque. Apenas publicidade que não contenha nenhum tipo de oferta tem liberdade para utilizar qualquer símbolo, palavra ou gesto, "desde que sujeitando-se às regras dos artigos 36 a 38 do CDC [Código de Defesa do Consumidor], que proíbem a mensagem enganosa ou abusiva".

O governo federal deverá, de acordo com a determinação, aplicar as penalidades previstas no artigo 56 do CDC (multa, apreensão do produto, cassação do registro, etc.), além de repassar a decisão aos orgãos de proteção e defesa do consumidor, a fim de divulgar a medida aos consumidores e fornecedores em todo o território nacional. A multa diária estipulada, em caso de descumprimento da decisão, é de $5 mil à União.

Não é o fim do mundo para os fornecedores que usam línguas estrangeiras na oferta de seus produtos; passar a usar a língua portuguesa não dói nada. De qualquer forma, isso me faz pensar que o Judiciário não tem mais nada para fazer - o que não é verdade.

A preocupação da ação judicial não é com o "imperialismo lingüístico", com a invasão dos estrangeirismos, que vai corromper nossa língua e fazer com que nossas crianças passem a falar inglês (?!). A questão é bem mais séria e a preocupação mais nobre: garantir que os consumidores tenham acesso a informações importantes sobre o produto, evitando mensagens enganosas ou abusivas.

Supus que o Judiciário tivesse começado 2007 sem nada para fazer, pois embora a preocupação seja nobre, o risco não parece corresponder a ela. É o tipo de situação que se resolve sem uma determinação judicial, seguindo a própria dinâmica do mercado. Expressões inglesas são utilizadas no comércio, porque se julga que elas vendem! No momento em que se notar que os consumidores evitam comprar em lugares que anunciam seus produtos com expressões estrangeiras (se é que evitam), ninguém vai querer usá-las.

Se as pessoas não se importam com anúncios do tipo "Duetto Motel – 20% off + Refeição grátis" (primeiro exemplo que encontrei no Google), se conseguem transitar por essas expressões que, mais que estrangeiras, passam a fazer parte do léxico da publicidade, não há grande problema nesse uso dos estrangeirismos. Se as pessoas se incomodam ou se sentem ludibriadas, é papel delas, como consumidores conscientes, não comprar no lugar em questão - ou, ao menos, buscar melhores informações dentro da loja (um passo que já é necessário, mesmo quando os anúncios vêm em português); eventualmente, se for o caso, o comerciante entenderá que usar a língua portuguesa é a melhor estratégia para aquele público-alvo.

Incomoda pensar que dependemos de determinações judiciais para nos proteger de coisas das quais deveríamos nos defender sozinhos, como gente grande, não fossem elas inofensivas.

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