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X-gate por Emanuel Souza de Quadros

Com tempo para ler alguns blogs que há tempos eu não acompanhava, encontrei um post interessante no Jabal al-Lughat, recém adicionado à lista de links ao lado. O texto fala de uma manchete de um jornal algeriano que traz, em árabe: al-Jazaa’ir `alaa ‘abwaab fad?iihat "aartii-gaayt"! (’Algéria está à beira de um escândalo ART-gate!’)

A notícia já é velha. Fala da situação dos torcedores do norte da África (a Algéria fica por lá - Language Bar também ensina geografia!) que não poderiam assistir à Copa do Mundo caso as emissoras da região não comprassem os caríssimos direitos de transmissão da ART (Arab Radio and Television) ou se eles mesmo não pagassem por um decodificador, também caro, da ART.

O interessante é o uso de -gate (-gaayt) para formar ART-gate (aartii-gaayt). Esse sufixo se tornou bem comum na imprensa internacional depois do conhecido escândalo Watergate, no início da década de 1970. O nome desse episódio vem do Complexo Watergate, um conjunto de edifícios de luxo em Washington, que serviu de local para os roubos que levaram ao tal escândalo. O lugar tinha esse nome porque ficava próximo a um velho canal chamado de "water gate". Até aí tudo bem, um composto formado de "water", água, e "gate", portão; dá pra imaginar por que um canal seria nomeado assim.

A parte -gate do composto acabou sendo reanalisada como um sufixo, com uma mudança no significado, de modo que as palavras novas que surgiram com a forma X-gate significavam, aproximadamente, ‘escândalo envolvendo X’. Assim, surgiram coisas como Chinagate, Monicagate, Camillagate: escândalos envolvendo a China, Monica Lewinsky e Camilla Parker-Bowles, respectivamente. Aí, -gate já virou uma forma presa, diferente da forma livre gate equivalente a ‘portão’. A Wikipedia traz uma lista com vários exemplos conhecidos, e outros nem tanto, que seguem esse padrão de formação. Meu favorito da lista é Nipplegate, referindo-se àquele "escândalo" no Super Bowl XXXVIII, envolvendo um nipple (’mamilo’) da Janet Jackson - um emprego do sufixo já fora da esfera política.

Esse sufixo também é marginalmente usado em outras línguas como um empréstimo, surgindo a partir de palavras que já vêm prontas, sufixadas, do inglês, através da imprensa. É o caso do exemplo de aartii-gaayt do Jabal al-Lughat e de vários outros no alemão, no serbo-croata e no grego moderno que Brian D. Joseph traz, junto com outras referências sobre o assunto, num pequeno texto chamado "Yet more on -gate words: a perspective from abroad".

Experimentando no Google, encontrei alguns exemplos bem brasileiros: correiogate, mensalãogate, garotinhogate, gasolinagate, caseirogate, lulagate, pallocigate, dirceugate, waldomirogate, thomazgate, collorgate, camaragate, senadogate, planaltogate, propinagate.


Kaingang (Brasil) por Emanuel Souza de Quadros

Mais uma da aula de fonética. Na aula de hoje, nossa colega Rita notou que nos dados do Kaingang com que estávamos trabalhando, as glosas para [ki] e [mĩ] eram idênticas: ‘dentro’. Logo imaginamos que deveria haver alguma diferença de significado ou de uso, mesmo que sutil, para que as duas formas pudessem existir na língua com o sentido básico de ‘dentro’. Na hora eu lembrei do pequeno dicionário de Kaingang que eu baixei há um bom tempo atrás só por curiosidade. "Ei! Agora ele pode ser útil!", pensei, mesmo que novamente seja para matar uma curiosidade!

De fato há uma diferença: é que junto ao sentido de ‘dentro’, em [mĩ] também há uma idéia de movimento. O dicionário traz um exemplo de sentença para cada uma das duas palavras. Fico devendo explicações detalhadas de cada elemento da sentença; talvez um dia, quando eu aprender (se aprender) mais sobre a gramática do Kaingang… Mas já dá pra ter uma idéia dessa diferença:

(1)    Ag mỹ ki nỹtĩ?
        ‘Será que estão aqui?’

(2)    Ẽpỹ ẽn hã sóg
        ‘Vou passar por aquela roça’

Dá pra ver que em (1) há uma idéia de estar em, estar dentro de algum lugar (’aqui’). Em (2), há a mesma idéia, acrescida do sentido de movimento. Supondo que a tradução trazida pelo dicionário esteja correta, me parece que ki também tem a idéia de ‘aqui’. Mas isso é pura especulação. Pensei isso, porque o significado trazido pelo dicionário para ag é ‘eles’; para mỹ, ‘Será que?’; e para nỹtĩ, ‘existir’. Sobrou para o ki que já tem uma idéia de lugar. Mas não levem isso a sério, é claro. Alguém aí sabe Kaingang e pode esclarecer melhor isso?!

Ou melhor ainda, baixem o dicionário e brinquem também!

P.S.: A mesma Rita também fez um comentário bem interessante, num post meu já esquecido, sobre as duas Neurolingüísticas e a confusão entre elas.


Os Caminhos da Morfologia (Parte I e meio) por Emanuel Souza de Quadros

Não resisti ao título engraçadinho. O título do post deveria ser algo sem graça como “Os Lexicalismos” na verdade. Enfim, é apenas um comentário ao post do Tiago que acabou crescendo demais.

Resumindo, Chomsky na Hipótese Lexicalista dizia que a Sintaxe não "tinha olhos" para a Morfologia, mas Anderson (1982) discorda, como mostrado acima, dizendo que a Sintaxe e a Morfologia Flexional tem uma relação. A Morfologia Derivacional passou a ser vista como um Processo Lexical, uma vez que temos morfemas como -izar, -ção, -mente, e.t.c que podem se juntar com certas palavras. Esses morfemas e as regras que permitem que eles se combinem com determinadas palavras e não com outras estão no nível do léxico. A Morfologia Flexional é vista como um Processo Sintático, como já exemplificado com o exemplo do Michael Jackson. Em oposição ou em complemento da Hipótese Lexicalista de Chomsky, a idéia de Anderson foi chamada de Hipótese Lexicalista Fraca.

O que Anderson (1982) diz sobre hipótese lexicalista é uma interpretação derivada do postulado de que a Sintaxe não tem acesso à estrutura das palavras. Só que a hipótese lexicalista de Chomsky (1970) dizia respeito à morfologia derivacional, à estrutura da palavra antes da flexão, para a qual a Sintaxe não teria olhos; mas mesmo aí, a Sintaxe lidava com a flexão.

Depois alguns lingüistas acabaram ampliando essa hipótese de modo que a flexão também passou a ser tratada dentro no léxico – Hipótese Lexicalista Forte. Em oposição a essa última, todas as abordagens que tratam da derivação no componente morfológico e a flexão no sintático são exemplos do Lexicalismo Fraco, incluindo a proposta de Anderson.

Tem a ver com a distinção entre flexão e derivação. Os adeptos do Lexicalismo Forte costumam dizer que não há uma distinção real, logo, as duas coisas podem ser tratadas no mesmo componente; enquanto que para os adeptos do Lexicalismo Fraco, essa distinção é essencial, assim como ela é para Chomsky (1970).


Os caminhos da Morfologia (Parte I) por Tiago Martins

É legal observar os caminhos da morfologia desde o início da Teoria Gerativa, pois muitas vezes olhando para a "história" da Morfologia entendemos melhor os seus respectivos problemas. Além de ser interessantíssimo ler sobre essas coisas em caras como Spencer e Anderson.

É sabido que logo que a Teoria Gerativa teve início tudo era Sintaxe. A Morfologia feita pelos estruturalistas norte-americanos - separando a palavra em morfemas e analisando-os por sua distribuição - foi deixada de lado. Anderson num artigo chamado "Where is Morphology?" afirma que nessa época "morphologists could safely go to the beach". Segundo o que li num artigo de Maria Filomena Sandalo, a Morfologia passou a ser tratada dentro do componente fonológico, mais especificamente dentro da  Fonologia Lexical. 

"Segundo essa abordagem, morfemas seriam adicionados uns aos outros no léxico, regras fonológicas seguiriam aplicadas depois da adição de cada morfema".

"O léxico (…) é um local de armazenamento de irregularidades memorizadas. A Morfologia específica de cada língua seria, assim, objeto da memória". (Trechos em itálico do artigo "Morfologia"  da Maria Filomena)    

Em 1970, Chomsky - naquele famoso artigo "Remarks on Nominalization" - diz que a Sintaxe não teria olhos para a estrutura interna das palavras. Mas Anderson em 1982, no já mencionado "Where is Morphology?" faz duas perguntas:

1) A Morfologia é irrelevante para a Sintaxe?

2) Toda a Morfologia é processada dentro do léxico?

Bem, parece que os Morfemas Flexionais seriam, sim, relevantes para a Sintaxe. É só pensar, por exemplo, numa frase como:

Os meninos brincavam no quarto de Michael Jackson.   

O artigo está no plural e esse "s", marca do mesmo, indica que nós temos o núcleo do SN também no plural. Bom, a flexão está tendo uma certa relação com a Sintaxe, não parece? Há também os morfemas de caso. Por exemplo, no latim, um morfema acrescido ao final de um substantivo pode indicar se este é sujeito ou objeto direto.     

Resumindo, Chomsky na Hipótese Lexicalista dizia que a Sintaxe não "tinha olhos" para a Morfologia, mas Anderson (1982) discorda, como mostrado acima, dizendo que a Sintaxe e a Morfologia Flexional tem uma relação. A Morfologia Derivacional passou a ser vista como um Processo Lexical, uma vez que temos morfemas como -izar, -ção, -mente, e.t.c que podem se juntar com certas palavras. Esses morfemas e as regras que permitem que eles se combinem com determinadas palavras e não com outras estão no nível do léxico. A Morfologia Flexional é vista como um Processo Sintático, como já exemplificado com o exemplo do Michael Jackson. Em oposição ou em complemento da Hipótese Lexicalista de Chomsky, a idéia de Anderson foi chamada de Hipótese Lexicalista Fraca.

Falando um pouco em Sintaxe, mas bem pouco, pois por enquanto não é a proposta, a Flexão ganhou uma marca F nas árvores sintáticas. Mas se pareceu até aqui, com essa explicação, que a Morfologia Flexional está dentro da Sintaxe, explico que não. Anderson em 1992, nega que seja esse o caso e cria um método para o estudo da Morfologia Flexional. Ele diz que a unidade mínima da Morfologia não são os morfemas, mas sim traços morfológicos, por exemplo, +1o.pessoa, etc. Esses traços estariam dentro do léxico. Um léxico de traços, pois. Enfim, tudo isso não é só sobre Morfologia, é sobre Sintaxe também, sobre a relação da Morfologia com a Sintaxe. Se estivesse falando sobre outras coisas iria acabar falando de Fonologia também (de Morfofonologia). A pergunta é: A Morfologia existe sozinha? (Continua….)   


Excentricidades do Monteiro por Emanuel Souza de Quadros

Paulo Henrique comentou ontem a alomorfia proposta por José Lemos Monteiro: [ex] ~ [es] em excêntrico/esforçar. Primeiro, acho que há confusão entre ortografia e fonética aí, sim. A discussão, que Monteiro faz um pouco acima, sobre semelhança fonética ser necessária ou não para caracterizar alomorfia é motivada por casos como datilografia e dedo, em que as raízes são semanticamente relacionadas, mas não apresentam semelhança fonética (seriam, mesmo assim, alomorfes?).

No caso de excêntrico/esforçar, a pronúncia dos dois primeiros segmentos é a mesma, não faz muito sentido Monteiro representar entre colchetes [ex] e [es]: é nada mais que usar [ortografia padrão entre colchetes]. Não é uma questão de não serem foneticamente semelhantes.

Update: "não faz muito sentido", no parágrafo acima, deve ser lido como "não faz sentido como transcrição fonética". O problema não é esse porque a intenção do autor parece ser apenas representar o morfe, sem preocupações com a maneira como ele é pronunciado. Nisso, o autor é constante em quase todo o resto do livro, representando morfes entre colchetes. O problema está em dizer que há alomorfia entre [ex] e [es]. É um problema porque confunde alomorfia com diferentes maneiras de se grafar um morfema.

Quanto às palavras serem prefixadas sincronicamente, ou não, também não tenho certeza. Mas não acho que o Monteiro esteja totalmente enganado aí. Diacronicamente, é verdade segundo Oiticica (1939): do sentido de "movimento para fora" do prefixo ex- derivaram os sentidos de afastamento e de excesso que tem em excêntrico e esforçar, respectivamente.

Sincronicamente, que é o que nos interessa, acredito que a prefixação também não é tão implausível assim. Em excêntrico, podemos identificar a raiz, o sufixo -ico e o sentido de afastamento que parece mesmo ser adicionado pelo prefixo ex-, apesar de todas as extensões de sentido que renderam o título do post. Em esforçar, podemos reconhecer a raiz, a terminação verbal, e não seria interessante se não pudéssemos relacionar (e comutar) com força, forçar e reforçar.

In my humble opinion.


Prefixos e análise diacrônica por Paulo H

Pensei que fosse demorar mais para voltar a falar do livro do José Lemos Monteiro que, à página 34, enumera alguns casos de alomorfia, exemplificando, dentre os casos de alomorfia no prefixo, o seguinte: excêntrico / esforçar - [ex] ~ [es]. Um pouco acima no seu texto, ele assume que alomorfes não precisam ser semelhantes foneticamente; logo, nao podemos interpretar a suposta alomorfia de ex ~ es como decorrente de uma confusão entre ortografia e fonética. Acredito que Monteiro esteja enganado, e que seu engano seja de outra natureza: me parece que ele faz uma análise diacrônica dessas palavras, pois essa é a única justificativa plausível para considerar excêntrico e esforçar como sendo prefixados por ex- e es-. Será que os falantes reconhecem aí prefixação? Sincronicamente, não tenho certeza. Talvez em excêntrico - "um cara que não está no centro"? - alguém possa ver prefixação. Mas dizer que ex- e es- são alomorfes, só na ortografia.

PS: Acho que o Emanuel e o César, por estarem estudando isso, possam ter algo a dizer.


Formação de palavras por Paulo H

Observem o seguinte excerto (depois eu digo de quem é):

“a) Se de ágil se criou o neologismo agilizar, de frágil se poderá ter fragilizar. b) Se de atual se formou atualizar, o que se espera de casual ou usual? c) Se temos racionalizar, potencialmente deve existir sensacionalizar ou emocionalizar. Mas não é lícito produzir neologismos sem conhecer bem as regras de derivação. Há um sem-número de vocábulos mal formados exatamente por causa de desajustes em relação a essas regras. O adjetivo ridículo mais o sufixo [iz(ar)] daria normalmente ridiculizar. Todavia, o verbo que se usa hoje é ridicularizar. Às vezes, o problema resulta de imitação estrangeira. Em vez de se tomar como base um vocábulo da língua portuguesa, cria-se o verbo a partir de uma forma adjetival inglesa. Neologismos do tipo internalizar e externalizar não são bem formados, uma vez que se associam a internal e external. Os verbos deveriam ser internizar e externizar, seguindo o modelo de eternizar. Mas hoje se diz até minimalizar, em vez de minimizar" (negritos do autor).

Quem vocês imaginam que escreveu este texto? Antes de revelar o nome do autor, quero fazer algumas observações. Primeiro, ele não considera que os falantes nativos sejam competentes, no sentido chomskyano. Quer dizer, as pessoas não sabem o que é uma palavra bem formada em português, por mais que elas falem essa língua tranqüilamente desde os dois anos de idade. Ele não está levando em conta toda essa discussão proposta aqui pelo Tiago, reparada pelo Emanuel e re-reparada pelo primeiro. Segundo, é interessante o tom normativista do trecho: coisas do tipo não é lícito produzir neologismos sem conhecer bem as regras de derivação; há um sem-número de vocábulos mal formados exatamente por causa de desajustes em relação a essas regras; o problema resulta de imitação estrangeira; adjetivos do tipo internalizar e externalizar não são bem formados; os verbos deveriam ser internizar e externizar; mas hoje se diz até minimalizar, em vez de minimizar. Não pretendo, neste momento, discutir caso a caso os itens acima, usados como exemplos pelo autor, mas há certamente alguns facilmente explicáveis – e não se precisa ser necessariamente um morfólogo, um lingüista para responder a questões como as seguintes: (a) Por que não se formam casualizar, usualizar, sensacionalizar, emocionalizar? (b) Minimalizar e minimizar possuiriam o mesmo significado e, portanto, não poderiam existir dentro da mesma língua?

No caso de (a), sabemos (nós, os estudantes do assunto) que formações em -izar são usadas sobretudo na terminologia formal, acadêmica, técnica (ver, p. ex., M. Basílio, "Formação e classes…", 2004) . Talvez adjetivos como casual e usual não preencham os requisitos para receber este afixo. Afora isso, a intuição de falantes nativos que conheço (nove amigos, contando comigo), sugere que essas palavras não se formam porque nós "não queremos", já que não há, aparentemente, restrições morfológicas ou fonológicas (talvez haja em sensacionalizar, essa seqüência de [s]’s aí pode atrapalhar, segundo o julgamento de uma falante). Uma restrição semântica seria a apontada acima (significado da base), mas acho que, em semântica, as restrições só funcionam realmente se não forem tão sutis quanto essa, ou seja, quem garante que não possamos usar casual e usual num texto acadêmico, etc? Portanto, elas têm plenas condições de produtividade, o que as impede de existir são as condições de produção (que envolvem coisas extralingüísticas, do tipo quem usou a palavra, em que situação, etc.).

Já para a questão (b), ou os falantes (meus conhecidos) não conhecem minimalizar, ou afirmaram já ter ouvido a palavra mas não sabem exatamente o significado. Os primeiros pensam minimalizar e minimizar como sinônimas, caso existissem; os segundos as consideram não-sinônimas.

O que se conclui daí? Que os fatores para a formação de palavras são muitos, e nem sempre dá para determinarmos quais sejam; que podemos formar palavras a partir de bases que não precisam necessariamente ocorrer na língua, como é o caso de internal e external, se assumirmos que internalizar e externalizar vêm daí (o autor está se referindo às palavras inglesas e, nesse caso, podemos concluir que palavras em português podem ser formadas a partir de palavras estrangeiras, o que é muito interessante). Mas, acima de tudo, acho que não podemos desconsiderar a hipótese de que, como falantes nativos, temos pleno conhecimento das regras do português e, por esse simples (e importante) motivo, não estamos errados ao dizer internalizar, ridicularizar, minimalizar. Me parece realmente que a noção de erro decorre dessa visão que ignora a competência lingüística, da idéia de imitação, como se aprendêssemos português somente por indução. Nesse caso, devo culpar meu pai por não ter me ensinado que não se diz ridicularizar, porque é uma palavra “mal formada”, e ele, por sua vez, deverá culpar seus pais, e assim sucessivamente, até chegarmos a Adão e Eva e, quem sabe, ao Criador e à Cobra, talvez a grande culpada por nossa ignorância.

Bom, finalizando, o nome do autor do texto. Não é um gramático normativo, nem um escritor de livros didáticos. É um professor de lingüística, o José Lemos Monteiro, de cujo livro "Morfologia Portuguesa", que está na quarta edição (2002), revista e ampliada, tirei o trecho (p. 152). Sei que ele não é um gerativista, no simples sentido de assumir os pressupostos teóricos do Programa Gerativo e das idéias de Lenneberg, tais como os já apontados: Gramática Universal, todo falante tem conhecimento das estruturas de sua língua materna e é capaz de formar palavras e sentenças gramaticais, conhecimento esse adquirido bem cedo porque ele possui uma capacidade inata para adquirir uma língua (sem que isto exclua o papel do ambiente onde ele se inserirá), etc. etc. Não o estou criticando só porque ele não pensa como eu penso, ou porque ele não leva em consideração a competência lingüística no seu texto. Estou fazendo essa crítica porque acredito que ele poderia qualificar ainda mais seu trabalho se levasse em conta essas questões que, a meu ver, são muito mais importantes e interessantes do que avaliar a idiossincrasia de um ou dois itens lexicais e, pior, dizer que são mal formados porque não conhecemos sua regra de formação.

Tem outras coisas que pretendo discutir aqui sobre esse livro do Monteiro. Mas isso futuramente.


Language Zoo por Emanuel Souza de Quadros

Quando eu era menor, meu irmão dizia que as centopéias eram assim chamadas porque (guess what) tinham cem patas… Não era só ele: lembro de um livro didático de matemática que trazia a figura de uma, com cem patas. Não lembro o porquê dela estar lá, mas dá pra imaginar que tinha algo a ver com operações envolvendo centenas.

Na época eu não fazia idéia (porque ainda não conhecia o Spencer) que os turcos chamam o bicho de kırkayak - um composto formado pelo adjetivo kırk (’quarenta’) e pelo substantivo ayak (’pé’). Se eu soubesse, a explicação do meu irmão não teria colado tão facilmente. Ele ainda poderia escapar dizendo que nossas centopéias são melhores (têm mais pés) que as de lá, ou que os turcos não sabem contar - o que me traria outros conflitos quando eu ouvisse o que povo pensa do relacionamento dos turcos com números.

A desculpa também não colaria por muito tempo, porque eu eventualmente descobriria que as centopéias têm em média 35 pares de pernas. Já que 35 x 2 = 70, ele teria que admitir que sabemos contar tão bem quanto os turcos, pois a distância é a mesma entre 100 e 70 ou entre 70 e 40 (é, né?). Os suecos é que ficariam mal na história: centopéias são conhecidas em sueco pelo composto tusenfoting, em que tusen equivale a mil. Ou quem sabe as centopéias de lá tenham 930 pés a mais…


Um pouco sobre morfologia por Paulo H

O Tiago e eu estamos fazendo um trabalho de morfologia, um ensaio onde se discutirá a cumulação no sistema flexional do português (quando concluído, disponibilizaremos o texto aqui). O objetivo é compreender como esse fenômeno é tratado nos três modelos de análise conhecidos como Palavra-e-paradigma (PP), Item-e-arranjo (IA) e Item-e-processo (IP), que se referem, respectivamente, aos métodos pré-estruturalistas, estruturalistas norte-americanos e pós-estruturalistas, este último se identificando com o gerativismo, considerando níveis subjacentes de onde derivam (por processos) as formas da superfície. Então, para o trabalho, buscamos textos de gente como Hockett, Gleason Jr., Matthews, Spencer e, sobre o português especialmente, Mattoso e Eunice Pontes. Quero escrever aqui um pouco sobre o que encontrei no Matthews.

Em primeiro lugar, ele não é um estruturalista de Item-e-arranjo. Pelo contrário, defende a volta ao estudo da "palavra como um todo", levando em consideração os processos. Para ilustrar, é muito interessante a seguinte afirmação: "In fact, the languages for which the Word and Paradigm model is appropriate (…) tend, in addition, to be among the languages requiring at least a partial process treatment" (p. 145). Isso quer dizer que seu ponto de vista (como deve ser, já que se propôs a escrever um livro de introdução à morfologia) é bastante crítico para se filiar a um modelo de análise e defendê-lo a qualquer custo.

Quanto à cumulação, Matthews a distingue da fusão (fused exponence) e da sobreposição (overlapping exponence). A primeira é caracterizada pelo fato de duas ou mais categorias (como número, caso, etc) não serem identificadas por morfemas separados - um exemplo é o chamado sufixo de número-pessoa em português; a segunda é o resultado de um processo de sandi, como em partis, onde ocorre crase entre -i (vogal temática) e -is (sufixo de número-pessoa); a terceira diz respeito ao caso de, por exemplo, como, onde aparece um sufixo -o que se refere à primeira pessoa, ao número singular, e, além do mais, ao presente do indicativo. O fato de -o identificar número e pessoa não é novidade: eles sempre aparecem inseparáveis. O que é diferente é que ele também marca o presente do indicativo. Para Matthews, isso é "meramente um caso especial de overlapping".

Há umas observações a fazer. Primeiro, o que Matthews considera cumulação é bastante diferente do que Pontes (1965) leva em conta para resolver os problemas de análise dos verbos em português, sob uma perspectiva de IA. Ela simplesmente aceita que número-pessoa e tempo-modo-aspecto ocorrem sempre amalgamados e ponto final: "Não temos um morfema distinto para cada uma destas categorias. Modo, tempo e aspecto manifestam-se num morfema que chamaremos MTA; pessoa e número em outro, PN" (p.67). Para Pontes, cumulação é o que é chamado por Matthews de overlapping. Particularmente, acredito que o termo cumulação pode ser compreendido em um sentido amplo e em um sentido estrito. O primeiro engloba os três casos distinguidos por Matthews. O segundo lida somente com o que é cumulação para Pontes: o caso de amo, onde esse -o representa, ao mesmo tempo, primeira pessoa (e, é claro, número singular) e presente do indicativo. O caso da fusão, por se referir a regras (ou seja, processos) fonológicas, é tratado em IA num nível intermediário, o morfofonêmico.

Outro aspecto interessante: a vogal temática. Matthews não fala em VT; se formos considerá-la na depreensão dos morfemas, ela acumulará muitas vezes MTA e/ou PN (como se vê em Pontes). Realmente, a cumulação é um problemão para IA.

Em PP, como a palavra é tomada como um todo, sem preocupação com as "formas mínimas indivisíveis portadoras de significado", não temos esse problema. Identificam-se os radicais, isso sim, acomodando-os em paradigmas. Aos radicais juntam-se as terminações, que não são nada mais que "tudo que não fizer parte do radical". Assim, dizemos que -o é a terminação para a primeira pessoa singular do presente do indicativo do verbo X (por exemplo, AMAR - caixa alta pra representar o verbo todo, utilizando-se do infinitivo). À raiz do verbo X, p. ex. am-, se junta a terminação -o e pronto: temos a forma amo. Isso é PP.

Em IP, assume-se que existem as noções de modo, tempo, número, VT (que prepara o radical para receber uma flexão, processo natural e fonologicamente explicado: p. ex., em part + i + mos, esse -i tem a função de colaborar para a boa formação da sílaba, além de servir para uma possível classificação desse verbo num paradigma, se considerarmos isso importante - como de fato é, mas também é outro papo), etc. Como se verifica que essas noções se manifestam em outras formas verbais (cf. am + a + re + mos, part + i + sse + mos), pode-se tranqüilamente dizer que elas existem, mas não se manifestam em amo. É simples, coerente, bonito, limpo, lógico, etc. Não precisamos dizer que aí existe um morfema zero, a famosa "ausência presente".

De qualquer modo, é realmente louvável o esforço dos estruturalistas em descrever tudo (ou quase) sem considerar processos, evitar ao máximo a abstração, etc. Particularmente, comecei a gostar mesmo de lingüística numa aula sobre Bloomfield e a distribuição dos constituintes imediatos em caixinhas, uma dentro da outra (outra hora mostro como é o esquema, agora estou sem tempo). Ao ver aquilo, olhos brilhando, pensei: "Taí, já sei o que quero ser quando crescer. Um distribucionista."

Para terminar, já pensaram na trabalheira que era (e é) chegar numa aldeia indígena com a missão de descrever a língua daquelas pessoas? Haja fé…


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