Language Bar

22/04/2008

The World Atlas of Language Structures por Emanuel Souza de Quadros

Ontem foi o lançamento oficial da versão online do WALS (The World Atlas of Language Structures). Estão disponíveis no site todos os dados e textos analíticos do atlas publicado pela Oxford University Press, que custa míseros 1.433 reais e 70 centavos na Livraria Cultura (quer comprar?). Pois é, disponíveis online, de graça!

De acordo com o site, o atlas possui dados de mais de 2500 línguas. As pesquisas podem ser feitas por característica estrutural, por língua, por referência ou por autor. Como exemplo, podemos ver o mapa da distribuição de línguas que possuem contraste entre vogais nasais, em oposição às que não possuem. Para ver o nome da língua e as fontes de onde as informações foram retiradas, basta clicar no símbolo relevante no mapa. Cada característica estrutural é também acompanhada por um texto que traz as definições e distinções necessárias.

Fun!

12/02/2008

Tapiocagate por Emanuel Souza de Quadros

É essa a sugestão de Marcos Rocha para nomear o escândalo dos cartões de crédito corporativos, seguindo o padrão de formação X-gate. A única outra ocorrência de tapiocagate que encontrei foi esta, em um post datado de 12/02/08 no Blog do Harry.

Se me perguntarem como é o gosto da tal tapioca, digo que não sei. Acho que nunca comi uma, embora aquela aparência seja muito bonita. Se o recheio for bom, porque devem ter os bons e os ruins, com certeza pagaria os R$8,30 que o Ministro do Esporte, Orlando Silva, desembolsou naquele que logo mais ganhará a alcunha de "Tapiocagate"
Não sei se Harry Thomas Jr. andou lendo o blog do Marcos Rocha, cuja sugestão de tapiocagate foi publicada no dia 11/02. Eu apostaria em cunhagens paralelas do termo; vai saber.

Sobre a origem do sugerido nome do escândalo, segue abaixo apenas uma parte dos gastos do atual ministro do esporte, Orlando Silva, com seu cartão corporativo, de acordo com o Portal da Transparência. Em destaque, o registro de um pagamento de R$ 8,30 à tapiocaria Maria Bonita.

 

08/06/2007

Morphology Online por Emanuel Souza de Quadros

Dando uma olhada nas notícias velhas da LINGUIST List, cruzei com a chamada de uma revista, MorphOn, que pode ser interessante. Trata-se de uma revista eletrônica, como a nossa conhecida ReVEL, só que dedicada apenas à Morfologia! Embora exista desde 2005 (e eu não sabia…), ela ainda conta com poucas publicações. Espero que isso mude. A iniciativa de proporcionar um espaço para que morfólogos publiquem seus artigos online e de oferecer livre-acesso a esses textos é ótima; vê-la sendo desperdiçada seria lamentável.

A chamada que consta no site:

Publish your Paper with MorphOn
If you’d like to publish your paper on Morphology (phenomena, grammar, practical/ theoretical issues; or morphology in a wider setting, i.e. morphophonology, morphosyntax, morphosemantics, morphopragmatics, language acquisition, word recognition, psycholinguistics, clinical linguistics, diachronic problems or morphological sketches of individual languages), please email it to us at : MorphOn@MorphologyOnline.com. Please submit it (with an abstract) as WORD and PDF file attachments (one of them being anonymous). It will be reviewed by our advisory panel of renowned linguists and if accepted, it will appear online straight off (without any charge). The moral copyright on the article(s) you submit is, of course, totally yours as it/they will bear your name as the author, affiliation, email address and a date.

17/04/2007

Conceitos Básicos - Morfologia por Tiago Martins

Com saudades de ler os primeiros textos sobre Morfologia e seguindo a idéia do Emanuel de fazer um post com "conceitos básicos", escrevo aqui algo para  responder a pergunta de um possível internauta  que digite no Google: O que é Morfologia?

            E ela é - segundo qualquer texto introdutório sobre o assunto - o estudo da estrutura, formação e categorização dos vocábulos. Se o caso for dar uma resposta  menos ligada à lingüística e mais relacionada com a gramática normativa, a morfologia então é definida como o componente gramatical que trata da estrutura interna das palavras.
            Mas o que é a palavra? E isso é outro ponto que irá estar presente em qualquer livro introdutório sobre o assunto. Não há como falar sobre Morfologia sem termos bem claramente o conceito de palavra.  
            Da perspectiva fonológica, a palavra é uma unidade acentual, um conjunto marcado por um só acento tônico. Sintaticamente, temos que uma seqüência de sons só pode ser definida como palavra se puder ser usada como resposta mínima a uma pergunta ou se puder ser usada em várias posições sintáticas (cf. Maria Filomena Spatti Sandalo, em Introdução à Lingüística). Essa definição de palavra através da Sintaxe é bastante discutível, mas é um meio fácil de explicar - por essa ótica - o conceito.  
            A definição morfológica de palavra é que palavra pode ser definida pela quantidade de raízes que possui. Ainda temos a definição semântica que nos diz que palavra é aquilo que possui apenas um significado. Mas é uma definição frágil, pois podemos contrapor dizendo que em fabricante e aquele que fabrica temos apenas um significado e sabemos intuitivamente que apenas o primeiro exemplo é uma palavra.
            É um pouco complexo de se definir “palavra”, mas parece que um conceito para tal não se pode dar isoladamente, tem de se ter uma concepção de palavra em níveis morfológicos, sintáticos, semânticos e fonológicos.
            Definindo palavra então, temos a unidade máxima da Morfologia.
Qual é sua unidade mínima?
 
            As unidades mínimas da morfologia são os elementos que compõe uma palavra. O conhecimento desses elementos é o que nos permite entender uma palavra que nunca ouvimos antes. Se nunca ouvimos Nacionalização, podemos descobrir o que significa se soubermos o significado de nação e o significado dos elementos que derivam novas palavras no português, como -al, -izar e -ção.    
 

            A unidade mínima e o objeto de análise da Morfologia é o Morfema, definido como a menor unidade dentro de uma palavra que carrega um significado. Em (Kehdi, 1989) há uma comparação com a fonologia: Morfemas são significativos, enquanto os fonemas são distintivos.

Estudo do Componente Morfológico:

Os estudos morfológicos podem ser divididos em quatro correntes: A corrente PALAVRA e PARADIGMA, puramente descritivista; A corrente ligada ao historicismo, sem grandes evoluções; A corrente estruturalista de ITEM e ARRANJO e a corrente gerativista, chamada de ITEM e PROCESSO. O foco deste post está ligado a estas duas últimas correntes.  
 
Estruturalismo (Escola de Item e Arranjo)

            A partir do estruturalismo europeu com Saussure, passa-se a estudar a língua de uma perspectiva sincrônica. Paralelo à vertente européia surge o estruturalismo norte-americano com Edward Sapir e Leonard Bloomfield. Os lingüistas dessa época passaram a descrever línguas indígenas e assim chegaram ao conceito de MORFEMA.
            A escola é assim chamada, pois se baseava no elemento (ITEM) e na sua distribuição na língua (ARRANJO).

            Segundo (Rocha 1998), a visão estruturalista desenvolveu com bastante rigor as técnicas de depreensão dos morfemas. Em síntese, diz ele, o estruturalismo se preocupou basicamente com duas coisas:

a) fazer a segmentação dos morfemas;

b) proceder à classificação dos morfemas;

            A morfologia estruturalista se aproxima bastante da morfologia da Gramática normativa. Como já foi citado, é uma parte da gramática que trata da estrutura interna das palavras, que – complementado – descreve sua formação e estrutura.  
            Nessa morfologia, diferente da morfologia gerativa, a preocupação era em separar e classificar os morfemas de uma língua, como veremos agora.
 
Unidades Mínimas Significativas:
 
            A palavra é um elemento de constituição complexa cuja análise poderá conduzir a uma base mais rigorosa (cf. Kehdi).
            Para chegarmos a essa base estabeleceremos que:

  1. As comparações devem ser feitas por pares.
  2. Cada par deve apresentar UMA SÓ relação de semelhança e UMA SÓ relação de diferença.
  3. Os elementos destacados devem ter um valor significativo.

Falávamos

Falava

SEMELHANÇA: Falava.
DIFERENÇA: -mos.
 
-mos, é um elemento significativo, pois indica que a ação é expressa por um grupo de pessoas, incluindo o falante.
 
Falava

Fala
 
SEMELHANÇA: Fala.
DIFERENÇA: -va.
 
-va, indica pretérito imperfeito do indicativo.
 

A comparação com as outras formas do mesmo verbo nos conduz a interpretações corretas sobre a divisão dessa palavra em unidades mínimas significativas. Falava, falaremos, falariam, falasse, falaste e.t.c Isso nos indica que muito provavelmente a seja a vogal temática desta palavra. E que Fal-, seja o radical. 

Como se depreende um morfema?
É através da COMUTAÇÃO (ou substituição, segundo os lingüistas norte-americanos). Quando na comparação de pares mínimos a substituição de um traço por outro acarreta uma mudança de significado, realizamos uma COMUTAÇÂO.
 
Em AMAMOS substituindo por AMAIS obtém-se uma mudança de significado.
No primeiro caso temos 1a. pessoa do plural e no segundo caso temos 2a. pessoa do plural. Foi feita uma COMUTAÇÃO desse par mínimo e como obtivemos diferença de significado temos dois morfemas /mos/ e /is/.                 

A Dupla Articulação da Linguagem:
           Martinet estabeleceu a Teoria da Dupla Articulação da Linguagem em que a PRIMEIRA ARTICULAÇÃO corresponde aos Monemas e a SEGUNDA ARTICULAÇÃO corresponde aos Fonemas. 
Segundo esta teoria, as unidades mínimas significativas são os MONEMAS.
 
            Os Morfemas de valor lexical (adjetivos, substantivos) e que pertencem a um inventário aberto são os LEXEMAS ou SEMANTEMAS, porque encerram em cada vocábulo o elemento semântico básico.
            Os Morfemas de valor gramatical (afixos, preposições) e que pertencem a um inventário fechado são os MORFEMAS.

Alomorfia: 
            Assim como os fonemas, na morfologia também temos casos de DISTRIBUIÇÃO COMPLEMENTAR: onde utilizamos uma variante, não podemos utilizar outra.
            Em INFELIZ, por exemplo, a comparação com FELIZ nos faz depreender o morfema –in. Esse mesmo morfema realiza-se como i - antes de radicais iniciados por L-, M- e R-> Ilegal, Imoral, Irreal. Essas diferentes realizações são designadas como ALOMORFES.
            Exemplo: MIM realiza-se como /mim/ após qualquer preposição diferente de /com/, seguindo de COM temos a variante /migo/.
 
            No adjetivo AMÁVEL, depreendemos o MORFEMA –vel. Esse morfema se realiza como –bil quando antecede morfemas iniciados por vogal:
AMA –BIL –IDADE. O significado é o mesmo, ou seja, -bil é alomorfe de -vel.  
 
            A existência de diferentes alomorfes para um mesmo morfema remete-nos ao problema da escolha de um deles para representar o conjunto. O alomorfe selecionado recebe o nome de FORMA BÁSICA.  

Critérios para se Estabelecer a Forma Básica: 
 
a) CRITÉRIO DISTRIBUCIONAL:
Dentre as variantes existentes é escolhida como forma básica a mais freqüente. No caso de MIM/MIGO, mim ocorre em um maior número de casos na língua, logo é selecionado como a forma mais básica.
              
b) CRITÉRIO DA REGULARIDADE DE FORMAÇÃO:
Usa-se este critério quando os alomorfes apresentam a mesma freqüência. Por exemplo, o futuro do presente do indicativo é expresso por –rá- e –re- que ocorrem três vezes cada um. (Amarás, amará, amarão) e (Amarei, Amaremos, Amareis). De acordo com o critério estatístico os morfemas indicativos de tempo e modo apresentam todos formas básicas em –a e possuem variantes em –e. Logo, -rá é considerado como FORMA BÁSICA.  
 
c)CRITÉRIO DE ISOLAMENTO:
Nos casos em que uma das variantes ocorre isoladamente, enquanto outra só aparece atrelada a um novo morfema, é a primeira que deve ser forma básica.
CHAPÉU possui a variante CHAPEL-, mas esta variante só é utilizada quando seguida de um morfema iniciado por vogal: Chapelaria. Então a forma básica deve ser a primeira. 
 
Tipos de Morfemas:
 
RADICAL: É o elemento irredutível e comum às palavras de uma mesma família.  Ex: Ferro/Ferradura/Ferramenta. 
 
AFIXOS: São os morfemas que se anexam ao radical para mudar-lhe o sentido (fazer/desfazer) ou para acrescentar uma idéia secundária. (livro/livreco).
 
            As principais propriedades dos prefixos e sufixos é se anexarem ao radical para mudar seu sentido ou acrescentar uma idéia secundária, também modificam a classe de um vocábulo. A presença de um prefixo no radical não modifica sua classe, mas a presença de um sufixo modifica a classe gramatical de uma palavra.
 
DESINÊNCIAS: São os morfemas terminais de palavras variáveis. Servem para indicar as flexões de gênero e número (Desinências Nominais), e de Modo e Tempo, Número e Pessoa (Desinências Verbais). As desinências colocam a palavra na frase; são morfemas que não se pode dispensar, pois toda a forma verbal portuguesa está associada ás noções de tempo e modo e número e pessoa.  
 
DESINÊNCIAS DE GÊNERO: Exprime-se através de FLEXÃO (garoto/garota), de DERIVAÇÃO (conde/condessa) ou de HETERONÍMIA (bode/cabra).
>> Mattoso propõe que a flexão de masculino se opõe em 0 ao feminino em –a, ao contrário do que prevê a Gramática Normativa. O argumento é que não podemos considerar –o como marca de masculino simplesmente por se opor à –a, porquê esse mesmo raciocínio nos obrigaria a considerar como masculino –e (Mestre/mestra). E não podemos considerar –e como masculino, pois temos exemplos como (a ponte). A solução é considerar o masculino como forma desprovida de flexão específica. Exemplo:
                  RADICAL       VT          DG      DN   
                   Menin    +    o   +       0  +   0
DESINÊNCIAS DE NÚMERO: A ausência de desinência para o singular permite-nos dizer que no referente ao número o singular é caracterizado pelo morfema zero. O plural é geralmente caracterizado por –s. Temos casos, palavras terminadas por consoantes em –r e –z, que a formação do plural em nomes como Mar e Cruz é em –es. Como: Mares e Cruzes. Pode-se explicar sincronicamente dizendo que nestas duas palavras foi acrescentado um alomorfe –es da desinência –s. De acordo com isso pessoas com menos escolarização diriam: dois pires e 1 pir. Ou podemos explicar que a desinência do plural é sempre –s, sem variantes, e em uma análise diacrônica dizer que o –e vem das formas *mare e *cruze. 
 
DESINÊNCIAS VERBAIS: Há dois tipos de desinências verbais; as que exprimem modo e tempo (DMT) e as que exprimem número e pessoa (DNP). As desinências modo temporais vêm antes das desinências número-pessoais, isso ocorre em português e em outros idiomas.
Exemplo: Desinência MT do presente do Indicativo.
Canto – CANT (Radical) + o (Vogal Temática) + 0 (DMT)
 
VOGAIS TEMÁTICAS NOMINAIS: As vogais temáticas nominais, em português, são –a, -e, -o. Assim, poderia haver confusão entre VT e DG, mas não há. Enquanto –o e –a desinenciais comutam com –a e –o para exprimir mudança de gênero (menino/menina), isso não ocorre com as vogais temáticas (livro e *livra), -o e –a temáticos não se associam às noções de masculino e feminino.
A vogal temática –o apresenta em alguns lugares a variação com –u. Por exemplo: Conceito/conceitual/conceituoso. 
Mar e Lar e Cruz, por ex, seriam atemáticos, já que –es é alomorfe.
 
VOGAIS TEMÁTICAS VERBAIS: São três, no português: -a (primeira conjugação) –e (segunda conjugação) –i (terceira conjugação). Pode-se identifica-las pelo infinitivo, são as vogais que antecedem o –r desinencial:
am-a-r,vender,partir. 
 
Gerativismo:
 
            O gerativismo de Noam Chomsky introduziu uma nova concepção nos estudos da linguagem. Dentro da abordagem gerativa, palavras são formadas por regras e/ou analisadas por regras de modo que o estabelecimento de unidades como morfemas e afixos é desnecessário.
            A idéia da teoria gerativa é que em vez de um léxico de afixos, a morfologia de uma língua deveria consistir em um conjunto de regras que descreveriam as modificações das formas existentes que estariam relacionadas com outras formas.
            A teoria gerativa responde perguntas que o estruturalismo não pode responder, como:
1)       Por que formamos novas palavras?
2)       Quando formamos novas palavras?
3)       Quando variamos uma mesma palavra e quando criamos uma nova?
4)       Existem palavras impossíveis?
                            
O objetivo de uma teoria morfológica, segundo SCALISE (1984:41) é o de definir as ‘novas palavras’ que os falantes podem formar, ou mais especificamente, as regras através das quais as palavras são formadas. 
 
Todas essas informações foram baseadas nos livros "Morfemas do Português" de Valter Kehdi e "Estruturas Morfológicas do Português" de Luis Carlos de Assis Rocha. Tais informações bem diretas e precisas, como costumam ser os textos bastante introdutórios. Kehdi, por exemplo, não problematiza várias questões que seriam dignas de uma maior discussão. Mas isso, acredito, basta para responder O que é Morfologia? E já fica a sugestão para que os outros autores do blog continuem com a série "Conceitos Básicos".   

26/08/2006

Em clima de eleição: uma abordagem sem sacanagem por Paulo H

Um post rápido para falar de um dado, uma formação lexical interessante, bem interessante. Muitos outros dados colhidos por aí, informalmente, talvez merecessem posts, mas este de que vou falar tem uma relevância particular porque foi usado por um candidato a governador do Rio Grande do Sul, o Roberto Robaina, do PSoL. 
Houve um debate na TV Cachorro (ou, de maneira mais culta, TV Com) numa noite dessas, com alguns candidatos a governador do estado do RS. Não assisti a todo o debate, sou um cara muito preconceituoso quanto a programas coordenados por pessoas como Lasier Martins, o cara do L velarizado (é o L mais dark do jornalismo mundial). Mas enfim, só vi alguns trechos do debate. Num instante desses, vi que, enquanto o Robaina discutia com outro(a) candidato(a), que não lembro e não interessa quem era, surgiu uma nova palavrinha (ou palavrinha nova). Um substantivo deverbal: viragem. Bom, pode até ser que alguém a tenha em seu léxico mental, mas deve ser uma minoria. De qualquer modo, me chamou a atenção. Vejam o contexto em que a palavra apareceu:

A Heloísa Helena é a única candidata capaz de promover uma viragem no Brasil.

Em primeiro lugar, não me interessa se a moça que fala alto é a única capaz de fazer qualquer coisa, o foco está na palavrinha em itálico. Me parece claro que o sentido aqui de viragem está relacionado a esse negócio de que os políticos falam muito: mudança, transformação, etc. É assim que entendo a frase de Robaina. Ou seja, compreendo a formação do cara, embora ache que ele, no fundo, quis dizer outra coisa.

Em segundo lugar, fico pensando: ele estava nervoso, como talvez todos os demais. Isso explica um engano (podemos imaginar que o cara tenha quisto dizer virada, no sentido de mudança). Não importa. Ele disse viragem, substantivo formado de virar + agem, assim como sacanagem é formado de sacanear + agem e lavagem é formado de lavar + agem. Não é isso?

Assim, podemos nos divertir:

a) Heloísa Helena é a única capaz de promover uma propagação de vírus(es), no Brasil (promover uma virose).

b Heloísa Helena é a única capaz de promover uma mudança no tempo, no Brasil (uma viração, geralmente propulsora das viroses).

c) Heloísa Helena é a única capaz de promover uma mudança na política, no Brasil (nesse caso, viragem é uma palavra nova, e, ao fim e ao cabo, um substantivo tão abstrato quanto felicidade, perfeição, humanidade. Abstrato demais para meros mortais).   

10/07/2006

O estranho caso do verbo PONHAR por César Gonzalez

Trabalhar numa pesquisa de variação é realmente interessante. Tanto pelo aprendizado que uma pesquisa traz, quanto pelas criativas histórias que ouvimos enquanto pesquisamos em fitas de entrevistas.

Há alguns dias atrás ouvi uma fita em que o entrevistado utilizava o verbo ponhar. O que é ponhar? Fácil, infinitivo do verbo pôr. Vejamos os exemplos retirados do discurso do informante:

(1) Acham que ponhar filho no mundo é profissão, né?

(2) Comecei a ponhar na cabeça aquilo que eles falavam.

A questão é como que o indivíduo chega à forma ponhar para o infinitivo do verbo pôr.

Primeiro, essa forma é muito parecida com a forma da primeira pessoa do singular do presente do indicativo, ponho. Elas possuem a mesma raiz. É também interessante que essa forma mantém a nasalidade recorrente em todo o presente do indicativo (e do subjuntivo).

A minha hipótese é que ele utilizou a raiz da primeira pessoa do singular do presente do indicativo como base para a criação do infinitivo do verbo. Utilizou a primeira conjugação pois é essa a mais produtiva em português.

Isso poderia ser recorrente em toda a primeira conjugação:

apiedo - apiedar
armo - armar
dou - dar
estou - estar
marco - marcar
negocio - negociar

Isso já não se pode dizer sobre a segunda ou terceira conjugações:

caibo - caber
digo - dizer
faço - fazer
perco - perder
posso - poder

peço - pedir
vou - ir
venho - vir

Mas isso é só uma hipótese. Não sei o quão boa ela é. Se alguém tiver alguma outra hipótese e queria compartilhar, sinta-se a vontade.

05/07/2006

Os Caminhos da Morfologia (Parte II) por Tiago Martins

Terminei a primeira parte desse texto falando sobre a Morfologia de Traços, proposta por Anderson em 1992. Para continuar daí então, segundo ele, esses traços contidos no léxico seriam "comandados" pela Sintaxe e a maneira como eles apareceriam na superfície ficaria por conta da Fonologia Pós-Lexical.  Mas isso é só um esboço do que é a Morfologia de Traços, pois eu propriamente nunca li a proposta de Anderson pelo próprio Anderson, só pelas mãos de outros. O objetivo dessa segunda parte é discorrer, na visão Spencer e Anderson, sobre a pergunta final do outro texto: A Morfologia existe sozinha?

Segundo Spencer, no prefácio do Yearbook of Morphology os editores descrevem a morfologia como uma "disciplina relativamente autônoma", mas existem alguns lingüístas que negam a existência de um componente morfológico separado.

Para o já citado Anderson, a Morfologia Flexional não tem um lugar específico  dentro dos módulos da teoria lingüística. Ela engloba - segundo Maria Filomena Sandalo (falando sobre Anderson) - todo o processo lingüístico".

"… word structure can only be understood as the product of interacting principles from many parts of the grammar: at least phonology, syntax, and semantics in addition to the ‘lexicon’." (Anderson, 1992)

A visão de Spencer valoriza a importância de se investigar a extensão da morfologia - até onde ela pode ser vista em isolado - mesmo que os problemas mais intrigantes estejam na fronteira entre ela e outros componentes.

Bem, a Morfologia pode ser pensada como parte do Léxico, como regras que governam a combinação de morfemas, como RAE´S e RFP´s, dentro de um léxico mais desenvolvido do que o léxico que é uma lista de idiossincrasias. Desse ponto, parece, para mim, que a Morfologia tem lá sua autonomia ou que pelo menos é até esse ponto que ela pode ser vista em isolado. 

Se considerarmos que a Morfologia é um componente autônomo entre a Sintaxe e a Fonologia, como no caso da Morfologia de Traços em que Sintaxe e Fonologia operam sobre esta, então a Morfologia existiria sozinha?  

Sei que a Morfologia Distribuída de Halle & Marantz também fala sobre isso e quem tiver interesse pode buscar bibliografia sobre o assunto e até mandar comentários, mas esse tema está além dos meus conhecimentos de aluno de graduação. Encerro aqui, portanto.            

04/07/2006

X-gate por Emanuel Souza de Quadros

Com tempo para ler alguns blogs que há tempos eu não acompanhava, encontrei um post interessante no Jabal al-Lughat, recém adicionado à lista de links ao lado. O texto fala de uma manchete de um jornal algeriano que traz, em árabe: al-Jazaa’ir `alaa ‘abwaab fad?iihat "aartii-gaayt"! (’Algéria está à beira de um escândalo ART-gate!’)

A notícia já é velha. Fala da situação dos torcedores do norte da África (a Algéria fica por lá - Language Bar também ensina geografia!) que não poderiam assistir à Copa do Mundo caso as emissoras da região não comprassem os caríssimos direitos de transmissão da ART (Arab Radio and Television) ou se eles mesmo não pagassem por um decodificador, também caro, da ART.

O interessante é o uso de -gate (-gaayt) para formar ART-gate (aartii-gaayt). Esse sufixo se tornou bem comum na imprensa internacional depois do conhecido escândalo Watergate, no início da década de 1970. O nome desse episódio vem do Complexo Watergate, um conjunto de edifícios de luxo em Washington, que serviu de local para os roubos que levaram ao tal escândalo. O lugar tinha esse nome porque ficava próximo a um velho canal chamado de "water gate". Até aí tudo bem, um composto formado de "water", água, e "gate", portão; dá pra imaginar por que um canal seria nomeado assim.

A parte -gate do composto acabou sendo reanalisada como um sufixo, com uma mudança no significado, de modo que as palavras novas que surgiram com a forma X-gate significavam, aproximadamente, ‘escândalo envolvendo X’. Assim, surgiram coisas como Chinagate, Monicagate, Camillagate: escândalos envolvendo a China, Monica Lewinsky e Camilla Parker-Bowles, respectivamente. Aí, -gate já virou uma forma presa, diferente da forma livre gate equivalente a ‘portão’. A Wikipedia traz uma lista com vários exemplos conhecidos, e outros nem tanto, que seguem esse padrão de formação. Meu favorito da lista é Nipplegate, referindo-se àquele "escândalo" no Super Bowl XXXVIII, envolvendo um nipple (’mamilo’) da Janet Jackson - um emprego do sufixo já fora da esfera política.

Esse sufixo também é marginalmente usado em outras línguas como um empréstimo, surgindo a partir de palavras que já vêm prontas, sufixadas, do inglês, através da imprensa. É o caso do exemplo de aartii-gaayt do Jabal al-Lughat e de vários outros no alemão, no serbo-croata e no grego moderno que Brian D. Joseph traz, junto com outras referências sobre o assunto, num pequeno texto chamado "Yet more on -gate words: a perspective from abroad".

Experimentando no Google, encontrei alguns exemplos bem brasileiros: correiogate, mensalãogate, garotinhogate, gasolinagate, caseirogate, lulagate, pallocigate, dirceugate, waldomirogate, thomazgate, collorgate, camaragate, senadogate, planaltogate, propinagate.

26/06/2006

Kaingang (Brasil) por Emanuel Souza de Quadros

Mais uma da aula de fonética. Na aula de hoje, nossa colega Rita notou que nos dados do Kaingang com que estávamos trabalhando, as glosas para [ki] e [mĩ] eram idênticas: ‘dentro’. Logo imaginamos que deveria haver alguma diferença de significado ou de uso, mesmo que sutil, para que as duas formas pudessem existir na língua com o sentido básico de ‘dentro’. Na hora eu lembrei do pequeno dicionário de Kaingang que eu baixei há um bom tempo atrás só por curiosidade. "Ei! Agora ele pode ser útil!", pensei, mesmo que novamente seja para matar uma curiosidade!

De fato há uma diferença: é que junto ao sentido de ‘dentro’, em [mĩ] também há uma idéia de movimento. O dicionário traz um exemplo de sentença para cada uma das duas palavras. Fico devendo explicações detalhadas de cada elemento da sentença; talvez um dia, quando eu aprender (se aprender) mais sobre a gramática do Kaingang… Mas já dá pra ter uma idéia dessa diferença:

(1)    Ag mỹ ki nỹtĩ?
        ‘Será que estão aqui?’

(2)    Ẽpỹ ẽn hã sóg
        ‘Vou passar por aquela roça’

Dá pra ver que em (1) há uma idéia de estar em, estar dentro de algum lugar (’aqui’). Em (2), há a mesma idéia, acrescida do sentido de movimento. Supondo que a tradução trazida pelo dicionário esteja correta, me parece que ki também tem a idéia de ‘aqui’. Mas isso é pura especulação. Pensei isso, porque o significado trazido pelo dicionário para ag é ‘eles’; para mỹ, ‘Será que?’; e para nỹtĩ, ‘existir’. Sobrou para o ki que já tem uma idéia de lugar. Mas não levem isso a sério, é claro. Alguém aí sabe Kaingang e pode esclarecer melhor isso?!

Ou melhor ainda, baixem o dicionário e brinquem também!

P.S.: A mesma Rita também fez um comentário bem interessante, num post meu já esquecido, sobre as duas Neurolingüísticas e a confusão entre elas.

21/06/2006

Os Caminhos da Morfologia (Parte I e meio) por Emanuel Souza de Quadros

Não resisti ao título engraçadinho. O título do post deveria ser algo sem graça como “Os Lexicalismos” na verdade. Enfim, é apenas um comentário ao post do Tiago que acabou crescendo demais.

Resumindo, Chomsky na Hipótese Lexicalista dizia que a Sintaxe não "tinha olhos" para a Morfologia, mas Anderson (1982) discorda, como mostrado acima, dizendo que a Sintaxe e a Morfologia Flexional tem uma relação. A Morfologia Derivacional passou a ser vista como um Processo Lexical, uma vez que temos morfemas como -izar, -ção, -mente, e.t.c que podem se juntar com certas palavras. Esses morfemas e as regras que permitem que eles se combinem com determinadas palavras e não com outras estão no nível do léxico. A Morfologia Flexional é vista como um Processo Sintático, como já exemplificado com o exemplo do Michael Jackson. Em oposição ou em complemento da Hipótese Lexicalista de Chomsky, a idéia de Anderson foi chamada de Hipótese Lexicalista Fraca.

O que Anderson (1982) diz sobre hipótese lexicalista é uma interpretação derivada do postulado de que a Sintaxe não tem acesso à estrutura das palavras. Só que a hipótese lexicalista de Chomsky (1970) dizia respeito à morfologia derivacional, à estrutura da palavra antes da flexão, para a qual a Sintaxe não teria olhos; mas mesmo aí, a Sintaxe lidava com a flexão.

Depois alguns lingüistas acabaram ampliando essa hipótese de modo que a flexão também passou a ser tratada dentro no léxico – Hipótese Lexicalista Forte. Em oposição a essa última, todas as abordagens que tratam da derivação no componente morfológico e a flexão no sintático são exemplos do Lexicalismo Fraco, incluindo a proposta de Anderson.

Tem a ver com a distinção entre flexão e derivação. Os adeptos do Lexicalismo Forte costumam dizer que não há uma distinção real, logo, as duas coisas podem ser tratadas no mesmo componente; enquanto que para os adeptos do Lexicalismo Fraco, essa distinção é essencial, assim como ela é para Chomsky (1970).

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