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Cosmogonia gerativa por Emanuel Souza de Quadros

Meu erro ortográfico favorito é um que às vezes aparece em referências bibliográficas de apresentações de trabalhos de Morfologia. Trata-se da referência a um clássico da morfologia gerativa: "World Formation in Generative Grammar".

Ok, o original é "Word Formation in Generative Grammar", de 1976, escrito por Mark Aronoff, mas a grafia da nova versão é mais divertida: se houver um trabalho muito chato sendo apresentado após o que fez essa referência, dá para passar o tempo imaginando como a teoria do cara seria…


Nada para fazer nesta quinta-feira? por Emanuel Souza de Quadros

Quem estiver em Campinas amanhã (sei que há alguns leitores por lá), pode dar uma conferida na sessão de pôsteres da 60ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC ). A sessão vai acontecer no Ginásio Multidisciplinar da Unicamp, das 12h30 às 14h.  Eu estarei lá, apresentando o trabalho "A Redução da Nasalidade nos Verbos do Português do Brasil", realizado em co-autoria com César Augusto González, sob a orientação do professor Luiz Carlos Schwindt.

Como se isso não fosse motivo suficiente para passar por lá, quem for ainda vai poder conferir a seguinte programação da Associação Brasileira de Lingüística (ABRALIN):


Conferência

ALFABETIZAÇÃO E TECNOLOGIA EM AMBIENTES CULTURALMENTE DIVERSOS
Associação Brasileira de Lingüística (ABRALIN)
Quinta-feira, 17 - das 10h30 às 12h00
Ciclo Básico I - Sala CB 4
Conferencista: Thaïs Cristófaro Silva (UFMG)
Apresentador: Maria Cecília de Magalhães Mollica (UFRJ)


Conferência

AVANÇOS EM SÍNTESE E RECONHECIMENTO DE FALA
Associação Brasileira de Lingüística (ABRALIN)
Quinta-feira, 17 - das 10h30 às 12h00
IEL - Auditório CL 18
Conferencista: Fábio Violaro (UNICAMP)
Apresentador: Eleonora Cavalcante Albano (UNICAMP)


Simpósio

A LÍNGUA, A IMAGINAÇÃO E O PENSAMENTO ABSTRATO: COMO ENSINAR SEM "ASSUSTAR"
Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)
Associação Brasileira de Lingüística ( ABRALIN)
Quinta-feira, 17 - das 14h00 às 16h00
Ciclo Básico I - Sala CB 2
Coordenador: Maria Cecília de Magalhães Mollica (UFRJ)
Participantes: Marisa Lajolo (UNICAMP), Marisa Leal (UFRJ)



A vaca foi literalmente pro brejo por Emanuel Souza de Quadros

Mirella, do blog Cafeína, está irritada com um uso que eu ainda não havia notado. Trata-se do emprego de literalmente para indicar eventos nada "literais", como na frase abaixo, coletada por ela mesma.

(1) Naquele dia, depois daquela derrota, meu mundo literalmente acabou.

O que causa estranhamento nessa construção é que literalmente não está contrastando o sentido pretendido com um sentido figurado da expressão. Seria esse o caso se, por exemplo, o falante dessa frase fosse um extraterrestre que acabou de ver seu planeta literalmente ir para o espaço, após uma batalha com Galactus! Ele estaria usando esse advérbio para negar o sentido figurado e dizer "é exatamente isso que eu quero dizer: meu mundo acabou mesmo!". Ao invés disso, o advérbio em (1) está apenas enfatizando o sentido da expressão, que, por sinal, é figurado.

Acontece que quando se usa literalmente em seu sentido mais "canônico", em uma frase como "Agora, a vaca foi literalmente pro brejo", descrevendo um evento em que uma vaca entrou em um brejo, de verdade, também há aí um efeito de ênfase. Uma opção seria dizer "Agora, a vaca foi mesmo pro brejo", descrevendo o mesmo evento. Neste último caso, a frase fica mais claramente ambígüa: mesmo pode tanto enfatizar um sentido figurado (deu tudo errado mesmo), como intensificar o sentido literal, constrastando-o com o figurado (não, nada deu errado, a vaca foi pro brejo mesmo, de verdade!). No caso de literalmente, todo o povo da comunidade do Orkut citada no post do Cafeína só aceita este último uso, de intensificação do sentido literal; no entanto, o fato de haver tantos membros nela mostra que há um número muito maior de pessoas aí afora que aceitam, e usam, esse advérbio para enfatizar um sentido figurado.

Parece-me um desenvolvimento natural do uso dessa expressão, que ele consagre a parte intensificadora de seu sentido, generalizando-a a um número maior de contextos. E essa generalização deixa de parecer sem lógica se pensarmos que, ao dizer a frase em (1), o falante expressou em literalmente que "é isso mesmo que quero dizer, com todas as letras, e com todo o sentido figurado a que tenho direito". Cabe dizer que o sentido figurado também passa a ser parte do significado da expressão - com a possibilidade até de que a história um dia o reconheça como "sentido literal".

É importante notar também que a estrutura morfológica de uma palavra, isto é, o fato de que ela é uma combinação de literal + mente, não determina completamente o seu sentido. Mesmo que o faça inicialmente, isto é, no primeiro momento em que o vocábulo foi formado, vem sempre o uso da língua, que acaba levando a expressão a outras direções.

Mais ilógico do que esse uso de literalmente, parece ser execrá-lo sem também abominar uma frase como "Naquele dia, meu mundo realmente acabou", afinal, o que está sendo enfatizado por realmente não é um evento que aconteceu na realidade - a não ser no caso do tal extraterrestre. Ou, então, será que deveríamos também banir o uso de literalmente na língua falada? Afinal, não saem letras de nossa boca quando falamos (Nota: isso acontece com crianças comendo sopa de letrinhas).

Aliás, na língua inglesa, puristas reclamam desse uso de literally há um bom tempo. Abaixo, um item da "lista negra de falhas literárias" de "Write it Right" (1909), por Ambrose Bierce, que traz exemplos desse uso "não-literal" de literally, já no início do século passado.

Literally for Figuratively. "The stream was literally alive with fish." "His eloquence literally swept the audience from its feet." It is bad enough to exaggerate, but to affirm the truth of the exaggeration is intolerable.

 —

Atualização: Ver o post do Filisteu e as atualizações do post do Cafeína para uma boa continuação desse assunto.


The World Atlas of Language Structures por Emanuel Souza de Quadros

Ontem foi o lançamento oficial da versão online do WALS (The World Atlas of Language Structures). Estão disponíveis no site todos os dados e textos analíticos do atlas publicado pela Oxford University Press, que custa míseros 1.433 reais e 70 centavos na Livraria Cultura (quer comprar?). Pois é, disponíveis online, de graça!

De acordo com o site, o atlas possui dados de mais de 2500 línguas. As pesquisas podem ser feitas por característica estrutural, por língua, por referência ou por autor. Como exemplo, podemos ver o mapa da distribuição de línguas que possuem contraste entre vogais nasais, em oposição às que não possuem. Para ver o nome da língua e as fontes de onde as informações foram retiradas, basta clicar no símbolo relevante no mapa. Cada característica estrutural é também acompanhada por um texto que traz as definições e distinções necessárias.

Fun!


Tapiocagate por Emanuel Souza de Quadros

É essa a sugestão de Marcos Rocha para nomear o escândalo dos cartões de crédito corporativos, seguindo o padrão de formação X-gate. A única outra ocorrência de tapiocagate que encontrei foi esta, em um post datado de 12/02/08 no Blog do Harry.

Se me perguntarem como é o gosto da tal tapioca, digo que não sei. Acho que nunca comi uma, embora aquela aparência seja muito bonita. Se o recheio for bom, porque devem ter os bons e os ruins, com certeza pagaria os R$8,30 que o Ministro do Esporte, Orlando Silva, desembolsou naquele que logo mais ganhará a alcunha de "Tapiocagate"

Não sei se Harry Thomas Jr. andou lendo o blog do Marcos Rocha, cuja sugestão de tapiocagate foi publicada no dia 11/02. Eu apostaria em cunhagens paralelas do termo; vai saber.

Sobre a origem do sugerido nome do escândalo, segue abaixo apenas uma parte dos gastos do atual ministro do esporte, Orlando Silva, com seu cartão corporativo, de acordo com o Portal da Transparência. Em destaque, o registro de um pagamento de R$ 8,30 à tapiocaria Maria Bonita.

 


Morphology Online por Emanuel Souza de Quadros

Dando uma olhada nas notícias velhas da LINGUIST List, cruzei com a chamada de uma revista, MorphOn, que pode ser interessante. Trata-se de uma revista eletrônica, como a nossa conhecida ReVEL, só que dedicada apenas à Morfologia! Embora exista desde 2005 (e eu não sabia…), ela ainda conta com poucas publicações. Espero que isso mude. A iniciativa de proporcionar um espaço para que morfólogos publiquem seus artigos online e de oferecer livre-acesso a esses textos é ótima; vê-la sendo desperdiçada seria lamentável.

A chamada que consta no site:

Publish your Paper with MorphOn
If you’d like to publish your paper on Morphology (phenomena, grammar, practical/ theoretical issues; or morphology in a wider setting, i.e. morphophonology, morphosyntax, morphosemantics, morphopragmatics, language acquisition, word recognition, psycholinguistics, clinical linguistics, diachronic problems or morphological sketches of individual languages), please email it to us at : MorphOn@MorphologyOnline.com. Please submit it (with an abstract) as WORD and PDF file attachments (one of them being anonymous). It will be reviewed by our advisory panel of renowned linguists and if accepted, it will appear online straight off (without any charge). The moral copyright on the article(s) you submit is, of course, totally yours as it/they will bear your name as the author, affiliation, email address and a date.

Conceitos Básicos - Morfologia por Tiago Martins

Com saudades de ler os primeiros textos sobre Morfologia e seguindo a idéia do Emanuel de fazer um post com "conceitos básicos", escrevo aqui algo para  responder a pergunta de um possível internauta  que digite no Google: O que é Morfologia?

            E ela é - segundo qualquer texto introdutório sobre o assunto - o estudo da estrutura, formação e categorização dos vocábulos. Se o caso for dar uma resposta  menos ligada à lingüística e mais relacionada com a gramática normativa, a morfologia então é definida como o componente gramatical que trata da estrutura interna das palavras.
            Mas o que é a palavra? E isso é outro ponto que irá estar presente em qualquer livro introdutório sobre o assunto. Não há como falar sobre Morfologia sem termos bem claramente o conceito de palavra.  
            Da perspectiva fonológica, a palavra é uma unidade acentual, um conjunto marcado por um só acento tônico. Sintaticamente, temos que uma seqüência de sons só pode ser definida como palavra se puder ser usada como resposta mínima a uma pergunta ou se puder ser usada em várias posições sintáticas (cf. Maria Filomena Spatti Sandalo, em Introdução à Lingüística). Essa definição de palavra através da Sintaxe é bastante discutível, mas é um meio fácil de explicar - por essa ótica - o conceito.  
            A definição morfológica de palavra é que palavra pode ser definida pela quantidade de raízes que possui. Ainda temos a definição semântica que nos diz que palavra é aquilo que possui apenas um significado. Mas é uma definição frágil, pois podemos contrapor dizendo que em fabricante e aquele que fabrica temos apenas um significado e sabemos intuitivamente que apenas o primeiro exemplo é uma palavra.
            É um pouco complexo de se definir “palavra”, mas parece que um conceito para tal não se pode dar isoladamente, tem de se ter uma concepção de palavra em níveis morfológicos, sintáticos, semânticos e fonológicos.
            Definindo palavra então, temos a unidade máxima da Morfologia.
Qual é sua unidade mínima?
 
            As unidades mínimas da morfologia são os elementos que compõe uma palavra. O conhecimento desses elementos é o que nos permite entender uma palavra que nunca ouvimos antes. Se nunca ouvimos Nacionalização, podemos descobrir o que significa se soubermos o significado de nação e o significado dos elementos que derivam novas palavras no português, como -al, -izar e -ção.    
 

            A unidade mínima e o objeto de análise da Morfologia é o Morfema, definido como a menor unidade dentro de uma palavra que carrega um significado. Em (Kehdi, 1989) há uma comparação com a fonologia: Morfemas são significativos, enquanto os fonemas são distintivos.

Estudo do Componente Morfológico:

Os estudos morfológicos podem ser divididos em quatro correntes: A corrente PALAVRA e PARADIGMA, puramente descritivista; A corrente ligada ao historicismo, sem grandes evoluções; A corrente estruturalista de ITEM e ARRANJO e a corrente gerativista, chamada de ITEM e PROCESSO. O foco deste post está ligado a estas duas últimas correntes.  
 
Estruturalismo (Escola de Item e Arranjo)

            A partir do estruturalismo europeu com Saussure, passa-se a estudar a língua de uma perspectiva sincrônica. Paralelo à vertente européia surge o estruturalismo norte-americano com Edward Sapir e Leonard Bloomfield. Os lingüistas dessa época passaram a descrever línguas indígenas e assim chegaram ao conceito de MORFEMA.
            A escola é assim chamada, pois se baseava no elemento (ITEM) e na sua distribuição na língua (ARRANJO).

            Segundo (Rocha 1998), a visão estruturalista desenvolveu com bastante rigor as técnicas de depreensão dos morfemas. Em síntese, diz ele, o estruturalismo se preocupou basicamente com duas coisas:

a) fazer a segmentação dos morfemas;

b) proceder à classificação dos morfemas;

            A morfologia estruturalista se aproxima bastante da morfologia da Gramática normativa. Como já foi citado, é uma parte da gramática que trata da estrutura interna das palavras, que – complementado – descreve sua formação e estrutura.  
            Nessa morfologia, diferente da morfologia gerativa, a preocupação era em separar e classificar os morfemas de uma língua, como veremos agora.
 
Unidades Mínimas Significativas:
 
            A palavra é um elemento de constituição complexa cuja análise poderá conduzir a uma base mais rigorosa (cf. Kehdi).
            Para chegarmos a essa base estabeleceremos que:

  1. As comparações devem ser feitas por pares.
  2. Cada par deve apresentar UMA SÓ relação de semelhança e UMA SÓ relação de diferença.
  3. Os elementos destacados devem ter um valor significativo.

Falávamos

Falava

SEMELHANÇA: Falava.
DIFERENÇA: -mos.
 
-mos, é um elemento significativo, pois indica que a ação é expressa por um grupo de pessoas, incluindo o falante.
 
Falava

Fala
 
SEMELHANÇA: Fala.
DIFERENÇA: -va.
 
-va, indica pretérito imperfeito do indicativo.
 

A comparação com as outras formas do mesmo verbo nos conduz a interpretações corretas sobre a divisão dessa palavra em unidades mínimas significativas. Falava, falaremos, falariam, falasse, falaste e.t.c Isso nos indica que muito provavelmente a seja a vogal temática desta palavra. E que Fal-, seja o radical. 

Como se depreende um morfema?
É através da COMUTAÇÃO (ou substituição, segundo os lingüistas norte-americanos). Quando na comparação de pares mínimos a substituição de um traço por outro acarreta uma mudança de significado, realizamos uma COMUTAÇÂO.
 
Em AMAMOS substituindo por AMAIS obtém-se uma mudança de significado.
No primeiro caso temos 1a. pessoa do plural e no segundo caso temos 2a. pessoa do plural. Foi feita uma COMUTAÇÃO desse par mínimo e como obtivemos diferença de significado temos dois morfemas /mos/ e /is/.                 

A Dupla Articulação da Linguagem:
           Martinet estabeleceu a Teoria da Dupla Articulação da Linguagem em que a PRIMEIRA ARTICULAÇÃO corresponde aos Monemas e a SEGUNDA ARTICULAÇÃO corresponde aos Fonemas. 
Segundo esta teoria, as unidades mínimas significativas são os MONEMAS.
 
            Os Morfemas de valor lexical (adjetivos, substantivos) e que pertencem a um inventário aberto são os LEXEMAS ou SEMANTEMAS, porque encerram em cada vocábulo o elemento semântico básico.
            Os Morfemas de valor gramatical (afixos, preposições) e que pertencem a um inventário fechado são os MORFEMAS.

Alomorfia: 
            Assim como os fonemas, na morfologia também temos casos de DISTRIBUIÇÃO COMPLEMENTAR: onde utilizamos uma variante, não podemos utilizar outra.
            Em INFELIZ, por exemplo, a comparação com FELIZ nos faz depreender o morfema –in. Esse mesmo morfema realiza-se como i - antes de radicais iniciados por L-, M- e R-> Ilegal, Imoral, Irreal. Essas diferentes realizações são designadas como ALOMORFES.
            Exemplo: MIM realiza-se como /mim/ após qualquer preposição diferente de /com/, seguindo de COM temos a variante /migo/.
 
            No adjetivo AMÁVEL, depreendemos o MORFEMA –vel. Esse morfema se realiza como –bil quando antecede morfemas iniciados por vogal:
AMA –BIL –IDADE. O significado é o mesmo, ou seja, -bil é alomorfe de -vel.  
 
            A existência de diferentes alomorfes para um mesmo morfema remete-nos ao problema da escolha de um deles para representar o conjunto. O alomorfe selecionado recebe o nome de FORMA BÁSICA.  

Critérios para se Estabelecer a Forma Básica: 
 
a) CRITÉRIO DISTRIBUCIONAL:
Dentre as variantes existentes é escolhida como forma básica a mais freqüente. No caso de MIM/MIGO, mim ocorre em um maior número de casos na língua, logo é selecionado como a forma mais básica.
              
b) CRITÉRIO DA REGULARIDADE DE FORMAÇÃO:
Usa-se este critério quando os alomorfes apresentam a mesma freqüência. Por exemplo, o futuro do presente do indicativo é expresso por –rá- e –re- que ocorrem três vezes cada um. (Amarás, amará, amarão) e (Amarei, Amaremos, Amareis). De acordo com o critério estatístico os morfemas indicativos de tempo e modo apresentam todos formas básicas em –a e possuem variantes em –e. Logo, -rá é considerado como FORMA BÁSICA.  
 
c)CRITÉRIO DE ISOLAMENTO:
Nos casos em que uma das variantes ocorre isoladamente, enquanto outra só aparece atrelada a um novo morfema, é a primeira que deve ser forma básica.
CHAPÉU possui a variante CHAPEL-, mas esta variante só é utilizada quando seguida de um morfema iniciado por vogal: Chapelaria. Então a forma básica deve ser a primeira. 
 
Tipos de Morfemas:
 
RADICAL: É o elemento irredutível e comum às palavras de uma mesma família.  Ex: Ferro/Ferradura/Ferramenta. 
 
AFIXOS: São os morfemas que se anexam ao radical para mudar-lhe o sentido (fazer/desfazer) ou para acrescentar uma idéia secundária. (livro/livreco).
 
            As principais propriedades dos prefixos e sufixos é se anexarem ao radical para mudar seu sentido ou acrescentar uma idéia secundária, também modificam a classe de um vocábulo. A presença de um prefixo no radical não modifica sua classe, mas a presença de um sufixo modifica a classe gramatical de uma palavra.
 
DESINÊNCIAS: São os morfemas terminais de palavras variáveis. Servem para indicar as flexões de gênero e número (Desinências Nominais), e de Modo e Tempo, Número e Pessoa (Desinências Verbais). As desinências colocam a palavra na frase; são morfemas que não se pode dispensar, pois toda a forma verbal portuguesa está associada ás noções de tempo e modo e número e pessoa.  
 
DESINÊNCIAS DE GÊNERO: Exprime-se através de FLEXÃO (garoto/garota), de DERIVAÇÃO (conde/condessa) ou de HETERONÍMIA (bode/cabra).
>> Mattoso propõe que a flexão de masculino se opõe em 0 ao feminino em –a, ao contrário do que prevê a Gramática Normativa. O argumento é que não podemos considerar –o como marca de masculino simplesmente por se opor à –a, porquê esse mesmo raciocínio nos obrigaria a considerar como masculino –e (Mestre/mestra). E não podemos considerar –e como masculino, pois temos exemplos como (a ponte). A solução é considerar o masculino como forma desprovida de flexão específica. Exemplo:
                  RADICAL       VT          DG      DN   
                   Menin    +    o   +       0  +   0
DESINÊNCIAS DE NÚMERO: A ausência de desinência para o singular permite-nos dizer que no referente ao número o singular é caracterizado pelo morfema zero. O plural é geralmente caracterizado por –s. Temos casos, palavras terminadas por consoantes em –r e –z, que a formação do plural em nomes como Mar e Cruz é em –es. Como: Mares e Cruzes. Pode-se explicar sincronicamente dizendo que nestas duas palavras foi acrescentado um alomorfe –es da desinência –s. De acordo com isso pessoas com menos escolarização diriam: dois pires e 1 pir. Ou podemos explicar que a desinência do plural é sempre –s, sem variantes, e em uma análise diacrônica dizer que o –e vem das formas *mare e *cruze. 
 
DESINÊNCIAS VERBAIS: Há dois tipos de desinências verbais; as que exprimem modo e tempo (DMT) e as que exprimem número e pessoa (DNP). As desinências modo temporais vêm antes das desinências número-pessoais, isso ocorre em português e em outros idiomas.
Exemplo: Desinência MT do presente do Indicativo.
Canto – CANT (Radical) + o (Vogal Temática) + 0 (DMT)
 
VOGAIS TEMÁTICAS NOMINAIS: As vogais temáticas nominais, em português, são –a, -e, -o. Assim, poderia haver confusão entre VT e DG, mas não há. Enquanto –o e –a desinenciais comutam com –a e –o para exprimir mudança de gênero (menino/menina), isso não ocorre com as vogais temáticas (livro e *livra), -o e –a temáticos não se associam às noções de masculino e feminino.
A vogal temática –o apresenta em alguns lugares a variação com –u. Por exemplo: Conceito/conceitual/conceituoso. 
Mar e Lar e Cruz, por ex, seriam atemáticos, já que –es é alomorfe.
 
VOGAIS TEMÁTICAS VERBAIS: São três, no português: -a (primeira conjugação) –e (segunda conjugação) –i (terceira conjugação). Pode-se identifica-las pelo infinitivo, são as vogais que antecedem o –r desinencial:
am-a-r,vender,partir. 
 
Gerativismo:
 
            O gerativismo de Noam Chomsky introduziu uma nova concepção nos estudos da linguagem. Dentro da abordagem gerativa, palavras são formadas por regras e/ou analisadas por regras de modo que o estabelecimento de unidades como morfemas e afixos é desnecessário.
            A idéia da teoria gerativa é que em vez de um léxico de afixos, a morfologia de uma língua deveria consistir em um conjunto de regras que descreveriam as modificações das formas existentes que estariam relacionadas com outras formas.
            A teoria gerativa responde perguntas que o estruturalismo não pode responder, como:
1)       Por que formamos novas palavras?
2)       Quando formamos novas palavras?
3)       Quando variamos uma mesma palavra e quando criamos uma nova?
4)       Existem palavras impossíveis?
                            
O objetivo de uma teoria morfológica, segundo SCALISE (1984:41) é o de definir as ‘novas palavras’ que os falantes podem formar, ou mais especificamente, as regras através das quais as palavras são formadas. 
 
Todas essas informações foram baseadas nos livros "Morfemas do Português" de Valter Kehdi e "Estruturas Morfológicas do Português" de Luis Carlos de Assis Rocha. Tais informações bem diretas e precisas, como costumam ser os textos bastante introdutórios. Kehdi, por exemplo, não problematiza várias questões que seriam dignas de uma maior discussão. Mas isso, acredito, basta para responder O que é Morfologia? E já fica a sugestão para que os outros autores do blog continuem com a série "Conceitos Básicos".   


Em clima de eleição: uma abordagem sem sacanagem por Paulo H

Um post rápido para falar de um dado, uma formação lexical interessante, bem interessante. Muitos outros dados colhidos por aí, informalmente, talvez merecessem posts, mas este de que vou falar tem uma relevância particular porque foi usado por um candidato a governador do Rio Grande do Sul, o Roberto Robaina, do PSoL. 
Houve um debate na TV Cachorro (ou, de maneira mais culta, TV Com) numa noite dessas, com alguns candidatos a governador do estado do RS. Não assisti a todo o debate, sou um cara muito preconceituoso quanto a programas coordenados por pessoas como Lasier Martins, o cara do L velarizado (é o L mais dark do jornalismo mundial). Mas enfim, só vi alguns trechos do debate. Num instante desses, vi que, enquanto o Robaina discutia com outro(a) candidato(a), que não lembro e não interessa quem era, surgiu uma nova palavrinha (ou palavrinha nova). Um substantivo deverbal: viragem. Bom, pode até ser que alguém a tenha em seu léxico mental, mas deve ser uma minoria. De qualquer modo, me chamou a atenção. Vejam o contexto em que a palavra apareceu:

A Heloísa Helena é a única candidata capaz de promover uma viragem no Brasil.

Em primeiro lugar, não me interessa se a moça que fala alto é a única capaz de fazer qualquer coisa, o foco está na palavrinha em itálico. Me parece claro que o sentido aqui de viragem está relacionado a esse negócio de que os políticos falam muito: mudança, transformação, etc. É assim que entendo a frase de Robaina. Ou seja, compreendo a formação do cara, embora ache que ele, no fundo, quis dizer outra coisa.

Em segundo lugar, fico pensando: ele estava nervoso, como talvez todos os demais. Isso explica um engano (podemos imaginar que o cara tenha quisto dizer virada, no sentido de mudança). Não importa. Ele disse viragem, substantivo formado de virar + agem, assim como sacanagem é formado de sacanear + agem e lavagem é formado de lavar + agem. Não é isso?

Assim, podemos nos divertir:

a) Heloísa Helena é a única capaz de promover uma propagação de vírus(es), no Brasil (promover uma virose).

b Heloísa Helena é a única capaz de promover uma mudança no tempo, no Brasil (uma viração, geralmente propulsora das viroses).

c) Heloísa Helena é a única capaz de promover uma mudança na política, no Brasil (nesse caso, viragem é uma palavra nova, e, ao fim e ao cabo, um substantivo tão abstrato quanto felicidade, perfeição, humanidade. Abstrato demais para meros mortais).   


O estranho caso do verbo PONHAR por César Gonzalez

Trabalhar numa pesquisa de variação é realmente interessante. Tanto pelo aprendizado que uma pesquisa traz, quanto pelas criativas histórias que ouvimos enquanto pesquisamos em fitas de entrevistas.

Há alguns dias atrás ouvi uma fita em que o entrevistado utilizava o verbo ponhar. O que é ponhar? Fácil, infinitivo do verbo pôr. Vejamos os exemplos retirados do discurso do informante:

(1) Acham que ponhar filho no mundo é profissão, né?

(2) Comecei a ponhar na cabeça aquilo que eles falavam.

A questão é como que o indivíduo chega à forma ponhar para o infinitivo do verbo pôr.

Primeiro, essa forma é muito parecida com a forma da primeira pessoa do singular do presente do indicativo, ponho. Elas possuem a mesma raiz. É também interessante que essa forma mantém a nasalidade recorrente em todo o presente do indicativo (e do subjuntivo).

A minha hipótese é que ele utilizou a raiz da primeira pessoa do singular do presente do indicativo como base para a criação do infinitivo do verbo. Utilizou a primeira conjugação pois é essa a mais produtiva em português.

Isso poderia ser recorrente em toda a primeira conjugação:

apiedo - apiedar
armo - armar
dou - dar
estou - estar
marco - marcar
negocio - negociar

Isso já não se pode dizer sobre a segunda ou terceira conjugações:

caibo - caber
digo - dizer
faço - fazer
perco - perder
posso - poder

peço - pedir
vou - ir
venho - vir

Mas isso é só uma hipótese. Não sei o quão boa ela é. Se alguém tiver alguma outra hipótese e queria compartilhar, sinta-se a vontade.


Os Caminhos da Morfologia (Parte II) por Tiago Martins

Terminei a primeira parte desse texto falando sobre a Morfologia de Traços, proposta por Anderson em 1992. Para continuar daí então, segundo ele, esses traços contidos no léxico seriam "comandados" pela Sintaxe e a maneira como eles apareceriam na superfície ficaria por conta da Fonologia Pós-Lexical.  Mas isso é só um esboço do que é a Morfologia de Traços, pois eu propriamente nunca li a proposta de Anderson pelo próprio Anderson, só pelas mãos de outros. O objetivo dessa segunda parte é discorrer, na visão Spencer e Anderson, sobre a pergunta final do outro texto: A Morfologia existe sozinha?

Segundo Spencer, no prefácio do Yearbook of Morphology os editores descrevem a morfologia como uma "disciplina relativamente autônoma", mas existem alguns lingüístas que negam a existência de um componente morfológico separado.

Para o já citado Anderson, a Morfologia Flexional não tem um lugar específico  dentro dos módulos da teoria lingüística. Ela engloba - segundo Maria Filomena Sandalo (falando sobre Anderson) - todo o processo lingüístico".

"… word structure can only be understood as the product of interacting principles from many parts of the grammar: at least phonology, syntax, and semantics in addition to the ‘lexicon’." (Anderson, 1992)

A visão de Spencer valoriza a importância de se investigar a extensão da morfologia - até onde ela pode ser vista em isolado - mesmo que os problemas mais intrigantes estejam na fronteira entre ela e outros componentes.

Bem, a Morfologia pode ser pensada como parte do Léxico, como regras que governam a combinação de morfemas, como RAE´S e RFP´s, dentro de um léxico mais desenvolvido do que o léxico que é uma lista de idiossincrasias. Desse ponto, parece, para mim, que a Morfologia tem lá sua autonomia ou que pelo menos é até esse ponto que ela pode ser vista em isolado. 

Se considerarmos que a Morfologia é um componente autônomo entre a Sintaxe e a Fonologia, como no caso da Morfologia de Traços em que Sintaxe e Fonologia operam sobre esta, então a Morfologia existiria sozinha?  

Sei que a Morfologia Distribuída de Halle & Marantz também fala sobre isso e quem tiver interesse pode buscar bibliografia sobre o assunto e até mandar comentários, mas esse tema está além dos meus conhecimentos de aluno de graduação. Encerro aqui, portanto.            


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