Language Bar

04/06/2008

Inventário das línguas do Brasil por Emanuel Souza de Quadros

De acordo com uma matéria publicada hoje no Estado de São Paulo, o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) aprovou a realização de um levantamento das línguas que são faladas no Brasil.

Não conheço o histórico de realização desse tipo de pesquisa por aqui, mas lembro da conferência de abertura do III Seminário Internacional de Fonologia, no ano passado. Nela, a professora Yonne Leite (UFRJ) citou algumas tentativas anteriores de mapear as línguas indígenas brasileiras, que obtiveram resultados conflitantes. Não é difícil imaginar razões para estudos desse porte divergirem, começando pela questão básica de sabermos identificar quando estamos diante de uma variedade de uma língua que já conhecemos ou diante de uma nova língua.

Ainda assim, o novo mapeamento, promovido pelo Iphan, parece ter pretensões maiores. A idéia é contemplar, além das indígenas, línguas afro-brasileiras e de imigrantes, e também as variedades do próprio português (o que contradiz o início da matéria, que diz "à exceção do português").

A notícia me lembrou da primeira conversa que tive com meus alunos do estágio de língua inglesa (8ª série), quando eles se surpreenderam ao saber que há, atualmente, mais de cem línguas espalhadas pelo Brasil, além do português. O levantamento do Iphan vem com um objetivo de promover esse reconhecimento em uma escala maior.

02/05/2008

Descartes e a Linguagem por César Gonzalez

Leitura interessante é a do Discurso Sobre o Método de Descartes. Além de toda uma teorização preocupada com a busca da verdade, e que lança as bases de uma filosofia da ciência, o pensador francês também discute linguagem.

Para ele, a linguagem é uma das características da alma humana que não pode ser reconhecida na natureza. Ela é um dos traços que diferenciam humanos e animais. Animais, por mais que possam imitar palavras, não podem colocá-las em ordem como que representando por palavras aquilo que pensam:

as pêgas e os papagaios podem proferir palavras como nós, mas não podem falar como nós, isto é, demonstrando que pensam o que dizem (p. 71). 

Descartes ainda afirma que, se houvesse máquinas semelhantes a humanos, elas ainda assim não seriam capazes de nos enganar e haveria, pelo menos, dois meios de as identificar como máquinas, um deles a linguagem:

O primeiro meio [de se diferenciar uma máquina de um humano] reside no fato de que jamais poderiam empregar palavras ou outros sinais, compondo-os como nós o fazemos, para transmitir aos outros os nossos pensamentos (p. 69).

A diferença reside no fato de humanos possuírem uma alma racional - penso, logo existo - cuja existência é fruto de desígnio divino. Deus, em sua magnânima perfeição, concedeu ao homem a razão, o meio pelo qual atingir a verdade. E graças à razão possuímos a linguagem, que o filósofo reconhece, também, nos surdos-mudos, algo que se soma às diferenças entre homens e animais:

homens que, tendo nascido surdos-mudos, são providos dos órgãos de que os outros se servem para falar, tanto ou mais do que os animais, costumam inventar por si mesmos alguns sinais pelos quais se fazem entender pelos que, estando habitualmente em sua companhia, têm a oportunidade de lhes aprender a língua (p. 71). 

Por fim, já na penúltima página de seu Discurso, Descartes comenta o fato de escrever em francês (e não em latim, como era usual na época, séc. XVII [1637]). Diz ele, alfinetando os "bastiões do bem falar e bem escrever" do início da idade moderna:

Escrevo em francês, que é a língua do meu país, de preferência ao latim, que é a dos meus preceptores. Espero que os que se servem exclusivamente de sua razão natural poderão assim julgar melhor as minhas opiniões do que os que só acreditam nos livros antigos. Quanto aos que unem o bom senso ao estudo, os únicos que desejo ter como juízes, estou certo de que não serão tão apaixonados pelo latim que recusem ouvir minhas razões só porque as explico em língua vulgar (p. 93). 

 

DESCARTES, Réné (1637). Discurso sobre o método. São Paulo: Atena, 1960.

22/04/2008

The World Atlas of Language Structures por Emanuel Souza de Quadros

Ontem foi o lançamento oficial da versão online do WALS (The World Atlas of Language Structures). Estão disponíveis no site todos os dados e textos analíticos do atlas publicado pela Oxford University Press, que custa míseros 1.433 reais e 70 centavos na Livraria Cultura (quer comprar?). Pois é, disponíveis online, de graça!

De acordo com o site, o atlas possui dados de mais de 2500 línguas. As pesquisas podem ser feitas por característica estrutural, por língua, por referência ou por autor. Como exemplo, podemos ver o mapa da distribuição de línguas que possuem contraste entre vogais nasais, em oposição às que não possuem. Para ver o nome da língua e as fontes de onde as informações foram retiradas, basta clicar no símbolo relevante no mapa. Cada característica estrutural é também acompanhada por um texto que traz as definições e distinções necessárias.

Fun!

14/10/2006

O Romanche por Tiago Martins

A Suiça, creio eu, é o país modelo do mundo. Em qualquer comparativo político-econômico a Suiça sempre é apontada como exemplo em economia, educação e saúde. Para mim, ela é um modelo porque sua política não é ideológica: é mais polarizada entre esquerda e direita, segundo dizem. E ideologia só serve para gastar o nosso tempo e nos tirar da visão de que os problemas político-econômicos são de ordem prática e que assim devem ser resolvidos. Precisamos de ações e não de discursos ideológicos. Discutindo justamente isso com dois colegas, fui questionado se sabia "que língua falam na Suiça?". A resposta básica, que é de conhecimento geral, foi: Alemão e Françês. Foi o que respondi, mas pesquisando mais a fundo, descobri que a resposta é um pouco mais interessante.

As línguas oficiais da Suiça são: Alemão, Françês, Italiano e Romanche. Sendo que  60% ou um pouco mais da população fala o Suíço-Alemão e uma parcela pequena fala essa pouco conhecida Romanche

A língua Romanche ou Retoromanche  é também falada na Aústria e na Itália. É uma língua neolatina e a hipótese mais forte sobre sua origem, pelo que li, é de que essa língua provém do latim falado pelos romanos que ocupavam estas áreas na antigüidade. As estatísticas são de que o Romanche possui 35 mil pessoas que têm esta como sua língua materna. Outras 40 mil pessoas a falariam como segunda língua. Isso, no entanto, não parece ser muito, já que a língua é considerada sob risco de extinção. Na Suíça, a língua não mais é ensinada nas escolas e nos meios de comunicação oficiais a língua predominante é o Alemão oficial. Menos de 1% dos habitantes da Suíça ainda falam o Romanche

Outra informação que achei foi de que o Romanche, por si só, não constituíria uma lingua única, mas sim um conjunto de dialetos pertencentes ao ramo reto-românico das línguas consideradas românicas, mas isso parece que gera controvérsias e nada irei comentar sobre elas.

Foi apenas em 1938 que o Romanche, cujo primeiro registro de aparecimento foi no século XVI, passou a ser considerado como língua oficial na Suíça. É em um lugar deste país, chamado de Cantão dos Grisões que a língua é (mais) falada.

Foi um lingüísta chamado Heirich Schmid quem unificou a ortografia da língua, isso nos anos 80 do século XX. No entanto, parece que isso não deu muito certo devido as "várias variações" dialetais.

Para se ter uma certa idéia de como é a língua, a frase: "A Raposa teve mais uma vez fome" em Romanche oficial fica assim: "La vulp era puspè ina giada fomentada".

Quanto a detalhes mais descritivos do Romanche, achei o que segue na Wikipédia:

As palavras masculinas são geralmente terminadas em consoante e as femininas em -a. Os artigos definidos são como se segue:

il turist - o turista
la turista - a turista

Antes de vogal, os artigos tanto masculino como feminino sofrem elisão e tornam-se l’:

l’ami - o amigo
l’amia - a amiga

Os artigos plurais são ils para o masculino e las para o feminino.

ils amis
las amias

Os artigos indefinidos são in para o masculino e ina para o feminino.

in curs - um curso
ina scola - uma escola

Não há artigos indefinidos plurais

Quanto aos pronomes, são eles:

jau - eu
ti - tu (você)
el/ella - ele/ela
nus - nós
vus - vós (vocês)
els/ellas - eles/elas

Caso o leitor do post queira impressionar alguém ou ajudar o Romanche a não desaparecer, coloco aqui algumas frases de ordem comum desta língua que deve ser pouquíssimo conhecida; ao menos o era para mim, até que me perguntassem sobre a língua falada na Suiça;

Allegra - Olá

Co vai? - Como vai?

Fa plaschair - Prazer em conhecê-lo(a)

Bun di - Bom dia

A pli tard - Até mais

I ma displascha - Desculpe-me

Perdunai - Dá licença

Per plaschair - Por favor

Grazia fitg - Muito obrigado

26/06/2006

Kaingang (Brasil) por Emanuel Souza de Quadros

Mais uma da aula de fonética. Na aula de hoje, nossa colega Rita notou que nos dados do Kaingang com que estávamos trabalhando, as glosas para [ki] e [mĩ] eram idênticas: ‘dentro’. Logo imaginamos que deveria haver alguma diferença de significado ou de uso, mesmo que sutil, para que as duas formas pudessem existir na língua com o sentido básico de ‘dentro’. Na hora eu lembrei do pequeno dicionário de Kaingang que eu baixei há um bom tempo atrás só por curiosidade. "Ei! Agora ele pode ser útil!", pensei, mesmo que novamente seja para matar uma curiosidade!

De fato há uma diferença: é que junto ao sentido de ‘dentro’, em [mĩ] também há uma idéia de movimento. O dicionário traz um exemplo de sentença para cada uma das duas palavras. Fico devendo explicações detalhadas de cada elemento da sentença; talvez um dia, quando eu aprender (se aprender) mais sobre a gramática do Kaingang… Mas já dá pra ter uma idéia dessa diferença:

(1)    Ag mỹ ki nỹtĩ?
        ‘Será que estão aqui?’

(2)    Ẽpỹ ẽn hã sóg
        ‘Vou passar por aquela roça’

Dá pra ver que em (1) há uma idéia de estar em, estar dentro de algum lugar (’aqui’). Em (2), há a mesma idéia, acrescida do sentido de movimento. Supondo que a tradução trazida pelo dicionário esteja correta, me parece que ki também tem a idéia de ‘aqui’. Mas isso é pura especulação. Pensei isso, porque o significado trazido pelo dicionário para ag é ‘eles’; para mỹ, ‘Será que?’; e para nỹtĩ, ‘existir’. Sobrou para o ki que já tem uma idéia de lugar. Mas não levem isso a sério, é claro. Alguém aí sabe Kaingang e pode esclarecer melhor isso?!

Ou melhor ainda, baixem o dicionário e brinquem também!

P.S.: A mesma Rita também fez um comentário bem interessante, num post meu já esquecido, sobre as duas Neurolingüísticas e a confusão entre elas.

22/06/2006

enga (Papua Nova Guiné) por Paulo H

Na última aula de fonética com a Cláudia Brescancini, vimos dados de uma língua da Papua Nova Guiné, chamada enga (tem também outros nomes, mas não interessa agora). Os dados chamaram minha atenção (também a do Emanuel) pois todas as vogais finais das palavras eram desvozeadas como [’ipU], transcrito com o alfabeto do PIKE. Fui atrás pra ver o que descobria e encontrei o seguinte: http://pnglanguages.org/png/LangResource/0000091/Enga.pdf . Dentre outras coisas (da fonologia do enga), aí se diz que todas as vogais finais são desvozeadas. Isso é realmente interessante. Além disso, eles praticamente não têm (fonologicamente) consoantes vozeadas. 

Viram como é importante ter alguém descrevendo essas línguas pelo mundo? Assim a gente pode aprender sons "estranhos" (o que é muito legal) e ainda por cima usar como exemplo de processos nas línguas naturais.  

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