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Nada para fazer nesta quinta-feira? por Emanuel Souza de Quadros

Quem estiver em Campinas amanhã (sei que há alguns leitores por lá), pode dar uma conferida na sessão de pôsteres da 60ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC ). A sessão vai acontecer no Ginásio Multidisciplinar da Unicamp, das 12h30 às 14h.  Eu estarei lá, apresentando o trabalho "A Redução da Nasalidade nos Verbos do Português do Brasil", realizado em co-autoria com César Augusto González, sob a orientação do professor Luiz Carlos Schwindt.

Como se isso não fosse motivo suficiente para passar por lá, quem for ainda vai poder conferir a seguinte programação da Associação Brasileira de Lingüística (ABRALIN):


Conferência

ALFABETIZAÇÃO E TECNOLOGIA EM AMBIENTES CULTURALMENTE DIVERSOS
Associação Brasileira de Lingüística (ABRALIN)
Quinta-feira, 17 - das 10h30 às 12h00
Ciclo Básico I - Sala CB 4
Conferencista: Thaïs Cristófaro Silva (UFMG)
Apresentador: Maria Cecília de Magalhães Mollica (UFRJ)


Conferência

AVANÇOS EM SÍNTESE E RECONHECIMENTO DE FALA
Associação Brasileira de Lingüística (ABRALIN)
Quinta-feira, 17 - das 10h30 às 12h00
IEL - Auditório CL 18
Conferencista: Fábio Violaro (UNICAMP)
Apresentador: Eleonora Cavalcante Albano (UNICAMP)


Simpósio

A LÍNGUA, A IMAGINAÇÃO E O PENSAMENTO ABSTRATO: COMO ENSINAR SEM "ASSUSTAR"
Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)
Associação Brasileira de Lingüística ( ABRALIN)
Quinta-feira, 17 - das 14h00 às 16h00
Ciclo Básico I - Sala CB 2
Coordenador: Maria Cecília de Magalhães Mollica (UFRJ)
Participantes: Marisa Lajolo (UNICAMP), Marisa Leal (UFRJ)



C#NS##NT#S²: # R#T#RN# por César Gonzalez

 
Pouco depois da publicação de C#NS##NT#S, abri, para meu prazer, Language do Bloomfield, e lá, no capítulo um, encontrei um outro argumento para imaginar que consoantes estão realmente mais ligadas ao significado de uma palavra do que a sua ordem gramatical. Ao explicar Etimologia e os estudos do Indo-Europeu, Bloomfield lista a palavra mãe em várias línguas, desde o inglês (mother) até o eslávico (mati) (passando pelo antigo armênio, mair, latim, mater etc.). Ora, há em todas essas palavras pelo menos uma consoante idêntica {m}, e todas essas linguas são relacionadas, todas parentes, algumas mais distantes, outras mais próximas, todas do ramo Indo-Europeu. Podemos pensar que, talvez, essas consoantes tenham algo a dizer a respeito do significado e parentesco dessas palavras.
 
Discutindo com nosso colega de Language Bar, Emanuel, a relação das vogais com a gramática ficou mais clara. Para entender basta pesar o sistema verbal irregular do inglês: to meet - met - met, ou to read - read - read, por exemplo. A grande diferença entre o infinitivo e as formas do passado e particípio dos verbos está na qualidade da vogal dessas palavras. É esse o tipo de informação gramátical que está contida nas vogais. Talvez tenhamos várias consoantes por causa de um amplo léxico, e menos vogais por causa do menor número de regras gramaticais - não é mesmo, Manu?
 
Continuo pensando consoantes, e convidando pessoas a me desafiar com perguntas e dados! 

The World Atlas of Language Structures por Emanuel Souza de Quadros

Ontem foi o lançamento oficial da versão online do WALS (The World Atlas of Language Structures). Estão disponíveis no site todos os dados e textos analíticos do atlas publicado pela Oxford University Press, que custa míseros 1.433 reais e 70 centavos na Livraria Cultura (quer comprar?). Pois é, disponíveis online, de graça!

De acordo com o site, o atlas possui dados de mais de 2500 línguas. As pesquisas podem ser feitas por característica estrutural, por língua, por referência ou por autor. Como exemplo, podemos ver o mapa da distribuição de línguas que possuem contraste entre vogais nasais, em oposição às que não possuem. Para ver o nome da língua e as fontes de onde as informações foram retiradas, basta clicar no símbolo relevante no mapa. Cada característica estrutural é também acompanhada por um texto que traz as definições e distinções necessárias.

Fun!


Biolinguistics Vol. 1 por Emanuel Souza de Quadros

Saiu o primeiríssimo volume da nova revista eletrônica Biolinguistics. A publicação é dedicada "aos estudos teóricos que encaram seriamente as fundações biológicas da linguagem humana". Apenas uma edição da revista foi lançada nesse ano, mas a idéia é publicar quatro edições anuais a partir de 2008. Todo o conteúdo é de acesso livre, como a ciência deve ser. A única exigência é que seja feito um registro (gratuito…) no site.

Entre várias outras coisas,  o volume de 2007 traz os seguintes artigos.

Of Minds and Language Abstract PDF
Noam Chomsky 009-027
Computing Long-Distance Dependencies in Vowel Harmony Abstract PDF
Frédéric Mailhot, Charles Reiss 028-048
Categorical Acquisition: Parameter-Setting in Universal Grammar Abstract PDF
Rosalind Thornton, Graciela Tesan 049-098
Clarifying the Notion “Parameter” Abstract PDF
Juan Uriagereka


C#NS##NT#S por César Gonzalez

Acabo de receber um e-mail com uma interessante mensagem:

3M D14 D3 V3R40, 3574V4 N4 PR414, 0853RV4ND0 DU45 CR14NC45 8R1NC4ND0 N4
 
4R314. 3L45 7R484LH4V4M MU170 C0N57RU1ND0 UM C4573L0 D3 4R314, C0M 70RR35,
P4554R3L45 3 P4554G3NS 1N73RN45. QU4ND0 3575V4M QU453 4C484ND0, V310 UM4
0ND4 3 D357RU1U 7UD0, R3DU21ND0 0 C4573L0 4 UM M0N73 D3 4R314 3 35PUM4.

 

Está certo que não é difícil para um falante de português acostumado à leitura entender o que está escrito aí.  Exitem algumas pequenas regras que mudam as letras das palavras por números de formas semelhantes. Algo como E » 3; A » 4 e T » 7 (dentre outras). O e-mail não traz nada muito especial, nada muito novo. E alguém poderia argumentar que letras e números são muito parecidos para criar um real obstáculo.

Entretanto, o e-mail me lembrou de um argumento Marina Nespor em um mini-curso oferecido por ela durante o Seminário Internacional de Fonologia desse ano. A fonóloga italiana, preocupada com a aquisição de línguas, trouxe a hipótese de que as consoantes de uma língua, de um lado, seriam as responsáveis pela compreensão semântica. As vogais, por outro lado, seriam as responsáveis por indicações gramáticais. Se assim fosse, crianças em fase de aquisição da linguagem teriam mais uma dica nos dados do input para ajudar na segmentação da cadeia da fala em frases fonológicas, palavras, pés, sílabas e outras categorias prosódicas, que parecem ser importantes para a aquisição.

Um dos argumentos a favor dessa hipótese está nesta sentença:

#A#IA #OI# #A##O##O# #A#UE#A #A#A.

Nela todas as consoantes das palavras foram substituídas por símbolos e nenhuma leitura pode ser feita, nenhum significado pode ser atribuído. Entretanto, consideremos a sentença que segue:

H#V## D##S C#CH#RR#S N#Q##L# C#S#.

A sentença é simples: Havia dois cachorros naquela casa. E parece que conseguimos ler sem muitos problemas. Parece que o significado da sentença é desvelado com uma substancial ajuda das consoantes dela. Claro, alguém poderia objetar, dizendo que sabemos quais são as vogais pois elas aparecem no meu primeiro exemplo. Por isso, aqui está outra sentença para apreciarmos:

M#RC#S V#V# C#M S##S #V#S.

Não estou dizendo que consoantes são tudo o que se precisa para compreencer um palavra. Certamente, as vogais são tão importantes quanto. Além do mais, não está claro para mim a relação de vogais e gramática. Apesar disso, a hipótese é interessante e merece ser discutida. Por isso trouxe ela para o Language Bar.

P.S.: Se alguém possuir o artigo de Nespor discutindo essa questão, por favor, entre em contato.


A genética e a distribuição das línguas tonais - Dediu & Ladd (2007) por Emanuel Souza de Quadros

Dado que, de acordo com o que acreditamos, qualquer ser humano, em idade adequada, é capaz de adquirir qualquer língua do mundo, não esperamos encontrar qualquer dependência entre uma determinada característica gramatical e a ocorrência de um ou mais genes que não estejam presentes em todos os seres humanos. Acontece que, ultimamente, revistas internacionais, como a Scientific American, têm dado destaque para uma suposta relação deste tipo, descoberta por dois lingüistas da Universidade de Edimburgo, Dan Dediu e Robert Ladd.

Na verdade, apesar do exagero da imprensa, o que os lingüistas encontraram em seu estudo não é uma dependência, no sentido de que a aparição de uma característica gramatical seja determinada por uma certa configuração genética. O que encontraram é uma forte correlação entre a freqüência populacional das variantes de dois genes ligados ao tamanho do cérebro, ASPM e Microcephalin, e a distribuição das línguas tonais. Estas se encontram em menor número nas regiões em que as variantes recentes dos genes, com idades estimadas de 6 mil e 37 mil anos, respectivamente, são mais freqüentes. Onde essa freqüência é baixa, predominando as variantes mais antigas desses genes, é alto o número de línguas tonais. É o que mostra o gráfico abaixo, adaptado de Dediu & Ladd (2007):


Gráfico 1 - As freqüências populacionais das variantes novas dos genes ASPM e Microcephalin são indicadas nos eixos horizontal e vertical, respectivamente.Quadrados preenchidos representam línguas não-tonais; quadrados não-preenchidos representam línguas tonais.

Na área inferior esquerda do gráfico, observamos apenas línguas tonais, agrupadas em áreas em que há baixa freqüência de ocorrência das novas variantes de ambos os genes. Em contraste, na área superior direita, temos línguas não-tonais, em áreas em que a freqüência das novas variantes na população é alta. Qualquer conclusão tirada dessas correlações deve soar precipitada, dado o pouco que se sabe sobre a natureza dos genes em questão. Os autores sugerem a possibilidade de que haja uma influência genética na distribuição das línguas tonais e não-tonais e de que isto se dê em três etapas: (1) no nível do indivíduo, as novas variantes dos genes em questão teriam trazido pequenas mudanças nas estruturas e funções cerebrais; (2) essas alterações influenciariam sutilmente a aquisição da linguagem e/ou a maneira como processamos os tons; e (3) a transmissão cultural das línguas através das gerações se encarregaria de amplificar as tendências resultantes do item anterior, gerando as diferenças tipológicas entre as línguas.

O caminho proposto, apesar de propor uma ligação indireta entre a freqüência das variantes dos dois genes e a de uma característica gramatical, é conciliável com a idéia de que todos os seres humanos são capazes de aprender qualquer língua do mundo. Sabemos que há tanto pessoas com as variantes antigas dos dois genes em regiões dominadas por línguas não-tonais como pessoas com as variantes novas em regiões dominadas por línguas tonais; em ambos os casos, os indivíduos são capazes de adquirir sua língua materna sem dificuldades, apesar de não se enquadrarem na correlação proposta. Podemos pensar, no entanto, em alguma interferência sutil desses genes no modo como se dá a aquisição e/ou o processamento dos tons, que, claro, não é perceptível no nível do indivíduo ou da língua sincrônica. As tendências de mudança decorrentes dessas pequenas interferências só se tornariam perceptíveis após serem amplificadas por várias gerações de transmissão lingüística, a ponto de gerarem as diferenças tipológicas que encontramos no uso dos tons pelas línguas do mundo.

As indicações do estudo podem se mostrar bastante interessantes, mas, como sabemos, correlação não é causalidade. Digo isso porque a imprensa costuma exagerar quando divulga um estudo como esse, dando a entender que as línguas não-tonais estão diretamente ligadas à aparição das novas variantes desses genes. É o caso da Scientific American, revista por que tomei conhecimento do trabalho. Devo ter ficado mais empolgado com os resultados do estudo que os editores da revista, mas é preciso cautela. O padrão observado no gráfico pode muito bem ser fruto do acaso, de coincidências históricas entre as mudanças lingüísticas e a deriva genética. Pode mesmo ser coincidência que a distribuição das línguas não-tonais correlacione-se com a distribuição das novas variantes dos dois genes, assim como pode não ser. O estudo apenas levanta essa questão e sugere uma possível relação causal, ainda que indireta, entre as duas distribuições. Falta entender mais claramente a natureza e as funções desses dois genes e de suas novas variantes. Minha esperança é de que, com uma compreensão maior de como a constituição genética influencia nosso comportamento e nosso desenvolvimento cognitivo, ligações como essa possam ser mais seguramente estabelecidas em pesquisas futuras.


Conceitos Básicos - Fonologia por Emanuel Souza de Quadros

Estava dando uma olhada nas estatísticas de visitação do blog, vendo as palavras-chaves que trazem as pessoas até aqui pelo Google. Entre coisas como "sacanagem", "modelo grátis de monografia de língua portuguesa" e "linguagem hamster"(!), lá estava: "O que é fonologia?"

Não vou deixar a pergunta sem resposta. Sempre há a possibilidade de que a pessoa em questão tenha se interessado por outros textos daqui e resolva voltar. Se não por isso, ao menos pelos visitantes potenciais que, porventura, tiverem a mesma pergunta a fazer. Além disso, o post inaugura uma possível série "Conceitos Básicos" e uma respondendo a algumas das perguntas que, por vezes, trazem pessoas para o Language Bar. O que segue é uma exposição simples de alguns fenômenos relevantes e das questões que se colocam no estudo dessa disciplina.

Afinal, o que é Fonologia?

Um bom ponto de partida é dizer que a Fonologia é a parte do nosso conhecimento lingüístico que diz respeito à realização física da linguagem. É esse conhecimento que está por trás de nossa capacidade de transmitir as palavras e sentenças de um língua através de sinais sonoros e de realizar o caminho inverso, ou seja, identificar palavras e sentenças em determinados sinais acústicos recebidos. A Fonologia, contudo, não é a própria realização sonora, em seu estado bruto. Tentando tornar isso mais claro, podemos olhar para um exemplo do lingüista Edward Sapir (1884-1939), de seu celebrado artigo de 1933, "The Psychological Reality of Phonemes" (A realidade psicológica dos fonemas).

Conta o lingüista que em Sarcee, uma língua atapascana do Canadá, há duas palavras, ambas pronunciadas dìní (o acento grave(`) marca um tom baixo, e o acento agudo(´) marca tom alto). Ainda que idênticas, elas têm significados distintos: ‘este’ e ‘isto faz um som’. Seu informante, John Whitney, insistia na existência de uma diferença sonora entre as duas palavras; no entanto, nem ele, nem os ouvidos treinados de Sapir conseguiam precisar a suposta distinção fonética. Após algumas repetições, o lingüista identificava, por vezes, algumas diferenças de acento, tom e aspiração, que não eram muito consistentes. O informante sugeriu uma distinção bem diferente e inesperada: a de que dìní, no sentido de ‘isto faz um som’, terminava com um "t". No entanto, nenhum [t] era realmente audível. Após novos testes e repetições, e apesar de ter sentido a presença de um "t", John teve de admitir não poder ouvi-lo e nem sentir sua língua articular um [t]. A pergunta que imediatamente surge é: qual é a causa dessa ilusão fonética (termo de Sapir)?

À medida que aumentou seu conhecimento da estrutura do Sarcee, o lingüista pôde obter uma resposta sobre a fonte desse "t". A pista crucial é o fato de que quando determinados sufixos são adicionados, dìní ‘este’ e dìní ‘isto faz um som’ comportam-se de maneiras diferentes. Diante do sufixo relativo -i, por exemplo, um [t] emerge em ‘isto faz um som’, mas não em ‘este’, caso em que i + i contraem-se em um a longo, simbolizado por [a:].

    -i
dìní ‘isto faz um som’     dìnít’i
dìní ‘este’     dìná:

A observação relevante é de que a consoante intuída por John Whitney em dìní ‘isto faz um som’ não era fictícia. Ela faz parte da palavra, mas só é pronunciada em situações específicas, como diante do sufixo -i. Ilusões fonéticas como essa mostram que a percepção de uma palavra não depende apenas da informação acústica que recebemos. Como vimos, o informante sentia a presença da consoante latente em dìní, embora ela não fosse pronunciada, e essa presença garantia o contraste entre as duas palavras. O conhecimento necessário para perceber o "t", que Sapir não possuía, era de um caráter muito específico: ser falante de Sarcee e, portanto, saber que, nessa língua, algumas consoantes não são pronunciadas no final de uma palavra, se não forem seguidas por uma vogal, como a do sufixo -i. Sapir, então, postula uma representação fonológica, num nível mais abstrato que a representação física da palavra, em que a consoante "t" está presente.

Comentando esse exemplo de Sapir, Kenstowicz (1994) coloca algumas questões a serem explicadas por uma teoria fonológica:

  • Por que falantes de Sarcee, quando treinados para representar sua língua ortograficamente, são levados por sua intuição a representar dìní ‘isto faz um som’ como dìnít?
  • Como uma criança que cresce numa comunidade lingüística Sarcee descobre essa "consoante latente", embora ela esteja sempre ausente na pronúncia dessa palavra?

Kenstowicz coloca como uma primeira aproximação à segunda pergunta o fato de que a consoante aparece, de fato, em palavras relacionadas, como dinit’-i. Mas isso ainda o leva a outras questões, que devem ser respondidas:

  • O que, precisamente, queremos dizer quando falamos em "palavra relacionada"?
  • Como é possível que a pronúncia de uma palavra influencie o modo como outra é pronunciada?
  • Por que a influência não acontece na direção oposta; isto é, por que não é a ausência de consoante final na forma isolada da palavra que influencia apagamento do t na forma sufixada?

"Dar respostas científicas sérias a esse tipo de questão é uma parte essencial do programa de pesquisa da fonologia gerativa" (p. 5)

Note-se que o autor se refere, especificamente, à fonologia gerativa. No entanto, qualquer teoria fonológica que se proponha dar conta do conhecimento que os falantes têm da fonologia de sua língua deve oferecer respostas a essas questões.

Não são apenas casos de "segmentos fantasmas" que revelam disparidades entre o que há no sinal sonoro e o que percebemos através de nosso conhecimento fonológico. O português oferece um exemplo interessante de como sons podem se comportar de maneiras diferentes, de acordo com o ambiente estrutural em que ocorrem. Se contrastarmos duas palavras como casa e caça, ignorando suas formas ortográficas, vemos que o que as distingue é a segunda consoante, pronunciada como [z] em casa e como [s] em caça. Dizemos, então, que há um contraste entre esses dois sons no português. Entretanto, contrastes nem sempre têm a mesma força em todos os ambientes possíveis: ao passo que essas duas consoantes são potencialmente contrastivas no meio e no início de palavras (e.g. [z] em zinco contrasta com [s] em cinco), no fim de vocábulos isolados, essa distinção não ocorre em português. Nesse ambiente, só ocorre a pronúncia de [s], como podemos observar mesmo em palavras que são grafadas com z, e.g. paz, rapaz, faz, todas pronunciadas com [s].

A falta de contraste nesse ambiente fica ainda mais evidente, quando vemos que essas palavras são pronunciadas com [z], sob certas condições, como diante de uma vogal, e.g rapa[z]es, fa[z]em, rapa[z] armado. Ou seja, em ca[z]a e ca[s]a, vimos que uma consoante não poderia ser trocada pela outra, na pronúncia, sem que houvesse distinção de significado; em exemplos como rapa[s] e rapa[z] armado, vimos que os mesmo sons que distinguiam significados no exemplo anterior, agora não o fazem: eles aparecem em contextos diferentes, sem que deixemos de falar da mesma palavra. Por que, exatamente, isso ocorre? Cabe a uma teoria fonológica oferecer explicações. Entre outras questões, algumas que se colocam são:

  • Por que alguns segmentos são contrastivos e outros não?
  • Por que certos contrastes deixam de ocorrer em determinados ambientes?
  • Qual a melhor maneira de se caracterizar um ambiente fonológico?
  • Como uma criança que cresce numa comunidade de falantes de português consegue aprender essas generalizações, sem instrução explícita?

Além disso, uma teoria fonológica também deve dar conta da observação de que, em qualquer língua do mundo, certas combinações de sons são possíves, enquanto outras não o são. Isso me lembra de uma de minhas primeiras aulas de Fonologia na faculdade, em que o professor propôs uma brincadeira, justamente para falar sobre essa observação - só que nós, alunos, ainda não sabíamos dessa intenção. Ele pediu que escrevêssemos uma palavra fictícia em um papel, inventando-a na hora. O professor escreveu algumas das invenções no quadro, classificando-as entre as que seriam possíveis e as que eram impossíveis no português. O objetivo era explicar o fato de que algumas delas não poderiam existir, porque continham seqüências de segmentos que não eram permitidas, enquanto outras, apesar de inexistentes (ao menos até aquele momento), eram palavras possíveis, porque respeitavam as restrições sobre combinações de sons, que são naturalmente impostas à linguagem humana e, mais especificamente, nesse caso, à língua portuguesa.

Não lembro o que meus colegas inventaram na brincadeira, mas imagine, à guisa de exemplo, que uma das criações tenha sido rtapmo - já que estávamos apenas escrevendo, a criatura hipótetica que inventou essa palavra não precisou se preocupar em pronunciá-la. Evidentemente, a invenção seria classificada como uma das que, além de inexistentes, são impossíveis. Acontece que a combinação de consoantes r + t não é permitida em início de palavras, apesar de poder ocorrer internamente, em vocábulos como parto e certo. Outra combinação proibida, existente nessa pseudo-palavra, é p + m, que também não seria permitida em posíção inicial - e em nenhuma outra. Note que a questão não é apenas "que som pode se unir a que som". Há, ao menos, dois tipos de assimetria a serem explicados aí. Primeiramente, há uma diferença entre as posições que as combinações de consoantes podem ocupar na palavra: como vimos, enquanto rt não é possível em posição inicial (nem em posição final), a mesma seqüência é permitida no meio de uma palavra (e.g. carta). Em segundo lugar, a relação de precedência entre os segmentos não é simétrica: se alterarmos essa relação entre r e t, obtendo tr, o resultado é uma combinação permitida no início de palavras, e.g. trabalho, trator, e em posição interna, e.g. catraca, patrão. Invertendo p + m, obtemos a seqüência mp, que, ao contrário de seu inverso, pode figurar no meio de uma palavra, como acontece em campo.

A palavra que eu "inventei" na brincadeira foi classificada como uma das que eram possíveis, pois ela respeita as condições impostas pelo português à combinação de segmentos. Era esquisunfo! De certa forma, a previsão do professor de que se tratava de uma palavra possível foi corroborada, porque o Esquisunfo já existia. Era o nome que alguns amigos e eu, quando crianças, dávamos a um monstro imaginário que habitava nosso condomínio. É que um de nosso vizinhos era um saxofonista. Pelo jeito, ele não era muito bom, porque os menores do grupo, dentre os quais eu me incluía, tinham medo do bicho que anunciava sua chegada com aquele barulho. Aliás, se algum leitor estiver pensando num nome para dar a uma criança, fica aí a sugestão!

Qual a natureza das restrições sobre que segmentos podem se combinar em uma determinada língua e de que maneira? O que define uma palavra como possível ou impossível em uma língua, do ponto de vista fonológico? Como uma criança toma conhecimento dessas restrições? Essas questões, ao lado das outras que foram apontadas ao longo do texto, são algumas das perguntas que se colocam diante de um fonólogo.



Referências e recomendações de leitura:

Bisol, Leda (2005). Introdução a estudos de fonologia do português brasileiro. 4ª edição. Porto Alegre: EDIPUCRS.
Kenstowicz, Michael (1994). Phonology in Generative Grammar. Oxford: Blackwell.
Odden, David (2005). Introducing Phonology. Cambridge: Cambridge University Press.
Sapir, Edward (1981). A realidade psicológica dos fonemas. In DASCAL, M. (org). Fundamentos Metodológicos da Lingüística - Vol. II - Fonologia e Sintaxe. Campinas: IEL- Unicamp, p. 37-55.


O caso das vogais estrangeiras por César Gonzalez

Para uma avaliação em uma das disciplinas da faculdade tive de ler um texto do sociólogo francês François Dubet. O interessante não foi o texto, mas sim o modo como um colega se referiu ao autor: D[o]bet.

Isso não é o que se esperaria de um falante de português brasileiro. Como já foi discutido aqui, o som dessa vogal (a menos que o nome do sociólogo seja idiosincrático) deveria ser pronunciado com uma vogal alta anterior arredondada. Com isso não estou dizendo que meu colega deveria utilizar-se de [y], mas que as vogais esperadas seriam [u] ou [i]. Esperaríamos D[u]bet ou D[i]bet.

Como bem sabemos, não possuímos [y] no inventário de fonemas do português, portanto um falante nativo de português encontra dificuldade com tal vogal. Entretanto, reconhecemos nessa vogal parte de suas propriedades fonéticas articulatórias e, ao compararmos com o inventário de fonemas vocálicos do português, encontramos as vogais alta anterior não-arredondada, [i] e a alta posterior arredondada, [u] como vogais mais próximas do ponto de vista articulatório a [y]. Assim, temos uma tendência a escolher uma das duas para substítuir a vogal estrangeira na fala corrente em português.

Tanto é assim que encontrei uma loja de móveis usados que vendia móveis para "birô"* (do fr. bureau, [by’Ro], escritório). Os "móveis para birô" podem ser utilizados como argumento para nossa discussão uma vez que eles mostram que o falante de português, ao se deparar com a necessidade de escrever essa palavra, escolheu a contraparte não-arredondada de [y], o que pode nos permitir pensar que essa seja a forma como o falante fala a palavra.

Outro argumento é tirado de um livro que estou lendo - "A course in phonology" de Iggy Rocca e Wyn Johnson. Ao explicar a vogal [y], dão o exemplo de falantes de inglês que ao tentar pronunciar essa vogal em palavras do francês ou alemão fazem um ditongo [ju], típico de palavras do inglês como cue ([kju], taco de sinuca). Esse falantes percebem que [y] se trata de uma vogal alta anterior e arredondada, só que têm dificuldades em pronunciar vogais anteriores e arredondadas, pois o inventário fonológico da sua língua não conhece tais vogais.

Voltemos ao caso de D[o]bet. Se olharmos para como a palavra foi pronunciada, [do’be], veremos que ela possui duas vogais médias altas, típicas do português. Já argumentamos que o esperado na primeira sílaba era uma vogal alta, podendo ela ser tanto posterior quanto anterior. O fato de termos uma vogal médial alta posterior, [o], no lugar de [y] nos diz que a vogal é posterior para o falante. Assim, poderíamos pensar que a vogal na subjacência é /u/ e que alguma força faz ela se tornar [o].

Já apontamos que ambas as vogais são médias altas. Analisemos isso. Em termos de traços, as vogais são ambas [-alta; -baixa]. A vogal /u/, por sua vez, é caracterizada por [+alta; -baixa]. Isso pode nos fazer pensar que a vogal /e/ espraiou seu traço [-alto] para a vogal /u/ e essa se tornou um [o]. Estamos, assim, imaginando que esse é um caso de harmonia vocálica.

Infelizmente, nossa análise tem um problema: não consigo pensar em outros exemplos para esse fenômeno em português. Consigo dizer que um fenômeno parecido ocorre com palavras como menino, que é pronunciado por alguns falantes com todas as vogais altas, por exemplo [mininu].

* Pesquisei em dois dicionários e não encontrei essa palavra, o que não impede ela de ser dicionarizada por um dicionário maior ou mais completo que os meus. Se procurarmos por "birô" no Google, vamos encontrar em torno de 104 000 resultados. Não é muito, mas já é expressivo na minha opinião.


Sobre o texto de Sá (2006) por Paulo H

Gostaria de fazer algumas observações a respeito do texto de Edmilson José de Sá, publicado recentemente na ReVEL. De certa forma, sinto-me na obrigação de fazê-lo, uma vez que estou envolvido em uma pesquisa relacionada com o tema do artigo dele: a realização variável da lateral pós-vocálica.

Serei conciso. Assim, sugiro que leiam o artigo antes da crítica.

Em primeiro lugar, há problemas com a escrita. Vírgulas mal colocadas dificultam a leitura. Depois, há frases confusas, como o parágrafo abaixo: 

Em relação ao Português, as pesquisas mostram que a forma vocalizada [w] parece constituir a tendência geral no dialeto brasileiro. Assim, tal predominância evidencia o caminho da evolução do /l/ apontado como resultado mais inovador (p. 7). Fiquei confuso; talvez faltem informações aí, especialmente na última frase.

Bem, também há pelo menos um engano com a data do trabalho de Quednau (nas Referências Bibliográficas há apenas Quednau 1993, mas no texto aparece um Quednau 1999, o que pode gerar confusão, posto que poderia existir de fato tal referência). Mas o que há de mais grave é a citação de Hernandorena (2002), como se o texto da autora (Introdução à teoria fonológica) fizesse parte do livro organizado pela Leda Bisol e pela Cláudia Brescancini, Fonologia e Variação: recortes do português brasileiro. A verdade é que esse texto da professora Carmen Matzenauer, que já foi Hernandorena, está no livro Introdução a estudos de fonologia do protuguês brasileiro, organizado pela Leda Bisol.

Até aí tudo bem. Mas tem outras coisas. Como o parágrafo abaixo:

Em busca de caracterizar o segmento lateral, Bisol (1999) afirma que este se articula neste ponto quando for produzido através do contato da língua com os dentes ou palato. Em conseqüência disso, como a oclusão proveniente desse contato alveolar é parcial, o ar pode sair pelos dois lados da zona de articulação (p. 2). Há dois problemas aí. Primeiro: quem afirma não é Bisol, mas sim Quednau, Monaretto e Hora, que escreveram o texto de onde foi extraída a informação utilizada por Sá (mais precisamente, à página 227 do livro organizado por Bisol, que tem uma edição de 1999). Segundo: faltou dizer que os autores do texto citado se baseiam na definição de Malmberg (1954) com respeito à lateral. 

Um pouco mais abaixo no artigo de Sá, lemos que Quednau (1993) detectou as variantes velarizada e vocalizada, pesquisando diatopicamente as comunidades de Porto Alegre, Monte Bérico, Taquara e Santana do Livramento, tendo as três últimas contato entre o PB com o espanhol (p. 2). Bueno, aqui o engano é de geografia: apenas Livramento tem contato com o espanhol, por ser uma cidade da fronteira (veja o mapa).

Para finalizar, observemos este parágrafo:

Não foi nossa pretensão dar conta de todos os aspectos envolvidos na variação do segmento em Português e Espanhol para não tornar o estudo exaustivo, porém esperamos, com este trabalho, ter dado uma contribuição particular, a se somar a pesquisas de outros estudiosos para a compreensão dos contrastes por que perpassam essas línguas aparentadas em relação à lateral posvocálica (p. 7). Daqui quero extrair apenas uma afirmação: não foi nossa pretensão dar conta de todos os fenômenos, o que é bacana, pois realmente não é fácil fazê-lo, para não tornar nosso estudo exaustivo. Da minha humilde condição, pergunto: qual é o problema de procurar tornar um estudo exaustivo? Lembram do Hjelmslev? Essa exaustividade é a mesma que a dele?

São essas algumas observações que achei interessante fazer sobre o texto de Edmilson José de Sá, que, acima de tudo, deve ser cumprimentado pela pesquisa e pelo trabalho. Enviei um e-mail a ele com o link do blog, espero que possamos discutir sobre isso. Se alguém tiver outra contribuição (mesmo que for com relação a outro artigo), por favor, sinta-se à vontade para nos comunicar; postaremos sem problemas.


ReVEL - Fonética e Fonologia! por Emanuel Souza de Quadros

Para quem ainda não conhece, a Revista Virtual de Estudos da Linguagem (ReVEL) é uma publicação eletrônica, semestral. Desde 2003, a revista vem, a cada edição, divulgando trabalhos em temas específicos dos estudos lingüísticos, como Aquisição da Linguagem, Lingüística Computacional, Estudos do Texto e do Discurso, entre outros. A edição deste semestre, que acabou de ser lançada, é sobre Fonética e Fonologia e traz, além de 22 artigos e 3 resenhas de livros da área, entrevistas com a prof. Dra. Leda Bisol e com o prof. Dr. Luiz Carlos Cagliari. Vale a pena dar uma olhada - até porque é de graça (não dói nada!)

Ah, e quem quiser ter seu artigo publicado na próxima edição, que terá como temas Semântica, Pragmática e Filosofia da Linguagem, tem até o dia 5 de dezembro deste ano para enviá-lo.


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