Language Bar

18/01/2008

Arbitrariedades and all that por Emanuel Souza de Quadros

Do baú de notícias velhas, um texto publicado na Slate sobre o best-seller do jornalista Harry Mount sobre a língua latina. No texto, Emily Wilson chama atenção para o título da edição norte-americana da obra: Carpe Diem: Put a little Latin in your life. No original britânico, o título é Amos, Amas, Amat … and All That. De acordo com ela, a mudança reflete algo sobre a posição do latim nas culturas norte-americana e britânica. Nesta, esperar-se-ia que pessoas razoavelmente educadas reconhecessem o paradigma latino, ao passo que, naquela, não se esperaria que muitos o fizessem.

Aqui a mudança teria que ser mais drástica. Numa eventual tradução do livro para o mercado brasileiro, a expressão Carpe Diem seria barrada pelo censor oficial da Língua Portuguesa. Tudo para nos defender da invasão imperialista da cultura romana. Também para lembrar seus eleitores de que eles não têm a menor competência para entender alguma dessas expressões estrangeiras que tanto "dificultam a comunicação do povo brasileiro" (Gazetaweb.com - Gazeta de Alagoas, 23/12/2007).



Compare preços de Carpe Diem: Put a little Latin in your life.

16/09/2007

Antes tarde do que mais tarde por Emanuel Souza de Quadros

Para quem ainda não viu, saiu em agosto o número 9 da Revista Virtual de Estudos da Linguagem - ReVEL, sobre Sociolingüística. Essa edição inclui, entre outras coisas, uma entrevista com William Labov e um artigo de minha co-autoria sobre a influência do domínio da escrita na realização de fenômenos fonológicos variáveis. A proxima edição terá como tema Sintaxe Formal (GB, P&P, Minimalismo, HPSG, TAGs, LFG, OT…). A data limite para submissão de trabalhos é 5 de dezembro de 2007.

01/08/2007

Learning Brazilian Portuguese por César Gonzalez

E ainda dizem que o Português não é ensinado como língua estrangeira.

Navegando pela internet em busca de epenthetic vowels no Google acabei num blog que faz parte de um projeto de uma Universidade Americana. O blog falava da Lição 22: Epenthetic Vowels (wow, fancy word!). Associado ao blog, encontrei o site do projeto Tá Falado.

Ouvi uma das lições (Grammar Lesson 12:  Personalized Infinitive, Paying for Your Education) e ela me surpreendeu. É bem interessante, quase que um diálogo entre três pessoas discutindo o infinitivo flexionado. Eles fazem comparações constantes com o inglês e o espanhol (o curso se destina especialmente aos falantes de espanhol). Eles se valem de um diálogo em português, que é destrinchado aos ouvidos do estudante.

Fica aqui a sugestão: visite o site. Sugira ele ao seu amigo estrangeiro querendo aprender o português. Se trabalhas com português para estrangeiros, entre em contato com os organizadores do site. Se não se encaixa em nenhuma das possibilidades anteriores, tente entender sua língua materna como um estrangeiro a vê… pode ser uma experiência interessante.

05/07/2007

Aprendendo Italiano com os Simpsons por César Gonzalez

Buscando language acquisition no Google Video podemos encontrar coisas muito interessantes. Inclusive, decobrir como o Milhouse aprendeu italiano. Parece que no caso dele foi o input da avó que garantiu uma segunda língua.

 

31/01/2007

Discussões sobre Lingüística por Paulo H

Vou escrever sobre algo que me incomoda de fato e tem me incomodado mais nesses últimos tempos. É sobre o que acontece quando pessoas estão discutindo Lingüística. O que sempre acontece. Acaba-se caindo num papo sobre Educação - devemos ou não ensinar norma culta? - e na velha "disputa" entre Lingüística e Gramática Tradicional (ou Normativa, pros mais nervosinhos).

Sinceramente, pessoas e pessoos, nós não temos mais o que fazer ou esse é o grande problema a ser discutido. Concordo que pra quem não tem a mínima noção de Lingüística esse assunto é o mais atraente, talvez seja essa a melhor forma de apresentar aquilo que fazemos ou queremos fazer, mas que é um saco quando algum colega teu puxa esse assunto, ah isso é. ("Mas e aí, meu velho", diz Fulano, "devo ou não devo levar o Celso Cunha pra sala de aula?"). Olha aqui, tchê, faz o que te der na telha, mas não me pergunta mais sobre isso.

Me abstenho em 99% das discussões do Orkut por esse motivo. Todas as comunidades sobre Lingüística poderiam muito bem se reduzir a uma com talvez apenas um tópico: O mesmo velho papo. Isso me faz perguntar, em conclusão: Esse é de fato o grande problema e por isso sempre caímos nele, como uma paixão mal resolvida?

18/01/2007

Qual é mesmo o nome daquilo… hat… Hut… sombrero, sabe? por Emanuel Souza de Quadros

Um grupo de psicólogos do Memory Control Lab da Universidade de Oregon vêm estudando os mecanismos que levam ao esquecimento há um bom tempo. Saiu agora, na revista Psychological Science desse mês, um estudo do grupo sobre um fenômeno bastante conhecido de quem já tentou aprender uma língua estrangeira: o esquecimento temporário de palavras da língua materna que se referem a conceitos que o falante consegue nomear, sem muita dificuldade, na segunda língua.

O estudo sugere que isso não ocorre simplesmente porque as palavras esquecidas são pouco usadas. Na verdade, o esquecimento refletiria uma inibição das formas fonológicas das palavras da língua materna, que, de outra forma, poderiam funcionar como distração ou interferência enquanto falamos a nova língua. Seria então uma estratégia de aprendizagem, em que o esquecimento age como uma resposta adaptativa à necessidade de eliminar interferências.

Na pesquisa realizada, quanto maior era o grau de fluência dos estudantes na língua estrangeira, menos suscetíveis eles estavam a esses efeitos de inibição da língua materna. Isso sugere que em estágios avançados do aprendizado de uma segunda língua, essa estratégia de esquecimento torna-se menos necessária. Aprendizes pouco fluentes apresentaram maiores graus de inibição de palavras da língua materna, refletindo uma necessidade de se ignorarem palavras desta, na medida em que o falante se esforça para expressar os mesmos conceitos usando palavras da língua estrangeira.

O artigo, assim como outros trabalhos do grupo, está disponível no site do Memory Control Lab.

14/01/2007

Chomsky, Ziraldo e a aquisição da linguagem por Emanuel Souza de Quadros

Fiquei surpreso em ver Chomsky sendo mencionado no Segundo Caderno da Zero Hora desse sábado; sobretudo por não ser nada sobre a escalada militar norte-americana na Colômbia, terrorismo de estado, estratégias imperialistas de controle global ou afins.

O bom velhinho surgiu na coluna do poeta Ricardo Silvestrin, que faz uma aproximação do que pensa Ziraldo sobre a educação com o que defende Chomsky em relação à linguagem humana. A idéia de Ziraldo, expressa em sua frase: "é mais importante ler do que estudar", é de que o ensino de língua portuguesa deveria centrar-se na leitura, ao invés de se preocupar com o ensino explícito de gramática. A leitura de bons textos traria consigo "o domínio de linguagem, de padrão de escrita".

O contato com a lingüística gerativa estaria na observação de que as crianças já entram na escola conhecendo sua língua materna, com total competência sobre as regras gramaticais subjacentes a seu funcionamento. Essa noção é básica para a teoria chomskiana e leva o colunista a concluir que "desse modo, a escola não precisa ficar nos ensinando o que já sabemos [- regras gramaticais]. E o pior: de um jeito que parece que não sabemos. O que precisa é nos ensinar a passar do falado para o escrito. E para isso, precisa nos fazer ler e escrever".

A boa lição que se deve tirar da coluna para o ensino de português é o respeito ao conhecimento que os alunos já trazem sobre a língua materna. A que não me parece ser muito boa é a idéia de que o ensino gramatical explícito é desnecessário. Ao menos porque, ao contrário do que o colunista parece sugerir, a língua a ser aprendida na escola não é exatamente a mesma que os alunos trazem de casa. Um dos objetivos do ensino de língua portuguesa é possibilitar aos estudantes o domínio da variedade padrão do idioma, de um padrão formal escrito, que não é o utilizado pelos alunos em sua comunicação diária. Se essa norma é mesmo importante para a sociedade é uma outra discussão.

O destaque do texto é o parágrafo, transcrito abaixo, em que o colunista passa a falar sobre o desenvolvimento de nossa competência sobre a língua materna.

É o seguinte: segundo o lingüísta [sic], a gente nasce com as condições para aprender línguas. É a nossa competência que vai se desenvolvendo com o nosso desempenho. Assim, nascemos num ambiente que fala uma língua, que para nós é "estrangeira", e vamos interagindo com ela. O processo que se dá na nossa cabeça nesse aprendizado não é meramente de ouvir e repetir. O que acontece é que vamos entendendo a estrutura da língua. É um aprendizado inteligente. Por exemplo, quando uma criança fala "fazi", ninguém disse isso. Mas por que ela falou? Porque entendeu que a estrutura de construção do pretérito perfeito do indicativo dos verbos de segunda conjugação se faz com raiz + i. Vender - vendi, comer - comi, perder - perdi, fazer - fazi. Mas alguém dirá à criança "não é fazi; é fiz!" [grifo meu]. Ela então incorporará uma nova informação ao que havia concluído: "Existem uns verbos meio malucos que são diferentes". São os verbos irregulares.

É bom porque apresenta de maneira simples e compreensível alguns insights importantes dos estudos sobre aquisição da linguagem que se deram na segunda metade do século XX: as observações de que nascemos com as condições necessárias para adquirir uma língua e de que a aquisição de uma língua não é uma questão de mera repetição do que se ouve no ambiente - a criatividade é inerente ao processo, como mostram formas como "fazi", presentes na fala infantil. A parte sublinhada no parágrafo acima é o ponto em que o colunista chega ao equívoco bastante comum de imaginar que há um papel fundamental para algum tipo de instrução explícita na aquisição da primeira língua pela criança.

Traz o item 2 do meu velho post sobre pobreza de estímulo:

O ambiente lingüístico no qual a criança cresce fornece apenas evidências positivas. As crianças só ouvem sentenças válidas da língua e não se deparam com nada que as mostre explicitamente que tipos de generalizações não podem ser feitas com base nos dados oferecidos.

Isso quer dizer que não há, dentro do conjunto de dados lingüísticos ao qual a criança tem acesso durante o processo de aquisição de sua língua materna, evidências negativas que mostrem explicitamente que determinada sentença não pertence à língua em questão. Mesmo quando se tenta corrigir uma generalização como a de "fazi", a criança simplesmente ignora a intervenção do adulto e persiste usando a flexão regular que acabou de descobrir. A correção virá, naturalmente, na medida em que a criança aproximar-se da gramática do adulto, com todas as suas formas irregulares. O papel dos papais e mamães na aquisição da primeira língua é menor do que se imaginava.

11/07/2006

E como se escreve? por César Gonzalez

A algum tempo atrás, aqui no Language Bar, reclamei de uma professora de francês que insistia em dizer que determinadas vogais frontais arredondadas eram pronunciadas [u]. Pois bem, ela atacou de novo.

A última aula foi uma aula em que tivemos contato com uma boa quantidade de vocábulos novos, e sempre que se perguntava como se escrevia a resposta era: como se fala. Dá pra imaginar?

Vamos pegar um exemplo do português. Tente escrever como se fala ascenção, eis aqui algumas possibilidades (você consegue pensar em outras, com toda a certeza):

assenssão
acenção
ascenssão
acenssão
ascenção

Bom, já vimos que não há isomorfismo entre língua escrita e língua falada. Pelo menos não em português. Será que há em inglês? Qualquer um que saiba inglês pode confirmar que caught, creation ou island não se falam do modo como são escritos. Não pronunciamos nenhum [g] no primeiro nem um [s] no último, por exemplo. E o que falar do "T" de creation? Logo, não me parece que no inglês escrita reflita a fala de modo inequívoco.

Aqui volto a criticar as aulas de língua estrangeira dos professores que ignoram conceitos básicos de lingüística. Como o aluno vai aprender a escrita de uma língua se o professor não o alerta para as diferenças existentes entre a fala e a escrita? Ainda mais um aluno de língua estrangeira. Um falante de português que é dito que quarto em húngaro é escrito como se fala talvez escreva soba, quando deveria escrever szoba. E um aluno de francês, que pergunta sobre ineffaçable (’que não pode ser feito’) pode escrever de diversas maneiras: inefaçable, inefassable etc.

Me pergunto o que faria o aluno cujo professor de japonês ou árabe (ou qualquer outra língua cujo sistema de escrita seja diferente dos sistema herdado do latim) respondesse que determinada palavra se escreve como se fala.

10/06/2006

Tópicos de Francês por César Gonzalez

Mesmo não tendo que justificar meus posts, esse parágrafo de introdução pode se fazer necessário para alguns. Acredito que a lingüística é uma ciência de várias faces. A lingüística aplicada ao ensino de línguas estrangeiras é uma das faces mais interessantes, principalmente para aqueles que, como eu, aluno de licenciatura em letras podem vir um dia a dar aulas de língua estrangeira.

Durante uma de minhas aulas de francês ouvi de minha professora que as letras -eu-, comuns na ortografia francesa, correspondiam ao som do -u- português. Não. Se me permite, professora, a resposta é não. Abrindo o dicionário Le Robert Micro temos uma rápida explicação sobre o sistema fonético do francês. As letras -eu-, em geral, correspondem ao som [ø] ou [œ]. Sei muito bem que não há isomorfismo entre letra e som em se trantando de línguas naturais, mas dizer que -eu- (cf. palavras como leur [lœR] "deles", neutre [nøtR] "neutro" etc.) corresponde ao -u- do português é falar bobagens. Há mais uma crítica a tal atitude: a afirmação pode confundir o aluno quando ele se encontra diante da letra -u- entre consoantes numa palavra da língua francesa, onde, geralmente, corresponde ao som [y] (cf. fumer [fyme] "fumar"). Outra observação a se fazer é que não temos estes sons no português brasileiro - o que os tornam mais difíceis para nós.

Aceito que certas simplificações metodológicas são necessárias no ensino de uma língua estrangeira, mas isso já é demais. É importantíssimo que o aluno seja exposto aos sons da língua sempre que possível uma vez que estes não são os sons de sua língua nativa. A Gramática de Port-Royal, obra sobre a língua francesa do séc. XVII, já apontava para a importância de se aprender as vogais de uma língua antes de mais nada. É impressionante que, séculos depois, ainda não se tenha prestado atenção nas páginas iniciais desta obra. Esse tipo de atitude deixa claro o quão importante é para o professor de língua estrangeira noções de fonética articulatória. Não é justificável que tal explicação seja dada aos alunos uma vez que ela esconde a realidade da língua, o que vai levar a um aprendizado deficitário - algo que não pode ser tolerado.

P.S.: Todas as transcrições tiradas de Le Robert Micro, no alfabeto da IPA.

eXTReMe Tracker

Get free blog up and running in minutes with Blogsome
Theme designed by Jay of onefinejay.com