Language Bar

22/06/2008

Chomsky, Análise do Discurso e um pouco de liberdade por Emanuel Souza de Quadros

Em um belo dia, alguém resolveu escrever em seu blog um texto sobre a relação entre a Análise do Discurso (AD) francesa e o trabalho de Chomsky na Lingüística; com um pouco de humor, dizem. Acontece que um outro vivente resolveu copiar esse texto na íntegra e reproduzi-lo em uma bem conhecida lista de discussão, a Comunidade Virtual da Linguagem (CVL), da qual fazem parte milhares de pessoas das mais variadas áreas dos estudos da linguagem. O resultado não poderia ter sido outro: fuzuê, rebuliço, pega-pra-capar… Mas acredito que a intenção de quem reproduziu o texto tenha mesmo sido essa (they always feed the trolls).

Em linhas gerais, o autor do texto original, Pablo Faria, coloca duas idéias como paralelas. A primeira é a de que nossos enunciados são historicamente determinados, isto é, de que só dizemos o que é autorizado pelas ideologias que nos constituem. A segunda é a idéia (de Pablo, não de Chomsky) de que nossos enunciados são gramaticalmente determinados, isto é, de que só podemos dizer coisas que se conformem às regras ditadas por nosso sistema lingüístico. Tais idéias seriam colocadas como paralelas, porque ambas descrevem meios de determinar os limites do que pode ser dito por um sujeito, sem que ele perca a ilusão de autonomia e de total controle sobre seus enunciados.

Até aí tudo bem. As pessoas leriam, discordariam (eu mesmo discordaria da caracterização do lado chomskyano da história), mas deixariam para lá. O problema é que, no fim do post, o autor diz que Chomsky havia formalizado anos antes a idéia que a AD viria a afirmar. Assim, o bom velhinho seria o pai da Análise do Discurso. Tudo isso, é claro, com uma intenção satírica, como afirma o próprio autor em um texto mais recente.

Mas, como intenções são, em grande medida, invisíveis, o povo caiu em cima, trazendo o que pôde. Muitos deles conseguiram ser ainda mais fora da casinha do que o texto original, que ao menos tinha uma certa intenção satírica. Um dos comentaristas chegou até a qualificar o texto como inconseqüente, porque, afinal, o blogueiro que o escreveu é um mestrando da Unicamp e, como tal, não deveria expor sua orientadora e sua instituição. Para mim, esse foi o pior comentário, porque mostra um lado perverso da vida de quem escreve sobre um assunto, cof, cof, "acadêmico" em um ambiente informal (e pessoal), como um blog. É que mesmo nesse tipo de situação, em que a sensação de liberdade de reflexão é bem maior, a posição acadêmica de quem fala ainda exerce uma pressão constrangedora.

Liberdade de expressão deve fazer parte dos contextos formais da academia também, é claro. Um lingüista deve ser livre para publicar um artigo explorando relações entre coisas tão diversas como Gerativismo e Análise do Discurso. É óbvio que alguém teria que ser ninja para escrever um texto defendendo que Chomsky é o pai da Análise do Discurso e ainda conseguir publicá-lo em alguma revista dedicada à historiografia da Lingüística.

Em um blog, contudo, as limitações devem ser ainda menores. E não é que não haja avaliação por pares neste contexto. Há sim, e ela é bem mais rápida e talvez mais interessante do que a tradicional. A diferença é que ela só entra em ação após o texto já ter sido publicado. Portanto, a aparição de um texto como esse não deveria causar tanta comoção, ao menos não desse tipo; trata-se, antes, de uma oportunidade de avaliação, e isso significa olhar para os argumentos do rapaz, compreendê-los e discuti-los abertamente.

O fato de alguma controvérsia ter surgido apenas mostra que as questões trazidas pelo texto não estão superadas, ao menos para quem escreveu sobre elas - e garanto que não apenas para ele. Não há nada mais justo do que olhar para elas e superá-las, então. Pior do que isso é fugir de questões desse tipo para evitar constrangimentos. Eu diria que essa é uma boa maneira de perpetuar idéias equivocadas e fazer com que elas entrem mesmo na academia pela porta dos fundos; afinal, um mestrando que poderia ter falado sobre um assunto que para ele era problemático, mas teve medo de fazê-lo, pode se tornar um professor no fim do dia. Blogs são excelentes oportunidades de tocar nesses assuntos de maneira aberta e de entrar em contato com o que outras pessoas têm a dizer sobre eles.

Outra particularidade do tipo de avaliação existente na blogosfera é que sua eficiência e sua qualidade são proporcionais ao número de indivíduos envolvidos com blogs da área, sejam eles blogueiros ou leitores. Por isso, uma parte boa dessa história toda é que acabo de saber da existência do Languetrix, blog onde o tal texto foi publicado. Aumenta, assim, o tamanho da blogosfera lingüística brasileira conhecida por mim e pelos leitores do Language Bar.

29/04/2008

Sobre Blogs, Linguagem e Futebol por César Gonzalez

Por que as pessoas mantêm blogs? Ainda mais intrigante, por que um blog sobre linguagem e lingüística e assuntos afins? Por que não discutir futebol, já que estamos no país do futebol…

Acho que as respostas que podemos obter, o diálogo que queremos criar, pode ser umas das razões. Ciência não deveria ser uma coisa obscura, circusncrita aos círculos acadêmicos, onde poucos iniciados ganham acesso ao conhecimento. Pessoas deveriam poder entender que coisas que se pesquisam em universidades têm também valor no "mundo real", e acho que nosso blog, de quase dois anos, faz parte disso. Faz parte do mostrar ao mundo uma das faces da discussão a respeito da linguagem.

Acho que Pinker concorda comigo, se não fosse assim, ele talvez nunca tivesse escrito um livro como O Instinto da Linguagem, em que coloca ao alcance de qualquer leitor várias teorias para a linguagem.

Outras razões já são bem mais egocêntricas, mas igualmente válidas. Mark Perry pergunta: Can Blogging Make You Smarter, Happier, and More Productive? (agradeço muito ao Mr. Baldusco pela referência) E eu concordo com ele, Blogging pode, sim, provocar mais debate e, como conseqüência, mais conhecimento, e alegria, e produção…

Por que linguagem e não futebol? Bom… futebol que me perdoe, mas eu prefiro a linguagem (e o que seria do futebol sem ela, sem podermos xingar a mãe do juiz, reclamar do presidente do clube, chamar o técnico de burro etc.).

06/02/2008

Como ser um cientista maduro por Emanuel Souza de Quadros

Vale a pena dar uma olhada nesse post do blog de Janet D. Stemwedel. Trata-se do primeiro de uma série de textos sobre "o projeto de ser um cientista maduro"; um tema delicado que, em geral, não é abordado na universidade, embora seja de grande importância para qualquer estudante, inclusive os de Lingüística, é claro.

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