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Linguagem & Lingüística por Tiago Martins

É certo que as pessoas sempre têm idéias próprias sobre a linguagem e se não sobre a linguagem sobre sua própria língua. Idéias comuns sobre o que os falantes fazem, sobre “erros” freqüentes e.t.c e e.t.c… Para a maior parte dessas pessoas a linguagem é um instrumento para ser usado e que não merece uma atenção minuciosa.

Este primeiro texto tem a intenção de explicar, para quem não conhece, o que é a Lingüística e de falar de maneira mais metódica sobre a linguagem.

Para começar, vamos definir a diferença de língua e linguagem. Uma língua é um conjunto de frases, cada uma delas formada por uma série de palavras. Língua é o que usamos quando falamos, é o que vemos escrito em jornais, livros e revistas. Linguagem é algo maior que a língua, é o que permite que a língua exista.

Quando se começa, no primeiro semestre de um curso de Letras, a estudar Lingüística é difícil dizer o que ela é de maneira simples; mas sem grandes problematizações, baseado num conceito de Gleason Jr., dá pra resumir da seguinte maneira: A Lingüística é a ciência que procura compreender a linguagem da perspectiva de sua estrutura interna.

O falante de uma língua utiliza esta estrutura complexa com facilidade e sem conhecimento consciente do processo; que lhe parece simples e natural. Podemos dizer que esta estrutura tem um mecanismo que permite a formação e a interpretação de frases.

É tarefa da lingüística explicitar o funcionamento desse mecanismo. Um mecanismo que faz com que os falantes do português, por exemplo, formem uma frase como:
                                              (1) – O escritor escreveu um conto.
No entanto, em uma situação normal, a par de brincadeiras, o falante nunca formaria uma frase como:
                                              (2) – Escritor conto o um escreveu.
Não é qualquer seqüência de palavras que constitui uma frase da língua portuguesa ou de qualquer língua. Por que isso ocorre? Por que as línguas são organizadas naturalmente segundo determinadas regras e essas regras ou princípios são os objetos de estudo dos lingüistas.

Tais princípios, pois, que regem a língua não são aprendidos simplesmente. O ser humano possui em seu “equipamento genético” a Faculdade da Linguagem, que estaria localizada no cérebro humano, mais especificamente no lado esquerdo. Uma prova disso seria o fato de que quando pessoas sofrem acidentes que prejudicam esse lado do cérebro elas perdem a capacidade de falar normalmente.

Essa é uma teoria moderna da lingüística que começou nos anos 1950 através de Noam Chomsky e se estende até hoje, como a visão predominante dos estudos lingüísticos formais. Chomsky afirma que todo o ser humano tem uma Gramática Universal que o torna apto a adquirir uma língua. Essa gramática universal é composta por Princípios e por Parâmetros. Os Princípios são leis gerais válidas para todas as línguas naturais e Parâmetros são propriedades que uma língua específica pode ou não exibir. Um falante nasce em seu estágio zero da língua e à medida que os Parâmetros (propriedades da língua em que a criança começara a ter contato) vão sendo fixados, vai se constituindo a gramática de sua língua. Uma criança nascida no Brasil vai fixar Parâmetros que a farão falar português, por exemplo.

Podemos confiar nessa idéia por um fato óbvio a todos nós: toda a criança normal em qualquer parte do mundo adquire, pelo menos, uma língua e mais ou menos na mesma faixa etária e com a mesma velocidade. Poderíamos dizer que a criança aprende a língua através de sua família, mas como ela o faria – no mundo inteiro – de maneira muito semelhante e na mesma velocidade se fosse assim? Pois dependeria da quantidade de coisas que a família falaria com a criança e isso seria variável de família para família. Quando uma criança aprende a andar de bicicleta ou a jogar basquete, ela não aprende na mesma velocidade da mesma maneira que todas as crianças no mundo, no entanto, é assim que ela aprende sua língua nativa.

O objetivo da Lingüística atual é explicitar o que um falante sabe internamente quando sabe uma língua, quais as regras “mentais”, por assim dizer, que ele possui. A Lingüística Gerativa, pois, não estuda a fala dos falantes, estuda o que está por trás disso e muitas vezes utiliza uma linguagem formal e matemática para explicar isso.

A lingüística possui outras vertentes (como a Lingüística Funcional) e com certeza não começou nos anos 1950 com Chomsky, mas no final do Século XVIII quando a linguagem passou a ser estudada por si mesma, isoladamente, e não ligada a outros estudos como comportamento, retórica, poética and so on.  A explicação acima foi mais comprometida com uma visão Gerativa e Formal da Lingüística, pois os meus textos futuros estarão muito mais dentro desse âmbito que considero o mais importante, interessante e explicativo.


Sincronia, diacronia e expressões populares por César Gonzalez

Acabei de receber um e-mail com um tipo de cultura inútil bem interessante: as origens de algumas expressões populares. Ainda que boa parte delas não seja muito usada pela minha geração, o e-mail continua sendo engraçadinho.

Lendo o e-mail me lembrei de Saussure e sua dicotomia Sincronia/Diacronia. Coisas como:

Casa da Mãe Joana:
Na época do Brasil Império, mais especificamente durante a minoridade do Dom Pedro II, os homens que realmente mandavam no país costumavam se encontrar num prostíbulo do Rio de Janeiro, cuja proprietária se chamava Joana. Como esses homens mandavam e desmandavam no país, a frase "casa da Mãe Joana" ficou conhecida como sinônimo de lugar em que ninguém manda.

e:

Vá se queixar ao bispo:
Durante o Brasil Colônia, a fertilidade de uma mulher era atributo fundamental para o casamento, afinal, a ordem era povoar as novas terras conquistadas. A Igreja permitia que, antes do casamento, os noivos mantivessem relações sexuais, única maneira de o rapaz descobrir se a moça era fértil. E adivinha o que acontecia na maioria das vezes? O noivo fugia depois da relação para não ter que se casar. A mocinha, desolada, ia se queixar ao bispo, que mandava homens para capturar o tal espertinho.

estão por todo o e-mail. Essas curiosas informações sobre a distinta senhora "Mãe Joana" e a virgindade de moças no Brasil colonial não faziam parte de minha enciclopédia de assuntos inúteis até hoje, mesmo assim não tinha problema algum em usar essas expressões.

Isso só prova que o conhecimento do falante é sincrônico em relação à sua língua. O conhecimento de estruturas do Latim e da origem de expressões não é essencial para a compreensão dos mesmos. Já ouvi histórias de pessoas de vasta cultura que insistiam que não deveríamos utilizar o verbo suicidar na voz reflexiva, uma vez que sui- provinha do latim e significa ‘a si mesmo’ e, ao utilizarmos o pronome oblíquo junto a verbo (cf. suicidar-se), estaríamos sendo redundantes. A forma sui- é uma forma não reconhecida pelos falantes do Português. Não há quem possa provar que tal prefixo latino é transparente na língua de hoje, que dizer então sobre sua produtividade.

O e-mail continua sendo engraçadinho. Sendo, ainda por cima, mais uma prova de que o conhecimento do falante é sincrônico em relação à sua língua.

P.S.: Quem quiser mais origens de expressões populares, mande um e-mail para languagebar@gmail.com.


Hello world! por Language Bar

O Language Bar é uma experiência de quatro estudantes de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul: César Gonzales, Emanuel Quadros, Paulo Henrique Pappen e Tiago Martins. A idéia é criar um espaço para tratar de assuntos relacionados a nosso interesse comum: a Lingüística. Sendo um espaço informal, os posts não trarão o rigor acadêmico, o que não implica discussões superficiais ou irrelevantes para os já iniciados na área.

É possível que uma boa parte dos futuros posts centre-se em questões ligadas à Fonologia e à Morfologia, por serem áreas com as quais temos mais afinidade. Mas isso é apenas uma tendência, não uma restrição; Language Bar é um blog de Lingüística e seus autores se interessam por outras áreas do estudo da linguagem também.

Fica também um convite a todos que se interessam por questões ligadas à linguagem: comentários serão muito bem-vindos e eventuais contribuições também! O leitor pode enviar sua contribuição para languagebar@gmail.com, e ela poderá ser publicada, com os créditos devidos, é claro.


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