Language Bar

22/02/2007

Assinando o Language Bar por Emanuel Souza de Quadros

Nada sobre Lingüística, mas algo importante de lembrar.

Como a maioria dos blogs, o Language Bar utiliza um sistema de RSS (Really Simple Syndication). Não é algo suficientemente popular na Internet ainda; muitos sites disponibilizam esse serviço, mas a maior parte dos usuários ainda não sabe utilizá-lo. Essa é a motivação deste post.

RSS é uma ferramenta que te permite "assinar" (de graça, é claro!) um site, de modo que não seja necessário visitá-lo periodicamente, à espera de atualizações. O computador faz isso por você, checando e baixando conteúdo, no momento em que ele se torna disponível. Ou seja, assinar o feed RSS de um blog significa não perder nenhuma de suas atualizações, sem que seja necessário visitá-lo todos os dias. As vantagens práticas são enormes. Um exemplo: eu recebo atualizações de mais de 150 sites - uma grande quantidade de conteúdo. O legal da história é que eu não preciso visitar esses 150 sites todos os dias para garantir que eu não perca nenhuma atualização. Eu as recebo automaticamente, num lugar só; meu único trabalho é filtrar o que há de relevante para eu ler. E o melhor de tudo é que, ao contrário de assinaturas de revista ou de jornal, eu não pago nada por isso.

Para assinar, basta utilizar algum agregador de conteúdo, como o Google ReaderGreatnews ou Bloglines e adicionar o endereço do nosso feed: http://feeds.feedburner.com/languagebar; se quiser, também dá para receber os comentários que são postados, adicionando o endereço: http://languagebar.blogsome.com/comments/feed/.

13/08/2006

O Modelo Causal Integrado e o Modelo Clássico das Ciências Sociais por Tiago Martins

Quando se começa a ler sobre o gerativismo, uma das primeiras coisas que se descobre é que este modelo encontra forte oposição no Modelo Clássico das Ciências Sociais (MCCS). No livro Diálogos, Chomsky lembra quando começou a dar aulas no MIT em fins da década de 50. Recorda que era visto como um absurdo tratar a linguagem do modo como ele tratava, pois todo o ensino da época estava comprometido com o relativismo. O relativismo não acredita que haja uma estrutura fixa na natureza humana, não acredita em universais, acredita nas diferenças e cada sociedade no mundo seria diferente por existirem fatores sociais influenciando. Isso é discútivel e será abordado em outro texto.

Depois de ter ouvido muito falar sobre essa oposição (Gerativismo X MCCS), pouco li sobre o assunto. No entanto, achei há pouco tempo, uma ótima discussão sobre o tema no já mencionado O Instinto da Linguagem, de Steven Pinker. E neste livro, ele cita alguns dos fundamentos que caracterizam o MCCS:

"Se por um lado os animais são rigidamente controlados por sua biologia, o comportamento humano, por outro é determinado pela cultura (…) Livre de coerções biológicas as culturas podem variar entre si arbitrariamente".

Esse modelo, que tem como fundadores John Watson e Margaret Mead, acredita que existem dois grandes influenciadores no comportamento humano: a hereditariedade e o ambiente. Sobre isso, Pinker diz: "Eu ficaria deprimido se o que sabemos sobre o instinto da linguagem ficasse restrito às tolas dicotomias hereditariedade-ambiente". Deixo claro, que Pinker não despreza esses fatores, afinal, como exemplifica ele, se uma criança cresce junto de seu hamster, a criança passa a falar uma língua, o hamster não. O que Pinker defende é: há muito mais do que essa dicotomia

É indiscutível que a cultura e o ambiente influenciam, afinal uma criança nascida em Porto Alegre vai falar português, e os modelos formais que estudam a linguagem não são cegos para isso. Tudo se trata de uma questão de "recorte teórico". O modelo que se opõe ao MCCS, conhecido como Modelo Causal Integrado, do qual faz parte a Lingüística Gerativa, está preocupado com outras questões, que não são sociais. O que houve, e que é natural que gerasse uma oposição com o Modelo Clássico, é que nem a lingüística, nem outros modelos de ciência a partir dos anos 50 puderam ignorar o que as novas tecnologias podiam oferecer: estudos mais avançados sobre a complexidade do cérebro humano. Sem um mecanismo inato para o aprendizado que, segundo os racionalistas, vêm do ambiente, não há aprendizado. A maneira como o conhecimento é organizado no cérebro, a maneira como percebemos as coisas e a maneira como adquirimos a língua, está pré-determinada no cérebro de cada um, portanto é bastante compreensível que isso seja estudado em separado, pois isso vem antes dos elementos ambiente-cultura-sociedade.

Ao contrário do que é "pregado" pelo relativismo, existem sim universais. Toda a lingüística gerativa mostrou isso, as línguas não variam de modo arbitrário e sem limites, como vimos na afirmação acima sobre o MCCS. O Modelo Causal Integrado, portanto, vem em oposição a esse relativismo. Tem fundamentos em Darwin, Willian James, Chomky e em psicológos, neurocientistas e todo um time de profissionais que estuda o design da mente e como as informações que vem de fora são "acopladas" na mente/cérebro. Segundo Pinker, o MCI "procura explicar como a evolução causou a emergência de um cérebro, que causa processos psicológicos como conhecer e aprender, que causam a aquisição de valores e de conhecimentos que conformam a cultura de uma pessoa". Este modelo percorreu os estudos de lingüística formal durante toda a segunda metade do século XX e ainda é condenado por quem acredita na predominânicia de fatores sociais.   

Quanto às diferenças arbitrárias e sem limites que as culturas podem sofrer, bem, isso também parece ser bastante discutível no MCCS. Quanto ao caráter universal das línguas, sabemos que isso é verdadeiro, as línguas têm universais, têm princípios e isso já foi discutido em outros textos aqui no blog. O interessante é que as culturas também possuem universais e não variam tão arbitráriamente quanto queriam os antropólogos do século XX, para provar que o meio influencia radicalmente. Isso é discutido no último capítulo do livro de Steven Pinker e o tema do meu próximo texto.    

27/07/2006

Qual é a língua do pensamento? por Tiago Martins

Antes de ler o texto, responda a si mesmo a pergunta-título. Será que você, falante nativo do português, pensa em português? Será que o falante nativo do russo pensa em russo? Ou será que existe uma outra maneira para a ocorrência do pensamento e ele é "traduzido" por nós quando falamos?

Descartes diz que o que nos diferencia dos animais é a linguagem e a partir dela ele chegou a conclusão de que nós possuímos um espírito, uma contraparte interior que nos tira da categoria de autômatos. Em outras palavras, é através da linguagem que transmitimos nossos pensamentos, é essa contraparte interior que nos faz diferentes das máquinas que por comandos tem ações e reações relativamente previsíveis ou "calculáveis". Chomsky, próximo da idéia de Descartes vai dizer que uma das principais funções da linguagem é a expressão do pensamento. Em nenhum momento, porém, os autores dizem que linguagem e pensamento são a mesma coisa. Se não me engano, Piaget e Vigotsky dizem algo sobre a natureza  do pensamento e da linguagem e que ambos provém de "lugares" diferentes.

Bem, eis a proposta do texto: linguagem e pensamento não são a mesma coisa. Nós certamente não pensamos em nossa língua nativa. Pense na seguinte situação: Você acorda e percebe que está com fome/ Pensa em tomar café com leite e pães de queijo, mas lembra que você comeu todos eles na noite anterior/ Você teria de sair de casa para comprar mais/ Então, você decide não ir até o supermercado/ Escolhe comer outra coisa ou apenas tomar o café. Toda essa seqüência de decisões demoraria um bocado se fosse articulada sentença por sentença em sua língua nativa. Nós geralmente pensaríamos essas coisas sem articular frases em português. 
   
Segundo Pinker, em seu ótimo livro O Instinto da Linguagem, acreditar que nós pensamos na nossa língua é um absurdo convencional. E dá um ótimo exemplo: "Todos tivemos a experiência de enunciar ou escrever uma frase, parar e perceber que não era exatamente o que queríamos dizer. Para que haja esse sentimento, é preciso haver um ‘o que queríamos dizer’ diferente do que dissemos". Quantas vezes não pensamos com freqüência sobre um determinado assunto, mas na hora de falar sobre ele não conseguimos articular as palavras? Ou seja, não conseguimos traduzir do mentalês (definição de Pinker) para o português. 
 
Existe a hipótese de que a linguagem e o pensamento estejam ligados e esta idéia está ligada a Sapir e a Whorf. Eles afirmam que é uma determinada língua que direciona o nosso pensamento. Por exemplo, falantes da língua Wintu têm que colocar um ou outro sufixo em seus verbos para marcar 1) se o conhecimento que estão transmitindo foi aprendido por observação direta ou 2) se foi aprendido por "ouvir dizer". Mas isso não significa muito, pois será que os falantes do inglês, português ou espanhol não sabem se aprenderam algo por observação direta ou por terceiros? Claro que sabem. A língua, sendo Wintu ou não, não altera o nosso modo de pensar/ver a realidade.
 
Pinker trás alguns exemplos de pensamento sem linguagem: bebês, seria um deles, não podem pensar com palavras. Macacos muito menos, pois não tem capacidade para aprendê-las. Portanto, a língua do pensamento seria essa espécie de mentalês - que nos faz diferentes dos animais e das máquinas, que nos faz não-autômatos. E se é verdade que não existe tradução perfeita, faz sentido que existam alguns de nossos pensamentos que são melhores quando guardados conosco, quando não afirmados ou expressados. Mas aí, a discussão sai do campo da lingüística e da proposta deste texto.

16/07/2006

Pop! por Tiago Martins

Linguística definitivamente não é um assunto pop. No meio acadêmico com certeza, mas no geral não é assim. Falar de literatura, sociologia, artes em qualquer contexto é bem mais aceitável. Conversar sobre um livro do Saramago numa mesa de bar não é problemático, mesmo para um interlocutor que nunca leu o autor português. Agora, dizer para alguém que um falante nativo nunca produz uma frase agramatical, pois ele tem uma gramática subjacente onde está todo o "programa"  de sua língua, bem, isso é um despautério total. 

Dizer que um falante que diz: "Eu comprei dois carro" não está fazendo nenhum absurdo é um absurdo. Dizer que nem tudo que a Gramática Normativa/Tradicional diz sobre a língua é capaz de dar conta dessa estrutura tão complexa chega a ser um crime. Escrevo isso, pois é uma situação bastante comum para mim, e acho que o é para qualquer um que esteja começando a estudar isso.  A ciência da linguagem parece ir contra os pressupostos mais fortes do senso-comum quanto à língua. É difícil para muitos aceitar que nós temos uma capacidade natural para adquirir uma língua e que, a partir disso, sabemos formar sentenças em nossas línguas sem sequer ter estado na mesma sala em que uma gramática normativa, por ventura, pudesse ter visitado.

Conversando com uma pessoa sobre o fato de uma mulher ter dito obrigado e não obrigada, fui informado de que no português antigo as pessoas diziam "Sou obrigado a lhe agradecer…" ou algo do genêro. A justificativa foi de que falamos obrigado ou obrigada concordando com o nosso genêro (aqui no sentido de sexo também), pois no passado usavamos dessa forma. Bem, uma criança que nasce hoje, a não ser que  venha do útero com um dicionário de etimologia cravado em sua mente, não sabe disso e provavelmente vai saber depois dos 10 anos, se souber. O obrigado vai entrar no sistema de sua língua sem essa informação. A criança -se for menino - dirá obrigado e - se menina - dirá obrigada, mas isso não é uma regra. Mulheres podem dizer obrigado sem problema algum e nem se dão conta disso. E as que dizem obrigada, com certeza, não o fazem pela explicação diacrônica da língua. O sistema da língua - se imaginado como um computador - vai pegar o dado atual e trabalhar com ele, e dentro do sistema da língua não temos dicionários de etimologia ou de expresões antigas.

Isso se explica melhor com o caso das línguas crioulas. Línguas crioulas surgem a partir de pidgins, isto é, quando vários indivíduos de línguas diferentes passam a conviver diariamente e necessitam se comunicar (isso acontecia com os escravos negros transportados da África para outros lugares).  Então, eles criam uma língua fraca, sem estrutura complexa, e num geral eles se falam por palavras soltas e ficam falando dessa forma, com poucas evoluções. No entanto, se eles tem filhos e esses filhos são criados ouvindo essa língua colcha-de- retalhos, o pidgin, eles naturalmente vão preencher as lacunas dos pais. Quero dizer, as palavras soltas que os escravos usavam para se comunicar viram uma língua com estruturas sintáticas, morfológicas e fonológicas complexas quando entram no sistema das crianças. Isso constitui uma língua crioula. Podemos dizer que o sistema da língua é alimentado sincronicamente e a partir desses alimentos - seja lá quais forem e como forem - o sistema gera seus produtos. Por isso não importa que no latim - exemplo clássico e já clichê - sui já tenha o significado de "a si mesmo", pois se, em algum momento, o verbo suicidar entrou no sistema sem a noção que tinha no latim, ele ganhará outra estrutura no português. Dizemos suicidou-se e ficamos felizes com isso.

Outro papo bem comum, é dizer que se todo o falante nativo fala certo, então todo mundo - daqui um tempo - não vai se entender. Mas isso é facilmente refutável, pois todo mundo ainda se entende e sabemos que falando problema ou pobrema as pessoas entendem, pois qualquer um pode perceber que os "erros" são passíveis de sistematização. Tanto que vivemos fazendo brincadeiras dos ’erros’ mais comuns da língua. Não estou dando uma de Marcos Bagno, dizendo que a norma oprime o povo e blá, blá, blá. Acho que as pessoas têm de ter noção de quando falar formalmente, mas sabemos quais coisas estão dentro da estrutura da língua e quais coisas não estão. E o que importa para a estrutura da linguagem é o fato da gramaticalidade e não do erro ou acerto.

Enfim, são esses os pontos que mais chocam e enfurecem quem não conhece os estudos da linguagem e são justamente os pontos mais básicos. Por isso, na próxima reunião com amigos ou familiares fale do livro novo do Daniel Galera, mas não do Chomsky ou do Saussure.

06/07/2006

A review of B. F. Skinner’s “Verbal Behavior” por Paulo H

Tenho muita vontade de ler um dia o livro do Skinner que foi criticado por Chomsky em 1959. É comum encontrarmos em textos sobre o gerativismo (ou sobre a contribuição de Chomsky para a Lingüística) referências a esse artigo, geralmente dizendo que aí o lingüísta "devasta", "detona" com o livro do behaviorista. O texto faz uma crítica excelente, contrapõe argumentos inteligentes e apresenta de modo muito claro as falhas e contradições do livro, especialmente no que se refere aos termos utilizados por Skinner. Para Chomsky, a definição de conceitos como estímulo, reforço, resposta, etc, é vaga demais para explicar alguma coisa sobre o "comportamento verbal". Além disso, experimentos com ratos em laboratórios, onde o aprendizado (e o conhecimento) é medido em termos de mais ou menos tempo levado para encontrar a saída de um labirinto, não bastam para determinar e compreender como funciona o sistema cognitivo humano. Por exemplo, o fato de eu estar escrevendo isto agora não pode ser explicado simplesmente com a idéia de que há um "estímulo" e um "reforço" para que eu faça isso. É claro que, se alguém ler e achar interessante o que escrevo e fizer, quem sabe, um comentário, de alguma maneira isso servirá como "estímulo" ou "reforço" para eu voltar a escrever (principalmente se o comentário for para discordar de mim). Mas isso não diz nada, pois não podemos afirmar qual é exatamente o estímulo ou o reforço que me faz escrever. São muitos, e há provavelmente até sobreposição de alguns.

A resenha é sobre o livro do Skinner, mas Chomsky aproveita e faz uma antítese bem mais ampla, o que me parece ser bastante justificável, uma vez que ele está propondo uma outra teoria da linguagem e não simplesmente dizendo que a tese do psicólogo é absurda. Nas palavras do autor: 

If the conclusions I attempted to substantiate in the review are correct, as I believe they are, then Skinner’s work can be regarded as, in effect, a reductio ad absurdum of behaviorist assumptions. My personal view is that it is a definite merit, not a defect, of Skinner’s work that it can be used for this purpose, and it was for this reason that I tried to deal with it fairly exhaustively.

Vale a pena dar uma lida (clique aqui). Os itens X e XI, especialmente, confrontam com mais nitidez as idéias de Skinner com as de Chomsky. É muito interessante. Mais interessante ainda se lemos a defesa de Skinner feita por Kenneth MacCorquodale (Ken, para os disléxicos).

27/06/2006

Professor “Norman” Chomsky por César Gonzalez

Faz algum tempo já, o Language Log publicou um post sobre uma entrevista de Noam Chomsky com Ali G. O entrevistador, para os que não o conhecem, é  um personagem criado por Sacha Baron Cohen, comediante inglês. O personagem é famoso e inclusive apresentou o MTV Europe Music Awards em 2001.

Ali G começa a entrevista anunciando “Professor ‘Norman’ Chomsky” e faz suas perguntas sobre linguagem como se fosse um ignorante completo. Para os que puderem é interessante ver o filme:

Chomsky não fala nada de novo, fica na discussão de quantas palavras conhecemos, se o primo do Ali G vai ser bilíngüe e coisas assim. Mas, pelo menos, é engraçado. Resta saber quem é o próximo lingüista a dar uma entrevista.

12/06/2006

Estacionamento: logo ali por César Gonzalez

Passava por um estacionamento aqui ao lado de casa quando me deparo com a seguinte placa:

Estacionamento: logo ali.
30 minutos R$5,00, os demais R$2,00.

A placa me deixou um pouco confuso. Como assim "os demais"?! Dei a volta no estacionamento prestando atenção, procurando por outra placa. Encontrei, e ela possuía a mesma inscrição!

Bom, há, no mínimo, três interpretações para essa sentença, vejamos:

(1) O usuário paga R$5,00 pelos primeiros 30 minutos de estacionamento e, para cada minuto a mais, ele pagará R$2,00 a mais.

(2) O usuário paga R$5,00 pelos primeiros 30 minutos e um acréscimo de R$2,00 para cada outros trinta minutos.

(3) O usuário paga R$5,00 pelos primeiros 30 minutos e R$2,00 para todos os outros minutos a mais que ele passar ali.

O que é no mínimo interessante. Se eu fosse o dono do estacionamento estaria preocupado com as possíveis interpretações (1) e (2), que criam contas absurdas depois de algum tempo e afastam os potenciais clientes. Me preocuparia também com a interpretação (3), se essa não for a correta, pois poderiam argumentar que eu estaria fazendo propaganda enganosa. O PROCON estaria sempre me incomodando.

A ambigüidade estrutural da sentença está clara. Assumo que é uma ambigüidade estrutural pois a estrutura de superfície da sentença possui lacunas que foram apagadas durante a dervação da sentença na gramática do falante. Não temos problemas lexicais ou de outra ordem, logo o problema da sentença é sintático.

Poderíamos tentar "desambigüar" (e avisar o dono do estabelecimento para que ele possa escolher a sentença que melhor veicula a mensagem que ele está preocupado em passar):

Interpretação (1):

Estacionamento: logo ali.
Primeiros 30 minutos: R$5,00; cada minuto a mais: R$2,00.

Interpretação (2):

Estacionamento: logo ali.
Primeiros 30 minutos: R$5,00; cada 30 minutos a mais: R$2,00.

Interpretação (3):

Estacionamento: logo ali.
Primeiros 30 minutos: R$5,00; taxa de atraso: R$2,00.

Se você encontrou alguma outra interpretação para a sentença, me avise. Não me considero grande sintaticista também. Portanto, se você entende de sintaxe e quer explicar melhor ou me corrigir, esteja à vontade.

09/06/2006

Como é adquirida a Gramática Gerativa (GG)? por Tiago Martins

A gramática internalizada por cada ser humano normal é algo como uma teoria de sua língua. Essa teoria, segundo Chomsky, dá uma correlação som-sentido para um número inifinito de sentenças. Ela provê um conjunto de Descrições Estruturais (DE). Por ex. (aliás um exemplo de Lyons) "o número 2 gera o conjunto, ou a série, dos números 2,4,16,32…" Esta é uma série que se segue infinitamente apartir de uma base que é 2. Todo o número que for gerado pela base 2 satisfará a função de 2n (2 na potência n) - onde 2 é a base e n é uma variável que compreende os números naturais 1,2,3,4….). Bem cada número da série gerada por 2n pode se associar a uma DE 2(6) - o meu teclado não faz "2 na 6" - 2(6)=64.  Ou seja, a DE de 2(6) é 64.

Nessa concepção quando se diz que uma gramática gera as orações de uma língua, lê-se que ela constitui um Sistema de Regras (com um léxico) que permite decidir quais elementos formarão uma oração gramatical em uma língua.

Bem, explicado o que é DE… Então… cada DE contém uma Estrutura Superficial (ES) que equivale a uma Forma Fonética X e uma Estrutura Porfunda que determina o conteúdo semântico.

Ao adquirir uma linguagem a criança descobre a teoria de sua língua. A criança faz isso sem instrução em uma fase que seu desempenho intelectual é fraco ou pequeno. Logo, segundo Chomsky, o desenvolvimento de uma língua é um tanto independente da inteligência ou da experiência de cada um.  

"É inconcebível que uma língua altamente abstrata, específica e estritamente organizada surja por acidente na mente de uma criança" (Noam Chomsky)

Mas certas coisas não podemos afirmar sobre a linguagem, certas perguntas ficam sem respostas. O que, na verdade, deixa tudo um tanto interessante. Por ex.

-Como pode a mente humana vir a ter propriedade inatas?

-Por qual processo a mente atingiu o seu estado presente de complexidade?

São perguntas que Chomsky se faz e não encontra resposta. Existe uma área da linguagem sobre a qual não podemos mais avançar, há mistérios sobre a mente humana que hoje em dia não podem ser explicados, ele então propõe, que existem aspectos que pode sim ser estudados mais palpávelmente, por assim dizer:

"Penso que por ora as investigaçõs mais produtivas são as que se referem à natureza das gramáticas particulares e as condições universais que  obedecem as línguas humanas". (N.C)

E é isso que é feito quando estudamos Fonologia, Morfologia, Sintaxe, e.t.c por exemplo. Escrevi esses dois textos (ver o primeiro) com a intenção de explicar - para os leitores que não conhecem, o que é a GG, que é um assunto bastante fascinante.

Chomsky, Lenneberg e o Inatismo por Tiago Martins

"Há entre os cientistas sociais uma tendência a considerar a linguagem como um fenômeno puramente aprendido e cultural, um instrumento engenhosamente concebido, introduzido de forma proposital para desempenhar funções de natureza social. Não nos ocorre encarar a possibilidade de que o homem possa estar equipado* com propensões biológicas altamente especializadas que favorecem e até mesmo dão forma ao desenvolvimento da fala na criança e que as raízes da língua possam estar tão profundamente fundadas na nossa costituição natural  quanto, por ex., a nossa predisposição para usar as mãos". (Eric Lenneberg)
 
Lenneberg em um texto chamado "A capacidade de aquisição da linguagem" discute o inatismo; a idéia de que não aprendemos uma língua e sim a adquirimos. Quando usei o termo equipamento genético no meu  texto anterior me referia a esse termo usado no trecho acima. Emanuel bem observou que a concepção de Inatismo não é de Chomsky, faltou eu ter colocado um simples aposto esclarecendo. Chomsky se utilizou dessa idéia na Gramática Gerativa. Humboldt também, antes de Lenneberg, falou nisso. Dizia que a língua é uma questão de maturação de uma capacidade inata do ser humano.
    
Essa não é a questão crucial do Gerativismo, mas penso que é - para um texto introdutório destinado a leitores que não conhecem a teoria - com certeza, o ponto mais interessante. Ponto que inverte o pensamento usual sobre a linguagem como algo ensinado.

07/06/2006

Linguagem, Lingüística e alguns pequenos reparos por Emanuel Souza de Quadros

Uma passagem específica do texto do Tiago chamou minha atenção e acho que merece ser comentada:

Tais princípios, pois, que regem a língua não são aprendidos simplesmente. O ser humano possui em seu “equipamento genético” a Faculdade da Linguagem, que estaria localizada no cérebro humano, mais especificamente no lado esquerdo. Uma prova disso seria o fato de que quando pessoas sofrem acidentes que prejudicam esse lado do cérebro elas perdem a capacidade de falar normalmente.

Chamou minha atenção, em primeiro lugar, devido à atribuição dessa idéia, no parágrafo seguinte, a "uma teoria moderna da lingüística que começou nos anos 1950 através de Noam Chomsky…" Na verdade, essa idéia não é crucial na teoria e não foi explicitada por Chomsky. Ele fala de uma "faculdade da linguagem", mas não a atribui a nenhum órgão específico.

De fato, postular a existência dessa faculdade não depende do conhecimento de sua realidade anatômica, sua localização física em algum órgão do corpo humano. Crucial para a lingüística é sua realidade funcional. É tarefa da lingüística, nessa perspectiva, explicitar e explicar o funcionamento do mecanismo, mencionado pelo Tiago, que permite ao falante produzir e interpretar infinitas sentenças de sua língua "com facilidade e sem conhecimento consciente do processo". A realidade anatômica desse mecanismo é uma outra questão, de interesse dos lingüistas, é claro, mas que extrapola o campo de estudo da lingüística gerativa. Fica para as chamadas neurociências, para a Neurolingüística, quem sabe…

Além disso, a localização da faculdade da linguagem no lado esquerdo do cérebro não é tão precisa assim. A idéia existe porque, na maioria das pessoas, áreas responsáveis por habilidades importantes ao uso da linguagem, como as conhecidas áreas de Broca e de Wernicke, se localizam no hemisfério esquerdo. Bastaria dizer que isso não vale para todos: vale para quase todos os destros e para uma boa parte dos canhotos.

Casos em que pessoas apresentam danos em alguma parte do cérebro e, em conseqüência disso, perdem a capacidade de falar normalmente não servem como prova de que a "faculdade da linguagem" se localiza nessa parte. Antes, servem como evidências para isolar certas áreas que podem ser responsáveis por habilidades necessárias ao uso da linguagem. Um exemplo seria um quadro em que um paciente deixa de "falar normalmente" porque teve uma área X de seu cérebro danificada: as especificidades do quadro (e.g. o indivíduo produz apenas sons aleatórios quando tenta se expressar, mas consegue compreender as sentenças que ouve) levam a hipóteses sobre as especificidades da área afetada; no exemplo, é possível que a área X seja responsável pelo controle das articulações no ‘aparelho fonador’.

Ainda não é possível afirmar que a linguagem possui uma localização específica, e é provável que nunca será. É uma habilidade que depende de uma estrutura extremamente complexa que se estende por ambos os hemisférios,  incluindo áreas mais difusas.

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