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Cosmogonia gerativa por Emanuel Souza de Quadros

Meu erro ortográfico favorito é um que às vezes aparece em referências bibliográficas de apresentações de trabalhos de Morfologia. Trata-se da referência a um clássico da morfologia gerativa: "World Formation in Generative Grammar".

Ok, o original é "Word Formation in Generative Grammar", de 1976, escrito por Mark Aronoff, mas a grafia da nova versão é mais divertida: se houver um trabalho muito chato sendo apresentado após o que fez essa referência, dá para passar o tempo imaginando como a teoria do cara seria…


Nada para fazer nesta quinta-feira? por Emanuel Souza de Quadros

Quem estiver em Campinas amanhã (sei que há alguns leitores por lá), pode dar uma conferida na sessão de pôsteres da 60ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC ). A sessão vai acontecer no Ginásio Multidisciplinar da Unicamp, das 12h30 às 14h.  Eu estarei lá, apresentando o trabalho "A Redução da Nasalidade nos Verbos do Português do Brasil", realizado em co-autoria com César Augusto González, sob a orientação do professor Luiz Carlos Schwindt.

Como se isso não fosse motivo suficiente para passar por lá, quem for ainda vai poder conferir a seguinte programação da Associação Brasileira de Lingüística (ABRALIN):


Conferência

ALFABETIZAÇÃO E TECNOLOGIA EM AMBIENTES CULTURALMENTE DIVERSOS
Associação Brasileira de Lingüística (ABRALIN)
Quinta-feira, 17 - das 10h30 às 12h00
Ciclo Básico I - Sala CB 4
Conferencista: Thaïs Cristófaro Silva (UFMG)
Apresentador: Maria Cecília de Magalhães Mollica (UFRJ)


Conferência

AVANÇOS EM SÍNTESE E RECONHECIMENTO DE FALA
Associação Brasileira de Lingüística (ABRALIN)
Quinta-feira, 17 - das 10h30 às 12h00
IEL - Auditório CL 18
Conferencista: Fábio Violaro (UNICAMP)
Apresentador: Eleonora Cavalcante Albano (UNICAMP)


Simpósio

A LÍNGUA, A IMAGINAÇÃO E O PENSAMENTO ABSTRATO: COMO ENSINAR SEM "ASSUSTAR"
Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)
Associação Brasileira de Lingüística ( ABRALIN)
Quinta-feira, 17 - das 14h00 às 16h00
Ciclo Básico I - Sala CB 2
Coordenador: Maria Cecília de Magalhães Mollica (UFRJ)
Participantes: Marisa Lajolo (UNICAMP), Marisa Leal (UFRJ)



A vaca foi literalmente pro brejo por Emanuel Souza de Quadros

Mirella, do blog Cafeína, está irritada com um uso que eu ainda não havia notado. Trata-se do emprego de literalmente para indicar eventos nada "literais", como na frase abaixo, coletada por ela mesma.

(1) Naquele dia, depois daquela derrota, meu mundo literalmente acabou.

O que causa estranhamento nessa construção é que literalmente não está contrastando o sentido pretendido com um sentido figurado da expressão. Seria esse o caso se, por exemplo, o falante dessa frase fosse um extraterrestre que acabou de ver seu planeta literalmente ir para o espaço, após uma batalha com Galactus! Ele estaria usando esse advérbio para negar o sentido figurado e dizer "é exatamente isso que eu quero dizer: meu mundo acabou mesmo!". Ao invés disso, o advérbio em (1) está apenas enfatizando o sentido da expressão, que, por sinal, é figurado.

Acontece que quando se usa literalmente em seu sentido mais "canônico", em uma frase como "Agora, a vaca foi literalmente pro brejo", descrevendo um evento em que uma vaca entrou em um brejo, de verdade, também há aí um efeito de ênfase. Uma opção seria dizer "Agora, a vaca foi mesmo pro brejo", descrevendo o mesmo evento. Neste último caso, a frase fica mais claramente ambígüa: mesmo pode tanto enfatizar um sentido figurado (deu tudo errado mesmo), como intensificar o sentido literal, constrastando-o com o figurado (não, nada deu errado, a vaca foi pro brejo mesmo, de verdade!). No caso de literalmente, todo o povo da comunidade do Orkut citada no post do Cafeína só aceita este último uso, de intensificação do sentido literal; no entanto, o fato de haver tantos membros nela mostra que há um número muito maior de pessoas aí afora que aceitam, e usam, esse advérbio para enfatizar um sentido figurado.

Parece-me um desenvolvimento natural do uso dessa expressão, que ele consagre a parte intensificadora de seu sentido, generalizando-a a um número maior de contextos. E essa generalização deixa de parecer sem lógica se pensarmos que, ao dizer a frase em (1), o falante expressou em literalmente que "é isso mesmo que quero dizer, com todas as letras, e com todo o sentido figurado a que tenho direito". Cabe dizer que o sentido figurado também passa a ser parte do significado da expressão - com a possibilidade até de que a história um dia o reconheça como "sentido literal".

É importante notar também que a estrutura morfológica de uma palavra, isto é, o fato de que ela é uma combinação de literal + mente, não determina completamente o seu sentido. Mesmo que o faça inicialmente, isto é, no primeiro momento em que o vocábulo foi formado, vem sempre o uso da língua, que acaba levando a expressão a outras direções.

Mais ilógico do que esse uso de literalmente, parece ser execrá-lo sem também abominar uma frase como "Naquele dia, meu mundo realmente acabou", afinal, o que está sendo enfatizado por realmente não é um evento que aconteceu na realidade - a não ser no caso do tal extraterrestre. Ou, então, será que deveríamos também banir o uso de literalmente na língua falada? Afinal, não saem letras de nossa boca quando falamos (Nota: isso acontece com crianças comendo sopa de letrinhas).

Aliás, na língua inglesa, puristas reclamam desse uso de literally há um bom tempo. Abaixo, um item da "lista negra de falhas literárias" de "Write it Right" (1909), por Ambrose Bierce, que traz exemplos desse uso "não-literal" de literally, já no início do século passado.

Literally for Figuratively. "The stream was literally alive with fish." "His eloquence literally swept the audience from its feet." It is bad enough to exaggerate, but to affirm the truth of the exaggeration is intolerable.

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Atualização: Ver o post do Filisteu e as atualizações do post do Cafeína para uma boa continuação desse assunto.


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