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Chomsky, Análise do Discurso e um pouco de liberdade por Emanuel Souza de Quadros

Em um belo dia, alguém resolveu escrever em seu blog um texto sobre a relação entre a Análise do Discurso (AD) francesa e o trabalho de Chomsky na Lingüística; com um pouco de humor, dizem. Acontece que um outro vivente resolveu copiar esse texto na íntegra e reproduzi-lo em uma bem conhecida lista de discussão, a Comunidade Virtual da Linguagem (CVL), da qual fazem parte milhares de pessoas das mais variadas áreas dos estudos da linguagem. O resultado não poderia ter sido outro: fuzuê, rebuliço, pega-pra-capar… Mas acredito que a intenção de quem reproduziu o texto tenha mesmo sido essa (they always feed the trolls).

Em linhas gerais, o autor do texto original, Pablo Faria, coloca duas idéias como paralelas. A primeira é a de que nossos enunciados são historicamente determinados, isto é, de que só dizemos o que é autorizado pelas ideologias que nos constituem. A segunda é a idéia (de Pablo, não de Chomsky) de que nossos enunciados são gramaticalmente determinados, isto é, de que só podemos dizer coisas que se conformem às regras ditadas por nosso sistema lingüístico. Tais idéias seriam colocadas como paralelas, porque ambas descrevem meios de determinar os limites do que pode ser dito por um sujeito, sem que ele perca a ilusão de autonomia e de total controle sobre seus enunciados.

Até aí tudo bem. As pessoas leriam, discordariam (eu mesmo discordaria da caracterização do lado chomskyano da história), mas deixariam para lá. O problema é que, no fim do post, o autor diz que Chomsky havia formalizado anos antes a idéia que a AD viria a afirmar. Assim, o bom velhinho seria o pai da Análise do Discurso. Tudo isso, é claro, com uma intenção satírica, como afirma o próprio autor em um texto mais recente.

Mas, como intenções são, em grande medida, invisíveis, o povo caiu em cima, trazendo o que pôde. Muitos deles conseguiram ser ainda mais fora da casinha do que o texto original, que ao menos tinha uma certa intenção satírica. Um dos comentaristas chegou até a qualificar o texto como inconseqüente, porque, afinal, o blogueiro que o escreveu é um mestrando da Unicamp e, como tal, não deveria expor sua orientadora e sua instituição. Para mim, esse foi o pior comentário, porque mostra um lado perverso da vida de quem escreve sobre um assunto, cof, cof, "acadêmico" em um ambiente informal (e pessoal), como um blog. É que mesmo nesse tipo de situação, em que a sensação de liberdade de reflexão é bem maior, a posição acadêmica de quem fala ainda exerce uma pressão constrangedora.

Liberdade de expressão deve fazer parte dos contextos formais da academia também, é claro. Um lingüista deve ser livre para publicar um artigo explorando relações entre coisas tão diversas como Gerativismo e Análise do Discurso. É óbvio que alguém teria que ser ninja para escrever um texto defendendo que Chomsky é o pai da Análise do Discurso e ainda conseguir publicá-lo em alguma revista dedicada à historiografia da Lingüística.

Em um blog, contudo, as limitações devem ser ainda menores. E não é que não haja avaliação por pares neste contexto. Há sim, e ela é bem mais rápida e talvez mais interessante do que a tradicional. A diferença é que ela só entra em ação após o texto já ter sido publicado. Portanto, a aparição de um texto como esse não deveria causar tanta comoção, ao menos não desse tipo; trata-se, antes, de uma oportunidade de avaliação, e isso significa olhar para os argumentos do rapaz, compreendê-los e discuti-los abertamente.

O fato de alguma controvérsia ter surgido apenas mostra que as questões trazidas pelo texto não estão superadas, ao menos para quem escreveu sobre elas - e garanto que não apenas para ele. Não há nada mais justo do que olhar para elas e superá-las, então. Pior do que isso é fugir de questões desse tipo para evitar constrangimentos. Eu diria que essa é uma boa maneira de perpetuar idéias equivocadas e fazer com que elas entrem mesmo na academia pela porta dos fundos; afinal, um mestrando que poderia ter falado sobre um assunto que para ele era problemático, mas teve medo de fazê-lo, pode se tornar um professor no fim do dia. Blogs são excelentes oportunidades de tocar nesses assuntos de maneira aberta e de entrar em contato com o que outras pessoas têm a dizer sobre eles.

Outra particularidade do tipo de avaliação existente na blogosfera é que sua eficiência e sua qualidade são proporcionais ao número de indivíduos envolvidos com blogs da área, sejam eles blogueiros ou leitores. Por isso, uma parte boa dessa história toda é que acabo de saber da existência do Languetrix, blog onde o tal texto foi publicado. Aumenta, assim, o tamanho da blogosfera lingüística brasileira conhecida por mim e pelos leitores do Language Bar.


Inventário das línguas do Brasil por Emanuel Souza de Quadros

De acordo com uma matéria publicada hoje no Estado de São Paulo, o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) aprovou a realização de um levantamento das línguas que são faladas no Brasil.

Não conheço o histórico de realização desse tipo de pesquisa por aqui, mas lembro da conferência de abertura do III Seminário Internacional de Fonologia, no ano passado. Nela, a professora Yonne Leite (UFRJ) citou algumas tentativas anteriores de mapear as línguas indígenas brasileiras, que obtiveram resultados conflitantes. Não é difícil imaginar razões para estudos desse porte divergirem, começando pela questão básica de sabermos identificar quando estamos diante de uma variedade de uma língua que já conhecemos ou diante de uma nova língua.

Ainda assim, o novo mapeamento, promovido pelo Iphan, parece ter pretensões maiores. A idéia é contemplar, além das indígenas, línguas afro-brasileiras e de imigrantes, e também as variedades do próprio português (o que contradiz o início da matéria, que diz "à exceção do português").

A notícia me lembrou da primeira conversa que tive com meus alunos do estágio de língua inglesa (8ª série), quando eles se surpreenderam ao saber que há, atualmente, mais de cem línguas espalhadas pelo Brasil, além do português. O levantamento do Iphan vem com um objetivo de promover esse reconhecimento em uma escala maior.


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