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A Mais Bela Descrição da Linguagem por César Gonzalez

 
Estou lançando aqui no Language Bar o concurso A Mais Bela Descrição da Linguagem. E o meu candidato favorito até o momento é o estruturalista dinamarquês Louis Hjelmslev. O primeiro parágrafo de Prolegômenos a uma Teoria da Linguagem é a mais bela descrição da linguagem que eu já li. Um pouco longo, mas peço que o leitor tenha paciência, pois vale a pena: 
A linguagem - a fala humana - é uma inesgotável riqueza de múltiplos valores. A linguagem é inseparável do homem e segue-o em todos os seus atos. A linguagem é o instrumento graças ao qual o homem modela seu pensamento, seus sentimentos, suas emoções, seus esforços, sua vontade e seus atos, o instrumento graças ao qual ele influencia e é influenciado, a base última e mais profunda da sociedade humana. Mas é também o recurso último e indispensável do homem, seu refúgio nas horas solitárias em que o espírito luta com a existência, e quando o conflito se resolve no monólogo do poeta e na meditação do pensador. Antes mesmo do primeiro despertar de nossa consciência, as palavras já ressoavem à nossa volta, prontas para envolver os primeiros germes frágeis de nosso pensamento e a nos acompanhar inseparavelmente através da vida, desde as mais humildes ocupações da vida quotidiana aos momentos mais sublimes e mais íntimos dos quais a vida de todos os dia retira, graças às lembranças encarnadas pela linguagem, força e calor. A linguagem não é um simples acompanhante, mas sim um fio profundamente tecido na trama do pensamento; para o indivíduo, ela é o tesouro da memória e a consciência vigilante transmitida de pai para filho. Para o bem e para o mal, a fala é a marca da pesonalidade, da terra natal e da nação, o título de nobreza da humanidade. O desenvolvimento da linguagem está tão inextrincavelmente ligado ao da personalidade de cada indivíduo, da terra natal, da nação, da humanidade, da própria vida, que é possível indagar-se se ela não passa de um simples reflexo ou se ela não é tudo isso: a própria fonte do desenvolvimento dessas coisas (p. 1-2).
Estou lançando o desafio: se conheces uma descrição tão bonita quanto essa (ou ainda mais bonita que essa), por favor, entre em contato!

Descartes e a Linguagem por César Gonzalez

Leitura interessante é a do Discurso Sobre o Método de Descartes. Além de toda uma teorização preocupada com a busca da verdade, e que lança as bases de uma filosofia da ciência, o pensador francês também discute linguagem.

Para ele, a linguagem é uma das características da alma humana que não pode ser reconhecida na natureza. Ela é um dos traços que diferenciam humanos e animais. Animais, por mais que possam imitar palavras, não podem colocá-las em ordem como que representando por palavras aquilo que pensam:

as pêgas e os papagaios podem proferir palavras como nós, mas não podem falar como nós, isto é, demonstrando que pensam o que dizem (p. 71). 

Descartes ainda afirma que, se houvesse máquinas semelhantes a humanos, elas ainda assim não seriam capazes de nos enganar e haveria, pelo menos, dois meios de as identificar como máquinas, um deles a linguagem:

O primeiro meio [de se diferenciar uma máquina de um humano] reside no fato de que jamais poderiam empregar palavras ou outros sinais, compondo-os como nós o fazemos, para transmitir aos outros os nossos pensamentos (p. 69).

A diferença reside no fato de humanos possuírem uma alma racional - penso, logo existo - cuja existência é fruto de desígnio divino. Deus, em sua magnânima perfeição, concedeu ao homem a razão, o meio pelo qual atingir a verdade. E graças à razão possuímos a linguagem, que o filósofo reconhece, também, nos surdos-mudos, algo que se soma às diferenças entre homens e animais:

homens que, tendo nascido surdos-mudos, são providos dos órgãos de que os outros se servem para falar, tanto ou mais do que os animais, costumam inventar por si mesmos alguns sinais pelos quais se fazem entender pelos que, estando habitualmente em sua companhia, têm a oportunidade de lhes aprender a língua (p. 71). 

Por fim, já na penúltima página de seu Discurso, Descartes comenta o fato de escrever em francês (e não em latim, como era usual na época, séc. XVII [1637]). Diz ele, alfinetando os "bastiões do bem falar e bem escrever" do início da idade moderna:

Escrevo em francês, que é a língua do meu país, de preferência ao latim, que é a dos meus preceptores. Espero que os que se servem exclusivamente de sua razão natural poderão assim julgar melhor as minhas opiniões do que os que só acreditam nos livros antigos. Quanto aos que unem o bom senso ao estudo, os únicos que desejo ter como juízes, estou certo de que não serão tão apaixonados pelo latim que recusem ouvir minhas razões só porque as explico em língua vulgar (p. 93). 

 

DESCARTES, Réné (1637). Discurso sobre o método. São Paulo: Atena, 1960.


C#NS##NT#S²: # R#T#RN# por César Gonzalez

 
Pouco depois da publicação de C#NS##NT#S, abri, para meu prazer, Language do Bloomfield, e lá, no capítulo um, encontrei um outro argumento para imaginar que consoantes estão realmente mais ligadas ao significado de uma palavra do que a sua ordem gramatical. Ao explicar Etimologia e os estudos do Indo-Europeu, Bloomfield lista a palavra mãe em várias línguas, desde o inglês (mother) até o eslávico (mati) (passando pelo antigo armênio, mair, latim, mater etc.). Ora, há em todas essas palavras pelo menos uma consoante idêntica {m}, e todas essas linguas são relacionadas, todas parentes, algumas mais distantes, outras mais próximas, todas do ramo Indo-Europeu. Podemos pensar que, talvez, essas consoantes tenham algo a dizer a respeito do significado e parentesco dessas palavras.
 
Discutindo com nosso colega de Language Bar, Emanuel, a relação das vogais com a gramática ficou mais clara. Para entender basta pesar o sistema verbal irregular do inglês: to meet - met - met, ou to read - read - read, por exemplo. A grande diferença entre o infinitivo e as formas do passado e particípio dos verbos está na qualidade da vogal dessas palavras. É esse o tipo de informação gramátical que está contida nas vogais. Talvez tenhamos várias consoantes por causa de um amplo léxico, e menos vogais por causa do menor número de regras gramaticais - não é mesmo, Manu?
 
Continuo pensando consoantes, e convidando pessoas a me desafiar com perguntas e dados! 

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