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January 31, 2008

*Quake your body por Emanuel Souza de Quadros

Geoffrey K. Pullum tem um post interessante no Language Log sobre a idéia que muitos não-lingüistas fazem da relação entre sintaxe e semântica; ou melhor, de como aquela seria completamente derivável desta. De acordo com essa visão, o modo como se dispõe uma palavra qualquer em uma sentença segue-se diretamente do significado dessa palavra. Isso implicaria não haver nada de não-trivial para ser dito sobre fatos sintáticos: eles seriam, pura e simplesmente, reflexo da organização semântica da sentença.

Um exame de qualquer língua natural revela muitos contra-exemplos a essa idéia. Um dos que Pullum aponta é a diferença de transitividade entre to quake e to shake, do inglês. Ambas as palavras têm basicamente o mesmo significado e podem ser traduzidas para o português como tremer. No entanto, to shake é transitivo, mas to quake
não. Por exemplo, se traduzíssemos a frase o temporal tremeu o mar para o inglês, poderíamos dizer the storm shook the sea, mas nunca *the storm quaked the sea, embora não seja evidente por que o significado de quake impediria tal uso.

Exemplos desse tipo são bons para que alguém se convença de que Sintaxe e Semântica constituem duas subdisciplinas distintas e relativamente independentes dentro da Lingüística. É evidente que isso não quer dizer que não haja intersecções entre elas, quer dizer apenas que há fatos puramente sintáticos e fatos puramente semânticos. Na prática, qualquer estudo aprofundado da sintaxe de uma língua deve fazer referência a fatos de natureza semântica, assim como um estudo aprofundado da semântica de uma língua deve fazer referência a fatos de natureza sintática.

Deixando de lado a divisão de tarefas entre as áreas da Lingüística, podemos ver uma implicação dessa discussão para a aquisição da linguagem: um aprendiz deve saber que certos tipos de evidências não são determinantes das propriedades sintáticas de um item lexical. Imaginemos, por exemplo, uma criança na tarefa de aprender os verbos shake e quake com suas respectivas valências. Se ela pensasse como um adulto não-lingüista, nada a impediria de considerar quake como um verbo transitivo, afinal isso é semanticamente possível: ela pode fazer seus brinquedos tremerem e pode usar shake, de mesmo significado, para descrever a situação, transitivamente. O fato de os adultos a sua volta não utilizarem quake como transitivo pouco importa - eles também não dizem que não se pode fazer isso.

Já uma criança com uma teoria mais restritiva da relação entre sintaxe e semântica, não se deixaria levar pela semelhança de significado entre os dois verbos. Ela saberia que a diferença de transitividade entre eles deve ser resolvida por meio de uma simples evidência distribucional: na fala do adulto, shake coocorre com um objeto direto, e quake não, embora ambos tenham significados muito semelhantes. As crianças reais parecem ser mais próximas desta última.

January 18, 2008

Arbitrariedades and all that por Emanuel Souza de Quadros

Do baú de notícias velhas, um texto publicado na Slate sobre o best-seller do jornalista Harry Mount sobre a língua latina. No texto, Emily Wilson chama atenção para o título da edição norte-americana da obra: Carpe Diem: Put a little Latin in your life. No original britânico, o título é Amos, Amas, Amat … and All That. De acordo com ela, a mudança reflete algo sobre a posição do latim nas culturas norte-americana e britânica. Nesta, esperar-se-ia que pessoas razoavelmente educadas reconhecessem o paradigma latino, ao passo que, naquela, não se esperaria que muitos o fizessem.

Aqui a mudança teria que ser mais drástica. Numa eventual tradução do livro para o mercado brasileiro, a expressão Carpe Diem seria barrada pelo censor oficial da Língua Portuguesa. Tudo para nos defender da invasão imperialista da cultura romana. Também para lembrar seus eleitores de que eles não têm a menor competência para entender alguma dessas expressões estrangeiras que tanto "dificultam a comunicação do povo brasileiro" (Gazetaweb.com - Gazeta de Alagoas, 23/12/2007).



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