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June 9, 2007

A genética e a distribuição das línguas tonais - Dediu & Ladd (2007) por Emanuel Souza de Quadros

Dado que, de acordo com o que acreditamos, qualquer ser humano, em idade adequada, é capaz de adquirir qualquer língua do mundo, não esperamos encontrar qualquer dependência entre uma determinada característica gramatical e a ocorrência de um ou mais genes que não estejam presentes em todos os seres humanos. Acontece que, ultimamente, revistas internacionais, como a Scientific American, têm dado destaque para uma suposta relação deste tipo, descoberta por dois lingüistas da Universidade de Edimburgo, Dan Dediu e Robert Ladd.

Na verdade, apesar do exagero da imprensa, o que os lingüistas encontraram em seu estudo não é uma dependência, no sentido de que a aparição de uma característica gramatical seja determinada por uma certa configuração genética. O que encontraram é uma forte correlação entre a freqüência populacional das variantes de dois genes ligados ao tamanho do cérebro, ASPM e Microcephalin, e a distribuição das línguas tonais. Estas se encontram em menor número nas regiões em que as variantes recentes dos genes, com idades estimadas de 6 mil e 37 mil anos, respectivamente, são mais freqüentes. Onde essa freqüência é baixa, predominando as variantes mais antigas desses genes, é alto o número de línguas tonais. É o que mostra o gráfico abaixo, adaptado de Dediu & Ladd (2007):


Gráfico 1 - As freqüências populacionais das variantes novas dos genes ASPM e Microcephalin são indicadas nos eixos horizontal e vertical, respectivamente.Quadrados preenchidos representam línguas não-tonais; quadrados não-preenchidos representam línguas tonais.

Na área inferior esquerda do gráfico, observamos apenas línguas tonais, agrupadas em áreas em que há baixa freqüência de ocorrência das novas variantes de ambos os genes. Em contraste, na área superior direita, temos línguas não-tonais, em áreas em que a freqüência das novas variantes na população é alta. Qualquer conclusão tirada dessas correlações deve soar precipitada, dado o pouco que se sabe sobre a natureza dos genes em questão. Os autores sugerem a possibilidade de que haja uma influência genética na distribuição das línguas tonais e não-tonais e de que isto se dê em três etapas: (1) no nível do indivíduo, as novas variantes dos genes em questão teriam trazido pequenas mudanças nas estruturas e funções cerebrais; (2) essas alterações influenciariam sutilmente a aquisição da linguagem e/ou a maneira como processamos os tons; e (3) a transmissão cultural das línguas através das gerações se encarregaria de amplificar as tendências resultantes do item anterior, gerando as diferenças tipológicas entre as línguas.

O caminho proposto, apesar de propor uma ligação indireta entre a freqüência das variantes dos dois genes e a de uma característica gramatical, é conciliável com a idéia de que todos os seres humanos são capazes de aprender qualquer língua do mundo. Sabemos que há tanto pessoas com as variantes antigas dos dois genes em regiões dominadas por línguas não-tonais como pessoas com as variantes novas em regiões dominadas por línguas tonais; em ambos os casos, os indivíduos são capazes de adquirir sua língua materna sem dificuldades, apesar de não se enquadrarem na correlação proposta. Podemos pensar, no entanto, em alguma interferência sutil desses genes no modo como se dá a aquisição e/ou o processamento dos tons, que, claro, não é perceptível no nível do indivíduo ou da língua sincrônica. As tendências de mudança decorrentes dessas pequenas interferências só se tornariam perceptíveis após serem amplificadas por várias gerações de transmissão lingüística, a ponto de gerarem as diferenças tipológicas que encontramos no uso dos tons pelas línguas do mundo.

As indicações do estudo podem se mostrar bastante interessantes, mas, como sabemos, correlação não é causalidade. Digo isso porque a imprensa costuma exagerar quando divulga um estudo como esse, dando a entender que as línguas não-tonais estão diretamente ligadas à aparição das novas variantes desses genes. É o caso da Scientific American, revista por que tomei conhecimento do trabalho. Devo ter ficado mais empolgado com os resultados do estudo que os editores da revista, mas é preciso cautela. O padrão observado no gráfico pode muito bem ser fruto do acaso, de coincidências históricas entre as mudanças lingüísticas e a deriva genética. Pode mesmo ser coincidência que a distribuição das línguas não-tonais correlacione-se com a distribuição das novas variantes dos dois genes, assim como pode não ser. O estudo apenas levanta essa questão e sugere uma possível relação causal, ainda que indireta, entre as duas distribuições. Falta entender mais claramente a natureza e as funções desses dois genes e de suas novas variantes. Minha esperança é de que, com uma compreensão maior de como a constituição genética influencia nosso comportamento e nosso desenvolvimento cognitivo, ligações como essa possam ser mais seguramente estabelecidas em pesquisas futuras.

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