Conceitos Básicos - Morfologia
Com saudades de ler os primeiros textos sobre Morfologia e seguindo a idéia do Emanuel de fazer um post com "conceitos básicos", escrevo aqui algo para responder a pergunta de um possível internauta que digite no Google: O que é Morfologia?
E ela é - segundo qualquer texto introdutório sobre o assunto - o estudo da estrutura, formação e categorização dos vocábulos. Se o caso for dar uma resposta menos ligada à lingüística e mais relacionada com a gramática normativa, a morfologia então é definida como o componente gramatical que trata da estrutura interna das palavras.
Mas o que é a palavra? E isso é outro ponto que irá estar presente em qualquer livro introdutório sobre o assunto. Não há como falar sobre Morfologia sem termos bem claramente o conceito de palavra.
Da perspectiva fonológica, a palavra é uma unidade acentual, um conjunto marcado por um só acento tônico. Sintaticamente, temos que uma seqüência de sons só pode ser definida como palavra se puder ser usada como resposta mínima a uma pergunta ou se puder ser usada em várias posições sintáticas (cf. Maria Filomena Spatti Sandalo, em Introdução à Lingüística). Essa definição de palavra através da Sintaxe é bastante discutível, mas é um meio fácil de explicar - por essa ótica - o conceito.
A definição morfológica de palavra é que palavra pode ser definida pela quantidade de raízes que possui. Ainda temos a definição semântica que nos diz que palavra é aquilo que possui apenas um significado. Mas é uma definição frágil, pois podemos contrapor dizendo que em fabricante e aquele que fabrica temos apenas um significado e sabemos intuitivamente que apenas o primeiro exemplo é uma palavra.
É um pouco complexo de se definir “palavra”, mas parece que um conceito para tal não se pode dar isoladamente, tem de se ter uma concepção de palavra em níveis morfológicos, sintáticos, semânticos e fonológicos.
Definindo palavra então, temos a unidade máxima da Morfologia.
Qual é sua unidade mínima?
As unidades mínimas da morfologia são os elementos que compõe uma palavra. O conhecimento desses elementos é o que nos permite entender uma palavra que nunca ouvimos antes. Se nunca ouvimos Nacionalização, podemos descobrir o que significa se soubermos o significado de nação e o significado dos elementos que derivam novas palavras no português, como -al, -izar e -ção.
A unidade mínima e o objeto de análise da Morfologia é o Morfema, definido como a menor unidade dentro de uma palavra que carrega um significado. Em (Kehdi, 1989) há uma comparação com a fonologia: Morfemas são significativos, enquanto os fonemas são distintivos.
Estudo do Componente Morfológico:
Os estudos morfológicos podem ser divididos em quatro correntes: A corrente PALAVRA e PARADIGMA, puramente descritivista; A corrente ligada ao historicismo, sem grandes evoluções; A corrente estruturalista de ITEM e ARRANJO e a corrente gerativista, chamada de ITEM e PROCESSO. O foco deste post está ligado a estas duas últimas correntes.
Estruturalismo (Escola de Item e Arranjo)
A partir do estruturalismo europeu com Saussure, passa-se a estudar a língua de uma perspectiva sincrônica. Paralelo à vertente européia surge o estruturalismo norte-americano com Edward Sapir e Leonard Bloomfield. Os lingüistas dessa época passaram a descrever línguas indígenas e assim chegaram ao conceito de MORFEMA.
A escola é assim chamada, pois se baseava no elemento (ITEM) e na sua distribuição na língua (ARRANJO).
Segundo (Rocha 1998), a visão estruturalista desenvolveu com bastante rigor as técnicas de depreensão dos morfemas. Em síntese, diz ele, o estruturalismo se preocupou basicamente com duas coisas:
a) fazer a segmentação dos morfemas;
b) proceder à classificação dos morfemas;
A morfologia estruturalista se aproxima bastante da morfologia da Gramática normativa. Como já foi citado, é uma parte da gramática que trata da estrutura interna das palavras, que – complementado – descreve sua formação e estrutura.
Nessa morfologia, diferente da morfologia gerativa, a preocupação era em separar e classificar os morfemas de uma língua, como veremos agora.
Unidades Mínimas Significativas:
A palavra é um elemento de constituição complexa cuja análise poderá conduzir a uma base mais rigorosa (cf. Kehdi).
Para chegarmos a essa base estabeleceremos que:
- As comparações devem ser feitas por pares.
- Cada par deve apresentar UMA SÓ relação de semelhança e UMA SÓ relação de diferença.
-
Os elementos destacados devem ter um valor significativo.
Falávamos
Falava
SEMELHANÇA: Falava.
DIFERENÇA: -mos.
-mos, é um elemento significativo, pois indica que a ação é expressa por um grupo de pessoas, incluindo o falante.
Falava
Fala
SEMELHANÇA: Fala.
DIFERENÇA: -va.
-va, indica pretérito imperfeito do indicativo.
A comparação com as outras formas do mesmo verbo nos conduz a interpretações corretas sobre a divisão dessa palavra em unidades mínimas significativas. Falava, falaremos, falariam, falasse, falaste e.t.c Isso nos indica que muito provavelmente a seja a vogal temática desta palavra. E que Fal-, seja o radical.
Como se depreende um morfema?
É através da COMUTAÇÃO (ou substituição, segundo os lingüistas norte-americanos). Quando na comparação de pares mínimos a substituição de um traço por outro acarreta uma mudança de significado, realizamos uma COMUTAÇÂO.
Em AMAMOS substituindo por AMAIS obtém-se uma mudança de significado.
No primeiro caso temos 1a. pessoa do plural e no segundo caso temos 2a. pessoa do plural. Foi feita uma COMUTAÇÃO desse par mínimo e como obtivemos diferença de significado temos dois morfemas /mos/ e /is/.
A Dupla Articulação da Linguagem:
Martinet estabeleceu a Teoria da Dupla Articulação da Linguagem em que a PRIMEIRA ARTICULAÇÃO corresponde aos Monemas e a SEGUNDA ARTICULAÇÃO corresponde aos Fonemas.
Segundo esta teoria, as unidades mínimas significativas são os MONEMAS.
Os Morfemas de valor lexical (adjetivos, substantivos) e que pertencem a um inventário aberto são os LEXEMAS ou SEMANTEMAS, porque encerram em cada vocábulo o elemento semântico básico.
Os Morfemas de valor gramatical (afixos, preposições) e que pertencem a um inventário fechado são os MORFEMAS.
Alomorfia:
Assim como os fonemas, na morfologia também temos casos de DISTRIBUIÇÃO COMPLEMENTAR: onde utilizamos uma variante, não podemos utilizar outra.
Em INFELIZ, por exemplo, a comparação com FELIZ nos faz depreender o morfema –in. Esse mesmo morfema realiza-se como i - antes de radicais iniciados por L-, M- e R-> Ilegal, Imoral, Irreal. Essas diferentes realizações são designadas como ALOMORFES.
Exemplo: MIM realiza-se como /mim/ após qualquer preposição diferente de /com/, seguindo de COM temos a variante /migo/.
No adjetivo AMÁVEL, depreendemos o MORFEMA –vel. Esse morfema se realiza como –bil quando antecede morfemas iniciados por vogal:
AMA –BIL –IDADE. O significado é o mesmo, ou seja, -bil é alomorfe de -vel.
A existência de diferentes alomorfes para um mesmo morfema remete-nos ao problema da escolha de um deles para representar o conjunto. O alomorfe selecionado recebe o nome de FORMA BÁSICA.
Critérios para se Estabelecer a Forma Básica:
a) CRITÉRIO DISTRIBUCIONAL:
Dentre as variantes existentes é escolhida como forma básica a mais freqüente. No caso de MIM/MIGO, mim ocorre em um maior número de casos na língua, logo é selecionado como a forma mais básica.
b) CRITÉRIO DA REGULARIDADE DE FORMAÇÃO:
Usa-se este critério quando os alomorfes apresentam a mesma freqüência. Por exemplo, o futuro do presente do indicativo é expresso por –rá- e –re- que ocorrem três vezes cada um. (Amarás, amará, amarão) e (Amarei, Amaremos, Amareis). De acordo com o critério estatístico os morfemas indicativos de tempo e modo apresentam todos formas básicas em –a e possuem variantes em –e. Logo, -rá é considerado como FORMA BÁSICA.
c)CRITÉRIO DE ISOLAMENTO:
Nos casos em que uma das variantes ocorre isoladamente, enquanto outra só aparece atrelada a um novo morfema, é a primeira que deve ser forma básica.
CHAPÉU possui a variante CHAPEL-, mas esta variante só é utilizada quando seguida de um morfema iniciado por vogal: Chapelaria. Então a forma básica deve ser a primeira.
Tipos de Morfemas:
RADICAL: É o elemento irredutível e comum às palavras de uma mesma família. Ex: Ferro/Ferradura/Ferramenta.
AFIXOS: São os morfemas que se anexam ao radical para mudar-lhe o sentido (fazer/desfazer) ou para acrescentar uma idéia secundária. (livro/livreco).
As principais propriedades dos prefixos e sufixos é se anexarem ao radical para mudar seu sentido ou acrescentar uma idéia secundária, também modificam a classe de um vocábulo. A presença de um prefixo no radical não modifica sua classe, mas a presença de um sufixo modifica a classe gramatical de uma palavra.
DESINÊNCIAS: São os morfemas terminais de palavras variáveis. Servem para indicar as flexões de gênero e número (Desinências Nominais), e de Modo e Tempo, Número e Pessoa (Desinências Verbais). As desinências colocam a palavra na frase; são morfemas que não se pode dispensar, pois toda a forma verbal portuguesa está associada ás noções de tempo e modo e número e pessoa.
DESINÊNCIAS DE GÊNERO: Exprime-se através de FLEXÃO (garoto/garota), de DERIVAÇÃO (conde/condessa) ou de HETERONÍMIA (bode/cabra).
>> Mattoso propõe que a flexão de masculino se opõe em 0 ao feminino em –a, ao contrário do que prevê a Gramática Normativa. O argumento é que não podemos considerar –o como marca de masculino simplesmente por se opor à –a, porquê esse mesmo raciocínio nos obrigaria a considerar como masculino –e (Mestre/mestra). E não podemos considerar –e como masculino, pois temos exemplos como (a ponte). A solução é considerar o masculino como forma desprovida de flexão específica. Exemplo:
RADICAL VT DG DN
Menin + o + 0 + 0
DESINÊNCIAS DE NÚMERO: A ausência de desinência para o singular permite-nos dizer que no referente ao número o singular é caracterizado pelo morfema zero. O plural é geralmente caracterizado por –s. Temos casos, palavras terminadas por consoantes em –r e –z, que a formação do plural em nomes como Mar e Cruz é em –es. Como: Mares e Cruzes. Pode-se explicar sincronicamente dizendo que nestas duas palavras foi acrescentado um alomorfe –es da desinência –s. De acordo com isso pessoas com menos escolarização diriam: dois pires e 1 pir. Ou podemos explicar que a desinência do plural é sempre –s, sem variantes, e em uma análise diacrônica dizer que o –e vem das formas *mare e *cruze.
DESINÊNCIAS VERBAIS: Há dois tipos de desinências verbais; as que exprimem modo e tempo (DMT) e as que exprimem número e pessoa (DNP). As desinências modo temporais vêm antes das desinências número-pessoais, isso ocorre em português e em outros idiomas.
Exemplo: Desinência MT do presente do Indicativo.
Canto – CANT (Radical) + o (Vogal Temática) + 0 (DMT)
VOGAIS TEMÁTICAS NOMINAIS: As vogais temáticas nominais, em português, são –a, -e, -o. Assim, poderia haver confusão entre VT e DG, mas não há. Enquanto –o e –a desinenciais comutam com –a e –o para exprimir mudança de gênero (menino/menina), isso não ocorre com as vogais temáticas (livro e *livra), -o e –a temáticos não se associam às noções de masculino e feminino.
A vogal temática –o apresenta em alguns lugares a variação com –u. Por exemplo: Conceito/conceitual/conceituoso.
Mar e Lar e Cruz, por ex, seriam atemáticos, já que –es é alomorfe.
VOGAIS TEMÁTICAS VERBAIS: São três, no português: -a (primeira conjugação) –e (segunda conjugação) –i (terceira conjugação). Pode-se identifica-las pelo infinitivo, são as vogais que antecedem o –r desinencial:
am-a-r,vender,partir.
Gerativismo:
O gerativismo de Noam Chomsky introduziu uma nova concepção nos estudos da linguagem. Dentro da abordagem gerativa, palavras são formadas por regras e/ou analisadas por regras de modo que o estabelecimento de unidades como morfemas e afixos é desnecessário.
A idéia da teoria gerativa é que em vez de um léxico de afixos, a morfologia de uma língua deveria consistir em um conjunto de regras que descreveriam as modificações das formas existentes que estariam relacionadas com outras formas.
A teoria gerativa responde perguntas que o estruturalismo não pode responder, como:
1) Por que formamos novas palavras?
2) Quando formamos novas palavras?
3) Quando variamos uma mesma palavra e quando criamos uma nova?
4) Existem palavras impossíveis?
O objetivo de uma teoria morfológica, segundo SCALISE (1984:41) é o de definir as ‘novas palavras’ que os falantes podem formar, ou mais especificamente, as regras através das quais as palavras são formadas.
Todas essas informações foram baseadas nos livros "Morfemas do Português" de Valter Kehdi e "Estruturas Morfológicas do Português" de Luis Carlos de Assis Rocha. Tais informações bem diretas e precisas, como costumam ser os textos bastante introdutórios. Kehdi, por exemplo, não problematiza várias questões que seriam dignas de uma maior discussão. Mas isso, acredito, basta para responder O que é Morfologia? E já fica a sugestão para que os outros autores do blog continuem com a série "Conceitos Básicos".

Os estudos morfológicos podem ser divididos em quatro correntes: A corrente PALAVRA e PARADIGMA, puramente descritivista; A corrente ligada ao historicismo, sem grandes evoluções; A corrente estruturalista de ITEM e ARRANJO e a corrente gerativista, chamada de ITEM e PARADIGMA. O foco deste post está ligado a estas duas últimas correntes.
A corrente PALAVRA e PARADIGMA não é puramente descritivista. Ao menos não mais que as outras duas citadas. Quanto à terceira, acho que tu quis dizer ITEM e PROCESSO, certo?
Também não dá para dizer que ITEM e PROCESSO e gerativismo se igualam. IP foi utilizada também por Bloomfield, em parte de sua obra, e por Panini, muito antes de o gerativismo, como teoria, aparecer. Por outro lado, também há morfologia gerativa utilizando PALAVRA e PARADIGMA e ITEM e ARRANJO. Aliás, é difícil imaginar uma morfologia processual sem pressupor, também, uma noção de arranjo ou de paradigma.
Comment by Emanuel Quadros — 17/04/2007 @ 10:06
Sim, quis dizer Item e Processo, já arrumei. Valeu. E certo o Panini já usava Item e Processo bem antes, mas a idéia não era dar tanta informação nem problematizar. Se eu não recortasse as informações ficariam um texto grande demais;
Comment by Tiago Martins — 17/04/2007 @ 14:10
Tiago. Não é uma questão de recorte, de quantidade de informação. Não estou dizendo que tu deveria ter mencionado Bloomfield ou Panini naquele parágrafo.
É só uma questão de precisão: não parece correto igualar morfologia gerativa a ITEM e PROCESSO se morfologias anteriores já utilizavam essa noção, e se gerativistas também utilizam PP e IA, de acordo com a teoria.
É certo que IP é um tipo de abordagem proeminente na morfologia gerativa, mas uma coisa continua sendo uma coisa ,e outra coisa continua sendo outra coisa.
Comment by Emanuel Quadros — 17/04/2007 @ 19:51
Ok, entendi. Concordo. Vou ver como posso esclarecer isso no texto.
Comment by Tiago Martins — 17/04/2007 @ 21:36
Olá, sou estudante de Letras e gostaria de saber como funciona esses modelos de analise morfologica IP e IA. Obrigado.
Comment by Carlos Alexandre — 30/04/2007 @ 11:56
Muito bom o texto, Tiago. Eu estava com dúvidas sobre alguns termos específicos que estavam confusos no material que estou estudando, mas seu texto clareou muita coisa. Obrigada.
Comment by Lais — 03/05/2007 @ 14:30
Oi Tiago! Tô com umas dúvidas… Será que vc pode me ajudar? É sobre a flexão de gênero segundo Rocha (1998), conceito de sigla/ palavra e emprego do diminutivo. Sou estudante de Letras, na Federal de Viçosa. Obrigada!
Comment by Karine — 13/05/2007 @ 22:53
resenha critica do livro Morfemas do Portugues
Comment by MARIO — 03/06/2007 @ 10:14
Valeu thiago! o seu trabalho é interessante, porém deveria fazer alguma referência em relação as formas presa e livre. E dar uma maior ênfase em relação a comutação.
Comment by cirilo coelho — 19/02/2008 @ 14:51
muito boa a sua materia foi de grande valia para mim…Obrigada….
Comment by leticia — 27/05/2008 @ 19:44
De que forma a morfologia pode nos ajudar nas interpretações de texto?
Comment by RAFAELA — 14/09/2008 @ 14:17
ok !! gostei muito desse site bjus
Comment by leticia — 17/11/2008 @ 19:49
Quebrou um super galho la em letras pra mim e pra alguns da turma!
Gratos!
Comment by Paula — 16/12/2008 @ 21:00
Sou estudante de Letras; estou com muita dificuldade em assimilar o sentido de certos conceitos sobre Morfologia.
Tenho lido bastante os textos da Biderman, mas eles me confundem. Os conceitos são: Alomorfe; Alofone; Alomorfia; Alofonia; Variação alomórfica e Variação alofônica. Me desculpe se esses conceitos forem sinônimos uns dos outros.
Comment by Jonatas — 18/05/2009 @ 16:19
q negoço podre
Comment by lubilu — 29/09/2009 @ 15:12
RivaldosemFrescura@yahoo.com.br
Comment by Rivaldo silva — 02/10/2009 @ 06:53