Pirahã e a Gramática Universal
Há uma recente comoção na lingüística provocada pelos estudos de Daniel Everett sobre o Pirahã, uma língua falada às margens do rio Maici, que fica no município de Humaitá, no estado do Amazonas. Para o lingüista, essa língua representa um grande desafio à lingüística gerativa. No artigo "Cultural Constraints on Grammar and Cognition in Pirahã: Another Look at the Design Features of Human Language", publicado em outubro de 2005, no periódico Current Anthropology, Everett arrola algumas lacunas e fatos gramaticais que seriam característicos da língua; entre eles estão: a ausência de números ou qualquer termo quantificador, de palavras para designar cores, e, de forma central, a ausência de recursividade, uma propriedade central da linguagem humana, de acordo com Hauser, Chomsky e Fitch (2002). Além disso, o autor cita algumas características excepcionais da cultura Pirahã, como a ausência de ficção, mitos de criação e de arte.
Everett vai além da descrição dessas peculiaridades dos Pirahã, argumentando que todas elas derivam de uma única restrição cultural, o Princípio da Experiência Imediata (PIE): "a comunicação é restrita à experiência imediata dos interlocutores", na formulação do artigo da Current Anthropology. Dessa forma, teríamos um princípio cultural determinando, além de outros fatos culturais, aspectos gramaticais da língua. Para o lingüista, a observação de que aspectos centrais da gramática são diretamente afetados pela cultura que a cerca representa um grande desafio à noção de um módulo de linguagem autônomo e biologicamente determinado.
Uma grande cobertura da imprensa seguiu-se à publicação. Nada de inesperado: uma cultura exótica, uma língua com propriedades tidas como estranhas às de qualquer outra conhecida até então… notícia! Outra conseqüência das afirmações de Everett foi o crescimento do interesse da comunidade científica pelo Pirahã, incluindo algumas reações simpáticas e outras adversas ao trabalho do lingüista. Entre as críticas, encontra-se um artigo recente, "Pirahã Exceptionality: a Reassessment", publicado no Lingbuzz por Andrew Nevins, da Universidade de Harvard, David Pesetsky, do MIT, e Cilene Rodrigues, da Unicamp. Nesse artigo, os autores questionam a descrição de Everett dos fatos do Pirahã, mostrando evidências convincentes da existência de quantificadores, de palavras para designar cores, de recursividade, etc., avaliando sistematicamente as lacunas gramaticais propostas no artigo da Current Anthropology. A descrição de Everett da cultura Pirahã também é questionada, com base em outros trabalhos antropológicos que atestam a existência de ficção, mitos de criação e de arte. A análise lingüística dos autores desexoticiza a gramática da língua, mostrando que ela não representa para a hipótese da Gramática Universal nenhum desafio maior que o representado por qualquer das línguas já bastante conhecidas do mundo.
É claro que Everett não ficaria silencioso diante dessa réplica. A resposta, "Cultural Constraints on Grammar in Pirahã: A Reply to Nevins, Pesetsky e Rodrigues", que saiu há poucas semanas, reafirma sua posição quanto à excepcionalidade de algumas características da língua em questão, supostamente derivados de uma restrição cultural, questionando a interpretação dos fatos dada pelos três autores.
Quanto a mim, independente de qual se mostrar a descrição correta dos dados do Pirahã, as conclusões teóricas de Everett parecem infundadas sob um ponto de vista lógico. Em nenhum momento, o autor deixa clara qual é a conexão entre a suposta restrição cultural e as construções gramaticais que ele diz serem bloqueadas por ela. O status dessa "predição" não é precisado. Nos dois trabalhos referidos, o lingüista cita, por exemplo, a falta de recursividade como decorrente do PIE. Não há, no entanto, nenhuma razão para esperar que uma restrição cultural como "a comunicação é restrita à experiência imediata dos interlocutores" bloqueie construções recursivas como a subordinação. Imaginemos uma língua que estivesse mesmo sujeita a tal princípio. Por que haveria bloqueio de uma frase como "A menina que está sentada na cadeira que eu adoro está me olhando fixamente"? A língua poderia muito bem permitir frases como essa, contendo estruturas recursivas, que retratam experiências imediatas.
Outras supostas consequências do PIE parecem ser ainda menos relacionadas a esse princípio, e não há uma boa explicação do autor sobre como essa restrição funcionaria nesses casos. A suposta ausência de palavras para designar cores, também questionada por Nevins, Pesetsky e Rodrigues, com base na lista em (1), abaixo, não parece poder ser explicada por um princípio que exige referência à experiência imediata dos interlocutores - afinal, é justamente aí que as cores se manifestam!
| (1) | Cores em Pirahã | |
| | biísi | ‘amarelo’, ‘laranja’, ‘vermelho’ |
| | xahoasai | ‘azul’, ‘verde’ |
| | kobiaí | ‘branco’ |
| | kopaíai | ‘preto’ |
| | tixohói | ‘roxo’ |
| | tioái | ‘escuro’ |
Ademais, acreditar na hipótese de uma Gramática Universal, não implica, de modo algum, acreditar que o produto final, a língua, não é influenciado pela cultura circundante. Everett está correto quando diz que essa hipótese não prediz a influência da cultura sobre a língua, mas está errado ao insinuar que, por isso, ela é inadequada. Isso porque ela também não prediz o contrário - e não há razões para esperar que ela o fizesse. Trata-se de uma hipótese sobre uma faculdade da linguagem, geneticamente determinada, que os indivíduos da espécie humana trazem consigo em seu estado inicial. A interação dessa faculdade com outros sistemas cognitivos, que medeiam, por sua vez, a relação do indivíduo com a cultura é um outro problema. Se essa interação produz um estado final que, além de possuir propriedades determinadas pela Gramática Universal, apresenta características bastante ligadas ao meio sócio-cultural, não se pode concluir, daí, que a teoria que especifica o estado inicial está errada por não levar em conta a existência desses outros fatores que interagiram com o estado inicial na geração do produto final. Seria como dizer que uma especificação do estado inicial, geneticamente determinado, do corpo de um ser humano, é inadequada por não levar em conta o número e o formato das tatuagens que o indivíduo fará ao longo de sua vida. É mais ou menos o que diz Tecumseh Fitch, numa passagem trazida por um artigo da Folha Online:
…é um truísmo que a cultura molda a linguagem. É por isso que o brasileiro tem a palavra samba e o escocês tem a palavra haggis. E daí? As implicações disso para a Gramática Universal são nulas.
