Loucos mentais
Mais uma das perguntas que alguém fez ao Google, sem saber que cairia no Language Bar. A pergunta é ótima. O melhor é que o Google nos traz como o primeiro resultado da pesquisa. Aparentemente, então, somos especialistas no assunto e não há ninguém melhor para responder à pergunta: onde vivem as pessoas que ficaram loucas mentalmente?
Resposta: na França, é claro.
Parece que alguns franceses estão querendo tornar o francês a língua oficial da União Européia para questões legais, com a justificativa de que esta é a mais precisa, rigorosa e confiável das línguas européias. De acordo com Nicole Fontaine, ex-presidente do Parlamento Europeu, uma das cabeças da história:
Essa língua[, o francês,] é reconhecida por ser analítica, precisa e clara, com uma sintaxe que pode se adaptar a todas as intenções de pensamento e é particularmente apta às definições e expressões da Lei.
Uma outra citação beirando o ridículo, de Maurice Druon, poderia até ser engraçada, se não estivéssemos falando de um autor e membro da Academia Françesa, instituição na qual (tremam…) nossa Academia Brasileira de Letras buscou inspiração.
O italiano é a língua da canção, o alemão é bom para a Filosofia, e o inglês para a poesia. O francês é melhor quanto à precisão, por seu rigor. É a língua mais segura para questões legais.
Não consigo pensar em outra definição para "ficar louco mentalmente", que não seja algo relacionado a essa tentativa patética de afirmação lingüística. Era de se esperar que Monsieur Druon soubesse que é possível fazer belas canções, Filosofia de peso e boa poesia em qualquer língua do mundo, assim como é possível falar besteiras - ao menos nisso, já vimos que francês e português se igualam.
Pensei no rigor e na precisão da língua francesa quando me deparei com a seguinte passagem na biografia de Maurice Druon, que está na Wikipédia:
(…) foi Secretário Perpétuo desta Instituição, a partir de 1985, mas escolheu em 1999 renunciar a esta última função, cedendo o lugar a Hélène Carrère de Encausse.
Imaginei que isso só poderia acontecer na versão portuguesa da Wikipédia, porque, claro, na versão francesa, um secretário perpétuo jamais deixaria de ser secretário. Parecia um claro erro de editores brasileiros. Mas na Wikipédia francesa, a decepção:
(…) dont il en sera secrétaire perpétuel à partir de 1985. Mais il choisit en 1999 de renoncer à cette dernière fonction, cédant la place à Hélène Carrère d’Encausse.
Péssima piada, mas ao menos a pergunta inicial foi satisfatoriamente respondida.
