A simpleza da língua inglesa
Mais uma na Zero Hora. O colunista da vez é o nosso escritor Liberato Vieira da Cunha. Segue um parágrafo de seu texto "A palavra simpleza", publicado no Segundo Caderno da ZH de hoje.
Um inglês, ou, pior, um americano repete dez vezes, numa única frase, um vocábulo já antes citado e reprisado. Nós, não. Somos ricos. Posso dizer que uma mulher é bela, é formosa, é linda, é bonita, é atraente, é vistosa - e mais meio quilômetro de adjetivos, como gentil, primorosa, encantadora, sensual, deleitosa. Mas o mais surpreendente é que fazemos isso com extrema naturalidade e simplicidade.
Um inglês ou americano qualquer: we are rich too. I could call a woman pretty, charming, gorgeous, handsome, good-looking, sightly - and a whole lot of other adjectives, such as kind, exquisite, beguiling, foxy, delightful. You’d better find another reason to boast.
Moral da história: é muito fácil pensar que tua língua materna tem mais recursos expressivos que qualquer língua do mundo; afinal, tu a conheces melhor que qualquer outra.

Pois é.
É impressionante como esse cliché grudou na cabeça de todo mundo e não sai mais.
Cerca de dez anos atrás, eu fazia um curso introdutório de alemão, em Campinas-SP, e os membros da turma frequentemente conversavam sobre questões de linguagem antes ou depois da aula. Havia um colega que dizia “inglês é língua de índo!”, e estava se achando o tal só porque estava balbuciando as primeiras palavras no vernáculo de Wittgenstein (que, por sinal, é o mesmo vernáculo de Hitler… o que não torna o vernáculo, em si, nem “do bem” nem “do mal”). Bom… em primeiro lugar, o cara era péssimo aluno de alemão… vivia aportuguesando tudo, na fonologia, no léxico, na morfologia, na sintaxe… só ele é que não percebia. Eu então perguntei: “o que você quer dizer com língua de índio? Ele respondeu com um exemplo do tipo “eu Tarzan, você Jane”. Eu retruquei dizendo: “isso não é língua de índio, isso é índio tentando falar português, e fracassando, DO MESMO JEITO que você fracassa tentando falar alemão, meu caro!… aliás, e inglês? Você fala inglês pra valer? Vamos bater um papo naquela ‘língua de índio?’” É óbvio que o inglês dele não passava de “the book is on the table”… Em seguida eu dei uns dois ou três exemplos de padrões morfológicos em uma língua indígena. Ele calou a boca. Mas é bem provável que continue até hoje achando que inglês é “língua de índio”.
O contrário também acontece de montão. Tem um monte de gente na terra do Tio Sam achando que o inglês virou língua de comunicação internacional (na academia, nas relações diplomáticas e comerciais, etc) porque seria inerentemente mais lógica, mais bela, sei lá o quê. Needless to say… a maioria esmagadora desses “proud-to-be-americans” não consegue balbuciar meia dúzia de palavras numa língua estrangeira. Os franceses também já falaram essas bobagens.. Na Gramática de Port Royal encontramos exemplos disso. E por aí vai.
Ah… e tem também aquela de “todos os outros falam com sotaque, menos eu”… Todo mundo acha que fala com “sotaque neutro”, e que os outros é que “cantam”, falam “devagar demais”, “chiam demais”, etc…
Quando é que os educadores de primeiro e segundo graus, professores de língua materna e estrangeira, vão conseguir exterminar com esses mitos? Resposta: quando eles basearem o trabalho deles em lingüística de verdade, levando em consideração prioritariamente (i) os universais lingüísticos e os insights teóricos sobre eles no âmbito da teoria Chomskyana; e (ii) os estudos de mudança e variação lingüística, dialetologia, crioulística, etc. Os nossos educadores costumam ser, no pior dos casos, perpetuadores da velha cartilha normativista; e, no melhor dos casos (se é que isso é melhor mesmo!), uma gente deslumbrada com uma tal de “Lingüística Aplicada” que não é aplicação de Lingüística, que de Lingüística não tem nada… que não passa de um pedagoguês que pode até ter alguma valia em alguns aspectos, mas que não acrescenta NADA para a compreensão da linguagem, nem pelos pesquisadores, nem pelos educadores, e muito menos pelos alunos.
Você por acaso tentou contactar o tal do Liberato e convidar ele a dar uma olhadinha aqui nesse blog?
Abraço.
Max
Comment by Max Guimarães — February 21, 2007 @ 17:44
Um adendo:
Tem um livrinho bacana sobre isso tudo chamado “Language Myths”, editado por Laurie Bauer & Peter Trudgill (London: Penguin Books, 1998). Não tem nada demais ali, nada que a gente não saiba. Mas ele é uma boa indicação a ser dada para os leigos que tenham interesse em questões de linguagem, que tenham visões preconceituosas sobre o assunto, e que não sejam teimosos a ponto de se recusarem ver outro ponto de vista.
Comment by Max Guimarães — February 21, 2007 @ 17:57