Chomsky, Ziraldo e a aquisição da linguagem
Fiquei surpreso em ver Chomsky sendo mencionado no Segundo Caderno da Zero Hora desse sábado; sobretudo por não ser nada sobre a escalada militar norte-americana na Colômbia, terrorismo de estado, estratégias imperialistas de controle global ou afins.
O bom velhinho surgiu na coluna do poeta Ricardo Silvestrin, que faz uma aproximação do que pensa Ziraldo sobre a educação com o que defende Chomsky em relação à linguagem humana. A idéia de Ziraldo, expressa em sua frase: "é mais importante ler do que estudar", é de que o ensino de língua portuguesa deveria centrar-se na leitura, ao invés de se preocupar com o ensino explícito de gramática. A leitura de bons textos traria consigo "o domínio de linguagem, de padrão de escrita".
O contato com a lingüística gerativa estaria na observação de que as crianças já entram na escola conhecendo sua língua materna, com total competência sobre as regras gramaticais subjacentes a seu funcionamento. Essa noção é básica para a teoria chomskiana e leva o colunista a concluir que "desse modo, a escola não precisa ficar nos ensinando o que já sabemos [- regras gramaticais]. E o pior: de um jeito que parece que não sabemos. O que precisa é nos ensinar a passar do falado para o escrito. E para isso, precisa nos fazer ler e escrever".
A boa lição que se deve tirar da coluna para o ensino de português é o respeito ao conhecimento que os alunos já trazem sobre a língua materna. A que não me parece ser muito boa é a idéia de que o ensino gramatical explícito é desnecessário. Ao menos porque, ao contrário do que o colunista parece sugerir, a língua a ser aprendida na escola não é exatamente a mesma que os alunos trazem de casa. Um dos objetivos do ensino de língua portuguesa é possibilitar aos estudantes o domínio da variedade padrão do idioma, de um padrão formal escrito, que não é o utilizado pelos alunos em sua comunicação diária. Se essa norma é mesmo importante para a sociedade é uma outra discussão.
O destaque do texto é o parágrafo, transcrito abaixo, em que o colunista passa a falar sobre o desenvolvimento de nossa competência sobre a língua materna.
É o seguinte: segundo o lingüísta [sic], a gente nasce com as condições para aprender línguas. É a nossa competência que vai se desenvolvendo com o nosso desempenho. Assim, nascemos num ambiente que fala uma língua, que para nós é "estrangeira", e vamos interagindo com ela. O processo que se dá na nossa cabeça nesse aprendizado não é meramente de ouvir e repetir. O que acontece é que vamos entendendo a estrutura da língua. É um aprendizado inteligente. Por exemplo, quando uma criança fala "fazi", ninguém disse isso. Mas por que ela falou? Porque entendeu que a estrutura de construção do pretérito perfeito do indicativo dos verbos de segunda conjugação se faz com raiz + i. Vender - vendi, comer - comi, perder - perdi, fazer - fazi. Mas alguém dirá à criança "não é fazi; é fiz!" [grifo meu]. Ela então incorporará uma nova informação ao que havia concluído: "Existem uns verbos meio malucos que são diferentes". São os verbos irregulares.
É bom porque apresenta de maneira simples e compreensível alguns insights importantes dos estudos sobre aquisição da linguagem que se deram na segunda metade do século XX: as observações de que nascemos com as condições necessárias para adquirir uma língua e de que a aquisição de uma língua não é uma questão de mera repetição do que se ouve no ambiente - a criatividade é inerente ao processo, como mostram formas como "fazi", presentes na fala infantil. A parte sublinhada no parágrafo acima é o ponto em que o colunista chega ao equívoco bastante comum de imaginar que há um papel fundamental para algum tipo de instrução explícita na aquisição da primeira língua pela criança.
Traz o item 2 do meu velho post sobre pobreza de estímulo:
O ambiente lingüístico no qual a criança cresce fornece apenas evidências positivas. As crianças só ouvem sentenças válidas da língua e não se deparam com nada que as mostre explicitamente que tipos de generalizações não podem ser feitas com base nos dados oferecidos.
Isso quer dizer que não há, dentro do conjunto de dados lingüísticos ao qual a criança tem acesso durante o processo de aquisição de sua língua materna, evidências negativas que mostrem explicitamente que determinada sentença não pertence à língua em questão. Mesmo quando se tenta corrigir uma generalização como a de "fazi", a criança simplesmente ignora a intervenção do adulto e persiste usando a flexão regular que acabou de descobrir. A correção virá, naturalmente, na medida em que a criança aproximar-se da gramática do adulto, com todas as suas formas irregulares. O papel dos papais e mamães na aquisição da primeira língua é menor do que se imaginava.

Oi, Emanuel. Primeiro, obrigado pela leitura e pelo comentário. Sobre esta sua passagem “A que não me parece ser muito boa é a idéia de que o ensino gramatical explícito é desnecessário. Ao menos porque, ao contrário do que o colunista parece sugerir, a língua a ser aprendida na escola não é exatamente a mesma que os alunos trazem de casa. Um dos objetivos do ensino de língua portuguesa é possibilitar aos estudantes o domínio da variedade padrão do idioma, de um padrão formal escrito, que não é o utilizado pelos alunos em sua comunicação diária. Se essa norma é mesmo importante para a sociedade é uma outra discussão.” quero esclarecer o seguinte. Não afirmei que não se deve ensinar conhecimento gramatical. O que penso, e nem tudo o que penso cabe nas 30 linhas da coluna, é que se deve ensinar o que os alunos não sabem. Explico: a partir do que os alunos mostram, sejam falando ou escrevendo, vai se perceber o que eles ainda não dominam em termos gramaticais - em relação tanto ao padrão culto quanto à própria estrutura da língua. A partir desse diagnóstico é que se vai ensinar o que falta. Não defendo, como entendeste, que os alunos estão prontos e devem ficar no padrão que tem. Quando falei que devem passar do oral para o escrito, nessa passagem aparecerão tudo o que precisam saber, que virá tanto pela leitura, pelo desafio de escrever e pela interferência inteligente do professor que vai buscar nos seus conhecimentos gramaticais que pontos deve ensinar para os alunos. Isso é diferente de submeter um aluno em todo o seu período de formação de padrão escrito e oral ao ensino de gramática teórica. Penso que, quando ele estiver com um domínio seguro e com uma idade mais para os 14, 15, pode-se então apresentar mesmo a teoria sobre a língua, a gramática, como um dos conhecimentos humando disponíveis na cultura. Antes disso, os ponto de gramática ensinados devem se centrar na solução dos problemas apresentados pelo seu desempenho oral e escrito - para completar suas lacunas em relação ao padrão culto. O que penso é um pouco diferente do que pensa o Ziraldo. Aprendi um pouco mais contigo quando colocaste que a interferência adulta não vai fazer eco na criança.
Grande abraço.
Ricardo Silvestrin
Comment by Ricardo Silvestrin — January 21, 2007 @ 21:50
Errata:
sejam - trocar por seja
tem - trocar por têm
aparecerão - trocar por aparecerá
Abraço.
Ricardo Silvestrin
Comment by Ricardo Silvestrin — January 21, 2007 @ 22:03
ponto - trocar por pontos
Comment by Ricardo Silvestrin — January 21, 2007 @ 22:06
Oi, Ricardo, obrigado pela visita.
Imagino que no espaço limitado de uma coluna de jornal seja mesmo difícil eliminar todas as lacunas na apresentação de uma idéia. Imaginei também que houvesse ressalvas e que tua concepção de ensino fosse mais sofisticada do que a que foi possível demonstrar na coluna.
Parece que lidamos com dois extremos: um ensino de língua materna totalmente voltado para a gramática tradicional, que tem fracassado ano após ano - não só no Brasil -, e um ensino de português completamente “agramatical”, que também consideramos indesejável. A alternativa que tu apresenta em teu comentário é bem mais interessante.
Acredito ser mesmo mais eficiente iniciar o ensino explícito de gramática tradicional somente a partir de uma certa idade, quando o aluno encontrar-se mais seguro. Essa segurança se ganha no contato com a língua padrão oral e escrita e no seu exercício, de forma dirigida pela intervenção inteligente do professor.
Obrigado pelas clarificações.
Abraço.
Comment by Emanuel Quadros — January 22, 2007 @ 16:50
Bah!
Comment by Tiago — February 3, 2007 @ 04:49