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Good or Evil? por Emanuel Souza de Quadros

Tem circulado por alguns grupos de discussão, uma correspondência do Dr. Hein van der Voort, enviada ao boletim eletrônico da SSILA (The Society for the Study of the Indigenous Languages of the Americas), número 242, que, suponho, deve estar disponível on-line em breve.

Dr. Voort é um pesquisador holandês que tem se dedicado ao estudo de línguas isoladas de Rondônia. Dentre as quais, Kwaza, uma língua em risco de extinção que à época da publicação de sua gramática, escrita por Voort, contava com apenas 25 falantes.

Na correspondência, Voort critica a decisão tomada no ano passado pela International Standardization Organization (sim, a organização que define os padrões ISO 9000 de que tanto se ouve falar), de adotar os códigos do Ethnologue como o padrão de referência para as línguas do mundo, chamado ISO 639-3. De acordo com o SSILA Bulletin #227, a responsabilidade de administrar o padrão de referência foi conferida ao SIL International (Summer Institute of Linguistics), que, a partir de então, tem autonomia para “supervisionar a adição de novos códigos de línguas, combinar ou remover códigos existentes, etc.”

A questão central colocada pelo pesquisador é: “por que o controle do padrão universal de referência lingüística deveria ser dado a uma organização missionária como o SIL?”

Uma razão óbvia, que o próprio Voort menciona, é que essa organização, que vem, desde 1934, treinando missionários com o objetivo de aprender línguas pouco conhecidas e convertê-las a um código escrito para a tradução da Bíblia, realizou também o mais completo levantamento das línguas do mundo de que se tem conhecimento: o Ethnologue.

Uma das alternativas propostas é o Red Book of Endangered Languages, mantido pela UNESCO, uma organização “ideologicamente neutra” segundo Dr. Voort. Reconhecidamente, esta alternativa ainda está longe de ser tão completa como o Ethnologue: basta notar que as seções referentes ao Brasil e à América do Norte ainda não estão disponíveis.

A correspondência termina enfatizando o problema central, de ordem ética: “deveríamos nós, como cientistas, colaborar tão diretamente com uma organização proselitista, conferindo-lhe legitimidade e contribuindo potencialmente para seu objetivo maior: o de substituir as culturas indígenas por uma cultura ocidental específica?”

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6 Comments »

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  1. Pois é. É uma discussão parecida com aquela de haver estrangeiros no mato descrevendo línguas indígenas brasileiras (bem como estudando a fauna e a flora do nosso torrão). É difícil: eles investem nisso, o Brasil minimamente. Pelo menos estão preservando e registrando essas coisas.
    Se a entidade católica aí resolveu (com fins cretinos) descrever a língua dos índios, fazer o quê? Se eles têm um banco de dados imenso, maior que qualquer outro, é lógico que “tenham o poder”. Não acho legal, é claro, mas as coisas são assim neste mundo de meu Deus.
    Por mim, as universidades brasileiras fariam esse trabalho, juntariam esses dados a um grande banco mundial e pronto, sem interferência tão direta de holandeses, americanos, cristãos, o diabo. Mas, infelizmente…

    Comment by Paulo H. — 05/09/2006 @ 08:09

  2. Também acho isso, Paulo. E também não há garantias de que organizações como a UNESCO sejam “ideologicamente neutras”. A diferença é que as motivações do SIL são mais bem conhecidas.
    Acharia válido substituir o Ethnologue, do SIL, se outra organização tivesse um banco de dados tão completo.

    Comment by Emanuel Quadros — 05/09/2006 @ 13:06

  3. Algo que tu pode achar interessante, Emanuel: http://www.marginalrevolution.com/marginalrevolution/2006/09/what_does_voice.html

    Comment by Cisco — 05/09/2006 @ 16:15

  4. Ideologicamente neutra = concorda comigo

    A UNESCO está longe de ser ideologicamente neutra, é mais recente que o SIL, sofreu reformas estruturais severas alguns anos atrás e sofre de todos os problemas que uma agência da ONU sofre. Não que o SIL seja a escolha ideal (sou racionalmente ignorante nesse tópico), mas centralizar qualquer coisa nas mãos da UNESCO é uma má idéia.

    Comment by Cisco — 05/09/2006 @ 16:20

  5. Muito interessante o post, não sabia dessas coisas. Concordo que a UNESCO não seja confiável, segundo as últimas coisas que se ficou sabendo, “ela vai conforme o vento”. O caso daquele jonrnalista (Lúcio Flávio, acho?) e a suposta mancomunação da AJN com a UNESCO para não considerar o caso como atentado a liberddade de imprensa foi um absurdo. Mas sendo bem radical, acho que não necessariamente interessa quais são os objetivos - se influenciar culturas e.t.c - interessa queeles têm um banco de dados maior. Claro, pela questão ética fica complicado, mas - como disse o Emanuel - eles não têm o que o Ethnologue tem.

    Comment by Tiago M — 05/09/2006 @ 22:33

  6. Uma correção crucial ao comentário de “Paulo H.”: o SIL não é uma sociedade católica. É mantida majoritariamente com recursos da ‘Wycliffe Bible Translators International’, fundada na década de 1940 por William Townsend.

    Comment by Alexandre — 05/12/2007 @ 22:19

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