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04/09/2006

Good or Evil? por Emanuel Souza de Quadros

Tem circulado por alguns grupos de discussão, uma correspondência do Dr. Hein van der Voort, enviada ao boletim eletrônico da SSILA (The Society for the Study of the Indigenous Languages of the Americas), número 242, que, suponho, deve estar disponível on-line em breve.

Dr. Voort é um pesquisador holandês que tem se dedicado ao estudo de línguas isoladas de Rondônia. Dentre as quais, Kwaza, uma língua em risco de extinção que à época da publicação de sua gramática, escrita por Voort, contava com apenas 25 falantes.

Na correspondência, Voort critica a decisão tomada no ano passado pela International Standardization Organization (sim, a organização que define os padrões ISO 9000 de que tanto se ouve falar), de adotar os códigos do Ethnologue como o padrão de referência para as línguas do mundo, chamado ISO 639-3. De acordo com o SSILA Bulletin #227, a responsabilidade de administrar o padrão de referência foi conferida ao SIL International (Summer Institute of Linguistics), que, a partir de então, tem autonomia para “supervisionar a adição de novos códigos de línguas, combinar ou remover códigos existentes, etc.”

A questão central colocada pelo pesquisador é: “por que o controle do padrão universal de referência lingüística deveria ser dado a uma organização missionária como o SIL?”

Uma razão óbvia, que o próprio Voort menciona, é que essa organização, que vem, desde 1934, treinando missionários com o objetivo de aprender línguas pouco conhecidas e convertê-las a um código escrito para a tradução da Bíblia, realizou também o mais completo levantamento das línguas do mundo de que se tem conhecimento: o Ethnologue.

Uma das alternativas propostas é o Red Book of Endangered Languages, mantido pela UNESCO, uma organização “ideologicamente neutra” segundo Dr. Voort. Reconhecidamente, esta alternativa ainda está longe de ser tão completa como o Ethnologue: basta notar que as seções referentes ao Brasil e à América do Norte ainda não estão disponíveis.

A correspondência termina enfatizando o problema central, de ordem ética: “deveríamos nós, como cientistas, colaborar tão diretamente com uma organização proselitista, conferindo-lhe legitimidade e contribuindo potencialmente para seu objetivo maior: o de substituir as culturas indígenas por uma cultura ocidental específica?”

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