Language Bar

23/09/2006

O caso das vogais estrangeiras por César Gonzalez

Para uma avaliação em uma das disciplinas da faculdade tive de ler um texto do sociólogo francês François Dubet. O interessante não foi o texto, mas sim o modo como um colega se referiu ao autor: D[o]bet.

Isso não é o que se esperaria de um falante de português brasileiro. Como já foi discutido aqui, o som dessa vogal (a menos que o nome do sociólogo seja idiosincrático) deveria ser pronunciado com uma vogal alta anterior arredondada. Com isso não estou dizendo que meu colega deveria utilizar-se de [y], mas que as vogais esperadas seriam [u] ou [i]. Esperaríamos D[u]bet ou D[i]bet.

Como bem sabemos, não possuímos [y] no inventário de fonemas do português, portanto um falante nativo de português encontra dificuldade com tal vogal. Entretanto, reconhecemos nessa vogal parte de suas propriedades fonéticas articulatórias e, ao compararmos com o inventário de fonemas vocálicos do português, encontramos as vogais alta anterior não-arredondada, [i] e a alta posterior arredondada, [u] como vogais mais próximas do ponto de vista articulatório a [y]. Assim, temos uma tendência a escolher uma das duas para substítuir a vogal estrangeira na fala corrente em português.

Tanto é assim que encontrei uma loja de móveis usados que vendia móveis para "birô"* (do fr. bureau, [by’Ro], escritório). Os "móveis para birô" podem ser utilizados como argumento para nossa discussão uma vez que eles mostram que o falante de português, ao se deparar com a necessidade de escrever essa palavra, escolheu a contraparte não-arredondada de [y], o que pode nos permitir pensar que essa seja a forma como o falante fala a palavra.

Outro argumento é tirado de um livro que estou lendo - "A course in phonology" de Iggy Rocca e Wyn Johnson. Ao explicar a vogal [y], dão o exemplo de falantes de inglês que ao tentar pronunciar essa vogal em palavras do francês ou alemão fazem um ditongo [ju], típico de palavras do inglês como cue ([kju], taco de sinuca). Esse falantes percebem que [y] se trata de uma vogal alta anterior e arredondada, só que têm dificuldades em pronunciar vogais anteriores e arredondadas, pois o inventário fonológico da sua língua não conhece tais vogais.

Voltemos ao caso de D[o]bet. Se olharmos para como a palavra foi pronunciada, [do’be], veremos que ela possui duas vogais médias altas, típicas do português. Já argumentamos que o esperado na primeira sílaba era uma vogal alta, podendo ela ser tanto posterior quanto anterior. O fato de termos uma vogal médial alta posterior, [o], no lugar de [y] nos diz que a vogal é posterior para o falante. Assim, poderíamos pensar que a vogal na subjacência é /u/ e que alguma força faz ela se tornar [o].

Já apontamos que ambas as vogais são médias altas. Analisemos isso. Em termos de traços, as vogais são ambas [-alta; -baixa]. A vogal /u/, por sua vez, é caracterizada por [+alta; -baixa]. Isso pode nos fazer pensar que a vogal /e/ espraiou seu traço [-alto] para a vogal /u/ e essa se tornou um [o]. Estamos, assim, imaginando que esse é um caso de harmonia vocálica.

Infelizmente, nossa análise tem um problema: não consigo pensar em outros exemplos para esse fenômeno em português. Consigo dizer que um fenômeno parecido ocorre com palavras como menino, que é pronunciado por alguns falantes com todas as vogais altas, por exemplo [mininu].

* Pesquisei em dois dicionários e não encontrei essa palavra, o que não impede ela de ser dicionarizada por um dicionário maior ou mais completo que os meus. Se procurarmos por "birô" no Google, vamos encontrar em torno de 104 000 resultados. Não é muito, mas já é expressivo na minha opinião.

17/09/2006

III Seminário Internacional de Fonologia por César Gonzalez

É isso aí! Finalmente abriram as inscrições para o III Seminário Internacional de Fonologia, que ocorrerá de 9 a 13 de abril de 2007 na PUCRS. O seminário trará nomes importantes da fonologia. Dentre eles John McCarthy, que abre o seminário com uma coferência sobre os desenvolvimentos recentes da Teoria da Otimidade. Nos dois últimos dias do seminário, ele dará um mini-curso sobre os fundamentos da TO.

Outra grande figura da fonologia convidada é Marina Nespor, cuja conferência será sobre Ritmo e Aquisição da Linguagem. Ela tambem dará um curso nos dois últimos dias, sobre Fonologia Prosódica e Aquisição. Leo Wetzels fará sua conferência sobre a Silabificação das Vogais Altas do Português e terá uma sessão sobre Tópicos da Fonologia do Português. Ben Hermans ficará com a Sessão II - Endogenous Factors of Linguistic Change.

Teremos ainda mesas-redondas coordenadas por Yonne Leite, Seung Hwa Lee, Maria Bernadete Abaurre, Leda BisolCláudia Regina Brescancini.

Apesar do preço ser um pouco salgado (R$ 190,00 para assistir a todos os seminários, comunicações, mesas-redondas e cursos) esse é um investimento que vale a pena. Assim, inscreva-se o mais rápido possível, até porque depois de 01/11 deste ano os preços aumentam. Para maiores informações sobre o evento, vejam o site.

16/09/2006

ConCat por César Gonzalez

Anunciado recentemente no Phonoloblog, o ConCat (Constraint Catalogue) é uma enciclopédia versão Wiki que pretende reunir todas as restições da literatura em TO. A idéia é muito boa e está crescendo com qualidade. Cada uma das restrições vêm com várias versões encontradas na literatura e com links para as restrições relacionadas. A dica é boa, portanto visitem o site e, se possível, ajudem a construí-lo.

09/09/2006

Elefantes falam coreano por Emanuel Souza de Quadros

Deu no Seoul Times! Mr. Nose, um elefante de um zoológico da Coréia do Sul, pode pronunciar, "quase do mesmo jeito que uma pessoa coreana", 8 palavras(!), equivalentes a "muito bem", "deita", "não", "ainda não" e "vira", que curiosamente são palavras que se espera que um treinador repita à exaustão para um elefante. Nada como a linguagem humana, mas, ainda assim, eu gostaria de tê-lo no meu circo.

O circo só estaria completo com os sujeitos da última frase da notícia: "Especialistas afirmam que Mr. Nose é o primeiro elefante do mundo a falar uma língua humana."

04/09/2006

Good or Evil? por Emanuel Souza de Quadros

Tem circulado por alguns grupos de discussão, uma correspondência do Dr. Hein van der Voort, enviada ao boletim eletrônico da SSILA (The Society for the Study of the Indigenous Languages of the Americas), número 242, que, suponho, deve estar disponível on-line em breve.

Dr. Voort é um pesquisador holandês que tem se dedicado ao estudo de línguas isoladas de Rondônia. Dentre as quais, Kwaza, uma língua em risco de extinção que à época da publicação de sua gramática, escrita por Voort, contava com apenas 25 falantes.

Na correspondência, Voort critica a decisão tomada no ano passado pela International Standardization Organization (sim, a organização que define os padrões ISO 9000 de que tanto se ouve falar), de adotar os códigos do Ethnologue como o padrão de referência para as línguas do mundo, chamado ISO 639-3. De acordo com o SSILA Bulletin #227, a responsabilidade de administrar o padrão de referência foi conferida ao SIL International (Summer Institute of Linguistics), que, a partir de então, tem autonomia para “supervisionar a adição de novos códigos de línguas, combinar ou remover códigos existentes, etc.”

A questão central colocada pelo pesquisador é: “por que o controle do padrão universal de referência lingüística deveria ser dado a uma organização missionária como o SIL?”

Uma razão óbvia, que o próprio Voort menciona, é que essa organização, que vem, desde 1934, treinando missionários com o objetivo de aprender línguas pouco conhecidas e convertê-las a um código escrito para a tradução da Bíblia, realizou também o mais completo levantamento das línguas do mundo de que se tem conhecimento: o Ethnologue.

Uma das alternativas propostas é o Red Book of Endangered Languages, mantido pela UNESCO, uma organização “ideologicamente neutra” segundo Dr. Voort. Reconhecidamente, esta alternativa ainda está longe de ser tão completa como o Ethnologue: basta notar que as seções referentes ao Brasil e à América do Norte ainda não estão disponíveis.

A correspondência termina enfatizando o problema central, de ordem ética: “deveríamos nós, como cientistas, colaborar tão diretamente com uma organização proselitista, conferindo-lhe legitimidade e contribuindo potencialmente para seu objetivo maior: o de substituir as culturas indígenas por uma cultura ocidental específica?”

What do you think?

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