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August 26, 2006

Em clima de eleição: uma abordagem sem sacanagem por Paulo H

Um post rápido para falar de um dado, uma formação lexical interessante, bem interessante. Muitos outros dados colhidos por aí, informalmente, talvez merecessem posts, mas este de que vou falar tem uma relevância particular porque foi usado por um candidato a governador do Rio Grande do Sul, o Roberto Robaina, do PSoL. 
Houve um debate na TV Cachorro (ou, de maneira mais culta, TV Com) numa noite dessas, com alguns candidatos a governador do estado do RS. Não assisti a todo o debate, sou um cara muito preconceituoso quanto a programas coordenados por pessoas como Lasier Martins, o cara do L velarizado (é o L mais dark do jornalismo mundial). Mas enfim, só vi alguns trechos do debate. Num instante desses, vi que, enquanto o Robaina discutia com outro(a) candidato(a), que não lembro e não interessa quem era, surgiu uma nova palavrinha (ou palavrinha nova). Um substantivo deverbal: viragem. Bom, pode até ser que alguém a tenha em seu léxico mental, mas deve ser uma minoria. De qualquer modo, me chamou a atenção. Vejam o contexto em que a palavra apareceu:

A Heloísa Helena é a única candidata capaz de promover uma viragem no Brasil.

Em primeiro lugar, não me interessa se a moça que fala alto é a única capaz de fazer qualquer coisa, o foco está na palavrinha em itálico. Me parece claro que o sentido aqui de viragem está relacionado a esse negócio de que os políticos falam muito: mudança, transformação, etc. É assim que entendo a frase de Robaina. Ou seja, compreendo a formação do cara, embora ache que ele, no fundo, quis dizer outra coisa.

Em segundo lugar, fico pensando: ele estava nervoso, como talvez todos os demais. Isso explica um engano (podemos imaginar que o cara tenha quisto dizer virada, no sentido de mudança). Não importa. Ele disse viragem, substantivo formado de virar + agem, assim como sacanagem é formado de sacanear + agem e lavagem é formado de lavar + agem. Não é isso?

Assim, podemos nos divertir:

a) Heloísa Helena é a única capaz de promover uma propagação de vírus(es), no Brasil (promover uma virose).

b Heloísa Helena é a única capaz de promover uma mudança no tempo, no Brasil (uma viração, geralmente propulsora das viroses).

c) Heloísa Helena é a única capaz de promover uma mudança na política, no Brasil (nesse caso, viragem é uma palavra nova, e, ao fim e ao cabo, um substantivo tão abstrato quanto felicidade, perfeição, humanidade. Abstrato demais para meros mortais).   

1 Comment »

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  1. É uma forma dicionarizada, então pode ser que o cara leu em algum lugar, procurou no dicionário, sabe da estranheza da palavra e quis usá-la para chamar atenção para o verbo, e conseqüentemente, para o que ele julga que a Heloísa Helena é capaz de fazer.

    P.S. grande: eu tenho que lembrar que formações em -agem geralmente ganham uma conotação negativa, ou já selecionam uma base com esta conotação: politicagem, chinelagem, boicotagem, panfletagem, agiotagem, tagarelagem, vagabundag[i], etc.. Algum opositor chato poderia brincar com as estratégias morfológicas do candidato e dizer que a virada da moça não tem um sentido muito bom.

    Comment by Emanuel Quadros — August 26, 2006 @ 12:17

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