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August 13, 2006

O Modelo Causal Integrado e o Modelo Clássico das Ciências Sociais por Tiago Martins

Quando se começa a ler sobre o gerativismo, uma das primeiras coisas que se descobre é que este modelo encontra forte oposição no Modelo Clássico das Ciências Sociais (MCCS). No livro Diálogos, Chomsky lembra quando começou a dar aulas no MIT em fins da década de 50. Recorda que era visto como um absurdo tratar a linguagem do modo como ele tratava, pois todo o ensino da época estava comprometido com o relativismo. O relativismo não acredita que haja uma estrutura fixa na natureza humana, não acredita em universais, acredita nas diferenças e cada sociedade no mundo seria diferente por existirem fatores sociais influenciando. Isso é discútivel e será abordado em outro texto.

Depois de ter ouvido muito falar sobre essa oposição (Gerativismo X MCCS), pouco li sobre o assunto. No entanto, achei há pouco tempo, uma ótima discussão sobre o tema no já mencionado O Instinto da Linguagem, de Steven Pinker. E neste livro, ele cita alguns dos fundamentos que caracterizam o MCCS:

"Se por um lado os animais são rigidamente controlados por sua biologia, o comportamento humano, por outro é determinado pela cultura (…) Livre de coerções biológicas as culturas podem variar entre si arbitrariamente".

Esse modelo, que tem como fundadores John Watson e Margaret Mead, acredita que existem dois grandes influenciadores no comportamento humano: a hereditariedade e o ambiente. Sobre isso, Pinker diz: "Eu ficaria deprimido se o que sabemos sobre o instinto da linguagem ficasse restrito às tolas dicotomias hereditariedade-ambiente". Deixo claro, que Pinker não despreza esses fatores, afinal, como exemplifica ele, se uma criança cresce junto de seu hamster, a criança passa a falar uma língua, o hamster não. O que Pinker defende é: há muito mais do que essa dicotomia

É indiscutível que a cultura e o ambiente influenciam, afinal uma criança nascida em Porto Alegre vai falar português, e os modelos formais que estudam a linguagem não são cegos para isso. Tudo se trata de uma questão de "recorte teórico". O modelo que se opõe ao MCCS, conhecido como Modelo Causal Integrado, do qual faz parte a Lingüística Gerativa, está preocupado com outras questões, que não são sociais. O que houve, e que é natural que gerasse uma oposição com o Modelo Clássico, é que nem a lingüística, nem outros modelos de ciência a partir dos anos 50 puderam ignorar o que as novas tecnologias podiam oferecer: estudos mais avançados sobre a complexidade do cérebro humano. Sem um mecanismo inato para o aprendizado que, segundo os racionalistas, vêm do ambiente, não há aprendizado. A maneira como o conhecimento é organizado no cérebro, a maneira como percebemos as coisas e a maneira como adquirimos a língua, está pré-determinada no cérebro de cada um, portanto é bastante compreensível que isso seja estudado em separado, pois isso vem antes dos elementos ambiente-cultura-sociedade.

Ao contrário do que é "pregado" pelo relativismo, existem sim universais. Toda a lingüística gerativa mostrou isso, as línguas não variam de modo arbitrário e sem limites, como vimos na afirmação acima sobre o MCCS. O Modelo Causal Integrado, portanto, vem em oposição a esse relativismo. Tem fundamentos em Darwin, Willian James, Chomky e em psicológos, neurocientistas e todo um time de profissionais que estuda o design da mente e como as informações que vem de fora são "acopladas" na mente/cérebro. Segundo Pinker, o MCI "procura explicar como a evolução causou a emergência de um cérebro, que causa processos psicológicos como conhecer e aprender, que causam a aquisição de valores e de conhecimentos que conformam a cultura de uma pessoa". Este modelo percorreu os estudos de lingüística formal durante toda a segunda metade do século XX e ainda é condenado por quem acredita na predominânicia de fatores sociais.   

Quanto às diferenças arbitrárias e sem limites que as culturas podem sofrer, bem, isso também parece ser bastante discutível no MCCS. Quanto ao caráter universal das línguas, sabemos que isso é verdadeiro, as línguas têm universais, têm princípios e isso já foi discutido em outros textos aqui no blog. O interessante é que as culturas também possuem universais e não variam tão arbitráriamente quanto queriam os antropólogos do século XX, para provar que o meio influencia radicalmente. Isso é discutido no último capítulo do livro de Steven Pinker e o tema do meu próximo texto.    

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