Sobre o texto de Sá (2006)
Gostaria de fazer algumas observações a respeito do texto de Edmilson José de Sá, publicado recentemente na ReVEL. De certa forma, sinto-me na obrigação de fazê-lo, uma vez que estou envolvido em uma pesquisa relacionada com o tema do artigo dele: a realização variável da lateral pós-vocálica.
Serei conciso. Assim, sugiro que leiam o artigo antes da crítica.
Em primeiro lugar, há problemas com a escrita. Vírgulas mal colocadas dificultam a leitura. Depois, há frases confusas, como o parágrafo abaixo:
Em relação ao Português, as pesquisas mostram que a forma vocalizada [w] parece constituir a tendência geral no dialeto brasileiro. Assim, tal predominância evidencia o caminho da evolução do /l/ apontado como resultado mais inovador (p. 7). Fiquei confuso; talvez faltem informações aí, especialmente na última frase.
Bem, também há pelo menos um engano com a data do trabalho de Quednau (nas Referências Bibliográficas há apenas Quednau 1993, mas no texto aparece um Quednau 1999, o que pode gerar confusão, posto que poderia existir de fato tal referência). Mas o que há de mais grave é a citação de Hernandorena (2002), como se o texto da autora (Introdução à teoria fonológica) fizesse parte do livro organizado pela Leda Bisol e pela Cláudia Brescancini, Fonologia e Variação: recortes do português brasileiro. A verdade é que esse texto da professora Carmen Matzenauer, que já foi Hernandorena, está no livro Introdução a estudos de fonologia do protuguês brasileiro, organizado pela Leda Bisol.
Até aí tudo bem. Mas tem outras coisas. Como o parágrafo abaixo:
Em busca de caracterizar o segmento lateral, Bisol (1999) afirma que este se articula neste ponto quando for produzido através do contato da língua com os dentes ou palato. Em conseqüência disso, como a oclusão proveniente desse contato alveolar é parcial, o ar pode sair pelos dois lados da zona de articulação (p. 2). Há dois problemas aí. Primeiro: quem afirma não é Bisol, mas sim Quednau, Monaretto e Hora, que escreveram o texto de onde foi extraída a informação utilizada por Sá (mais precisamente, à página 227 do livro organizado por Bisol, que tem uma edição de 1999). Segundo: faltou dizer que os autores do texto citado se baseiam na definição de Malmberg (1954) com respeito à lateral.
Um pouco mais abaixo no artigo de Sá, lemos que Quednau (1993) detectou as variantes velarizada e vocalizada, pesquisando diatopicamente as comunidades de Porto Alegre, Monte Bérico, Taquara e Santana do Livramento, tendo as três últimas contato entre o PB com o espanhol (p. 2). Bueno, aqui o engano é de geografia: apenas Livramento tem contato com o espanhol, por ser uma cidade da fronteira (veja o mapa).
Para finalizar, observemos este parágrafo:
Não foi nossa pretensão dar conta de todos os aspectos envolvidos na variação do segmento em Português e Espanhol para não tornar o estudo exaustivo, porém esperamos, com este trabalho, ter dado uma contribuição particular, a se somar a pesquisas de outros estudiosos para a compreensão dos contrastes por que perpassam essas línguas aparentadas em relação à lateral posvocálica (p. 7). Daqui quero extrair apenas uma afirmação: não foi nossa pretensão dar conta de todos os fenômenos, o que é bacana, pois realmente não é fácil fazê-lo, para não tornar nosso estudo exaustivo. Da minha humilde condição, pergunto: qual é o problema de procurar tornar um estudo exaustivo? Lembram do Hjelmslev? Essa exaustividade é a mesma que a dele?
São essas algumas observações que achei interessante fazer sobre o texto de Edmilson José de Sá, que, acima de tudo, deve ser cumprimentado pela pesquisa e pelo trabalho. Enviei um e-mail a ele com o link do blog, espero que possamos discutir sobre isso. Se alguém tiver outra contribuição (mesmo que for com relação a outro artigo), por favor, sinta-se à vontade para nos comunicar; postaremos sem problemas.

Obrigado! Foi uma ajuda e tanto, principalmente pelas críticas terem ido a público.
Comment by Edmilson — August 8, 2006 @ 07:20
Não sei se interessa dizer, mas o fato de ter mencionado sobre o trabalho exaustivo se deve à necessidade de não poder me aprofundar no tema por conta do número de páginas exigido, o que devo deixar para a dissertação, mas, pelo que vi, talvez a não aceitação fosse melhor, não acha?
Comment by Edmilson — August 8, 2006 @ 07:53
Primeiramente, obrigado por ler as observações.
Depois, é claro que interessa dizer o que disseste agora sobre a “exaustividade”. Eu realmente não havia pensado que quisesses dizer que pretendias retomar o tema na dissertação; não sabia que estavas fazendo a dissertação sobre a lateral. Assim, agora estou entendendo.
Mas, por favor, não te sintas ofendido. Não entendo o porquê de te sentires ofendido por ter ido a público o que eu disse, uma vez que teu próprio texto já “foi a público” e está sujeito a críticas, elogios, o que for. Acredito que é assim que as coisas funcionam. Conversando.
Abraço.
Comment by Paulo Henrique — August 8, 2006 @ 09:43
Paulo, dei uma olhada no artigo e não encontrei tuas observações… será q já surtiram efeito?
Comment by Rita — August 18, 2006 @ 09:42
Rita, as observações não precisam “surtir efeito”, no sentido de fazer com que alguns trechos do texto sejam alterados (até porque o artigo foi publicado numa revista, não sei até onde podemos mudar um texto que foi publicado). Mas minha idéia não era essa: não quis dizer ao Edmilson como escrever um texto, nem ao menos dizer-lhe que mude o que fez. Minha intenção era a de chamar a atenção para alguns trechos com os quais não concordo pelas razões que expressei nos comentários. Ele está fazendo uma dissertação sobre o tema (o que fiquei sabendo apenas após seu comentário-resposta acima). Assim, se ele desejar levar em consideração os meus comentários enquanto estiver escrevendo a dissertação, ótimo. Se não, tudo bem.
PS: Rita, obrigado por ler o blog e, acima de tudo, por participar das discussões.
Comment by Paulo Henrique Pappen — August 19, 2006 @ 16:11
Não se preocupe! No fundo fiquei chocado com uma crítica tão instantânea. De início quis solicitar a retirada do texto, mas resolvi mantê-lo. Sei das minhas limitações e também sei da minha boa vontade e dedicação aos estudos. Acredito que se tivesse uma bibliografia apropriada na época que escrevi o texto (abril/06) como suponho que vc tem, a história seria outra.
Já foram feitos os ajustes necessários, por isso a Rita não encontrou as causas de suas observações.
É isso.
Comment by Edmilson — August 19, 2006 @ 19:11
Não se preocupe! No fundo fiquei chocado com uma crítica tão instantânea. De início quis solicitar a retirada do texto, mas resolvi mantê-lo. Sei das minhas limitações e também sei da minha boa vontade e dedicação aos estudos. Acredito que se tivesse uma bibliografia apropriada na época que escrevi o texto (abril/06) como suponho que vc tem, a história seria outra.
Já foram feitos os ajustes necessários, por isso a Rita não encontrou as causas de suas observações.
É isso.
Comment by Edmilson — August 19, 2006 @ 20:11
De qualquer forma o tema de sua dissertação é muito pertinente e é objeto de estudo de muitos lingüístas. Por isso sempre é uma contribuição à ciência.
Comment by Rita — August 22, 2006 @ 08:35
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Comment by Jane — November 13, 2006 @ 06:31