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08/08/2006

Sobre o texto de Sá (2006) por Paulo H

Gostaria de fazer algumas observações a respeito do texto de Edmilson José de Sá, publicado recentemente na ReVEL. De certa forma, sinto-me na obrigação de fazê-lo, uma vez que estou envolvido em uma pesquisa relacionada com o tema do artigo dele: a realização variável da lateral pós-vocálica.

Serei conciso. Assim, sugiro que leiam o artigo antes da crítica.

Em primeiro lugar, há problemas com a escrita. Vírgulas mal colocadas dificultam a leitura. Depois, há frases confusas, como o parágrafo abaixo: 

Em relação ao Português, as pesquisas mostram que a forma vocalizada [w] parece constituir a tendência geral no dialeto brasileiro. Assim, tal predominância evidencia o caminho da evolução do /l/ apontado como resultado mais inovador (p. 7). Fiquei confuso; talvez faltem informações aí, especialmente na última frase.

Bem, também há pelo menos um engano com a data do trabalho de Quednau (nas Referências Bibliográficas há apenas Quednau 1993, mas no texto aparece um Quednau 1999, o que pode gerar confusão, posto que poderia existir de fato tal referência). Mas o que há de mais grave é a citação de Hernandorena (2002), como se o texto da autora (Introdução à teoria fonológica) fizesse parte do livro organizado pela Leda Bisol e pela Cláudia Brescancini, Fonologia e Variação: recortes do português brasileiro. A verdade é que esse texto da professora Carmen Matzenauer, que já foi Hernandorena, está no livro Introdução a estudos de fonologia do protuguês brasileiro, organizado pela Leda Bisol.

Até aí tudo bem. Mas tem outras coisas. Como o parágrafo abaixo:

Em busca de caracterizar o segmento lateral, Bisol (1999) afirma que este se articula neste ponto quando for produzido através do contato da língua com os dentes ou palato. Em conseqüência disso, como a oclusão proveniente desse contato alveolar é parcial, o ar pode sair pelos dois lados da zona de articulação (p. 2). Há dois problemas aí. Primeiro: quem afirma não é Bisol, mas sim Quednau, Monaretto e Hora, que escreveram o texto de onde foi extraída a informação utilizada por Sá (mais precisamente, à página 227 do livro organizado por Bisol, que tem uma edição de 1999). Segundo: faltou dizer que os autores do texto citado se baseiam na definição de Malmberg (1954) com respeito à lateral. 

Um pouco mais abaixo no artigo de Sá, lemos que Quednau (1993) detectou as variantes velarizada e vocalizada, pesquisando diatopicamente as comunidades de Porto Alegre, Monte Bérico, Taquara e Santana do Livramento, tendo as três últimas contato entre o PB com o espanhol (p. 2). Bueno, aqui o engano é de geografia: apenas Livramento tem contato com o espanhol, por ser uma cidade da fronteira (veja o mapa).

Para finalizar, observemos este parágrafo:

Não foi nossa pretensão dar conta de todos os aspectos envolvidos na variação do segmento em Português e Espanhol para não tornar o estudo exaustivo, porém esperamos, com este trabalho, ter dado uma contribuição particular, a se somar a pesquisas de outros estudiosos para a compreensão dos contrastes por que perpassam essas línguas aparentadas em relação à lateral posvocálica (p. 7). Daqui quero extrair apenas uma afirmação: não foi nossa pretensão dar conta de todos os fenômenos, o que é bacana, pois realmente não é fácil fazê-lo, para não tornar nosso estudo exaustivo. Da minha humilde condição, pergunto: qual é o problema de procurar tornar um estudo exaustivo? Lembram do Hjelmslev? Essa exaustividade é a mesma que a dele?

São essas algumas observações que achei interessante fazer sobre o texto de Edmilson José de Sá, que, acima de tudo, deve ser cumprimentado pela pesquisa e pelo trabalho. Enviei um e-mail a ele com o link do blog, espero que possamos discutir sobre isso. Se alguém tiver outra contribuição (mesmo que for com relação a outro artigo), por favor, sinta-se à vontade para nos comunicar; postaremos sem problemas.

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