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August 6, 2006

Catalãezinhos sem estímulo por Emanuel Souza de Quadros

Ainda com as questões de Aquisição da Linguagem do meu post anterior e do post do Paulo Henrique, sugiro, para quem se interessa pelo debate em torno do Argumento da Pobreza de Estímulo, um artigo de Susagna Tubau que traz uma evidência empírica interessante em favor do argumento. O artigo vem em resposta à afirmação de Pullum and Scholz (2002) de que faltam evidências desse tipo na literatura em lingüística gerativa.

A autora explora a observação de que seqüências Objeto - Verbo (OV) com verbos télicos1 são produzidas sistematicamente por crianças catalãs em torno dos dois anos de idade, enquanto, na fala adulta, essa ordem é quase inexistente, sendo VO a predominante em Catalão. Nas poucas ocorrências encontradas na fala adulta, a inversão ocorreu tanto com verbos télicos como com atélicos.

O que o estudo demonstra, é a existência na gramática da criança de um padrão que viola a gramática do adulto, mas que respeita os princípios atribuídos à Gramática Universal. É um tipo de evidência diferente do que foi demonstrado no meu post anterior. Não se trata, agora, de uma parte da gramática do adulto que não pode ser adquirida pela criança com base apenas em evidências positivas; trata-se de uma parte da gramática da criança que não encontra correspondência na gramática do adulto, mas que precisa ter saído de algum lugar.



1. Telicidade é uma noção aspectual. Um verbo é considerado como télico quando tem, em seu significado, a idéia da completude do processo. Ele está construindo uma cadeira, por exemplo, dá a idéia de que, em algum momento, a cadeira estará pronta e o processo referido estará completo. Já em Ele tem uma cadeira, esta noção não existe.

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  1. “O que o estudo demonstra, é a existência na gramática da criança de um padrão que viola a gramática do adulto, mas que respeita os princípios atribuídos à Gramática Universal. É um tipo de evidência diferente do que foi demonstrado no meu post anterior. Não se trata, agora, de uma parte da gramática do adulto que não pode ser adquirida pela criança com base apenas em evidências positivas; trata-se de uma parte da gramática da criança que não encontra correspondência na gramática do adulto, mas que precisa ter saído de algum lugar.”

    Uma hipótese relacionada a isso é a de que a aquisição se faz do “não-marcado” (mais natural) para o “marcado” (menos natural) (Jakobson). Inversamente, na mudança lingüística os processos vão do “marcado” para o “não-marcado”, e constata-se que os fonemas (por exemplo) adquiridos mais cedo pelas crianças são os que atuam de fato em processos de variação e mudança, além de serem os mais freqüentemente encontrados nas línguas do mundo. Isso tudo parece sugerir uma tendência universal em direção ao não-marcado. Assim, podemos esboçar uma pergunta: que fenômeno é esse que faz com que as crianças estejam mais próximas dos universais que os adultos? A tarefa delas parece ser a de demover restrições (segundo a Teoria da Otimidade), em favor da gramática dos adultos. Mas ninguém lhes diz que devem dizer cawo ou cajo em vez de carro, elas simplesmente refletem a tendência universal em direção ao não-marcado e mais natural (semivogais são mais naturais em termos articulatórios e estruturais, p. ex., que fricaticas, oclusivas, etc.).

    Comment by Paulo Henrique Pappen — August 7, 2006 @ 10:02

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