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August 2, 2006

Pobreza de Estímulo por Emanuel Souza de Quadros

O Argumento da Pobreza de Estímulo1 é geralmente utilizado como suporte para a idéia do inatismo na linguagem. Os últimos comentários no post do Paulo Henrique me levaram a falar um pouco sobre isso, tentando deixar clara a estrutura básica do argumento, com alguns comentários sobre ele. Que sirva de convite para a discussão sobre a pertinência do mesmo, já iniciada no outro post. O argumento pode ser resumido como segue:

  1. Há certas características das línguas naturais que não podem ser apreendidas pela criança com base apenas em evidências positivas2.
  2. O ambiente lingüístico no qual a criança cresce fornece apenas evidências positivas. As crianças só ouvem sentenças válidas da língua e não se deparam com nada que as mostre explicitamente que tipos de generalizações não podem ser feitas com base nos dados oferecidos.
  3. Crianças aprendem, de fato, a gramática das línguas a que são expostas.
  • Logo, deve existir algum conhecimento inato que supra as deficiências do input e garanta que a criança adquira uma gramática adequada.

Alguns críticos do argumento questionam a segunda premissa, que afirma não haver evidências negativas no input. É este questionamento que um dos comentários ao post anterior levanta, com referência ao Seu Lev Vygotsky. Também não conheço a obra dele, por isso espero que os comentários a esse post deixem mais clara sua posição no que concerne a este tópico. Até onde sei, para esse psicólogo russo, a linguagem é uma ferramente simbólica completamente provida ao indivíduo pela sociedade na qual ele está inserido.

Um caso muito discutido na literatura é o da inversão entre sujeito e verbo auxiliar na formação de frases interrogativas do Inglês (She can lick her elbowsCan she lick her elbows?). Esse padrão têm sido considerado, há algum tempo, como impossível de ser aprendido com base apenas em evidências positivas. Isso porque, com base no exemplo acima, a criança poderia adquirir regras diferentes, como (i) o primeiro verbo auxiliar da sentença é movido para o início dela, (ii) qualquer auxiliar é movido para o início da sentença, ou, ainda, (iii) o verbo auxiliar da oração principal é movido para o início da sentença; se todos os casos fossem simples como esse, qualquer das regras seria suficiente e a criança não saberia qual delas escolher.

A diferença aparece em sentenças mais complexas como:

  • The girl who is coming can lick her elbows "A guria que está vindo consegue lamber seus cotovelos"
    1. Can the girl who is coming ___ lick her elbows?
    2. *Is the girl who ___ coming can lick her elbows?

Dentre as três regras propostas acima, apenas a (iii) daria conta do fato de que a sentença (2) é agramatical. Isso mostra que as outras duas regras não servem como generalizações adequadas. No entanto, segundo Chomsky e outros autores que adotam sua perspectiva, crianças não são expostas a frases tão complexas como (1), para que possam decidir entre as regras alternativas. No entanto, sabe-se que é algo próximo à regra (iii) que as crianças de fato adquirem, já que podem produzir sentenças complexas como estas, antes mesmo de entrarem em contato com exemplos desse tipo. Supõe-se então que essa escolha é guiada por alguma restrição imposta a priori, que determina que operações sintáticas são dependentes da estrutura dos constituintes, de modo que a regra correta deve fazer referência a essa estrutura (é o que a regra (iii) faz, ao se referir à oração principal) e não à ordem ou seqüência dos elementos.

Uma crítica a essa proposta, que foi bastante discutida, é a de Pullum (1996). O autor levanta a possibilidade de que crianças tenham, sim, acesso a estruturas complexas como (1). Um dos problemas dessa proposta é que o corpus de língua adulta utilizado para determinar a freqüência dessa estrutura foi constituído por dados de língua escrita, extraídos de artigos do Wall Street Journal. O problema com isso é que, como o próprio autor aponta, nem mesmo banqueiros fazem seus filhos dormir, contando "historinhas" desse jornal. O mérito dessa crítica foi chamar atenção para a necessidade de uma avaliação empírica da afirmação, antes tomada sem discussão, de que crianças não ouvem construções como (1), que não me parecem ser tão incomuns assim.

Entre a série de críticas que se seguiram ao artigo de Pullum, ressalto um artigo de Lasnik & Uriagereka (2002). Concedendo a possibilidade de que sentenças do tipo de (1) estejam, de fato, disponíveis para a criança na fase da aquisição, os autores demonstram que, assim mesmo, o Argumento da Pobreza de Estímulo se sustenta. Isso porque o número de descrições possíveis para um determinado conjunto de dados é indeterminado - um problema enfrentado por qualquer teoria que proponha uma aprendizagem baseada na experiência, através de inferências indutivas. Desse modo, mesmo que a criança ouvisse sentenças complexas como Can the girl who is coming lick her elbows?, nada nos dados a impediria de formular outras regras absurdas que dariam conta desse e dos casos mais simples. Também nada garantiria que, dentre essas regras, não fosse escolhida alguma que, embora consistente com os dados encontrados até o momento, não daria conta de outras estruturas com as quais não houve contato durante a aquisição. Uma solução plausível, é propor um mecanismo inato que guia a aquisição, determinando a forma que as generalizações sobre a língua podem tomar.

As abordagens empiristas falham, então, no ponto crucial, que é demonstrar como a criança consegue depreender a generalização adequada somente com base nos dados que o ambiente lingüístico dispõe. Como Lasnik & Uriagereka (2002) apontam, já no início do artigo, "uma alternativa empirista séria à perspectiva racionalista de que a estrutura lingüística é parcialmente inata teria que demonstrar como uma hipótese correta é induzida a partir de meras extensões das evidências positivas."

1. O nome do argumento apareceu pela primeira vez num trabalho de Chomsky, Rules and Representations (1980)
2. As sentenças que a criança ouve formam o conjunto de evidências positivas a sua disposição. São os dados que o ambiente lingüístico fornece sobre o que é permitido na língua. Contariam como evidência negativa, informações que mostrassem explicitamente que certas sentenças são agramaticais, como correções dos pais que dissessem que certas coisas que a criança ouve não fazem parte da língua em questão.

7 Comments »

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  1. ok, vamos lá. Número 1: não estou em hipótese nenhuma falando ou me referindo ao input negativo, muito menos ao positivo. A partir da premissa sociointeracionista de Vygotsky, o que quero levantar é: pobreza de estímulo? Vygotsky desenvolve o raciocínio que tudo é aprendido a partir da interação, ou seja, os adultos fazem sua vida pela língua. A criança não está isolada, ela vê o que importante não só lingüisticamente como tudo o que os pais, tios, pessoas ao redor são capazes de fazer e de significar a partir do USO da linguagem.
    E, claro, nunca disse que não acredito no inatismo. Só acho q ele explica alguns fenômenos observáveis na aquisição, mas não aborda outros tão importantes… Ou alguém me convence de que as diferenças culturais do discurso narrativo são explicadas pela capacidade inata?
    Por isso, me repito: nem tudo é inato…se fosse assim, quem precisaria de input?
    (E esse input é significativo sim… a partir do momento em que o menos proficiente observa a relevância disso para a vida… isso é pobre?)

    obs: Para mais informações sobre input negativo e uma tentativa de explorá-lo, ler Saxton et al (2005) - tenho em pdf se alguém quiser!

    Comment by Hires — August 2, 2006 @ 18:56

  2. É que não dá para se referir à “pobreza de estímulo” sem falar em evidência negativa. Uma perspectiva poderia invalidar o argumento da pobreza de estímulo se demonstrasse que as evidências negativas estão mesmo presentes no input (de todas as crianças?) e que, de fato, as crianças levam essas evidências em conta; ou, ainda, que essas evidências são totalmente desnecessárias e que há algum meio de extrair as generalizações corretas sem elas.
    Se considerássemos, com Vygotsky, que tudo é aprendido a partir da interação, como explicaríamos a aquisição das generalizações para as quais não há evidências disponíveis no ambiente (como a que foi exemplificada no post)?
    Agora, é claro que nem tudo é inato. Como eu disse nos comentários do outro post, o input é essencial na aquisição. A hipótese inatista afirma que a linguagem é parcialmente, e não totalmente, inata.
    Uma teoria sociointeracionista só é incompatível com a hipótese inatista se afirmar que tudo é aprendido na interação e nada é dado a priori. Se admitir que, apesar do importante papel que tem a interação, existem coisas que são inatas, que não podem ser aprendidas apenas com base na experiência, não há, em princípio, incompatibilidade nesse aspecto.

    Obs: eu quero, mail me…

    Comment by Emanuel Quadros — August 2, 2006 @ 19:57

  3. Caro Emanuel,

    Você está certíssimo. No dia em que os seguidores de Vygotsky ou Piaget apresentarem uma análise para os fatos lingüísticos que os Chomskyanos dizem ser inatos (restrições de ilha, restrições sobre co-referência de expressões nominais, conservatividade de determinantes, polaridade negativa, localidade de dependências de longa-distância, etc), então eles estarão pela primeira vez participando do debate. Não adianta debater sem uma análise alternativa, sob pena de ficar “discutindo no vazio”. Não adianta mostrar que um dado aspecto da gramática não é inato, quando se está falando de algo que os Chomskyanos jamais disseram ser inato (os Chomskyanos jamais defenderam que TUDO seria inato). No debate com Piaget, Chomsky disse: “Suppose I were to say that something in the room is green, and suppose that somebody were to respond, ‘Well, that is not so because there is something that is white’ – that wouldn’t convince me that I was wrong in saying that something in the room was green. Correspondingly, if I say that some properties of language use and structure are determined in the initial state by language-specific principles, it does not convince me that I am wrong if I am told that some [other] aspects of language use and structure are related to other aspects of cognitive development – this is a simple point of logic.” É impressionante como muitos não entendem essa lógica elementar. Em princípio, nada impede que certos aspectos da linguagem sejam inatos e que outros sejam aprendidos através de mecanismos cognitivos “genéricos”, quer nos moldes Piagetianos, quer nos moldes Vygotskyanos, ou seja lá o que for. O que não tem o menor fundamento é alguém querer questionar um argumento de pobreza de estímulo (como este famoso exemplo do Auxiliary Inversion do inglês, ou qualquer outro (e.g. ilhas, wanna contraction, polaridade negativa, etc)) sem levar em consideração os fatos, apenas mencionando muito vagamente de onde o aprendiz poderia tirar a informação. É preciso demonstrar explicitamente que informação é essa na qual o aprendiz se baseia, demonstrar que ela é acessível ao aprendiz, e demonstrar que os mecanismos cognitivos usados para processar tal informação e guiar a aprendizagem são mecanismos “gerais” encontrados em outros domínios da cognição, fora da gramática. Sem que TODAS essas condições sejam satisfeitas, não há sequer uma sombra de um proto-argumento contra o argumento de pobreza de estímulo.

    Um abraço,
    Max Guimarães (Universidade Federal do Paraná)

    Comment by Max Guimarães — February 20, 2007 @ 00:40

  4. Valeu pela visita e pelo comentários, Max.
    Por sinal, ótima apresentação no último CELSUL, sobre esse mesmo assunto. Eu era uma das pessoas naquela sala. É bom lembrar do título do trabalho, que não poderia ser mais pertinente: “Ausência de Argumentos contra o Argumento de Ausência de Estímulo”.
    Um abraço.

    Comment by Emanuel Quadros — February 20, 2007 @ 13:32

  5. Oi Emanuel,

    Fico feliz que você gostou do meu trabalho lá no CELSUL. Recentemente, tenho me dedicado bastante a questões relacionadas ao Problema de Platão, estou produzindo alguns artigos a esse respeito. Isso inclui coisas sobre esse Argumento de Pobreza de Estímulo baseado no Auxiliary Inversion em inglês, que eu nem acho o mais contundente, mas ele merece atenção por ser o mais famoso de todos e aquele que mais gera mal-entendidos. Estou escrevendo um texto longo sobre o assunto, que vai demorar pra ficar pronto. Mas, por enquanto, existe um fragmento dele que está formatado como um squib, e cuja primeira versão já está pronta. Ele é uma resposta ao que o Everett falou sobre o assunto na resenha que ele fez do livro de Anderson & Lightfoot (2002) no Journal of Linguistics. Fora isso, acabei de fechar uma primeira versão do texto que apresentei na ANPOLL de 2006, e que consiste numa resposta às críticas (absurdas) que Bart Geurts (2000) fez à lógica do Argumento de Pobreza de Estímulo, na sua resenha do livro de Crain & Thornton (1998) publicada no Linguistics & Philosophy. Ah… e estou também fechando um texto sobre aquela polêmica em torno da alegada ausência de recursividade em Pirahã (Everett 2005). Se te interessar, eu posso te passar esse material. Comentários são bem-vindos.

    Gostei do blog de vocês, e principalmente das suas contribuições. Vamos manter contato. Eu não aguento mais essa ladainha de que “gerativista come criancinha”, todo mundo chamando a gente de maluco, mas ninguém tem argumentos sólidos. Ser anti-chomskyano é basicamente mais um caso de Fashionable Nonsense, como diriam Sokal & Bricmont. Eu me cansei tanto dessa nossa fama de “malucos”, que resolvi me dedicar prioritariamente a essa empreitada de desfazer os mal-entendidos que pairam por aí, as fofoquinhas e intrigas da oposição. Eu tenho conversado muito com a Miriam Lemle sobre isso… ela define essa situação como “um problema de Orwell em torno do problema de Platão”. É impressionante como, mesmo diante de evidências ABUNDANTES para a tese Chomskyana, as pessoas “tapem os olhos” e insistam naquela ladainha neo-vygotskyana, neo-piagetiana, e afins, sem apresentar NENHUMA análise alternativa! Eu e a Miriam temos conversado muito a respeito de como fazer os teimosos entenderem o óbvio, a respeito de qual seriam as melhores estratégias de divulgação da teoria para desfazermos os mal-entendidos. Nesse sentido, gostei do seu blog como um espaço para se discutir esse tipo de coisa.

    Enfim… vamos manter contato.

    Grande abraço,
    M.

    PS: Viu o meu comentário àquele post sobre o “motherese”, em resposta ao que Hires falou? Eu acabei cunhando a expressão “o estímulo é classe média”. Meti na cabeça que vou escrever um artigo tendo essa expressão como título, dirigido aos sócio-interacionistas, sociolingüistas & Cia. Pois é… o blog de vocês está me inspirando!

    Comment by Max Guimarães — February 20, 2007 @ 22:23

  6. ooops! Desculpe aí a confusão com o excesso de itálicos. Eu me atrapalhei com os HTML tags.

    Comment by Max Guimarães — February 20, 2007 @ 22:25

  7. Max,

    Tenho bastante interesse em receber esse material e te enviar meus comentários. Meu e-mail é: manuquadros@gmail.com

    Quanto a projetos como o teu e de Miriam Lemle e a modesta iniciativa desse blog… projetos de divulgação científica são importantes numa área como a lingüística, que definitivamente não tem o reconhecimento merecido. Importa, sobretudo, esse tipo de trabalho de clarificação dentro da própria área, que ainda tem algumas resistências, muito mais ideológicas e dogmáticas do que empíricas, a idéias como o inatismo.

    Vamos manter contato, sim.

    Um abraço.

    Comment by Emanuel Quadros — February 21, 2007 @ 19:43

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