Language Bar

July 16, 2006

Pop! por Tiago Martins

Linguística definitivamente não é um assunto pop. No meio acadêmico com certeza, mas no geral não é assim. Falar de literatura, sociologia, artes em qualquer contexto é bem mais aceitável. Conversar sobre um livro do Saramago numa mesa de bar não é problemático, mesmo para um interlocutor que nunca leu o autor português. Agora, dizer para alguém que um falante nativo nunca produz uma frase agramatical, pois ele tem uma gramática subjacente onde está todo o "programa"  de sua língua, bem, isso é um despautério total. 

Dizer que um falante que diz: "Eu comprei dois carro" não está fazendo nenhum absurdo é um absurdo. Dizer que nem tudo que a Gramática Normativa/Tradicional diz sobre a língua é capaz de dar conta dessa estrutura tão complexa chega a ser um crime. Escrevo isso, pois é uma situação bastante comum para mim, e acho que o é para qualquer um que esteja começando a estudar isso.  A ciência da linguagem parece ir contra os pressupostos mais fortes do senso-comum quanto à língua. É difícil para muitos aceitar que nós temos uma capacidade natural para adquirir uma língua e que, a partir disso, sabemos formar sentenças em nossas línguas sem sequer ter estado na mesma sala em que uma gramática normativa, por ventura, pudesse ter visitado.

Conversando com uma pessoa sobre o fato de uma mulher ter dito obrigado e não obrigada, fui informado de que no português antigo as pessoas diziam "Sou obrigado a lhe agradecer…" ou algo do genêro. A justificativa foi de que falamos obrigado ou obrigada concordando com o nosso genêro (aqui no sentido de sexo também), pois no passado usavamos dessa forma. Bem, uma criança que nasce hoje, a não ser que  venha do útero com um dicionário de etimologia cravado em sua mente, não sabe disso e provavelmente vai saber depois dos 10 anos, se souber. O obrigado vai entrar no sistema de sua língua sem essa informação. A criança -se for menino - dirá obrigado e - se menina - dirá obrigada, mas isso não é uma regra. Mulheres podem dizer obrigado sem problema algum e nem se dão conta disso. E as que dizem obrigada, com certeza, não o fazem pela explicação diacrônica da língua. O sistema da língua - se imaginado como um computador - vai pegar o dado atual e trabalhar com ele, e dentro do sistema da língua não temos dicionários de etimologia ou de expresões antigas.

Isso se explica melhor com o caso das línguas crioulas. Línguas crioulas surgem a partir de pidgins, isto é, quando vários indivíduos de línguas diferentes passam a conviver diariamente e necessitam se comunicar (isso acontecia com os escravos negros transportados da África para outros lugares).  Então, eles criam uma língua fraca, sem estrutura complexa, e num geral eles se falam por palavras soltas e ficam falando dessa forma, com poucas evoluções. No entanto, se eles tem filhos e esses filhos são criados ouvindo essa língua colcha-de- retalhos, o pidgin, eles naturalmente vão preencher as lacunas dos pais. Quero dizer, as palavras soltas que os escravos usavam para se comunicar viram uma língua com estruturas sintáticas, morfológicas e fonológicas complexas quando entram no sistema das crianças. Isso constitui uma língua crioula. Podemos dizer que o sistema da língua é alimentado sincronicamente e a partir desses alimentos - seja lá quais forem e como forem - o sistema gera seus produtos. Por isso não importa que no latim - exemplo clássico e já clichê - sui já tenha o significado de "a si mesmo", pois se, em algum momento, o verbo suicidar entrou no sistema sem a noção que tinha no latim, ele ganhará outra estrutura no português. Dizemos suicidou-se e ficamos felizes com isso.

Outro papo bem comum, é dizer que se todo o falante nativo fala certo, então todo mundo - daqui um tempo - não vai se entender. Mas isso é facilmente refutável, pois todo mundo ainda se entende e sabemos que falando problema ou pobrema as pessoas entendem, pois qualquer um pode perceber que os "erros" são passíveis de sistematização. Tanto que vivemos fazendo brincadeiras dos ’erros’ mais comuns da língua. Não estou dando uma de Marcos Bagno, dizendo que a norma oprime o povo e blá, blá, blá. Acho que as pessoas têm de ter noção de quando falar formalmente, mas sabemos quais coisas estão dentro da estrutura da língua e quais coisas não estão. E o que importa para a estrutura da linguagem é o fato da gramaticalidade e não do erro ou acerto.

Enfim, são esses os pontos que mais chocam e enfurecem quem não conhece os estudos da linguagem e são justamente os pontos mais básicos. Por isso, na próxima reunião com amigos ou familiares fale do livro novo do Daniel Galera, mas não do Chomsky ou do Saussure.

9 Comments »

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  1. O obrigado vai entrar no sistema de sua língua sem essa informação e sim, a criança -se for menino - dirá obrigado e - se menina - dirá obrigada, mas não pela explicação diacrônica da língua.

    Será mesmo que a menina dirá obrigada? Acabei de elicitar dois “obrigado”: um de minha irmã de 14 anos e outro de minha mãe. Qquase todas as guriazinhas que conheço dizem “obrigado” até chegarem na escola; algumas até depois de saírem dela, como é o caso de minha mãe… Acho mesmo que a maior parte das pessoas que dizem “obrigada”, o faz por interferência da escola.
    Tenho minhas dúvidas se a maioria das mulheres efetivamente diz “obrigada”. Eu apostaria num “obrigado” unissex para a maioria, porque realmente não vejo razões, que não diacrônicas, para flexionar aí… Será que uma mulher bem escolarizada, agradecendo por todo o seu grupo de amigas, diria “obrigadas” lol

    Comment by Emanuel Quadros — July 16, 2006 @ 13:48

  2. Olá Emanuel. Concordo 100% contigo que mulheres dizem Obrigado muitas vezes. Aliás, foi isso que disse para o meu interlocutor, que muitas pessoas (mulheres) dizem obrigado e que isso não é um absurdo. Isso gerou toda a controvérsia e foi o que me motivou a escrever o texto. Quis dizer que se as mulheres dizem obrigadA com certeza não é devido a explicação diacrônica. Mas valeu por comprovar minha tese. vou fazer algumas alterações nessa parte usando um “se” para ficar mais claro.

    Comment by Tiago M — July 16, 2006 @ 19:35

  3. É, imaginei… Também já tive uma longa discussão sobre isso (no orkut) hehe

    Comment by Emanuel Quadros — July 16, 2006 @ 20:52

  4. Acho que há mescla de uso de “obrigada” e “obrigado” pelas mulheres. Eu mesma me vejo usando ora um ora outro, aleatoriamente.
    (fora de propósito, mas…minha mãe diz “brigada!”)

    Comment by georgia — July 16, 2006 @ 21:05

  5. Não é fora de propósito, Geórgia. Pra tu teres uma idéia, tem gente que trata disso em livros. Nosso amigo Monteiro, p. ex., chama isso de BRAQUISSEMIA (”É o emprego de parte de um vocábulo pelo vocábulo inteiro”). Ele diz que isso ocorre porque no mundo atual a gente tende à “economia da linguagem”. Seja lá que nome feio tiver (”braquissemia” éphoda…), parece ser natural que uma sílaba pré-pré-tônica (!) acabe sumindo (foneticamente, pelo menos), e essa história de as mulheres dizerem variavelmente “obrigado” e “obrigada” só comprova que uma coisa é a língua e outra é a norma (”una cosa es una cosa; otra cosa es otra cosa”, como diria aquele moço). O Aurelião (”oreião” pros íntimos), classifica “obrigado” como adjetivo que é usado em “construções elípticas com valor interjetivo”, tendo em mente, me parece, que uma vez dizer “obrigado” significava “ser obrigado” a fazer algo, sei lá.
    PS: Ficou meio grande prum comment, mas não acho que valha um post.

    Comment by Paulo Henrique Pappen — July 16, 2006 @ 23:40

  6. Olá! Saindo um pouco do dilema “obrigadoXobrigada”, quero dizer gostei muito do texto, pois vem de encontro ao problema enfrentado por todo iniciante em lingüística que tenta propagar suas idéias entre seus amigos. “Mas como! É claro que ‘tá’ errado!”, dizem todos, sem nem notar seus próprios “erros”, ou sua economia, na fala. Parabéns Tiago. Posso repassar o texto aos tais amigos “sabichões”? hehehe..
    Abraços!

    Comment by Rita — July 17, 2006 @ 14:05

  7. Será mesmo que obrigado é adjetivo como diz o Aurélio?
    Se fosse adjetivo não devia trazer flexão de número também? Poder-se-ía dizer (adoro mesóclise) que nunca se flexionaria em plural pois não diríamos obrigado por um grupo de pessoas. Mas, não sei não… O que é obrigado pra vocês? Será que é um advérbio?

    Comment by César Augusto Gonzalez — July 17, 2006 @ 22:29

  8. hum… não sei se não é um assunto pop. Mas as pessoas estão preocupadas com outro viés… o do estigma e erro.

    Posso dizer q não concordo contigo em alguns pontos, porém, me vejo na obrigação de dizer uma coisinha: a norma não oprime ng… é o uso que a comunidade de fala faz da norma é que oprime!

    Comment by Hires — July 18, 2006 @ 23:21

  9. le post plus pop!

    Comment by georgia — July 19, 2006 @ 22:58

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