Language Bar

July 27, 2006

Qual é a língua do pensamento? por Tiago Martins

Antes de ler o texto, responda a si mesmo a pergunta-título. Será que você, falante nativo do português, pensa em português? Será que o falante nativo do russo pensa em russo? Ou será que existe uma outra maneira para a ocorrência do pensamento e ele é "traduzido" por nós quando falamos?

Descartes diz que o que nos diferencia dos animais é a linguagem e a partir dela ele chegou a conclusão de que nós possuímos um espírito, uma contraparte interior que nos tira da categoria de autômatos. Em outras palavras, é através da linguagem que transmitimos nossos pensamentos, é essa contraparte interior que nos faz diferentes das máquinas que por comandos tem ações e reações relativamente previsíveis ou "calculáveis". Chomsky, próximo da idéia de Descartes vai dizer que uma das principais funções da linguagem é a expressão do pensamento. Em nenhum momento, porém, os autores dizem que linguagem e pensamento são a mesma coisa. Se não me engano, Piaget e Vigotsky dizem algo sobre a natureza  do pensamento e da linguagem e que ambos provém de "lugares" diferentes.

Bem, eis a proposta do texto: linguagem e pensamento não são a mesma coisa. Nós certamente não pensamos em nossa língua nativa. Pense na seguinte situação: Você acorda e percebe que está com fome/ Pensa em tomar café com leite e pães de queijo, mas lembra que você comeu todos eles na noite anterior/ Você teria de sair de casa para comprar mais/ Então, você decide não ir até o supermercado/ Escolhe comer outra coisa ou apenas tomar o café. Toda essa seqüência de decisões demoraria um bocado se fosse articulada sentença por sentença em sua língua nativa. Nós geralmente pensaríamos essas coisas sem articular frases em português. 
   
Segundo Pinker, em seu ótimo livro O Instinto da Linguagem, acreditar que nós pensamos na nossa língua é um absurdo convencional. E dá um ótimo exemplo: "Todos tivemos a experiência de enunciar ou escrever uma frase, parar e perceber que não era exatamente o que queríamos dizer. Para que haja esse sentimento, é preciso haver um ‘o que queríamos dizer’ diferente do que dissemos". Quantas vezes não pensamos com freqüência sobre um determinado assunto, mas na hora de falar sobre ele não conseguimos articular as palavras? Ou seja, não conseguimos traduzir do mentalês (definição de Pinker) para o português. 
 
Existe a hipótese de que a linguagem e o pensamento estejam ligados e esta idéia está ligada a Sapir e a Whorf. Eles afirmam que é uma determinada língua que direciona o nosso pensamento. Por exemplo, falantes da língua Wintu têm que colocar um ou outro sufixo em seus verbos para marcar 1) se o conhecimento que estão transmitindo foi aprendido por observação direta ou 2) se foi aprendido por "ouvir dizer". Mas isso não significa muito, pois será que os falantes do inglês, português ou espanhol não sabem se aprenderam algo por observação direta ou por terceiros? Claro que sabem. A língua, sendo Wintu ou não, não altera o nosso modo de pensar/ver a realidade.
 
Pinker trás alguns exemplos de pensamento sem linguagem: bebês, seria um deles, não podem pensar com palavras. Macacos muito menos, pois não tem capacidade para aprendê-las. Portanto, a língua do pensamento seria essa espécie de mentalês - que nos faz diferentes dos animais e das máquinas, que nos faz não-autômatos. E se é verdade que não existe tradução perfeita, faz sentido que existam alguns de nossos pensamentos que são melhores quando guardados conosco, quando não afirmados ou expressados. Mas aí, a discussão sai do campo da lingüística e da proposta deste texto.

VII CELSUL por Emanuel Souza de Quadros

Cool! Em outubro tem a sétima edição do Encontro do Círculo de  Estudos Lingüísticos do Sul (CELSUL). Neste ano, o encontro será em Pelotas/RS, entre 18 e 20 de outubro. É claro que, assim como no ENAL 7º, o Language Bar terá seus espiões por lá.

Mais informações no site do evento.

July 22, 2006

Mamanhês, Baby talk por Paulo H

Não tenho nada contra crianças, se é possível tê-lo, nem mesmo contra os adultos, embora eles me dêem mais motivos. Só acho engraçado quando conversam com as crianças em mamanhês, ou baby talk como chamam algumas pessoas. É claro que isso é uma questão “cultural”, a maioria das pessoas da nossa sociedade ocidental usa espontaneamente esse tipo de fala com as criancinhas. Parece ser bem intencionado, bonitinho, uma demonstração de “carinho” etc.

Um dos argumentos usados pelas pessoas que acreditam que a linguagem seja uma faculdade inata é o fato de que seria bastante difícil explicar como uma criança aparece falando frases que nunca ouviu, sendo que o contexto em que ela é inserida é cheio de enunciados quebrados, não acabados etc., e, sendo assim, como ela aprenderia a formar frases perfeitas? A evidência dada por certas comunidades lingüísticas onde os adultos simplesmente não conversam com as crianças até elas começarem a falar, até elas estarem aptas a ter um diálogo, é outro argumento interessante: o individuozinho possui inatamente a capacidade de adquirir gramáticas de línguas particulares, assim como possui um coração que vai bombear sangue, se apaixonar etc; aí, após ser dado à luz (ou seja, após ser inserido em uma dada comunidade) estará exposto a uma língua (ou mais de uma). Se as pessoas à sua volta falarem com ele ou não, isso não tem a mínima importância pra aquisição da tal língua – talvez ele se torne um adolescente menos rebelde se houver diálogo na família, mas isso não tem nada a ver com sua capacidade de linguagem. Dizem, inclusive, que esses povos que esperam as crianças adquirirem a língua pra se dirigirem a elas acham engraçado o mamanhês, não entendendo como as crianças conseguem falar “direito” submetidas a tais “deturpações”.

Quando eu era mais guri e meu pai resolveu dar ao mundo mais um falante-ouvinte de português brasileiro, ou seja, quando ele fez outro filho, eu pensei: “Será que se a gente falar com ele como se ele fosse um ser inteligente, não subestimando suas estruturas cognitivas etc., ele não vai falar certo desde pequeno?”. É claro, aforante (apud Odete Menon) o fato de eu ainda não ter lido Marcos Bagno e, portanto, não saber que não existe esse negócio de certo e errado, ainda gosto do meu raciocínio de antigamente. Hoje o meu irmão já é um grande falante-ouvinte de PB, inserido num ambiente riquíssimo lingüisticamente (embora isso também seja discutível, pois sabemos que não há um dialeto mais rico que outro, em termos puramente lingüísticos), no sentido de ter em casa falantes bilíngües (português/alemão), morar num bairro periférico, onde a maioria das pessoas é oriunda do norte do estado do RS (colonizado principalmente por portugueses), de uma cidade historicamente colonizada por italianos (Caxias do Sul. Hoje, porém, acredito que a maioria lá não tenha origem italiana, pelo êxodo rural de outras regiões do estado que não foram colônias italianas nem alemãs). Então, imaginem, o guri ouve os pais conversarem ora em PB (com os “efeitos germânicos” atenuados) ora em alemão; sai à rua e brinca com crianças cujos pais descendem de tropeiros e peões de estância portugueses (ou açorianos); vai à escola e encontra uma professora descendente de italianos, ela própria oriunda da zona rural; sem mencionar a TV e a japonesa intercambista que vive com ele. Disso resultam dados interessantes, como quando ele corrige uma amiga dizendo que o certo é dentro e não drento; que se diz vassoura e não bassoura, mas, por outro lado, bergamota e não vergamota; que é errado pra mim fazer, porque o pai corrige. Sem falar nas variações fonético-fonológicas, como o uso do tepe, da vibrante alveolar, da fricativa velar ou da glotal; da palatalização/não-palatalização; da elevação/não-elevação das pós-tônicas etc. É muito legal. Acho mesmo que observar um sujeitinho desses já é o bastante para fazer uma série de hipóteses a respeito da variação no PB. Quanto à resposta à minha pergunta destacada acima, a resposta é NÃO, embora ele tenha sido submetido ao mamanhês, não obstante minhas tentativas de mudar a cultura e a sociedade. Ele passou pelos mesmos processos que as demais crianças, não adiantou eu falar com ele como falo com adultos, e, é claro, ele adquiriu a mesma língua que a gurizadinha da sua idade que se criou no meio da rua correndo atrás daquele montão de cães que nascem dos bueiros e dos montes de lixo.

Por falar em cachorro, algumas pessoas usam esse mesmo dialeto com seus animaizinhos, o que reforça a idéia de que tem gente que substitui o choro e o cocô/xixi de uma criança pelo latido e o cocô/xixi de um cachorro, o que, diga-se de passagem, não é nenhum problema, pra mim, embora eu prefira seres humanos, uma vez que sempre há a possibilidade de usá-los como informantes.

Ah, é claro: para mais informações, faça um filho. Outra possibilidade é ler o Pinker ou alguns textos sobre aquisição da linguagem. Bem, talvez uma coisa não anule complemente a outra: faça um filho e estude a aquisição da linguagem. Se você é do tipo radical, mude-se com o recém-nascido para uma casa isolada e nunca fale com ele. É possível que, em caso de sobreviver, ele fale contigo algum dia: e essa será uma língua "inédita", você poderá descrevê-la e ganhar milhões vendendo gramáticas dela, como acontece com todo grande lingüista.

PS: se acharem conveniente, desconsiderem o último parágrafo. 

July 16, 2006

Pop! por Tiago Martins

Linguística definitivamente não é um assunto pop. No meio acadêmico com certeza, mas no geral não é assim. Falar de literatura, sociologia, artes em qualquer contexto é bem mais aceitável. Conversar sobre um livro do Saramago numa mesa de bar não é problemático, mesmo para um interlocutor que nunca leu o autor português. Agora, dizer para alguém que um falante nativo nunca produz uma frase agramatical, pois ele tem uma gramática subjacente onde está todo o "programa"  de sua língua, bem, isso é um despautério total. 

Dizer que um falante que diz: "Eu comprei dois carro" não está fazendo nenhum absurdo é um absurdo. Dizer que nem tudo que a Gramática Normativa/Tradicional diz sobre a língua é capaz de dar conta dessa estrutura tão complexa chega a ser um crime. Escrevo isso, pois é uma situação bastante comum para mim, e acho que o é para qualquer um que esteja começando a estudar isso.  A ciência da linguagem parece ir contra os pressupostos mais fortes do senso-comum quanto à língua. É difícil para muitos aceitar que nós temos uma capacidade natural para adquirir uma língua e que, a partir disso, sabemos formar sentenças em nossas línguas sem sequer ter estado na mesma sala em que uma gramática normativa, por ventura, pudesse ter visitado.

Conversando com uma pessoa sobre o fato de uma mulher ter dito obrigado e não obrigada, fui informado de que no português antigo as pessoas diziam "Sou obrigado a lhe agradecer…" ou algo do genêro. A justificativa foi de que falamos obrigado ou obrigada concordando com o nosso genêro (aqui no sentido de sexo também), pois no passado usavamos dessa forma. Bem, uma criança que nasce hoje, a não ser que  venha do útero com um dicionário de etimologia cravado em sua mente, não sabe disso e provavelmente vai saber depois dos 10 anos, se souber. O obrigado vai entrar no sistema de sua língua sem essa informação. A criança -se for menino - dirá obrigado e - se menina - dirá obrigada, mas isso não é uma regra. Mulheres podem dizer obrigado sem problema algum e nem se dão conta disso. E as que dizem obrigada, com certeza, não o fazem pela explicação diacrônica da língua. O sistema da língua - se imaginado como um computador - vai pegar o dado atual e trabalhar com ele, e dentro do sistema da língua não temos dicionários de etimologia ou de expresões antigas.

Isso se explica melhor com o caso das línguas crioulas. Línguas crioulas surgem a partir de pidgins, isto é, quando vários indivíduos de línguas diferentes passam a conviver diariamente e necessitam se comunicar (isso acontecia com os escravos negros transportados da África para outros lugares).  Então, eles criam uma língua fraca, sem estrutura complexa, e num geral eles se falam por palavras soltas e ficam falando dessa forma, com poucas evoluções. No entanto, se eles tem filhos e esses filhos são criados ouvindo essa língua colcha-de- retalhos, o pidgin, eles naturalmente vão preencher as lacunas dos pais. Quero dizer, as palavras soltas que os escravos usavam para se comunicar viram uma língua com estruturas sintáticas, morfológicas e fonológicas complexas quando entram no sistema das crianças. Isso constitui uma língua crioula. Podemos dizer que o sistema da língua é alimentado sincronicamente e a partir desses alimentos - seja lá quais forem e como forem - o sistema gera seus produtos. Por isso não importa que no latim - exemplo clássico e já clichê - sui já tenha o significado de "a si mesmo", pois se, em algum momento, o verbo suicidar entrou no sistema sem a noção que tinha no latim, ele ganhará outra estrutura no português. Dizemos suicidou-se e ficamos felizes com isso.

Outro papo bem comum, é dizer que se todo o falante nativo fala certo, então todo mundo - daqui um tempo - não vai se entender. Mas isso é facilmente refutável, pois todo mundo ainda se entende e sabemos que falando problema ou pobrema as pessoas entendem, pois qualquer um pode perceber que os "erros" são passíveis de sistematização. Tanto que vivemos fazendo brincadeiras dos ’erros’ mais comuns da língua. Não estou dando uma de Marcos Bagno, dizendo que a norma oprime o povo e blá, blá, blá. Acho que as pessoas têm de ter noção de quando falar formalmente, mas sabemos quais coisas estão dentro da estrutura da língua e quais coisas não estão. E o que importa para a estrutura da linguagem é o fato da gramaticalidade e não do erro ou acerto.

Enfim, são esses os pontos que mais chocam e enfurecem quem não conhece os estudos da linguagem e são justamente os pontos mais básicos. Por isso, na próxima reunião com amigos ou familiares fale do livro novo do Daniel Galera, mas não do Chomsky ou do Saussure.

July 11, 2006

E como se escreve? por César Gonzalez

A algum tempo atrás, aqui no Language Bar, reclamei de uma professora de francês que insistia em dizer que determinadas vogais frontais arredondadas eram pronunciadas [u]. Pois bem, ela atacou de novo.

A última aula foi uma aula em que tivemos contato com uma boa quantidade de vocábulos novos, e sempre que se perguntava como se escrevia a resposta era: como se fala. Dá pra imaginar?

Vamos pegar um exemplo do português. Tente escrever como se fala ascenção, eis aqui algumas possibilidades (você consegue pensar em outras, com toda a certeza):

assenssão
acenção
ascenssão
acenssão
ascenção

Bom, já vimos que não há isomorfismo entre língua escrita e língua falada. Pelo menos não em português. Será que há em inglês? Qualquer um que saiba inglês pode confirmar que caught, creation ou island não se falam do modo como são escritos. Não pronunciamos nenhum [g] no primeiro nem um [s] no último, por exemplo. E o que falar do "T" de creation? Logo, não me parece que no inglês escrita reflita a fala de modo inequívoco.

Aqui volto a criticar as aulas de língua estrangeira dos professores que ignoram conceitos básicos de lingüística. Como o aluno vai aprender a escrita de uma língua se o professor não o alerta para as diferenças existentes entre a fala e a escrita? Ainda mais um aluno de língua estrangeira. Um falante de português que é dito que quarto em húngaro é escrito como se fala talvez escreva soba, quando deveria escrever szoba. E um aluno de francês, que pergunta sobre ineffaçable (’que não pode ser feito’) pode escrever de diversas maneiras: inefaçable, inefassable etc.

Me pergunto o que faria o aluno cujo professor de japonês ou árabe (ou qualquer outra língua cujo sistema de escrita seja diferente dos sistema herdado do latim) respondesse que determinada palavra se escreve como se fala.

July 10, 2006

O estranho caso do verbo PONHAR por César Gonzalez

Trabalhar numa pesquisa de variação é realmente interessante. Tanto pelo aprendizado que uma pesquisa traz, quanto pelas criativas histórias que ouvimos enquanto pesquisamos em fitas de entrevistas.

Há alguns dias atrás ouvi uma fita em que o entrevistado utilizava o verbo ponhar. O que é ponhar? Fácil, infinitivo do verbo pôr. Vejamos os exemplos retirados do discurso do informante:

(1) Acham que ponhar filho no mundo é profissão, né?

(2) Comecei a ponhar na cabeça aquilo que eles falavam.

A questão é como que o indivíduo chega à forma ponhar para o infinitivo do verbo pôr.

Primeiro, essa forma é muito parecida com a forma da primeira pessoa do singular do presente do indicativo, ponho. Elas possuem a mesma raiz. É também interessante que essa forma mantém a nasalidade recorrente em todo o presente do indicativo (e do subjuntivo).

A minha hipótese é que ele utilizou a raiz da primeira pessoa do singular do presente do indicativo como base para a criação do infinitivo do verbo. Utilizou a primeira conjugação pois é essa a mais produtiva em português.

Isso poderia ser recorrente em toda a primeira conjugação:

apiedo - apiedar
armo - armar
dou - dar
estou - estar
marco - marcar
negocio - negociar

Isso já não se pode dizer sobre a segunda ou terceira conjugações:

caibo - caber
digo - dizer
faço - fazer
perco - perder
posso - poder

peço - pedir
vou - ir
venho - vir

Mas isso é só uma hipótese. Não sei o quão boa ela é. Se alguém tiver alguma outra hipótese e queria compartilhar, sinta-se a vontade.

July 6, 2006

A review of B. F. Skinner’s “Verbal Behavior” por Paulo H

Tenho muita vontade de ler um dia o livro do Skinner que foi criticado por Chomsky em 1959. É comum encontrarmos em textos sobre o gerativismo (ou sobre a contribuição de Chomsky para a Lingüística) referências a esse artigo, geralmente dizendo que aí o lingüísta "devasta", "detona" com o livro do behaviorista. O texto faz uma crítica excelente, contrapõe argumentos inteligentes e apresenta de modo muito claro as falhas e contradições do livro, especialmente no que se refere aos termos utilizados por Skinner. Para Chomsky, a definição de conceitos como estímulo, reforço, resposta, etc, é vaga demais para explicar alguma coisa sobre o "comportamento verbal". Além disso, experimentos com ratos em laboratórios, onde o aprendizado (e o conhecimento) é medido em termos de mais ou menos tempo levado para encontrar a saída de um labirinto, não bastam para determinar e compreender como funciona o sistema cognitivo humano. Por exemplo, o fato de eu estar escrevendo isto agora não pode ser explicado simplesmente com a idéia de que há um "estímulo" e um "reforço" para que eu faça isso. É claro que, se alguém ler e achar interessante o que escrevo e fizer, quem sabe, um comentário, de alguma maneira isso servirá como "estímulo" ou "reforço" para eu voltar a escrever (principalmente se o comentário for para discordar de mim). Mas isso não diz nada, pois não podemos afirmar qual é exatamente o estímulo ou o reforço que me faz escrever. São muitos, e há provavelmente até sobreposição de alguns.

A resenha é sobre o livro do Skinner, mas Chomsky aproveita e faz uma antítese bem mais ampla, o que me parece ser bastante justificável, uma vez que ele está propondo uma outra teoria da linguagem e não simplesmente dizendo que a tese do psicólogo é absurda. Nas palavras do autor: 

If the conclusions I attempted to substantiate in the review are correct, as I believe they are, then Skinner’s work can be regarded as, in effect, a reductio ad absurdum of behaviorist assumptions. My personal view is that it is a definite merit, not a defect, of Skinner’s work that it can be used for this purpose, and it was for this reason that I tried to deal with it fairly exhaustively.

Vale a pena dar uma lida (clique aqui). Os itens X e XI, especialmente, confrontam com mais nitidez as idéias de Skinner com as de Chomsky. É muito interessante. Mais interessante ainda se lemos a defesa de Skinner feita por Kenneth MacCorquodale (Ken, para os disléxicos).

July 5, 2006

Os Caminhos da Morfologia (Parte II) por Tiago Martins

Terminei a primeira parte desse texto falando sobre a Morfologia de Traços, proposta por Anderson em 1992. Para continuar daí então, segundo ele, esses traços contidos no léxico seriam "comandados" pela Sintaxe e a maneira como eles apareceriam na superfície ficaria por conta da Fonologia Pós-Lexical.  Mas isso é só um esboço do que é a Morfologia de Traços, pois eu propriamente nunca li a proposta de Anderson pelo próprio Anderson, só pelas mãos de outros. O objetivo dessa segunda parte é discorrer, na visão Spencer e Anderson, sobre a pergunta final do outro texto: A Morfologia existe sozinha?

Segundo Spencer, no prefácio do Yearbook of Morphology os editores descrevem a morfologia como uma "disciplina relativamente autônoma", mas existem alguns lingüístas que negam a existência de um componente morfológico separado.

Para o já citado Anderson, a Morfologia Flexional não tem um lugar específico  dentro dos módulos da teoria lingüística. Ela engloba - segundo Maria Filomena Sandalo (falando sobre Anderson) - todo o processo lingüístico".

"… word structure can only be understood as the product of interacting principles from many parts of the grammar: at least phonology, syntax, and semantics in addition to the ‘lexicon’." (Anderson, 1992)

A visão de Spencer valoriza a importância de se investigar a extensão da morfologia - até onde ela pode ser vista em isolado - mesmo que os problemas mais intrigantes estejam na fronteira entre ela e outros componentes.

Bem, a Morfologia pode ser pensada como parte do Léxico, como regras que governam a combinação de morfemas, como RAE´S e RFP´s, dentro de um léxico mais desenvolvido do que o léxico que é uma lista de idiossincrasias. Desse ponto, parece, para mim, que a Morfologia tem lá sua autonomia ou que pelo menos é até esse ponto que ela pode ser vista em isolado. 

Se considerarmos que a Morfologia é um componente autônomo entre a Sintaxe e a Fonologia, como no caso da Morfologia de Traços em que Sintaxe e Fonologia operam sobre esta, então a Morfologia existiria sozinha?  

Sei que a Morfologia Distribuída de Halle & Marantz também fala sobre isso e quem tiver interesse pode buscar bibliografia sobre o assunto e até mandar comentários, mas esse tema está além dos meus conhecimentos de aluno de graduação. Encerro aqui, portanto.            

July 4, 2006

X-gate por Emanuel Souza de Quadros

Com tempo para ler alguns blogs que há tempos eu não acompanhava, encontrei um post interessante no Jabal al-Lughat, recém adicionado à lista de links ao lado. O texto fala de uma manchete de um jornal algeriano que traz, em árabe: al-Jazaa’ir `alaa ‘abwaab fad?iihat "aartii-gaayt"! (’Algéria está à beira de um escândalo ART-gate!’)

A notícia já é velha. Fala da situação dos torcedores do norte da África (a Algéria fica por lá - Language Bar também ensina geografia!) que não poderiam assistir à Copa do Mundo caso as emissoras da região não comprassem os caríssimos direitos de transmissão da ART (Arab Radio and Television) ou se eles mesmo não pagassem por um decodificador, também caro, da ART.

O interessante é o uso de -gate (-gaayt) para formar ART-gate (aartii-gaayt). Esse sufixo se tornou bem comum na imprensa internacional depois do conhecido escândalo Watergate, no início da década de 1970. O nome desse episódio vem do Complexo Watergate, um conjunto de edifícios de luxo em Washington, que serviu de local para os roubos que levaram ao tal escândalo. O lugar tinha esse nome porque ficava próximo a um velho canal chamado de "water gate". Até aí tudo bem, um composto formado de "water", água, e "gate", portão; dá pra imaginar por que um canal seria nomeado assim.

A parte -gate do composto acabou sendo reanalisada como um sufixo, com uma mudança no significado, de modo que as palavras novas que surgiram com a forma X-gate significavam, aproximadamente, ‘escândalo envolvendo X’. Assim, surgiram coisas como Chinagate, Monicagate, Camillagate: escândalos envolvendo a China, Monica Lewinsky e Camilla Parker-Bowles, respectivamente. Aí, -gate já virou uma forma presa, diferente da forma livre gate equivalente a ‘portão’. A Wikipedia traz uma lista com vários exemplos conhecidos, e outros nem tanto, que seguem esse padrão de formação. Meu favorito da lista é Nipplegate, referindo-se àquele "escândalo" no Super Bowl XXXVIII, envolvendo um nipple (’mamilo’) da Janet Jackson - um emprego do sufixo já fora da esfera política.

Esse sufixo também é marginalmente usado em outras línguas como um empréstimo, surgindo a partir de palavras que já vêm prontas, sufixadas, do inglês, através da imprensa. É o caso do exemplo de aartii-gaayt do Jabal al-Lughat e de vários outros no alemão, no serbo-croata e no grego moderno que Brian D. Joseph traz, junto com outras referências sobre o assunto, num pequeno texto chamado "Yet more on -gate words: a perspective from abroad".

Experimentando no Google, encontrei alguns exemplos bem brasileiros: correiogate, mensalãogate, garotinhogate, gasolinagate, caseirogate, lulagate, pallocigate, dirceugate, waldomirogate, thomazgate, collorgate, camaragate, senadogate, planaltogate, propinagate.

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