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Formação de palavras por Paulo H

Observem o seguinte excerto (depois eu digo de quem é):

“a) Se de ágil se criou o neologismo agilizar, de frágil se poderá ter fragilizar. b) Se de atual se formou atualizar, o que se espera de casual ou usual? c) Se temos racionalizar, potencialmente deve existir sensacionalizar ou emocionalizar. Mas não é lícito produzir neologismos sem conhecer bem as regras de derivação. Há um sem-número de vocábulos mal formados exatamente por causa de desajustes em relação a essas regras. O adjetivo ridículo mais o sufixo [iz(ar)] daria normalmente ridiculizar. Todavia, o verbo que se usa hoje é ridicularizar. Às vezes, o problema resulta de imitação estrangeira. Em vez de se tomar como base um vocábulo da língua portuguesa, cria-se o verbo a partir de uma forma adjetival inglesa. Neologismos do tipo internalizar e externalizar não são bem formados, uma vez que se associam a internal e external. Os verbos deveriam ser internizar e externizar, seguindo o modelo de eternizar. Mas hoje se diz até minimalizar, em vez de minimizar" (negritos do autor).

Quem vocês imaginam que escreveu este texto? Antes de revelar o nome do autor, quero fazer algumas observações. Primeiro, ele não considera que os falantes nativos sejam competentes, no sentido chomskyano. Quer dizer, as pessoas não sabem o que é uma palavra bem formada em português, por mais que elas falem essa língua tranqüilamente desde os dois anos de idade. Ele não está levando em conta toda essa discussão proposta aqui pelo Tiago, reparada pelo Emanuel e re-reparada pelo primeiro. Segundo, é interessante o tom normativista do trecho: coisas do tipo não é lícito produzir neologismos sem conhecer bem as regras de derivação; há um sem-número de vocábulos mal formados exatamente por causa de desajustes em relação a essas regras; o problema resulta de imitação estrangeira; adjetivos do tipo internalizar e externalizar não são bem formados; os verbos deveriam ser internizar e externizar; mas hoje se diz até minimalizar, em vez de minimizar. Não pretendo, neste momento, discutir caso a caso os itens acima, usados como exemplos pelo autor, mas há certamente alguns facilmente explicáveis – e não se precisa ser necessariamente um morfólogo, um lingüista para responder a questões como as seguintes: (a) Por que não se formam casualizar, usualizar, sensacionalizar, emocionalizar? (b) Minimalizar e minimizar possuiriam o mesmo significado e, portanto, não poderiam existir dentro da mesma língua?

No caso de (a), sabemos (nós, os estudantes do assunto) que formações em -izar são usadas sobretudo na terminologia formal, acadêmica, técnica (ver, p. ex., M. Basílio, "Formação e classes…", 2004) . Talvez adjetivos como casual e usual não preencham os requisitos para receber este afixo. Afora isso, a intuição de falantes nativos que conheço (nove amigos, contando comigo), sugere que essas palavras não se formam porque nós "não queremos", já que não há, aparentemente, restrições morfológicas ou fonológicas (talvez haja em sensacionalizar, essa seqüência de [s]’s aí pode atrapalhar, segundo o julgamento de uma falante). Uma restrição semântica seria a apontada acima (significado da base), mas acho que, em semântica, as restrições só funcionam realmente se não forem tão sutis quanto essa, ou seja, quem garante que não possamos usar casual e usual num texto acadêmico, etc? Portanto, elas têm plenas condições de produtividade, o que as impede de existir são as condições de produção (que envolvem coisas extralingüísticas, do tipo quem usou a palavra, em que situação, etc.).

Já para a questão (b), ou os falantes (meus conhecidos) não conhecem minimalizar, ou afirmaram já ter ouvido a palavra mas não sabem exatamente o significado. Os primeiros pensam minimalizar e minimizar como sinônimas, caso existissem; os segundos as consideram não-sinônimas.

O que se conclui daí? Que os fatores para a formação de palavras são muitos, e nem sempre dá para determinarmos quais sejam; que podemos formar palavras a partir de bases que não precisam necessariamente ocorrer na língua, como é o caso de internal e external, se assumirmos que internalizar e externalizar vêm daí (o autor está se referindo às palavras inglesas e, nesse caso, podemos concluir que palavras em português podem ser formadas a partir de palavras estrangeiras, o que é muito interessante). Mas, acima de tudo, acho que não podemos desconsiderar a hipótese de que, como falantes nativos, temos pleno conhecimento das regras do português e, por esse simples (e importante) motivo, não estamos errados ao dizer internalizar, ridicularizar, minimalizar. Me parece realmente que a noção de erro decorre dessa visão que ignora a competência lingüística, da idéia de imitação, como se aprendêssemos português somente por indução. Nesse caso, devo culpar meu pai por não ter me ensinado que não se diz ridicularizar, porque é uma palavra “mal formada”, e ele, por sua vez, deverá culpar seus pais, e assim sucessivamente, até chegarmos a Adão e Eva e, quem sabe, ao Criador e à Cobra, talvez a grande culpada por nossa ignorância.

Bom, finalizando, o nome do autor do texto. Não é um gramático normativo, nem um escritor de livros didáticos. É um professor de lingüística, o José Lemos Monteiro, de cujo livro "Morfologia Portuguesa", que está na quarta edição (2002), revista e ampliada, tirei o trecho (p. 152). Sei que ele não é um gerativista, no simples sentido de assumir os pressupostos teóricos do Programa Gerativo e das idéias de Lenneberg, tais como os já apontados: Gramática Universal, todo falante tem conhecimento das estruturas de sua língua materna e é capaz de formar palavras e sentenças gramaticais, conhecimento esse adquirido bem cedo porque ele possui uma capacidade inata para adquirir uma língua (sem que isto exclua o papel do ambiente onde ele se inserirá), etc. etc. Não o estou criticando só porque ele não pensa como eu penso, ou porque ele não leva em consideração a competência lingüística no seu texto. Estou fazendo essa crítica porque acredito que ele poderia qualificar ainda mais seu trabalho se levasse em conta essas questões que, a meu ver, são muito mais importantes e interessantes do que avaliar a idiossincrasia de um ou dois itens lexicais e, pior, dizer que são mal formados porque não conhecemos sua regra de formação.

Tem outras coisas que pretendo discutir aqui sobre esse livro do Monteiro. Mas isso futuramente.


ENAL 7ª por Language Bar

Post de utilidade pública.

O Encontro Nacional sobre Aquisição da Linguagem vai acontecer nos dias 09, 10 e 11 de outubro deste ano, na PUCRS. Esta é a sétima edição. Para quem se interessa por aquisição da linguagem, esta parece ser uma boa oportunidade de se discutir o assunto. Maiores informações no site do encontro.


Estacionamento: logo ali por César Gonzalez

Passava por um estacionamento aqui ao lado de casa quando me deparo com a seguinte placa:

Estacionamento: logo ali.
30 minutos R$5,00, os demais R$2,00.

A placa me deixou um pouco confuso. Como assim "os demais"?! Dei a volta no estacionamento prestando atenção, procurando por outra placa. Encontrei, e ela possuía a mesma inscrição!

Bom, há, no mínimo, três interpretações para essa sentença, vejamos:

(1) O usuário paga R$5,00 pelos primeiros 30 minutos de estacionamento e, para cada minuto a mais, ele pagará R$2,00 a mais.

(2) O usuário paga R$5,00 pelos primeiros 30 minutos e um acréscimo de R$2,00 para cada outros trinta minutos.

(3) O usuário paga R$5,00 pelos primeiros 30 minutos e R$2,00 para todos os outros minutos a mais que ele passar ali.

O que é no mínimo interessante. Se eu fosse o dono do estacionamento estaria preocupado com as possíveis interpretações (1) e (2), que criam contas absurdas depois de algum tempo e afastam os potenciais clientes. Me preocuparia também com a interpretação (3), se essa não for a correta, pois poderiam argumentar que eu estaria fazendo propaganda enganosa. O PROCON estaria sempre me incomodando.

A ambigüidade estrutural da sentença está clara. Assumo que é uma ambigüidade estrutural pois a estrutura de superfície da sentença possui lacunas que foram apagadas durante a dervação da sentença na gramática do falante. Não temos problemas lexicais ou de outra ordem, logo o problema da sentença é sintático.

Poderíamos tentar "desambigüar" (e avisar o dono do estabelecimento para que ele possa escolher a sentença que melhor veicula a mensagem que ele está preocupado em passar):

Interpretação (1):

Estacionamento: logo ali.
Primeiros 30 minutos: R$5,00; cada minuto a mais: R$2,00.

Interpretação (2):

Estacionamento: logo ali.
Primeiros 30 minutos: R$5,00; cada 30 minutos a mais: R$2,00.

Interpretação (3):

Estacionamento: logo ali.
Primeiros 30 minutos: R$5,00; taxa de atraso: R$2,00.

Se você encontrou alguma outra interpretação para a sentença, me avise. Não me considero grande sintaticista também. Portanto, se você entende de sintaxe e quer explicar melhor ou me corrigir, esteja à vontade.


Language Zoo por Emanuel Souza de Quadros

Quando eu era menor, meu irmão dizia que as centopéias eram assim chamadas porque (guess what) tinham cem patas… Não era só ele: lembro de um livro didático de matemática que trazia a figura de uma, com cem patas. Não lembro o porquê dela estar lá, mas dá pra imaginar que tinha algo a ver com operações envolvendo centenas.

Na época eu não fazia idéia (porque ainda não conhecia o Spencer) que os turcos chamam o bicho de kırkayak - um composto formado pelo adjetivo kırk (’quarenta’) e pelo substantivo ayak (’pé’). Se eu soubesse, a explicação do meu irmão não teria colado tão facilmente. Ele ainda poderia escapar dizendo que nossas centopéias são melhores (têm mais pés) que as de lá, ou que os turcos não sabem contar - o que me traria outros conflitos quando eu ouvisse o que povo pensa do relacionamento dos turcos com números.

A desculpa também não colaria por muito tempo, porque eu eventualmente descobriria que as centopéias têm em média 35 pares de pernas. Já que 35 x 2 = 70, ele teria que admitir que sabemos contar tão bem quanto os turcos, pois a distância é a mesma entre 100 e 70 ou entre 70 e 40 (é, né?). Os suecos é que ficariam mal na história: centopéias são conhecidas em sueco pelo composto tusenfoting, em que tusen equivale a mil. Ou quem sabe as centopéias de lá tenham 930 pés a mais…


Tópicos de Francês por César Gonzalez

Mesmo não tendo que justificar meus posts, esse parágrafo de introdução pode se fazer necessário para alguns. Acredito que a lingüística é uma ciência de várias faces. A lingüística aplicada ao ensino de línguas estrangeiras é uma das faces mais interessantes, principalmente para aqueles que, como eu, aluno de licenciatura em letras podem vir um dia a dar aulas de língua estrangeira.

Durante uma de minhas aulas de francês ouvi de minha professora que as letras -eu-, comuns na ortografia francesa, correspondiam ao som do -u- português. Não. Se me permite, professora, a resposta é não. Abrindo o dicionário Le Robert Micro temos uma rápida explicação sobre o sistema fonético do francês. As letras -eu-, em geral, correspondem ao som [ø] ou [œ]. Sei muito bem que não há isomorfismo entre letra e som em se trantando de línguas naturais, mas dizer que -eu- (cf. palavras como leur [lœR] "deles", neutre [nøtR] "neutro" etc.) corresponde ao -u- do português é falar bobagens. Há mais uma crítica a tal atitude: a afirmação pode confundir o aluno quando ele se encontra diante da letra -u- entre consoantes numa palavra da língua francesa, onde, geralmente, corresponde ao som [y] (cf. fumer [fyme] "fumar"). Outra observação a se fazer é que não temos estes sons no português brasileiro - o que os tornam mais difíceis para nós.

Aceito que certas simplificações metodológicas são necessárias no ensino de uma língua estrangeira, mas isso já é demais. É importantíssimo que o aluno seja exposto aos sons da língua sempre que possível uma vez que estes não são os sons de sua língua nativa. A Gramática de Port-Royal, obra sobre a língua francesa do séc. XVII, já apontava para a importância de se aprender as vogais de uma língua antes de mais nada. É impressionante que, séculos depois, ainda não se tenha prestado atenção nas páginas iniciais desta obra. Esse tipo de atitude deixa claro o quão importante é para o professor de língua estrangeira noções de fonética articulatória. Não é justificável que tal explicação seja dada aos alunos uma vez que ela esconde a realidade da língua, o que vai levar a um aprendizado deficitário - algo que não pode ser tolerado.

P.S.: Todas as transcrições tiradas de Le Robert Micro, no alfabeto da IPA.


Como é adquirida a Gramática Gerativa (GG)? por Tiago Martins

A gramática internalizada por cada ser humano normal é algo como uma teoria de sua língua. Essa teoria, segundo Chomsky, dá uma correlação som-sentido para um número inifinito de sentenças. Ela provê um conjunto de Descrições Estruturais (DE). Por ex. (aliás um exemplo de Lyons) "o número 2 gera o conjunto, ou a série, dos números 2,4,16,32…" Esta é uma série que se segue infinitamente apartir de uma base que é 2. Todo o número que for gerado pela base 2 satisfará a função de 2n (2 na potência n) - onde 2 é a base e n é uma variável que compreende os números naturais 1,2,3,4….). Bem cada número da série gerada por 2n pode se associar a uma DE 2(6) - o meu teclado não faz "2 na 6" - 2(6)=64.  Ou seja, a DE de 2(6) é 64.

Nessa concepção quando se diz que uma gramática gera as orações de uma língua, lê-se que ela constitui um Sistema de Regras (com um léxico) que permite decidir quais elementos formarão uma oração gramatical em uma língua.

Bem, explicado o que é DE… Então… cada DE contém uma Estrutura Superficial (ES) que equivale a uma Forma Fonética X e uma Estrutura Porfunda que determina o conteúdo semântico.

Ao adquirir uma linguagem a criança descobre a teoria de sua língua. A criança faz isso sem instrução em uma fase que seu desempenho intelectual é fraco ou pequeno. Logo, segundo Chomsky, o desenvolvimento de uma língua é um tanto independente da inteligência ou da experiência de cada um.  

"É inconcebível que uma língua altamente abstrata, específica e estritamente organizada surja por acidente na mente de uma criança" (Noam Chomsky)

Mas certas coisas não podemos afirmar sobre a linguagem, certas perguntas ficam sem respostas. O que, na verdade, deixa tudo um tanto interessante. Por ex.

-Como pode a mente humana vir a ter propriedade inatas?

-Por qual processo a mente atingiu o seu estado presente de complexidade?

São perguntas que Chomsky se faz e não encontra resposta. Existe uma área da linguagem sobre a qual não podemos mais avançar, há mistérios sobre a mente humana que hoje em dia não podem ser explicados, ele então propõe, que existem aspectos que pode sim ser estudados mais palpávelmente, por assim dizer:

"Penso que por ora as investigaçõs mais produtivas são as que se referem à natureza das gramáticas particulares e as condições universais que  obedecem as línguas humanas". (N.C)

E é isso que é feito quando estudamos Fonologia, Morfologia, Sintaxe, e.t.c por exemplo. Escrevi esses dois textos (ver o primeiro) com a intenção de explicar - para os leitores que não conhecem, o que é a GG, que é um assunto bastante fascinante.


Chomsky, Lenneberg e o Inatismo por Tiago Martins

"Há entre os cientistas sociais uma tendência a considerar a linguagem como um fenômeno puramente aprendido e cultural, um instrumento engenhosamente concebido, introduzido de forma proposital para desempenhar funções de natureza social. Não nos ocorre encarar a possibilidade de que o homem possa estar equipado* com propensões biológicas altamente especializadas que favorecem e até mesmo dão forma ao desenvolvimento da fala na criança e que as raízes da língua possam estar tão profundamente fundadas na nossa costituição natural  quanto, por ex., a nossa predisposição para usar as mãos". (Eric Lenneberg)
 
Lenneberg em um texto chamado "A capacidade de aquisição da linguagem" discute o inatismo; a idéia de que não aprendemos uma língua e sim a adquirimos. Quando usei o termo equipamento genético no meu  texto anterior me referia a esse termo usado no trecho acima. Emanuel bem observou que a concepção de Inatismo não é de Chomsky, faltou eu ter colocado um simples aposto esclarecendo. Chomsky se utilizou dessa idéia na Gramática Gerativa. Humboldt também, antes de Lenneberg, falou nisso. Dizia que a língua é uma questão de maturação de uma capacidade inata do ser humano.
    
Essa não é a questão crucial do Gerativismo, mas penso que é - para um texto introdutório destinado a leitores que não conhecem a teoria - com certeza, o ponto mais interessante. Ponto que inverte o pensamento usual sobre a linguagem como algo ensinado.


Linguagem, Lingüística e alguns pequenos reparos por Emanuel Souza de Quadros

Uma passagem específica do texto do Tiago chamou minha atenção e acho que merece ser comentada:

Tais princípios, pois, que regem a língua não são aprendidos simplesmente. O ser humano possui em seu “equipamento genético” a Faculdade da Linguagem, que estaria localizada no cérebro humano, mais especificamente no lado esquerdo. Uma prova disso seria o fato de que quando pessoas sofrem acidentes que prejudicam esse lado do cérebro elas perdem a capacidade de falar normalmente.

Chamou minha atenção, em primeiro lugar, devido à atribuição dessa idéia, no parágrafo seguinte, a "uma teoria moderna da lingüística que começou nos anos 1950 através de Noam Chomsky…" Na verdade, essa idéia não é crucial na teoria e não foi explicitada por Chomsky. Ele fala de uma "faculdade da linguagem", mas não a atribui a nenhum órgão específico.

De fato, postular a existência dessa faculdade não depende do conhecimento de sua realidade anatômica, sua localização física em algum órgão do corpo humano. Crucial para a lingüística é sua realidade funcional. É tarefa da lingüística, nessa perspectiva, explicitar e explicar o funcionamento do mecanismo, mencionado pelo Tiago, que permite ao falante produzir e interpretar infinitas sentenças de sua língua "com facilidade e sem conhecimento consciente do processo". A realidade anatômica desse mecanismo é uma outra questão, de interesse dos lingüistas, é claro, mas que extrapola o campo de estudo da lingüística gerativa. Fica para as chamadas neurociências, para a Neurolingüística, quem sabe…

Além disso, a localização da faculdade da linguagem no lado esquerdo do cérebro não é tão precisa assim. A idéia existe porque, na maioria das pessoas, áreas responsáveis por habilidades importantes ao uso da linguagem, como as conhecidas áreas de Broca e de Wernicke, se localizam no hemisfério esquerdo. Bastaria dizer que isso não vale para todos: vale para quase todos os destros e para uma boa parte dos canhotos.

Casos em que pessoas apresentam danos em alguma parte do cérebro e, em conseqüência disso, perdem a capacidade de falar normalmente não servem como prova de que a "faculdade da linguagem" se localiza nessa parte. Antes, servem como evidências para isolar certas áreas que podem ser responsáveis por habilidades necessárias ao uso da linguagem. Um exemplo seria um quadro em que um paciente deixa de "falar normalmente" porque teve uma área X de seu cérebro danificada: as especificidades do quadro (e.g. o indivíduo produz apenas sons aleatórios quando tenta se expressar, mas consegue compreender as sentenças que ouve) levam a hipóteses sobre as especificidades da área afetada; no exemplo, é possível que a área X seja responsável pelo controle das articulações no ‘aparelho fonador’.

Ainda não é possível afirmar que a linguagem possui uma localização específica, e é provável que nunca será. É uma habilidade que depende de uma estrutura extremamente complexa que se estende por ambos os hemisférios,  incluindo áreas mais difusas.


Um pouco sobre morfologia por Paulo H

O Tiago e eu estamos fazendo um trabalho de morfologia, um ensaio onde se discutirá a cumulação no sistema flexional do português (quando concluído, disponibilizaremos o texto aqui). O objetivo é compreender como esse fenômeno é tratado nos três modelos de análise conhecidos como Palavra-e-paradigma (PP), Item-e-arranjo (IA) e Item-e-processo (IP), que se referem, respectivamente, aos métodos pré-estruturalistas, estruturalistas norte-americanos e pós-estruturalistas, este último se identificando com o gerativismo, considerando níveis subjacentes de onde derivam (por processos) as formas da superfície. Então, para o trabalho, buscamos textos de gente como Hockett, Gleason Jr., Matthews, Spencer e, sobre o português especialmente, Mattoso e Eunice Pontes. Quero escrever aqui um pouco sobre o que encontrei no Matthews.

Em primeiro lugar, ele não é um estruturalista de Item-e-arranjo. Pelo contrário, defende a volta ao estudo da "palavra como um todo", levando em consideração os processos. Para ilustrar, é muito interessante a seguinte afirmação: "In fact, the languages for which the Word and Paradigm model is appropriate (…) tend, in addition, to be among the languages requiring at least a partial process treatment" (p. 145). Isso quer dizer que seu ponto de vista (como deve ser, já que se propôs a escrever um livro de introdução à morfologia) é bastante crítico para se filiar a um modelo de análise e defendê-lo a qualquer custo.

Quanto à cumulação, Matthews a distingue da fusão (fused exponence) e da sobreposição (overlapping exponence). A primeira é caracterizada pelo fato de duas ou mais categorias (como número, caso, etc) não serem identificadas por morfemas separados - um exemplo é o chamado sufixo de número-pessoa em português; a segunda é o resultado de um processo de sandi, como em partis, onde ocorre crase entre -i (vogal temática) e -is (sufixo de número-pessoa); a terceira diz respeito ao caso de, por exemplo, como, onde aparece um sufixo -o que se refere à primeira pessoa, ao número singular, e, além do mais, ao presente do indicativo. O fato de -o identificar número e pessoa não é novidade: eles sempre aparecem inseparáveis. O que é diferente é que ele também marca o presente do indicativo. Para Matthews, isso é "meramente um caso especial de overlapping".

Há umas observações a fazer. Primeiro, o que Matthews considera cumulação é bastante diferente do que Pontes (1965) leva em conta para resolver os problemas de análise dos verbos em português, sob uma perspectiva de IA. Ela simplesmente aceita que número-pessoa e tempo-modo-aspecto ocorrem sempre amalgamados e ponto final: "Não temos um morfema distinto para cada uma destas categorias. Modo, tempo e aspecto manifestam-se num morfema que chamaremos MTA; pessoa e número em outro, PN" (p.67). Para Pontes, cumulação é o que é chamado por Matthews de overlapping. Particularmente, acredito que o termo cumulação pode ser compreendido em um sentido amplo e em um sentido estrito. O primeiro engloba os três casos distinguidos por Matthews. O segundo lida somente com o que é cumulação para Pontes: o caso de amo, onde esse -o representa, ao mesmo tempo, primeira pessoa (e, é claro, número singular) e presente do indicativo. O caso da fusão, por se referir a regras (ou seja, processos) fonológicas, é tratado em IA num nível intermediário, o morfofonêmico.

Outro aspecto interessante: a vogal temática. Matthews não fala em VT; se formos considerá-la na depreensão dos morfemas, ela acumulará muitas vezes MTA e/ou PN (como se vê em Pontes). Realmente, a cumulação é um problemão para IA.

Em PP, como a palavra é tomada como um todo, sem preocupação com as "formas mínimas indivisíveis portadoras de significado", não temos esse problema. Identificam-se os radicais, isso sim, acomodando-os em paradigmas. Aos radicais juntam-se as terminações, que não são nada mais que "tudo que não fizer parte do radical". Assim, dizemos que -o é a terminação para a primeira pessoa singular do presente do indicativo do verbo X (por exemplo, AMAR - caixa alta pra representar o verbo todo, utilizando-se do infinitivo). À raiz do verbo X, p. ex. am-, se junta a terminação -o e pronto: temos a forma amo. Isso é PP.

Em IP, assume-se que existem as noções de modo, tempo, número, VT (que prepara o radical para receber uma flexão, processo natural e fonologicamente explicado: p. ex., em part + i + mos, esse -i tem a função de colaborar para a boa formação da sílaba, além de servir para uma possível classificação desse verbo num paradigma, se considerarmos isso importante - como de fato é, mas também é outro papo), etc. Como se verifica que essas noções se manifestam em outras formas verbais (cf. am + a + re + mos, part + i + sse + mos), pode-se tranqüilamente dizer que elas existem, mas não se manifestam em amo. É simples, coerente, bonito, limpo, lógico, etc. Não precisamos dizer que aí existe um morfema zero, a famosa "ausência presente".

De qualquer modo, é realmente louvável o esforço dos estruturalistas em descrever tudo (ou quase) sem considerar processos, evitar ao máximo a abstração, etc. Particularmente, comecei a gostar mesmo de lingüística numa aula sobre Bloomfield e a distribuição dos constituintes imediatos em caixinhas, uma dentro da outra (outra hora mostro como é o esquema, agora estou sem tempo). Ao ver aquilo, olhos brilhando, pensei: "Taí, já sei o que quero ser quando crescer. Um distribucionista."

Para terminar, já pensaram na trabalheira que era (e é) chegar numa aldeia indígena com a missão de descrever a língua daquelas pessoas? Haja fé…


Linguagem & Lingüística por Tiago Martins

É certo que as pessoas sempre têm idéias próprias sobre a linguagem e se não sobre a linguagem sobre sua própria língua. Idéias comuns sobre o que os falantes fazem, sobre “erros” freqüentes e.t.c e e.t.c… Para a maior parte dessas pessoas a linguagem é um instrumento para ser usado e que não merece uma atenção minuciosa.

Este primeiro texto tem a intenção de explicar, para quem não conhece, o que é a Lingüística e de falar de maneira mais metódica sobre a linguagem.

Para começar, vamos definir a diferença de língua e linguagem. Uma língua é um conjunto de frases, cada uma delas formada por uma série de palavras. Língua é o que usamos quando falamos, é o que vemos escrito em jornais, livros e revistas. Linguagem é algo maior que a língua, é o que permite que a língua exista.

Quando se começa, no primeiro semestre de um curso de Letras, a estudar Lingüística é difícil dizer o que ela é de maneira simples; mas sem grandes problematizações, baseado num conceito de Gleason Jr., dá pra resumir da seguinte maneira: A Lingüística é a ciência que procura compreender a linguagem da perspectiva de sua estrutura interna.

O falante de uma língua utiliza esta estrutura complexa com facilidade e sem conhecimento consciente do processo; que lhe parece simples e natural. Podemos dizer que esta estrutura tem um mecanismo que permite a formação e a interpretação de frases.

É tarefa da lingüística explicitar o funcionamento desse mecanismo. Um mecanismo que faz com que os falantes do português, por exemplo, formem uma frase como:
                                              (1) – O escritor escreveu um conto.
No entanto, em uma situação normal, a par de brincadeiras, o falante nunca formaria uma frase como:
                                              (2) – Escritor conto o um escreveu.
Não é qualquer seqüência de palavras que constitui uma frase da língua portuguesa ou de qualquer língua. Por que isso ocorre? Por que as línguas são organizadas naturalmente segundo determinadas regras e essas regras ou princípios são os objetos de estudo dos lingüistas.

Tais princípios, pois, que regem a língua não são aprendidos simplesmente. O ser humano possui em seu “equipamento genético” a Faculdade da Linguagem, que estaria localizada no cérebro humano, mais especificamente no lado esquerdo. Uma prova disso seria o fato de que quando pessoas sofrem acidentes que prejudicam esse lado do cérebro elas perdem a capacidade de falar normalmente.

Essa é uma teoria moderna da lingüística que começou nos anos 1950 através de Noam Chomsky e se estende até hoje, como a visão predominante dos estudos lingüísticos formais. Chomsky afirma que todo o ser humano tem uma Gramática Universal que o torna apto a adquirir uma língua. Essa gramática universal é composta por Princípios e por Parâmetros. Os Princípios são leis gerais válidas para todas as línguas naturais e Parâmetros são propriedades que uma língua específica pode ou não exibir. Um falante nasce em seu estágio zero da língua e à medida que os Parâmetros (propriedades da língua em que a criança começara a ter contato) vão sendo fixados, vai se constituindo a gramática de sua língua. Uma criança nascida no Brasil vai fixar Parâmetros que a farão falar português, por exemplo.

Podemos confiar nessa idéia por um fato óbvio a todos nós: toda a criança normal em qualquer parte do mundo adquire, pelo menos, uma língua e mais ou menos na mesma faixa etária e com a mesma velocidade. Poderíamos dizer que a criança aprende a língua através de sua família, mas como ela o faria – no mundo inteiro – de maneira muito semelhante e na mesma velocidade se fosse assim? Pois dependeria da quantidade de coisas que a família falaria com a criança e isso seria variável de família para família. Quando uma criança aprende a andar de bicicleta ou a jogar basquete, ela não aprende na mesma velocidade da mesma maneira que todas as crianças no mundo, no entanto, é assim que ela aprende sua língua nativa.

O objetivo da Lingüística atual é explicitar o que um falante sabe internamente quando sabe uma língua, quais as regras “mentais”, por assim dizer, que ele possui. A Lingüística Gerativa, pois, não estuda a fala dos falantes, estuda o que está por trás disso e muitas vezes utiliza uma linguagem formal e matemática para explicar isso.

A lingüística possui outras vertentes (como a Lingüística Funcional) e com certeza não começou nos anos 1950 com Chomsky, mas no final do Século XVIII quando a linguagem passou a ser estudada por si mesma, isoladamente, e não ligada a outros estudos como comportamento, retórica, poética and so on.  A explicação acima foi mais comprometida com uma visão Gerativa e Formal da Lingüística, pois os meus textos futuros estarão muito mais dentro desse âmbito que considero o mais importante, interessante e explicativo.


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