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June 20, 2006

Os caminhos da Morfologia (Parte I) por Tiago Martins

É legal observar os caminhos da morfologia desde o início da Teoria Gerativa, pois muitas vezes olhando para a "história" da Morfologia entendemos melhor os seus respectivos problemas. Além de ser interessantíssimo ler sobre essas coisas em caras como Spencer e Anderson.

É sabido que logo que a Teoria Gerativa teve início tudo era Sintaxe. A Morfologia feita pelos estruturalistas norte-americanos - separando a palavra em morfemas e analisando-os por sua distribuição - foi deixada de lado. Anderson num artigo chamado "Where is Morphology?" afirma que nessa época "morphologists could safely go to the beach". Segundo o que li num artigo de Maria Filomena Sandalo, a Morfologia passou a ser tratada dentro do componente fonológico, mais especificamente dentro da  Fonologia Lexical. 

"Segundo essa abordagem, morfemas seriam adicionados uns aos outros no léxico, regras fonológicas seguiriam aplicadas depois da adição de cada morfema".

"O léxico (…) é um local de armazenamento de irregularidades memorizadas. A Morfologia específica de cada língua seria, assim, objeto da memória". (Trechos em itálico do artigo "Morfologia"  da Maria Filomena)    

Em 1970, Chomsky - naquele famoso artigo "Remarks on Nominalization" - diz que a Sintaxe não teria olhos para a estrutura interna das palavras. Mas Anderson em 1982, no já mencionado "Where is Morphology?" faz duas perguntas:

1) A Morfologia é irrelevante para a Sintaxe?

2) Toda a Morfologia é processada dentro do léxico?

Bem, parece que os Morfemas Flexionais seriam, sim, relevantes para a Sintaxe. É só pensar, por exemplo, numa frase como:

Os meninos brincavam no quarto de Michael Jackson.   

O artigo está no plural e esse "s", marca do mesmo, indica que nós temos o núcleo do SN também no plural. Bom, a flexão está tendo uma certa relação com a Sintaxe, não parece? Há também os morfemas de caso. Por exemplo, no latim, um morfema acrescido ao final de um substantivo pode indicar se este é sujeito ou objeto direto.     

Resumindo, Chomsky na Hipótese Lexicalista dizia que a Sintaxe não "tinha olhos" para a Morfologia, mas Anderson (1982) discorda, como mostrado acima, dizendo que a Sintaxe e a Morfologia Flexional tem uma relação. A Morfologia Derivacional passou a ser vista como um Processo Lexical, uma vez que temos morfemas como -izar, -ção, -mente, e.t.c que podem se juntar com certas palavras. Esses morfemas e as regras que permitem que eles se combinem com determinadas palavras e não com outras estão no nível do léxico. A Morfologia Flexional é vista como um Processo Sintático, como já exemplificado com o exemplo do Michael Jackson. Em oposição ou em complemento da Hipótese Lexicalista de Chomsky, a idéia de Anderson foi chamada de Hipótese Lexicalista Fraca.

Falando um pouco em Sintaxe, mas bem pouco, pois por enquanto não é a proposta, a Flexão ganhou uma marca F nas árvores sintáticas. Mas se pareceu até aqui, com essa explicação, que a Morfologia Flexional está dentro da Sintaxe, explico que não. Anderson em 1992, nega que seja esse o caso e cria um método para o estudo da Morfologia Flexional. Ele diz que a unidade mínima da Morfologia não são os morfemas, mas sim traços morfológicos, por exemplo, +1o.pessoa, etc. Esses traços estariam dentro do léxico. Um léxico de traços, pois. Enfim, tudo isso não é só sobre Morfologia, é sobre Sintaxe também, sobre a relação da Morfologia com a Sintaxe. Se estivesse falando sobre outras coisas iria acabar falando de Fonologia também (de Morfofonologia). A pergunta é: A Morfologia existe sozinha? (Continua….)   

4 Comments »

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  1. Parabéns pelo blog. Muito legal!

    Comment by Rita Stein — June 21, 2006 @ 10:32

  2. Qual é o artigo da Maria Filomena Sândalo que tu citaste?
    Queria ler, porque para mim parece confuso dizer que a “Morfologia passou a ser tratada dentro do componente fonológico, mais especificamente dentro da Fonologia Lexical”. São coisas de dois momentos diferentes. Tratar morfologia dentro do componente fonológico era coisa do SPE: na época, o que chamamos de morfologia era um monte de coisas dividas entre a Sintaxe, as regras de reajuste e a Fonologia. Depois veio a Fonologia Lexical, em que parte da fonologia era tratada dentro do léxico; mas, aí, as férias dos morfólogos já haviam acabado.

    Comment by Emanuel Quadros — June 21, 2006 @ 23:27

  3. Aliás, boa idéia esse “Caminhos da Morfologia”, queremos mais. Bring it!

    Comment by Emanuel Quadros — June 22, 2006 @ 00:00

  4. Duas observações. Primeiro: “É sabido que logo que a Teoria Gerativa teve início tudo era Sintaxe”. Não sei se dá pra dizer que “tudo era sintaxe”, talvez tu pudesse afirmar que “a morfologia flexional” era sintaxe, mas não a fonologia, p. ex.
    Segundo: “A Morfologia passou a ser tratada dentro do componente fonológico, mais especificamente dentro da Fonologia Lexical”. O mesmo que o Emanuel disse acima. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Tem certeza de que a Sandalo escreveu isso?

    Comment by Paulo Henrique Pappen — June 22, 2006 @ 14:10

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