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June 14, 2006

Formação de palavras por Paulo H

Observem o seguinte excerto (depois eu digo de quem é):

“a) Se de ágil se criou o neologismo agilizar, de frágil se poderá ter fragilizar. b) Se de atual se formou atualizar, o que se espera de casual ou usual? c) Se temos racionalizar, potencialmente deve existir sensacionalizar ou emocionalizar. Mas não é lícito produzir neologismos sem conhecer bem as regras de derivação. Há um sem-número de vocábulos mal formados exatamente por causa de desajustes em relação a essas regras. O adjetivo ridículo mais o sufixo [iz(ar)] daria normalmente ridiculizar. Todavia, o verbo que se usa hoje é ridicularizar. Às vezes, o problema resulta de imitação estrangeira. Em vez de se tomar como base um vocábulo da língua portuguesa, cria-se o verbo a partir de uma forma adjetival inglesa. Neologismos do tipo internalizar e externalizar não são bem formados, uma vez que se associam a internal e external. Os verbos deveriam ser internizar e externizar, seguindo o modelo de eternizar. Mas hoje se diz até minimalizar, em vez de minimizar" (negritos do autor).

Quem vocês imaginam que escreveu este texto? Antes de revelar o nome do autor, quero fazer algumas observações. Primeiro, ele não considera que os falantes nativos sejam competentes, no sentido chomskyano. Quer dizer, as pessoas não sabem o que é uma palavra bem formada em português, por mais que elas falem essa língua tranqüilamente desde os dois anos de idade. Ele não está levando em conta toda essa discussão proposta aqui pelo Tiago, reparada pelo Emanuel e re-reparada pelo primeiro. Segundo, é interessante o tom normativista do trecho: coisas do tipo não é lícito produzir neologismos sem conhecer bem as regras de derivação; há um sem-número de vocábulos mal formados exatamente por causa de desajustes em relação a essas regras; o problema resulta de imitação estrangeira; adjetivos do tipo internalizar e externalizar não são bem formados; os verbos deveriam ser internizar e externizar; mas hoje se diz até minimalizar, em vez de minimizar. Não pretendo, neste momento, discutir caso a caso os itens acima, usados como exemplos pelo autor, mas há certamente alguns facilmente explicáveis – e não se precisa ser necessariamente um morfólogo, um lingüista para responder a questões como as seguintes: (a) Por que não se formam casualizar, usualizar, sensacionalizar, emocionalizar? (b) Minimalizar e minimizar possuiriam o mesmo significado e, portanto, não poderiam existir dentro da mesma língua?

No caso de (a), sabemos (nós, os estudantes do assunto) que formações em -izar são usadas sobretudo na terminologia formal, acadêmica, técnica (ver, p. ex., M. Basílio, "Formação e classes…", 2004) . Talvez adjetivos como casual e usual não preencham os requisitos para receber este afixo. Afora isso, a intuição de falantes nativos que conheço (nove amigos, contando comigo), sugere que essas palavras não se formam porque nós "não queremos", já que não há, aparentemente, restrições morfológicas ou fonológicas (talvez haja em sensacionalizar, essa seqüência de [s]’s aí pode atrapalhar, segundo o julgamento de uma falante). Uma restrição semântica seria a apontada acima (significado da base), mas acho que, em semântica, as restrições só funcionam realmente se não forem tão sutis quanto essa, ou seja, quem garante que não possamos usar casual e usual num texto acadêmico, etc? Portanto, elas têm plenas condições de produtividade, o que as impede de existir são as condições de produção (que envolvem coisas extralingüísticas, do tipo quem usou a palavra, em que situação, etc.).

Já para a questão (b), ou os falantes (meus conhecidos) não conhecem minimalizar, ou afirmaram já ter ouvido a palavra mas não sabem exatamente o significado. Os primeiros pensam minimalizar e minimizar como sinônimas, caso existissem; os segundos as consideram não-sinônimas.

O que se conclui daí? Que os fatores para a formação de palavras são muitos, e nem sempre dá para determinarmos quais sejam; que podemos formar palavras a partir de bases que não precisam necessariamente ocorrer na língua, como é o caso de internal e external, se assumirmos que internalizar e externalizar vêm daí (o autor está se referindo às palavras inglesas e, nesse caso, podemos concluir que palavras em português podem ser formadas a partir de palavras estrangeiras, o que é muito interessante). Mas, acima de tudo, acho que não podemos desconsiderar a hipótese de que, como falantes nativos, temos pleno conhecimento das regras do português e, por esse simples (e importante) motivo, não estamos errados ao dizer internalizar, ridicularizar, minimalizar. Me parece realmente que a noção de erro decorre dessa visão que ignora a competência lingüística, da idéia de imitação, como se aprendêssemos português somente por indução. Nesse caso, devo culpar meu pai por não ter me ensinado que não se diz ridicularizar, porque é uma palavra “mal formada”, e ele, por sua vez, deverá culpar seus pais, e assim sucessivamente, até chegarmos a Adão e Eva e, quem sabe, ao Criador e à Cobra, talvez a grande culpada por nossa ignorância.

Bom, finalizando, o nome do autor do texto. Não é um gramático normativo, nem um escritor de livros didáticos. É um professor de lingüística, o José Lemos Monteiro, de cujo livro "Morfologia Portuguesa", que está na quarta edição (2002), revista e ampliada, tirei o trecho (p. 152). Sei que ele não é um gerativista, no simples sentido de assumir os pressupostos teóricos do Programa Gerativo e das idéias de Lenneberg, tais como os já apontados: Gramática Universal, todo falante tem conhecimento das estruturas de sua língua materna e é capaz de formar palavras e sentenças gramaticais, conhecimento esse adquirido bem cedo porque ele possui uma capacidade inata para adquirir uma língua (sem que isto exclua o papel do ambiente onde ele se inserirá), etc. etc. Não o estou criticando só porque ele não pensa como eu penso, ou porque ele não leva em consideração a competência lingüística no seu texto. Estou fazendo essa crítica porque acredito que ele poderia qualificar ainda mais seu trabalho se levasse em conta essas questões que, a meu ver, são muito mais importantes e interessantes do que avaliar a idiossincrasia de um ou dois itens lexicais e, pior, dizer que são mal formados porque não conhecemos sua regra de formação.

Tem outras coisas que pretendo discutir aqui sobre esse livro do Monteiro. Mas isso futuramente.

1 Comment »

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  1. uiuiuiuiui
    thu hut maic lesmi kthuiu baby orangi violet red greem blue

    Comment by venessy — November 6, 2006 @ 12:33

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