Tópicos de Francês
Mesmo não tendo que justificar meus posts, esse parágrafo de introdução pode se fazer necessário para alguns. Acredito que a lingüística é uma ciência de várias faces. A lingüística aplicada ao ensino de línguas estrangeiras é uma das faces mais interessantes, principalmente para aqueles que, como eu, aluno de licenciatura em letras podem vir um dia a dar aulas de língua estrangeira.
Durante uma de minhas aulas de francês ouvi de minha professora que as letras -eu-, comuns na ortografia francesa, correspondiam ao som do -u- português. Não. Se me permite, professora, a resposta é não. Abrindo o dicionário Le Robert Micro temos uma rápida explicação sobre o sistema fonético do francês. As letras -eu-, em geral, correspondem ao som [ø] ou [œ]. Sei muito bem que não há isomorfismo entre letra e som em se trantando de línguas naturais, mas dizer que -eu- (cf. palavras como leur [lœR] "deles", neutre [nøtR] "neutro" etc.) corresponde ao -u- do português é falar bobagens. Há mais uma crítica a tal atitude: a afirmação pode confundir o aluno quando ele se encontra diante da letra -u- entre consoantes numa palavra da língua francesa, onde, geralmente, corresponde ao som [y] (cf. fumer [fyme] "fumar"). Outra observação a se fazer é que não temos estes sons no português brasileiro - o que os tornam mais difíceis para nós.
Aceito que certas simplificações metodológicas são necessárias no ensino de uma língua estrangeira, mas isso já é demais. É importantíssimo que o aluno seja exposto aos sons da língua sempre que possível uma vez que estes não são os sons de sua língua nativa. A Gramática de Port-Royal, obra sobre a língua francesa do séc. XVII, já apontava para a importância de se aprender as vogais de uma língua antes de mais nada. É impressionante que, séculos depois, ainda não se tenha prestado atenção nas páginas iniciais desta obra. Esse tipo de atitude deixa claro o quão importante é para o professor de língua estrangeira noções de fonética articulatória. Não é justificável que tal explicação seja dada aos alunos uma vez que ela esconde a realidade da língua, o que vai levar a um aprendizado deficitário - algo que não pode ser tolerado.
P.S.: Todas as transcrições tiradas de Le Robert Micro, no alfabeto da IPA.
