Linguagem, Lingüística e alguns pequenos reparos
Uma passagem específica do texto do Tiago chamou minha atenção e acho que merece ser comentada:
Tais princípios, pois, que regem a língua não são aprendidos simplesmente. O ser humano possui em seu “equipamento genético” a Faculdade da Linguagem, que estaria localizada no cérebro humano, mais especificamente no lado esquerdo. Uma prova disso seria o fato de que quando pessoas sofrem acidentes que prejudicam esse lado do cérebro elas perdem a capacidade de falar normalmente.
Chamou minha atenção, em primeiro lugar, devido à atribuição dessa idéia, no parágrafo seguinte, a "uma teoria moderna da lingüística que começou nos anos 1950 através de Noam Chomsky…" Na verdade, essa idéia não é crucial na teoria e não foi explicitada por Chomsky. Ele fala de uma "faculdade da linguagem", mas não a atribui a nenhum órgão específico.
De fato, postular a existência dessa faculdade não depende do conhecimento de sua realidade anatômica, sua localização física em algum órgão do corpo humano. Crucial para a lingüística é sua realidade funcional. É tarefa da lingüística, nessa perspectiva, explicitar e explicar o funcionamento do mecanismo, mencionado pelo Tiago, que permite ao falante produzir e interpretar infinitas sentenças de sua língua "com facilidade e sem conhecimento consciente do processo". A realidade anatômica desse mecanismo é uma outra questão, de interesse dos lingüistas, é claro, mas que extrapola o campo de estudo da lingüística gerativa. Fica para as chamadas neurociências, para a Neurolingüística, quem sabe…
Além disso, a localização da faculdade da linguagem no lado esquerdo do cérebro não é tão precisa assim. A idéia existe porque, na maioria das pessoas, áreas responsáveis por habilidades importantes ao uso da linguagem, como as conhecidas áreas de Broca e de Wernicke, se localizam no hemisfério esquerdo. Bastaria dizer que isso não vale para todos: vale para quase todos os destros e para uma boa parte dos canhotos.
Casos em que pessoas apresentam danos em alguma parte do cérebro e, em conseqüência disso, perdem a capacidade de falar normalmente não servem como prova de que a "faculdade da linguagem" se localiza nessa parte. Antes, servem como evidências para isolar certas áreas que podem ser responsáveis por habilidades necessárias ao uso da linguagem. Um exemplo seria um quadro em que um paciente deixa de "falar normalmente" porque teve uma área X de seu cérebro danificada: as especificidades do quadro (e.g. o indivíduo produz apenas sons aleatórios quando tenta se expressar, mas consegue compreender as sentenças que ouve) levam a hipóteses sobre as especificidades da área afetada; no exemplo, é possível que a área X seja responsável pelo controle das articulações no ‘aparelho fonador’.
Ainda não é possível afirmar que a linguagem possui uma localização específica, e é provável que nunca será. É uma habilidade que depende de uma estrutura extremamente complexa que se estende por ambos os hemisférios, incluindo áreas mais difusas.
