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June 6, 2006

Um pouco sobre morfologia por Paulo H

O Tiago e eu estamos fazendo um trabalho de morfologia, um ensaio onde se discutirá a cumulação no sistema flexional do português (quando concluído, disponibilizaremos o texto aqui). O objetivo é compreender como esse fenômeno é tratado nos três modelos de análise conhecidos como Palavra-e-paradigma (PP), Item-e-arranjo (IA) e Item-e-processo (IP), que se referem, respectivamente, aos métodos pré-estruturalistas, estruturalistas norte-americanos e pós-estruturalistas, este último se identificando com o gerativismo, considerando níveis subjacentes de onde derivam (por processos) as formas da superfície. Então, para o trabalho, buscamos textos de gente como Hockett, Gleason Jr., Matthews, Spencer e, sobre o português especialmente, Mattoso e Eunice Pontes. Quero escrever aqui um pouco sobre o que encontrei no Matthews.

Em primeiro lugar, ele não é um estruturalista de Item-e-arranjo. Pelo contrário, defende a volta ao estudo da "palavra como um todo", levando em consideração os processos. Para ilustrar, é muito interessante a seguinte afirmação: "In fact, the languages for which the Word and Paradigm model is appropriate (…) tend, in addition, to be among the languages requiring at least a partial process treatment" (p. 145). Isso quer dizer que seu ponto de vista (como deve ser, já que se propôs a escrever um livro de introdução à morfologia) é bastante crítico para se filiar a um modelo de análise e defendê-lo a qualquer custo.

Quanto à cumulação, Matthews a distingue da fusão (fused exponence) e da sobreposição (overlapping exponence). A primeira é caracterizada pelo fato de duas ou mais categorias (como número, caso, etc) não serem identificadas por morfemas separados - um exemplo é o chamado sufixo de número-pessoa em português; a segunda é o resultado de um processo de sandi, como em partis, onde ocorre crase entre -i (vogal temática) e -is (sufixo de número-pessoa); a terceira diz respeito ao caso de, por exemplo, como, onde aparece um sufixo -o que se refere à primeira pessoa, ao número singular, e, além do mais, ao presente do indicativo. O fato de -o identificar número e pessoa não é novidade: eles sempre aparecem inseparáveis. O que é diferente é que ele também marca o presente do indicativo. Para Matthews, isso é "meramente um caso especial de overlapping".

Há umas observações a fazer. Primeiro, o que Matthews considera cumulação é bastante diferente do que Pontes (1965) leva em conta para resolver os problemas de análise dos verbos em português, sob uma perspectiva de IA. Ela simplesmente aceita que número-pessoa e tempo-modo-aspecto ocorrem sempre amalgamados e ponto final: "Não temos um morfema distinto para cada uma destas categorias. Modo, tempo e aspecto manifestam-se num morfema que chamaremos MTA; pessoa e número em outro, PN" (p.67). Para Pontes, cumulação é o que é chamado por Matthews de overlapping. Particularmente, acredito que o termo cumulação pode ser compreendido em um sentido amplo e em um sentido estrito. O primeiro engloba os três casos distinguidos por Matthews. O segundo lida somente com o que é cumulação para Pontes: o caso de amo, onde esse -o representa, ao mesmo tempo, primeira pessoa (e, é claro, número singular) e presente do indicativo. O caso da fusão, por se referir a regras (ou seja, processos) fonológicas, é tratado em IA num nível intermediário, o morfofonêmico.

Outro aspecto interessante: a vogal temática. Matthews não fala em VT; se formos considerá-la na depreensão dos morfemas, ela acumulará muitas vezes MTA e/ou PN (como se vê em Pontes). Realmente, a cumulação é um problemão para IA.

Em PP, como a palavra é tomada como um todo, sem preocupação com as "formas mínimas indivisíveis portadoras de significado", não temos esse problema. Identificam-se os radicais, isso sim, acomodando-os em paradigmas. Aos radicais juntam-se as terminações, que não são nada mais que "tudo que não fizer parte do radical". Assim, dizemos que -o é a terminação para a primeira pessoa singular do presente do indicativo do verbo X (por exemplo, AMAR - caixa alta pra representar o verbo todo, utilizando-se do infinitivo). À raiz do verbo X, p. ex. am-, se junta a terminação -o e pronto: temos a forma amo. Isso é PP.

Em IP, assume-se que existem as noções de modo, tempo, número, VT (que prepara o radical para receber uma flexão, processo natural e fonologicamente explicado: p. ex., em part + i + mos, esse -i tem a função de colaborar para a boa formação da sílaba, além de servir para uma possível classificação desse verbo num paradigma, se considerarmos isso importante - como de fato é, mas também é outro papo), etc. Como se verifica que essas noções se manifestam em outras formas verbais (cf. am + a + re + mos, part + i + sse + mos), pode-se tranqüilamente dizer que elas existem, mas não se manifestam em amo. É simples, coerente, bonito, limpo, lógico, etc. Não precisamos dizer que aí existe um morfema zero, a famosa "ausência presente".

De qualquer modo, é realmente louvável o esforço dos estruturalistas em descrever tudo (ou quase) sem considerar processos, evitar ao máximo a abstração, etc. Particularmente, comecei a gostar mesmo de lingüística numa aula sobre Bloomfield e a distribuição dos constituintes imediatos em caixinhas, uma dentro da outra (outra hora mostro como é o esquema, agora estou sem tempo). Ao ver aquilo, olhos brilhando, pensei: "Taí, já sei o que quero ser quando crescer. Um distribucionista."

Para terminar, já pensaram na trabalheira que era (e é) chegar numa aldeia indígena com a missão de descrever a língua daquelas pessoas? Haja fé…

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