Sincronia, diacronia e expressões populares
Acabei de receber um e-mail com um tipo de cultura inútil bem interessante: as origens de algumas expressões populares. Ainda que boa parte delas não seja muito usada pela minha geração, o e-mail continua sendo engraçadinho.
Lendo o e-mail me lembrei de Saussure e sua dicotomia Sincronia/Diacronia. Coisas como:
Casa da Mãe Joana:
Na época do Brasil Império, mais especificamente durante a minoridade do Dom Pedro II, os homens que realmente mandavam no país costumavam se encontrar num prostíbulo do Rio de Janeiro, cuja proprietária se chamava Joana. Como esses homens mandavam e desmandavam no país, a frase "casa da Mãe Joana" ficou conhecida como sinônimo de lugar em que ninguém manda.
e:
Vá se queixar ao bispo:
Durante o Brasil Colônia, a fertilidade de uma mulher era atributo fundamental para o casamento, afinal, a ordem era povoar as novas terras conquistadas. A Igreja permitia que, antes do casamento, os noivos mantivessem relações sexuais, única maneira de o rapaz descobrir se a moça era fértil. E adivinha o que acontecia na maioria das vezes? O noivo fugia depois da relação para não ter que se casar. A mocinha, desolada, ia se queixar ao bispo, que mandava homens para capturar o tal espertinho.
estão por todo o e-mail. Essas curiosas informações sobre a distinta senhora "Mãe Joana" e a virgindade de moças no Brasil colonial não faziam parte de minha enciclopédia de assuntos inúteis até hoje, mesmo assim não tinha problema algum em usar essas expressões.
Isso só prova que o conhecimento do falante é sincrônico em relação à sua língua. O conhecimento de estruturas do Latim e da origem de expressões não é essencial para a compreensão dos mesmos. Já ouvi histórias de pessoas de vasta cultura que insistiam que não deveríamos utilizar o verbo suicidar na voz reflexiva, uma vez que sui- provinha do latim e significa ‘a si mesmo’ e, ao utilizarmos o pronome oblíquo junto a verbo (cf. suicidar-se), estaríamos sendo redundantes. A forma sui- é uma forma não reconhecida pelos falantes do Português. Não há quem possa provar que tal prefixo latino é transparente na língua de hoje, que dizer então sobre sua produtividade.
O e-mail continua sendo engraçadinho. Sendo, ainda por cima, mais uma prova de que o conhecimento do falante é sincrônico em relação à sua língua.
P.S.: Quem quiser mais origens de expressões populares, mande um e-mail para languagebar@gmail.com.

Tem fonte? E-mails engraçadinhos têm a péssima tendência de não serem confiáveis, especialmente quando querem falar de etimologia. Exceto que tu ache que “Fornicating Under Consent of the King” é realmente a origem da palavra “fuck”.
Comment by Cisco — June 8, 2006 @ 10:33
Não, realmente, não tem fonte. Entretanto isso não me faz repensar o que eu disse. A idéia é que mesmo não se sabendo a origem das formações, como elas se derivaram através dos tempos etc. não afeta minha performance como falante.
P.S.: Gostei desta do “fuck”, tenho que adicionar ao meu dicionário de inutilidades.
Comment by César Augusto Gonzalez — June 8, 2006 @ 22:18
For Unlawful Carnal Knowledge!
É verdade, e-mails engraçadinhos não são nada confiáveis =P
Tem outras versões por aí, na Internet. Para casa da mãe Joana tem uma aqui, com a fonte.
E-mails, etimólogos, e-mails etimológicos e etimólogos que usam e-mail geralmente não são muito confiáveis nesses casos em que é difícil precisar até mesmo a veracidade do fato histórico que supostamente deu origem à expressão.
De qualquer forma, o argumento do César, de que a compreensão das expressões da língua não é etimológica e de que historinhas não dizem muita coisa sobre a realidade da língua, continua, a despeito de as origens levantadas serem confiáveis ou não.
Comment by Emanuel Quadros — June 8, 2006 @ 22:24
Será que me sabe dizer a origem das expressões idiomáticas “É canja!” e “Ver estrelas”?
Comment by Patrícia — April 10, 2007 @ 18:44