Language Bar

27/06/2006

Professor “Norman” Chomsky por César Gonzalez

Faz algum tempo já, o Language Log publicou um post sobre uma entrevista de Noam Chomsky com Ali G. O entrevistador, para os que não o conhecem, é  um personagem criado por Sacha Baron Cohen, comediante inglês. O personagem é famoso e inclusive apresentou o MTV Europe Music Awards em 2001.

Ali G começa a entrevista anunciando “Professor ‘Norman’ Chomsky” e faz suas perguntas sobre linguagem como se fosse um ignorante completo. Para os que puderem é interessante ver o filme:

Chomsky não fala nada de novo, fica na discussão de quantas palavras conhecemos, se o primo do Ali G vai ser bilíngüe e coisas assim. Mas, pelo menos, é engraçado. Resta saber quem é o próximo lingüista a dar uma entrevista.

26/06/2006

Kaingang (Brasil) por Emanuel Souza de Quadros

Mais uma da aula de fonética. Na aula de hoje, nossa colega Rita notou que nos dados do Kaingang com que estávamos trabalhando, as glosas para [ki] e [mĩ] eram idênticas: ‘dentro’. Logo imaginamos que deveria haver alguma diferença de significado ou de uso, mesmo que sutil, para que as duas formas pudessem existir na língua com o sentido básico de ‘dentro’. Na hora eu lembrei do pequeno dicionário de Kaingang que eu baixei há um bom tempo atrás só por curiosidade. "Ei! Agora ele pode ser útil!", pensei, mesmo que novamente seja para matar uma curiosidade!

De fato há uma diferença: é que junto ao sentido de ‘dentro’, em [mĩ] também há uma idéia de movimento. O dicionário traz um exemplo de sentença para cada uma das duas palavras. Fico devendo explicações detalhadas de cada elemento da sentença; talvez um dia, quando eu aprender (se aprender) mais sobre a gramática do Kaingang… Mas já dá pra ter uma idéia dessa diferença:

(1)    Ag mỹ ki nỹtĩ?
        ‘Será que estão aqui?’

(2)    Ẽpỹ ẽn hã sóg
        ‘Vou passar por aquela roça’

Dá pra ver que em (1) há uma idéia de estar em, estar dentro de algum lugar (’aqui’). Em (2), há a mesma idéia, acrescida do sentido de movimento. Supondo que a tradução trazida pelo dicionário esteja correta, me parece que ki também tem a idéia de ‘aqui’. Mas isso é pura especulação. Pensei isso, porque o significado trazido pelo dicionário para ag é ‘eles’; para mỹ, ‘Será que?’; e para nỹtĩ, ‘existir’. Sobrou para o ki que já tem uma idéia de lugar. Mas não levem isso a sério, é claro. Alguém aí sabe Kaingang e pode esclarecer melhor isso?!

Ou melhor ainda, baixem o dicionário e brinquem também!

P.S.: A mesma Rita também fez um comentário bem interessante, num post meu já esquecido, sobre as duas Neurolingüísticas e a confusão entre elas.

22/06/2006

enga (Papua Nova Guiné) por Paulo H

Na última aula de fonética com a Cláudia Brescancini, vimos dados de uma língua da Papua Nova Guiné, chamada enga (tem também outros nomes, mas não interessa agora). Os dados chamaram minha atenção (também a do Emanuel) pois todas as vogais finais das palavras eram desvozeadas como [’ipU], transcrito com o alfabeto do PIKE. Fui atrás pra ver o que descobria e encontrei o seguinte: http://pnglanguages.org/png/LangResource/0000091/Enga.pdf . Dentre outras coisas (da fonologia do enga), aí se diz que todas as vogais finais são desvozeadas. Isso é realmente interessante. Além disso, eles praticamente não têm (fonologicamente) consoantes vozeadas. 

Viram como é importante ter alguém descrevendo essas línguas pelo mundo? Assim a gente pode aprender sons "estranhos" (o que é muito legal) e ainda por cima usar como exemplo de processos nas línguas naturais.  

21/06/2006

Os Caminhos da Morfologia (Parte I e meio) por Emanuel Souza de Quadros

Não resisti ao título engraçadinho. O título do post deveria ser algo sem graça como “Os Lexicalismos” na verdade. Enfim, é apenas um comentário ao post do Tiago que acabou crescendo demais.

Resumindo, Chomsky na Hipótese Lexicalista dizia que a Sintaxe não "tinha olhos" para a Morfologia, mas Anderson (1982) discorda, como mostrado acima, dizendo que a Sintaxe e a Morfologia Flexional tem uma relação. A Morfologia Derivacional passou a ser vista como um Processo Lexical, uma vez que temos morfemas como -izar, -ção, -mente, e.t.c que podem se juntar com certas palavras. Esses morfemas e as regras que permitem que eles se combinem com determinadas palavras e não com outras estão no nível do léxico. A Morfologia Flexional é vista como um Processo Sintático, como já exemplificado com o exemplo do Michael Jackson. Em oposição ou em complemento da Hipótese Lexicalista de Chomsky, a idéia de Anderson foi chamada de Hipótese Lexicalista Fraca.

O que Anderson (1982) diz sobre hipótese lexicalista é uma interpretação derivada do postulado de que a Sintaxe não tem acesso à estrutura das palavras. Só que a hipótese lexicalista de Chomsky (1970) dizia respeito à morfologia derivacional, à estrutura da palavra antes da flexão, para a qual a Sintaxe não teria olhos; mas mesmo aí, a Sintaxe lidava com a flexão.

Depois alguns lingüistas acabaram ampliando essa hipótese de modo que a flexão também passou a ser tratada dentro no léxico – Hipótese Lexicalista Forte. Em oposição a essa última, todas as abordagens que tratam da derivação no componente morfológico e a flexão no sintático são exemplos do Lexicalismo Fraco, incluindo a proposta de Anderson.

Tem a ver com a distinção entre flexão e derivação. Os adeptos do Lexicalismo Forte costumam dizer que não há uma distinção real, logo, as duas coisas podem ser tratadas no mesmo componente; enquanto que para os adeptos do Lexicalismo Fraco, essa distinção é essencial, assim como ela é para Chomsky (1970).

20/06/2006

Os caminhos da Morfologia (Parte I) por Tiago Martins

É legal observar os caminhos da morfologia desde o início da Teoria Gerativa, pois muitas vezes olhando para a "história" da Morfologia entendemos melhor os seus respectivos problemas. Além de ser interessantíssimo ler sobre essas coisas em caras como Spencer e Anderson.

É sabido que logo que a Teoria Gerativa teve início tudo era Sintaxe. A Morfologia feita pelos estruturalistas norte-americanos - separando a palavra em morfemas e analisando-os por sua distribuição - foi deixada de lado. Anderson num artigo chamado "Where is Morphology?" afirma que nessa época "morphologists could safely go to the beach". Segundo o que li num artigo de Maria Filomena Sandalo, a Morfologia passou a ser tratada dentro do componente fonológico, mais especificamente dentro da  Fonologia Lexical. 

"Segundo essa abordagem, morfemas seriam adicionados uns aos outros no léxico, regras fonológicas seguiriam aplicadas depois da adição de cada morfema".

"O léxico (…) é um local de armazenamento de irregularidades memorizadas. A Morfologia específica de cada língua seria, assim, objeto da memória". (Trechos em itálico do artigo "Morfologia"  da Maria Filomena)    

Em 1970, Chomsky - naquele famoso artigo "Remarks on Nominalization" - diz que a Sintaxe não teria olhos para a estrutura interna das palavras. Mas Anderson em 1982, no já mencionado "Where is Morphology?" faz duas perguntas:

1) A Morfologia é irrelevante para a Sintaxe?

2) Toda a Morfologia é processada dentro do léxico?

Bem, parece que os Morfemas Flexionais seriam, sim, relevantes para a Sintaxe. É só pensar, por exemplo, numa frase como:

Os meninos brincavam no quarto de Michael Jackson.   

O artigo está no plural e esse "s", marca do mesmo, indica que nós temos o núcleo do SN também no plural. Bom, a flexão está tendo uma certa relação com a Sintaxe, não parece? Há também os morfemas de caso. Por exemplo, no latim, um morfema acrescido ao final de um substantivo pode indicar se este é sujeito ou objeto direto.     

Resumindo, Chomsky na Hipótese Lexicalista dizia que a Sintaxe não "tinha olhos" para a Morfologia, mas Anderson (1982) discorda, como mostrado acima, dizendo que a Sintaxe e a Morfologia Flexional tem uma relação. A Morfologia Derivacional passou a ser vista como um Processo Lexical, uma vez que temos morfemas como -izar, -ção, -mente, e.t.c que podem se juntar com certas palavras. Esses morfemas e as regras que permitem que eles se combinem com determinadas palavras e não com outras estão no nível do léxico. A Morfologia Flexional é vista como um Processo Sintático, como já exemplificado com o exemplo do Michael Jackson. Em oposição ou em complemento da Hipótese Lexicalista de Chomsky, a idéia de Anderson foi chamada de Hipótese Lexicalista Fraca.

Falando um pouco em Sintaxe, mas bem pouco, pois por enquanto não é a proposta, a Flexão ganhou uma marca F nas árvores sintáticas. Mas se pareceu até aqui, com essa explicação, que a Morfologia Flexional está dentro da Sintaxe, explico que não. Anderson em 1992, nega que seja esse o caso e cria um método para o estudo da Morfologia Flexional. Ele diz que a unidade mínima da Morfologia não são os morfemas, mas sim traços morfológicos, por exemplo, +1o.pessoa, etc. Esses traços estariam dentro do léxico. Um léxico de traços, pois. Enfim, tudo isso não é só sobre Morfologia, é sobre Sintaxe também, sobre a relação da Morfologia com a Sintaxe. Se estivesse falando sobre outras coisas iria acabar falando de Fonologia também (de Morfofonologia). A pergunta é: A Morfologia existe sozinha? (Continua….)   

19/06/2006

The Language “Switch” por César Gonzalez

Pesquisadores da Universidade de Kyoto encontraram a região no cérebro que é responsável por mudar a língua que o poliglota está utilizando. Isso é no mínimo interessante, é como se tivéssemos uma chave em nossa mente que desliga uma gramática e liga outra. Parece, entretanto, que nosso sistema de mudança lingüística não é lá muito eficiente, pois, de acordo com um dos participantes da pesquisa, foram documentados casos em que os falantes de diversas línguas acabavam por misturá-las, assim a pesquisa pode agora ajudar a explicar o porquê. Mas, enfim, é o cérebro humano. Qualquer descoberta é importante, afinal, sabemos muito pouco sobre ele.

Interessante lembrar do fenômeno de Code-switch, no qual o falante de determinada língua muda a língua em que está falando no meio de seu discurso, ou insere palavras de outra língua no seu discurso. Comum em países em que se tem muitos imigrantes, como a França, em que boa parte dos imigrantes do norte da África "faz code-switch" entre o francês e suas línguas maternas. Em algumas culturas esse fenômeno é sinal de status social, em outras é mau sinal falar com code-switch.

Felizmente, isso pode nos levar a descobertas maiores. Robert Kluender (da Universidade da Califórnia em San Diego) já se manifestou dizendo que ainda não se pode afirmar nada, pois "este é um aspecto muito limitado do processamento da linguagem" e deve-se pesquisar mais. A pergunta de Robert Kluender é válida, uma vez que o experimento foi feito com palavras ele se pergunta: será que a descoberta vale para o nível da sentença? Se não vale, onde é processada a informação das sentenças? Espero que essa pesquisa dê bons frutos e que eu possa escrever sobre eles.

18/06/2006

lingnews.net por Emanuel Souza de Quadros

Bridget Samuels, do falecido ilani ilani, lançou lingnews.net, um novo site com notícias relacionadas à lingüística. A idéia é ótima: qualquer um que esteja cadastrado no site pode enviar suas notícias, com um breve comentário, e votar em notícias já postadas. Vale a pena dar uma olhada!

17/06/2006

Excentricidades do Monteiro por Emanuel Souza de Quadros

Paulo Henrique comentou ontem a alomorfia proposta por José Lemos Monteiro: [ex] ~ [es] em excêntrico/esforçar. Primeiro, acho que há confusão entre ortografia e fonética aí, sim. A discussão, que Monteiro faz um pouco acima, sobre semelhança fonética ser necessária ou não para caracterizar alomorfia é motivada por casos como datilografia e dedo, em que as raízes são semanticamente relacionadas, mas não apresentam semelhança fonética (seriam, mesmo assim, alomorfes?).

No caso de excêntrico/esforçar, a pronúncia dos dois primeiros segmentos é a mesma, não faz muito sentido Monteiro representar entre colchetes [ex] e [es]: é nada mais que usar [ortografia padrão entre colchetes]. Não é uma questão de não serem foneticamente semelhantes.

Update: "não faz muito sentido", no parágrafo acima, deve ser lido como "não faz sentido como transcrição fonética". O problema não é esse porque a intenção do autor parece ser apenas representar o morfe, sem preocupações com a maneira como ele é pronunciado. Nisso, o autor é constante em quase todo o resto do livro, representando morfes entre colchetes. O problema está em dizer que há alomorfia entre [ex] e [es]. É um problema porque confunde alomorfia com diferentes maneiras de se grafar um morfema.

Quanto às palavras serem prefixadas sincronicamente, ou não, também não tenho certeza. Mas não acho que o Monteiro esteja totalmente enganado aí. Diacronicamente, é verdade segundo Oiticica (1939): do sentido de "movimento para fora" do prefixo ex- derivaram os sentidos de afastamento e de excesso que tem em excêntrico e esforçar, respectivamente.

Sincronicamente, que é o que nos interessa, acredito que a prefixação também não é tão implausível assim. Em excêntrico, podemos identificar a raiz, o sufixo -ico e o sentido de afastamento que parece mesmo ser adicionado pelo prefixo ex-, apesar de todas as extensões de sentido que renderam o título do post. Em esforçar, podemos reconhecer a raiz, a terminação verbal, e não seria interessante se não pudéssemos relacionar (e comutar) com força, forçar e reforçar.

In my humble opinion.

16/06/2006

Sobre Neurolingüística por Tiago Martins

Cérebro humano

Estava lendo algumas coisas pela Internet sobre Neurolingüística e encontrei alguns conceitos bem interessantes, dignos de nota. Bem, aparentemente a Neurolingüística é algo bastante novo, foi surgir nos cursos de graduação (Letras) somente em meados dos anos 80 e ainda assim, acho que essa disciplina só está no currículo da Unicamp. Segundo a Wikipédia, a Neurolingüística começou em meados do século XIX pelas mãos de Paul Broca. Um alemão chamado Carl Wernicke também estaria infiltrado nesses estudos. Eles começaram estudando e descrevendo a afasia, que é um distúrbio de linguagem causado por uma lesão grave, mas nem sempre, às vezes algumas crianças já nascem com tal problema. Depois da morte de pacientes afásicos eles faziam exames post-mortem para descobrir quais partes do cérebro haviam sido afetadas. Muito interessante, super Mary Shelley. 

Atualmente a Neurolingüística (NL, daqui pra frente) evoluiu muito e é um tanto óbvio que haja divergências entre autores quanto ao seu objeto de estudo. Isso parece ocorrer bastante dentro da Lingüística. Segundo um tal de Caplan, a NL estuda relações entre o cérebro e a linguagem, investigando determinadas estruturas cerebrais com distúrbios, mas não só distúrbios, também aspectos específicos e normais da linguagem.

"Há quem atribua, como Bouton (1984) ou Lecours & Lhermitte (1979) à publicação, em 1939, do livro Le Syndrome de Désintégration Phonétique, de Alajouanine, Ombredane (neurologistas) e Durand (foneticista) o início da Neurolingüística. Mas há também os que, igualmente de forma tradicional, consideram a Neurolingüística um ramo (Luria, 1981, 1976) ou um subconjunto (Hécaen, 1972) da Neuropsicologia, o que significa defini-la como o campo de estudo das perturbações verbais decorrentes de lesões cerebrais. Essa definição, contudo, é apenas uma pálida caracterização de suas potencialidades teóricas e metodológicas". (tirado do site do LABONE - UNICAMP)

Esses estudos são o outro lado da proposta. Chomsky sugere que podemos ir a fundo nas investigações do cérebro, mas também, ir a fundo nas investigações sobre as gramáticas particulares de cada língua. A NL parece estudar a primeira opção.

Isso é pouco, mas já dá pra se ter uma idéia de como esse campo é interessante. Aliás, são poucas as pessoas que não tem uma certa curiosidade sobre o cérebro e sobre a linguagem. Esse número aumenta dentre as pessoas que estudam lingüística.

Prefixos e análise diacrônica por Paulo H

Pensei que fosse demorar mais para voltar a falar do livro do José Lemos Monteiro que, à página 34, enumera alguns casos de alomorfia, exemplificando, dentre os casos de alomorfia no prefixo, o seguinte: excêntrico / esforçar - [ex] ~ [es]. Um pouco acima no seu texto, ele assume que alomorfes não precisam ser semelhantes foneticamente; logo, nao podemos interpretar a suposta alomorfia de ex ~ es como decorrente de uma confusão entre ortografia e fonética. Acredito que Monteiro esteja enganado, e que seu engano seja de outra natureza: me parece que ele faz uma análise diacrônica dessas palavras, pois essa é a única justificativa plausível para considerar excêntrico e esforçar como sendo prefixados por ex- e es-. Será que os falantes reconhecem aí prefixação? Sincronicamente, não tenho certeza. Talvez em excêntrico - "um cara que não está no centro"? - alguém possa ver prefixação. Mas dizer que ex- e es- são alomorfes, só na ortografia.

PS: Acho que o Emanuel e o César, por estarem estudando isso, possam ter algo a dizer.

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